"Copa do Mundo no Brasil é instrumento de modelo de sociedade excludente", afirmam Comitês Populares da Copa no encontro realizado em Belo Horizonte.

A Copa do Mundo no Brasil é um instrumento para fazer avançar de modo ofensivo o atual modelo de sociedade excludente, concentrador de riquezas e opressor. Esta foi a conclusão, em tom de consenso, dos participantes da primeira mesa do segundo dia do “Encontro dos Atingidos – Quem Perde com os Megaeventos e Megaempreendimentos?”, organizado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop), que acontece até o dia 3 de maio, em Belo Horizonte (MG).

encontro atingidos BH 2014

Para além do legado da Copa do Mundo, a representante da rede Jubileu Sul Sandra Quintela iniciou sua fala questionando “para quem funciona a sociedade como um todo: a Copa? os estádios? a saúde? a educação? o saneamento? a cidade? o modelo de desenvolvimento socioeconômico? Para quem vai o fruto e a riqueza gerada pelo trabalho dos trabalhadores e trabalhadoras, da cidade e do campo? e como ficam as comunidades que não produzem excedente, como as indígenas? ‘Para quem’ é, portanto, uma pergunta fundamental”.

Segundo ela, todas as atividades humanas giram em torno de um mercado global sustentado por um sistema capitalista que, por sua vez, é fundamentado no individualismo, na competitividade, no machismo e patriarcalismo e que exclui todos que não contribuem para ele e não vivem da maneira imposta, como os camponeses, extrativistas e indígenas. Sandra afirma que estas populações não existem para este modelo. Por isso, há um avanço no sentido de mudar a legislação para retirar direitos delas. “Em relação à Copa, ela é uma bela desculpa para este modelo que beneficia os de cima. Seus projetos ganham rapidez e escala. Mas sigamos em frente porque quando os debaixo se movem, os de cima caem”, finalizou ela.

Crescem os lucros e a repressão

Para o representante do Comitê Popular do Distrito Federal (DF) Chico Carneiro o modelo da Copa serve para aumentar o lucro das grandes empresas a partir da isenção de impostos, da restrição de vendas para eles e da criação de novas leis e novas formas de lucrar mais e mais, sem que tenham, obviamente, nenhuma intenção de dividir os lucros com os pequenos. Ele afirma que, com a Copa, os grandes empresários fazem mais rápido o que já faziam e também fazem mais do que já faziam  para avançar o projeto de cidade excludente.

“São 250 mil removidos ou ameaçados de remoção. A violência e a repressão contra a população de rua, os ambulantes, os profissionais do sexo já aumentou sensivelmente, para além dos jovens e dos moradores da periferia. E agora, a repressão é feita com equipamentos de última geração, importados de Israel, o que ainda prejudica a luta dos palestinos, e da milícia estadunidense”, afirmou Chico. Na sua avaliação, surge com muita força a proposta de restringir a participação popular e de aumentar a segregação, jogando os pobres para longe, através de leis de terrorismo, leis de exceção. Ele também destaca que não se trata de um projeto só para as 12 cidades sede e nem vai terminar com o fim da Copa. “Em relação à resistência, fica claro que a luta deve ser feita a partir do protagonismo dos atingidos, de quem sofre na pele a opressão, a partir do local, de cada comunidade e de cada setor. Também percebe-se que a resistência é local, nacional e internacional e que na rua é onde vamos construir a nova política, o novo projeto de sociedade. Por isso criminalizam tanto a rua”, avaliou Chico.

Não temos direito a nada”

A filha de quilombola Marilene de Jesus Novaes, do Quilombo Rio dos Macacos, localizado na Bahia, levou para a plenária a experiência de quem sofre na realidade diária os impactos de um governo que opta pelos “de cima”. “Estamos sendo atingidos por este modelo que viola direitos. Reivindicamos 300 hectares para nossas 67 famílias, mas estão nos pressionando para que aceitemos 86 hectares. Implantaram uma vila militar no meio do quilombo. Não podemos pescar na barragem. Até o direito de ir e vir não está sendo respeitado. A Marinha de Guerra do Brasil nos desrespeita o tempo todo. Não temos mais direito a nada. Derrubam nossas casas. Somos discriminados. Ficamos sujeitas a situações de estupro. E a dona Dilma sabe de tudo isso”, lamenta Marilene. Ela finalizou afirmando que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que passa a titulação de terras quilombolas e a demarcação de terras indígenas do Executivo para o Legislativo, não pode ser implementada de jeito nenhum.

Por Patrícia Bonilla
(Matéria publicada no Portal Popular da Copa)

Clique aqui para ler a Carta final do I encontro dos/as Atingidos/as pela Copa.

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