Das comunas francesas às fábricas recuperadas: autogestão como alternativa

Arte sobre foto (Comunicação PACS)

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A formação das comunas na França no século XIX e a recuperação de empresas/fábricas por trabalhadoras e trabalhadores no Brasil e na Argentina foram os temas das discussões do segundo dia do I Curso Autogestão e Trabalho.

Cláudio Nascimento, do Projeto Integração em Redes da Senaes e Agência de desenvolvimento solidário da CUT, detalhou os artigos do estatuto das comunas francesas, criadas em 1871, e suas influências na formação de grupos e organizações políticas autogestionários na atualidade, especialmente na América Latina. Entre os princípios das comunas estavam a quebra da dicotomia entre trabalho intelectual e manual, a rotatividade dos cargos e a gestão social da propriedade a partir dos territórios. “Era uma experiência que não separava modelo produtivo de representação política”, explica Cláudio.

Entre outros pontos, as comunas francesas aboliram a chamada “escola velha”, ressaltando que “os alunos deviam se sentir como em sua casa”, e decretaram o fim da submissão de crianças e mulheres à figura patriarcal. Outra medida instituída foi a criação de “armazéns coletivos” para bens de consumo de distribuição gratuita.

O caso francês, embora tenha sido de curta duração (quatro meses), influenciou a formação das comunas de Zapata, na Revolução Mexicana, o governo socialista de Salvador Allende, no Chile, e a criação de conselhos populares em países como Venezuela e Bolívia, no século XXI. “Pensando uma proposta para o conjunto da vida social, as comunas foram uma utopia concreta a partir da realidade. Esses elementos foram sendo trazidos para diversas experiências”, destaca Cláudio.

No segundo momento de atividades do sábado, Flávio Chedid apresentou os resultados da sua pesquisa de doutorado, concluída em 2013, sobre Empresas Recuperadas por Trabalhadores (ERT) no Brasil e na Argentina. Entre os elementos de ruptura introduzidos pelas ERTs, Flávio destaca mudanças na jornada e no ritmo de trabalho, novas relações com espaço de trabalho e entre os trabalhores e trabalhadoras, maior resistência às crises financeiras e a radicalização da democracia no interior das empresas. Um dos principais dados da pesquisa é que em 71% dos casos brasileiros, houve relatos de redução do número de acidentes de trabalho após a recuperação das empresas/fábricas.

“Enquanto na Argentina as ERTs articulam e ganham legitimidade, no Brasil trata-se de um fenômeno praticamente invisível”, resume Flávio, fazendo a ressalva de que as experiências argentinas não devem ser vistas como um modelo idealizado. Um dos casos mais conhecidos de ERTs no Brasil é a fábrica de plásticos Flaskô, ocupada no interior de São Paulo. A fábrica enfrenta vários tipos de pressões, como a ameaça constante de leilão das máquinas, por exemplo, mas segue funcionando, em articulação com territórios locais e movimentos sociais.

Flávio detalha que as ERTs brasileiras assumiram diferentes configurações depois da recuperação por trabalhadores. Algumas delas se tornaram hoje grandes empresas. Das 67 ERTs brasileiras identificadas pela pesquisa, 85% se legalizaram como cooperativa. Entre outros pontos, porém, permanece o desafio da inserção dessas empresas/fábricas no movimento de economia solidária.

I Curso Autogestão e Trabalho começou na sexta (19) e foi encerrado no domingo (21), em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

A tese completa de Flávio Chedid pode ser acessada em:

http://objdig.ufrj.br/42/teses/794534.pdf

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