“A autogestão é a cultura da alegria”: curso pensa alternativas ao modelo de trabalho do capitalismo

 

painel

Foto: Comunicação Pacs

Um grande painel de palavras foi montado no intuito de mapear o que as pessoas traziam como resposta à indagação: como é o trabalho no capitalismo? “Alienado”, “pouco criativo”, “invisível” (principalmente o doméstico), “apressado”, “opressor”, “deprimente”. Se o sentido primitivo do trabalho esteve ligado à realização das potências humanas, à transformação da natureza e à busca por uma existência mais segura e confortável, para os/as participantes do I Curso Autogestão e Trabalho, no sistema capitalista, o labor ocupa polo oposto ao lazer e à felicidade. Para Cláudio Nascimento, educador popular autodidata, a autogestão permite resgatar o que ele chama de “cultura da alegria” no trabalho. As experiências de mutirão que, não por acaso, em algumas regiões do Brasil são chamadas de “festa”, são exemplos disso. “As pessoas se reúnem pra fazer a parede, pintar a casa do vizinho e enquanto isso vão bebendo, comendo, ouvindo música. O trabalho não é contando pelo tempo ou pelo dinheiro. Se ganha na alegria”, descreve.

No 1o dia do Curso Autogestão e Trabalho que acontece até o próximo domingo (21),  no Rio de Janeiro, Cláudio Nascimento resgatou o histórico da organização de pessoas em torno da prática de autogestão no Brasil e no mundo. Se em Paris ou na Inglaterra as experiências de comunas que tomaram as cidades  à revelia do Estado são imediatamente lembradas quando se fala de autogestão, por aqui, temos as formas resistentes de vida das comunidades indígenas e quilombolas, as experiências de economia solidária e feminista, os mutirões, as ocupações, as cooperativas, as fábricas tomadas. Na história do país, o quilombo de Zumbi e a Revolta de Canudos também são marcos importantes dessa forma de organização.

Segundo a wikipédia, autogestão é ” a administração de um organismo pelos seus participantes, em regime de democracia direta. Em autogestão, não há a figura do patrão, mas todos os empregados participam das decisões administrativas em igualdade de condições”. Para Cláudio, a autogestão é marcada por um tipo de trabalho e de organização social que confronta o capitalismo e que resiste ao sistema. “O capitalismo não conseguiu eliminar essas formas de trabalho (autogestionárias). Ela ainda é  a base da economia feminista, indígenas, quilombola. Ele não conseguiu destruir”, comenta.

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Cláudio Nascimento (Projeto Integração em Redes da Senaes e Agência de desenvolvimento solidário da CUT) fala à turma. Foto: Comunicação Pacs

Histórico

Segundo o educador, embora autogestão já fosse colocada em prática em diversas experiências dos povos tradicionais, ela só foi pensada como forma de resistência organizada a partir da reunião entre o movimento operário e os exilados políticos da ditadura militar. No exílio, várias destas pessoas tiveram contato com experiências de ocupação de fábricas e de conselhos comunais. Nesse contexto surgiram várias entidades e organizações como as pastorais operárias e oposições sindicais que dariam origem ao Centro de Ação Comunitária (Cedac), fundado em 1979.

Já nos anos 1980 com algumas minas e fábricas ocupadas, Cláudio Nascimento lembra que viajou pelo país fazendo formação e conhecendo diversas experiências.  Com o surgimento do Pacs, Marcos Arruda, economista e educador popular também colaborou difusão das experiências de autogestão conhecidas no período de exílio e baseadas principalmente na obra da filósofa polaco-alemã Rosa Luxemburgo. “Em 1988, por exemplo, Cedac e Pacs foram parceiros quando os trabalhadores assumiram a mina de carvão de Criciúma e fundaram a Cooperminas”, lembra Cláudio.

 I Curso Autogestão e Trabalho

Buscando resgatar essa história de atuação com o tema de autogestão, o I Curso Autogestão e Trabalho foi pensando como uma formação piloto para discussões futuras mais amplas, relacionando autogestão a outros temas, como autogestão e cidade, desenvolvimento, mulheres e autonomia sobre seus corpos, etc.

Artesãs, quilombolas, doceiras/os, cozinheiros/as, agricultores/as, estudantes, catadores/as de resíduos sólidos, educadores/as populares participam da formação que acontece até domingo (21) em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

O curso é uma realização do Pacs em parceria com a Rede de Educação Popular em Economia Solidária (Repes) no âmbito do Centro de Formação em Economia Solidária (CFES II). Dentre os convidados desse primeiro encontro, além da equipe do Pacs, estão Cláudio Nascimento (Projeto Integração em Redes da Senaes e Agência de Desenvolvimento Solidário da CUT) e Flávio Chedid (Núcleo de Solidariedade Técnica SOLTEC/UFRJ).

I Curso Autogestão e Trabalho

Quando: 19, 20 e 21 de junho

Onde: Centro de Acolhida Assunção (Rua Almirante Alexandrino, 2023, Santa Teresa, Rio de Janeiro)

Informações: 2210-2124 (Pacs)

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