Jovens do Maranhão e do Rio de Janeiro vivenciam processo de vigilância popular em saúde

Jovens de Piquiá De Baixo (MA) e Santa Cruz (RJ) participam, entre os dias 6 e 10 de fevereiro, no Rio, de mais um intercâmbio do processo de vigilância popular em saúde, em curso desde o ano passado. O projeto é protagonizado por jovens das duas comunidades com assessoramento do Pacs, da Justiça nos Trilhos e da Fiocruz.

Segundo Leandro Carvalho, técnico da Fiocruz, o objetivo principal da iniciativa é fortalecer as comunidades impactadas pela siderurgia. “O mais importante é os jovens empoderados, produzindo informação sobre a qualidade do ar e o dano à saúde decorrente da presença de particulado tóxico no ambiente”, afirmou.

Hoje (08/02) pela manhã, os jovens estiveram na Fiocruz analisando e trocando experiências sobre os dados preliminares das pesquisas. Gerliane Chaves, moradora de Piquiá de Baixo, explicou que a troca entre os dois grupos é a parte mais rica do processo. Embora tenham realidades socioeconômicas distintas, as populações têm reportado o mesmo cenário quando se trata da saúde ambiental e coletiva. “Tem muita queixa de doença respiratória, de pele, oftalmológica. E os médicos não dão laudo explicando a origem desses problemas”, denunciou a estudante. Gerliane completou ainda que o objetivo final do processo é fazer com que as informações geradas retornem para as comunidades e cheguem a outros moradores para que estes possam cobrar do poder público e dos empreendimentos as medidas cabíveis.

Gabriel Strautman, coordenador do Instituto Pacs, destacou que o processo de intercâmbio vem de longa data e que ajuda a desconstruir a ideia de que os jovens são alheios às condições de vida de suas comunidades além de possibilitar o empoderamento dos coletivos. “Mais que a produção dos dados em si o que nos motiva é a ideia de que estes coletivos estão se fortalecendo, se apropriando de dados que podem ser importantes no processo de resistência que cada um enfrenta aqui e lá”, afirmou.

Em abril de 2016, moradores de Piquiá estiveram em Santa Cruz para uma oficina de sensibilização sobre a vigilância popular em saúde. Em outubro do mesmo ano, foi a vez dos jovens de Santa Cruz irem a Piquiá acompanhar o processo de medição e produção de dados.

Amanhã (9), o grupo segue para Santa Cruz para um dia de avaliação e planejamento. Na sexta-feira, 10, o grupo deverá fazer uma visita de campo e encaminhar o encerramento da atividade.

Impactos

No fim da década de 1980, cinco empresas siderúrgicas se instalaram em Piquiá de Baixo: Viena Siderúrgica S/A, Gusa Nordeste S/A, Ferro Gusa do Maranhão (Fergumar), Cia. Siderúrgica Vale do Pindaré e Siderúrgica do Maranhão S/A (Simasa). A cidade é rota por onde passa todo o minério de ferro extraído das minas de Carajás, exploradas pela Vale, em Parauapebas (PA). O minério passa pela estrada de ferro até o porto de Itaqui, em São Luís. Com extração de 120 milhões de toneladas/ano, com previsão de duplicar esse valor até 2018, a Vale é a maior companhia do mundo no setor. A situação dos moradores de Piquiá e os impactos na saúde e na qualidade de vida já foram assunto de denúncia do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Em Santa Cruz, o parque industrial também se avolumou nos anos 1980 e veio atingir seu ápice com a chegada da TKCSA em 2007 e de outros empreendimentos nos arredores da Baía de Sepetiba. O bairro demarca o limite do Rio de Janeiro com o município de Itaguaí e foi outrora zona de produção agrícola e atividade pesqueira. Além disso, os pescadores estão impedidos de trabalhar desde a construção de uma barragem no canal do São Francisco e a agricultura familiar e de subsistência também está estagnada por conta da poluição.

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