Baía de Sepetiba: um paraíso esquecido à beira do sacrifício

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 Pescador em atividade na Baía de Sepetiba nas proximidades das ruínas do cais imperial / Foto: Comunicação Pacs

por Iara Moura

No último sábado (13),  moradores/as, pesquisadores/as, estudantes e pescadores/as participaram de uma trilha ecológica em Sepetiba. O passeio foi guiado pela educadora do Ecomuseu de Sepetiba, Bianca Wild, e percorreu as ruínas do antigo Cais Imperial. O grupo saiu do coreto na pracinha à beira mar por volta das 10h da manhã e depois retornou ao local  para discutir ações de preservação e resistência da região ameaçada por megaempreendimentos industriais, o que caracteriza a região como “zona de sacrifício”.

Durante a caminhada até a Ilha do Marinheiro, aspectos culturais, históricos e da biodiversidade local foram destacados. “Sobre a Ilha do Marinheiro temos várias histórias e versões. O que se conta é que foram fuzilados marinheiros insurretos no ano de 1894. Tem gente que fala que eles foram enterrados na própria ilha ou em outra região aqui de Sepetiba”, conta Bianca.  Segundo ela, Sepetiba foi testemunha de diversos eventos históricos importantes. Foi, por exemplo, palco do encontro entre José Bonifácio e Dona Leopoldina em 16 de janeiro de 1822 para tratarem de assuntos referentes à Independência, fato contado na biografia de José Bonifácio escrita por Octávio Tarquínio de Souza. Além desses aspectos, moradores/as mais antigos lembraram da época em que a lama da região era famosa por suas propriedades medicinais e em que a pesca era abundante (várias peixarias sobrevivem no entorno da pracinha mas algumas vendem peixe que vem de outras regiões).

A instalação do Polo Industrial no entorno da Baía de Sepetiba vem afetando a paisagem do local. Ao alcançar uma área mais alta durante a trilha, é possível observar na outra margem da Baía as estruturas e plataformas do porto da ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) e a própria indústria com enormes chaminés. O histórico do desenvolvimento industrial da região remonta à implantação de indústrias metalúrgicas e portos. Um dos episódios mais trágicos para o ecossistema e atividade pesqueira da região foi o vazamento de metais pesados da Companhia Ingá Mercantil ainda em meados dos anos 1980. que ocorreu na mesma época da instalação do Porto do Itaguaí,.  Mais recentemente, em 2010, instalou-se a TKCSA que está em pleno funcionamento apesar de não ter licença de operação.  Agora, com a previsão de instalação do Pré-sal, mais mudanças e impactos estão previstos.

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Moradores/as, pesquisadores/as, estudantes e pescadores/as que participaram da trilha ecológica em Sepetiba no último sábado (13) na praça do coreto em Sepetiba / Foto? Comunicação pacs

Para quem da região faz morada e tira seu sustento o sentimento é de aflição. Segundo Camila Gomes, estudante da UERJ e moradora de Sepetiba, os impactos estão sendo sentidos de maneira rápida, daí a importância de que mais gente saiba o que está acontecendo e o que está por vir.

Para Gabriel Strautman, economista e integrante do Pacs, o objetivo da atividade foi se antecipar aos projetos previstos para a região, para que moradores/as, pescadores/as, estejam preparados/as para resistir. “Não é justo que essas mudanças venham e ignore as formas de vida da região, as populações tradicionais, os moradores. O que a gente viu aqui é que estamos num território em disputa”, comenta.

Da reunião realizada após a trilha saíram algumas ideias de ações para envolver mais moradores/as do bairro e interessados no tema, como a realização de oficinas temáticas, cineclube, exposição de fotos, pesquisas, dentre outras.

Entenda

Desde 2005/6, o Pacs alerta para o fato de que a Baía de Sepetiba reflete os principais traços característicos do modelo de desenvolvimento atual que impõe aos territórios um destino que subordina toda a região aos fluxos globais de capitais, matéria (recursos naturais) e energia (fundamental no processo produtivo). Resultado: polui o meio ambiente e adoece a população. Não olhamos para a Baía de Sepetiba como um fim em si mesmo… mas como uma forma para entender o Brasil. Ela não é diferente das várias lutas travadas diariamente pelo Brasil em que populações atingidas enfrentam a imposição pelo Estado e por grandes capitalistas (investidores) em nome do desenvolvimento e que para isso viola direitos, hipoteca territórios e inviabiliza alternativas de futuro.

Zona de Sacrifício

Áreas em que se observa a superposição de empreendimentos e instalações responsáveis pela produção de graves danos e riscos ambientais. Convivência de áreas fortemente urbanizadas (algumas industriais) com áreas naturais de grande riqueza (mangues, Mata Atlântica).

Ecomuseu

Segundo Bianca Wild, o conceito de Ecomuseu está ligado às premissas da educação popular. “Diferente daqueles museus tradicionais e dos prédios suntuosos que a gente fica até constrangido de entrar. No ecomuseu, a comunidade é quem determina o que é seu patrimônio e o que ela vai valorizar,”, define.

* Todo 1o domingo do mês a trilha ecológica e histórica é realizada e aberta ao público. O grupo saí da praça do coreto às 9 da manhã. Mais informações:https://www.facebook.com/ecomuseudesepetiba?fref=ts

 

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