Publicação expõe as contradições da “ambientalização” do BNDES

Os adjetivos “verde”, “sustentável” e “limpo” geralmente são associados a práticas positivas de respeito ao ambiente postas em prática por governos e empresas. No entanto, quando se olha mais de perto, a ideia do “verde” apresenta tons que as ações de marketing ambiental dos grupos empresariais não gostam de mostrar em suas campanhas publicitárias.

A mais nova publicação do Instituto Pacs expõe como o tema da “Economia Verde” pode contribuir para que novas tecnologias, configurações institucionais e financiamento ao desenvolvimento sejam mobilizados para garantir que, na verdade, nada mude. “O Clima do Negócio e o Negócio do Clima: o BNDES e a Economia Verde” é um estudo crítico sobre o processo de “ambientalização” do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A “ambientalização” é, segundo Henri Acselrald, a apropriação da questão ambiental por órgãos do Estado, bancos, empresas e outras organizações, envolvendo mudanças de linguagem e práticas, criação de leis e instituições.

A publicação teve apoio da Fundação Heinrich Böll Stiftung.

Baixe o estudo em:

BNDES e Economia Verde

 

Leia a pesquisa completa em:

Ao investigar a incorporação da questão ambiental e climática ao longo de 60 anos do BNDES, a pesquisadora Fabrina Furtado mostra como, sob o ponto de vista da Justiça Ambiental, a política institucional de economia verde e desenvolvimento de baixo carbono vem resultando, na verdade, em conflitos ambientais e na consolidação da lógica mercantil. Tal lógica dissemina “a problemática como algo externo ao sistema capitalista e ao modelo de desenvolvimento incentivado, promovido e exportado pelo próprio banco”, conforme anota a pesquisa.

Um dos exemplos desses impactos são as consequências negativas da instalação de usinas eólicas no litoral nordestino e do chamado “desmatamento evitado” na região amazônica, ações estas financiadas pelo Banco. “Não se trata de negar a importância das tecnologias como elementos para compreender e transformar a sociedade, mas em afirmar que por si só elas não geram explicações sobre a totalidade da problemática que vivenciamos, nem suas resoluções. Não é a tecnologia que é determinante das mudanças sociais. Ela faz parte de um sistema complexo de realidade, de condições econômicas, políticas, históricas e sociais, de um modo de fazer sociedade que precisa, inclusive, estar no centro dos debates”. A publicação questiona, assim, como o saber e as práticas daqueles que vivem cotidianamente os territórios muitas vezes não são levados em conta nos processos de decisão e são tachados de “obstáculos ao desenvolvimento e progresso”.

Entre outras contribuições, a pesquisa propõe uma linha do tempo alternativa da “ambientalização” do BNDES, em que se destacam os conflitos ambientais decorrentes de projetos como a instalação da ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) e do complexo hidrelétrico do Rio Madeira.

A pesquisa se baseou em documentos do BNDES, incluindo publicações, vídeos e dados disponíveis na internet, assim como do governo federal e de organizações e redes da sociedade civil, em especial do Pacs, do Instituto Mais Democracia e da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais. Também foram utilizadas produções acadêmicas em torno do tema e notícias publicadas. Outro importante subsídio foram entrevistas realizadas com representantes do Departamento de Meio Ambiente do Banco.

A pesquisa inova ao politizar o debate sobre o tema, promovendo a reflexão sobre o tipo de sociedade que está sendo construída em nome da “proteção ambiental” ou do combate à mudança do clima. Fabrina Furtado, colaboradora do Pacs, explica que o estudo supera a ideia de que precisamos buscar soluções para algo imposto pelos agentes dominantes de forma despolitizada e reducionista como de “todos”.

“Analisando como a questão ambiental foi apropriada pelo BNDES e o que está sendo feito em nome do clima, podemos ir além do debate sobre formas de proteger uma “natureza” externa, criada pelo próprio capital, sem sujeitos sociais, por hora apresentada como indômita ou fora do controle que precisa ser dominada, e por outra, como biodiversa a ser protegida e controlada, através, por exemplo, da lógica dos serviços ambientais ou do esverdeamento dos discursos”, detalha a pesquisadora Fabrina Furtado.

Fabrina é colaboradora do Instituto Pacs, mestre em economia política internacional, doutora e pós doutoranda em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur). Atuou como assessora da Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente da Plataforma Dhesca e como secretária-executiva da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais e da rede Jubileu Sul.

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