De Carajás a Sepetiba: caravana percorre territórios atingidos por megaprojetos de desenvolvimento

1

Caravana percorre territórios atingidos por megaprojetos na Zona Oeste do Rio de Janeiro / Foto: Iara Moura – Comunicação Pacs

#AtingidospelaVale

No último sábado, 8, cerca de 40 pessoas percorreram, em caravana, territórios da Zona Oeste do Rio atingidos por megaprojetos. Dentro da programação da Caravana Internacional dos Atingidos pela Vale, os/as participantes fizeram uma trilha ecológica guiada pelo Ecomuseu de Sepetiba e depois visitaram a Pedra de Guaratiba. Após o almoço, a caravana seguiu para Santa Cruz, onde foi de barco até a obra de construção da barragem no Canal do Rio São Francisco. A obra que vem sendo tocada pelas empresas da região, encabeçadas pela ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), tem impedido a pesca artesanal.

Formado por homens e mulheres vindas de Piquiá de Baixo (Açailândia – Ma), Santa Cruz, Campo Grande, Pedra de Guaratiba, Vargem Grande  (os quatro últimos são bairros da Zona Oeste do Rio) e do Canadá (Sindicato dos trabalhadores da Vale), o objetivo da caravana foi promover a troca de experiências sobre as violações de direitos cometidas no contexto de megaprojetos que impactam sobretudo a vida de populações tradicionais,  negros/as e mulheres. São exemplos de megaprojetos a instalação de indústrias de base como siderúrgicas e  mineradoras e a realização de megaeventos como Pan-americano, Copa e Olimpíadas.

 SOS Baía de Sepetiba

3

De Sepetiba avista-se o porto e a plataforma da TKCSA um dos empreendimentos industriais localizado na Baía de Sepetiba / Foto: Iara Moura – Comunicação Pacs

Em todo o percurso da caravana, os territórios visitados faziam divisa com a Baía de Sepetiba, apontada como um dos ecossistemas mais afetados pelos megaprojetos em curso no Rio de Janeiro. Segundo Karina Kato, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e integrante do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), várias intervenções estão previstas para acontecer na Baía de Sepetiba agudizando os conflitos já existentes. “Já temos o Porto de Itaguaí, a TKCSA e agora, com a previsão de instalação do Pré-sal, haverá mudanças ainda maiores”, alertou.

O histórico do desenvolvimento industrial da região remonta à implantação de indústrias metalúrgicas e portos. Um dos episódios mais trágicos para o ecossistema e a atividade pesqueira da região foi o vazamento de metais pesados da Companhia Ingá Mercantil ainda em meados dos anos 1980, que ocorreu na mesma época da instalação do Porto do Itaguaí.  Mais recentemente, em 2010, instalou-se a CSA, que está em pleno funcionamento apesar de não ter licença de operação.

Mulheres e conflitos socioambientais

2]

Mulheres fizeram ato simbólico contra a repressão e militarização em um dos momentos da caravana às margens da Baía de Sepetiba. Foto: Iara Moura / Comunicação Pacs

As mulheres, maioria na caravana, destacaram ao longo do dia a forma como os megaprojetos impactam o cotidiano, o trabalho e a vida destas. Enquanto sofrem com alterações nas comunidades, elas vêm se organizando e resistindo às violações de direitos.

Joana Emmerick, do Pacs, destacou o crescimento do trabalho informal, o aumento dos casos de exploração sexual, violência doméstica e o aumento do trabalho doméstico como alguns dos principais impactos. “Será que é à toa que justamente nessa região, em Santa Cruz,  Sepetiba e Pedra de Guaratiba, os índices de estupro e violência doméstica sejam tão alarmantes?”, questionou. Os bairros citados integram a Zona Oeste do Rio que tem sido palco de megaeventos desde o Pan em 2007, passando pela Copa do Mundo em 2014 e agora se prepara para receber os Jogos Olímpicos de 2016. Além disso, são áreas de alta concentração industrial. Em Santa Cruz, por exemplo, localiza-se a TKCSA (da qual a Vale é acionista), o maior complexo siderúrgico da América Latina.

Joselma Alves, da associação dos moradores de Piquiá de Baixo (MA), defendeu que a Vale utiliza-se de propaganda enganosa quando diz atuar na geração de empregos locais. Joselma também destacou a importância de participar da caravana e trocar experiências com outras mulheres atingidas por esses projetos. “A mulher acaba sofrendo mais. A mulher das comunidades tradicionais muitas vezes vê seu marido perder o emprego, tem de se desdobrar no trabalho fora de casa e no trabalho doméstico e tem que se adaptar a uma nova realidade, a um outro modo de vida”, ressaltou.

Raiani, moradora de um sub-bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, refletiu sobre como essa realidade de industrialização afeta a vida das mulheres jovens e negras. Segundo ela, está em curso um aumento da presença das forças policiais na comunidade em que vive. “A gente não pode andar que eles já acham que a gente é ladrão. Essa semana mesmo meu irmão foi parado pela polícia. Só porque é negro”, contou.

 

Resistência em cadeia

4

Participantes da caravana foram de barco até a barragem em construção no Canal do São Francisco em solidariedade aos pescadores que estão impedidos de trabalhar. Foto: Iara Moura / Comunicação Pacs

Empresa privada de capital aberto com sede no Rio de Janeiro, a Vale S.A. é a maior mineradora do Brasil e a terceira companhia na indústria global de mineração de metais. Líder mundial na produção de minério de ferro e segunda maior produtora de níquel, a Vale destaca-se ainda na produção de manganês, cobre, carvão, pelotas, ferroligas e alguns fertilizantes. Presente em 27 países dos cinco continentes e em 13 estados brasileiros, além do Distrito Federal, a multinacional atua a partir de uma cadeia integrada entre mineração, logística (transporte do minério através de ferrovias aos portos), energia (produção para suprir a sua própria demanda energética, que é enorme) e siderurgia (processo de transformação do minério de ferro em aço). Cada etapa desta cadeia causa severos impactos sociais e ambientais que precisam ser analisados de forma integrada e articulada.

Para Silvia Baptista, da Rede Carioca de Agricultura Urbana, a caravana foi um momento importante porque ali foi possível reconhecer que há violações e histórias parecidas em regiões diferentes do Brasil e do mundo. “Essa resistência está presente em Santa Cruz, na Vila Autódromo, na baixada de Jacarepaguá, em vários lugares onde tem pessoas impactadas, há pessoas resistindo. A gente acredita que é possível vencer esse capital, mais cedo ou mais tarde ele vai cair. Nós queremos estar organizadas quando isso acontecer. Seremos muito maiores amanhã”, defendeu.

Gabriel Strautman, do Pacs, também destacou a importância do intercâmbio: “Nós agradecemos as pessoas que compuseram essa jornada, de trazerem aqui suas experiências, de trazerem suas histórias. Nós visitamos um lugar bonito como ainda é a Baía de Sepetiba, mas um lugar que já sente os impactos do assoreamento, depois a gente foi de barco e viu a realidade dos pescadores de Santa Cruz. É muito simbólico que estejamos reunido nesse  território porque a gente também fortalece os moradores e pescadores daqui que são verdadeiros heróis da resistência”, afirmou.

Siga a Caravana

caravana

Após a passagem pelo Rio, a Caravana ainda percorrerá alguns territórios atingidos pela mineradora Vale em outros localidades. O trajeto não será divulgado por questões de segurança. Durante o evento, as informações serão divulgadas nas redes sociais com a hastag #AtingidospelaVale e no blog:  https://atingidospelavale.wordpress.com/

A caravana se encerra com a realização do V Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

9 + 8 =