Feira Agroecológica da Freguesia celebra dois anos de existência

 

Num local de intenso tráfego de automóveis, um canteiro divide as faixas de acesso a duas importantes vias de circulação da Freguesia, bairro da Zona Oeste do Rio. É nesse lugar que há dois anos, após serem plantados, cuidados e colhidos sem a utilização de nenhum componente químico industrializado, frutas, legumes, verduras, compotas, farinhas, bolos e temperos dividem espaço com os automóveis. Na Feira Agroecológica da Freguesia, que acontece há dois anos na Praça Professora Camisão, a boa conversa, a troca de receitas e o contato com os/as produtores/as são um diferencial.

Numa das barracas, chama atenção um tomate amarelinho, com forma parecida com a do tomate cereja. “É tomate pera. Super bom”, explica o produtor ao ver a cara de surpresa de uma cliente. Pra quem nasceu e se criou nos grandes centros urbanos e tá acostumado a comprar frutas, legumes e verduras no mercado, o processo de produção agrícola é algo distante. “Para alguns consumidores ainda é difícil entender que você vai ter mais alface no inverno do que no verão, embora no verão a gente tende a consumir mais alface… São questões de entendimento mesmo. O consumidor tá habituado a chegar no supermercado e ter aquele produto o ano inteiro mas não sabe de que forma ele foi produzido, o custo de produzir esse alimento fora da sua época”, explica Tatiana, uma das consumidoras da Feira e integrante da Rede Carioca de Agricultura Urbana.

Sabedora dos tempos próprios que as sementes levam pra brotar, dona Fátima, agricultora e moradora da Colônia Juliano Moreira, sub-bairro da Taquara, também na Zona Oeste do Rio, conta que uma das principais dificuldades da produção agrícola urbana é a comercialização. O consumidor às vezes reclama do valor dos produtos se comparado àqueles com etiqueta dos supermercados. “Eles (consumidores) comparam muito o preço de mercado com nosso preço aqui, sendo que o preço de mercado não traz pra nós tanta saúde. É um pouquinho maior, mas também é garantido né? Mas o povo tá bem mais consciente, querendo comer bem melhor, porque você evita gastar muito mais com remédio”, explica.

Em abril deste ano, o Instituo Nacional de Câncer divulgou relatório com posicionamento técnico a respeito do uso de agrotóxicos no qual  ressalta os riscos dos agrotóxicos à saúde, em especial por sua relação com o desenvolvimento de câncer. “Dentre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos podem ser citados, além do câncer, infertilidade, impotência, abortos, malformações fetais, neurotoxicidade, desregulação hormonal e efeitos sobre o sistema imunológico”, diz o documento.

Sem lugar para plantar

Para Claudemar, agrônomo, da ASPTA (Agricultura Familiar e Agroecologia), além de vender, o papel da feira é ser um espaço de conscientização dos consumidores e de envolvimento da comunidade.  “Esses agricultores e agricultoras que tão no dia a dia  e fazem suas roças, trazem aqui uma preocupação não só de gerar uma renda mas de conversar com o consumidor de esclarecer pro consumidor que seu produto é diferente. Não só é diferente porque é produzido sem veneno, sem agrotóxico, mas porque é produzido com amor, é produzido pensando numa sociedade mais justa e fraterna”, comenta.

Dona Rita, agricultora, atual coordenadora da Feira, aponta o “grande negócio” (referindo-se ao agronegócio) e o avanço da especulação imobiliária como os maiores inimigos da produção familiar e orgânica na cidade do Rio de Janeiro. Filha de agricultores e imigrante nordestina, Dona Rita, perdeu o terreno onde plantava por conta das obras de preparação da cidade para os megaeventos, em 2012, e agora divide espaço de produção no quintal de uma amiga. Com um sorriso, diz ter encontrado uma nova família na feira: “Nós aqui somos uma família, um conversa com o outro, um é parceiro do outro. Nós sabemos que trabalhar com orgânicos é difícil, por causa do grande negócio, mas a gente anda na contramão, trazendo saúde pra mesa do pessoal brasileiro. É difícil mas nós vamos chegar lá”, declara.

Dois anos de resistência

Em novembro de 2012, o Instituto PACS e outras organizações e entidades de apoio e fomento a agroecologia (AS-PTA, Fiocruz, Capina, Rede Ecológica, UFRRJ, Centro de Referência em Assistência Social Cecília Meireles) e agricultores/as da Zona Oeste do Rio, da região metropolitana e da região serrana do Estado começaram as discussões sobre a criação de uma feira na Freguesia.

Aline Lima, educadora popular do Pacs, explica que o processo de formação durou nove meses: “durante esse tempo tudo foi negociado coletivamente. Desde o preço dos produtos, passando pela organização das barracas até o regimento interno da Feira. Em relação à gestão da Feira, decidiu-se que seria uma gestão compartilhada e que não haveria a figura de um coordenador como acontece em todas as outras feiras do circuito Carioca, mas que essa função transitaria entre todos os feirantes de tempo em tempos”, relembra.

A Feira Agroecológica da Freguesia acontece todos os sábados, das 8 às 13h, na Praça professora Camisão, Freguesia, Jacarepaguá. A Feira faz parte do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas.Acompanhe as informações na página: facebook.com/feiraagroecologicafreguesia

 

 

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