Ação no dia Mundial da Água denuncia a maior gastona de água do Rio: a siderúrgica Ternium Brasil, antiga TKCSA

Enquanto recomendam economizar no chuveiro toda vez que uma crise hídrica bate à porta, indústria consome volume de água que daria para abastecer a capital fluminense por um ano inteiro

Um único CNPJ gasta 1,5 bilhão de litros de água por dia. Uma pessoa nascida no estado do Rio de Janeiro consome, em média, 248 litros diários. Faz sentido pedir apenas que a segunda economize toda vez que enfrentamos problemas no abastecimento? Esta é uma das perguntas que a ação #PareTernium  liderada pelo Instituto PACS e apoiada por parlamentares e organizações defensoras de direitos socioambientais -lançou no Dia Mundial da Água, na última sexta-feira (22).

Considerada a maior siderúrgica da América Latina, a Ternium Brasil, antiga Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), possui capacidade de produzir 5 milhões de toneladas de aço por ano. Estima-se que o preço pago em uma tonelada seja de US$345. De outro lado, na água utilizada para produzir a liga – 1,5 bilhão de litros diários – a siderúrgica gasta algo em torno de R$ 2 milhões por ano. Ou seja, pouco mais de R$ 5mil por dia por um dano socioambiental cuja extensão não é nada simples de calcular.

Mesmo antes da venda da siderúrgica do grupo alemão ThyssenKrupp para a ítalo-argentina Ternium, em setembro de 2017, a empresa já possuía um histórico de violações de direitos e impactos socioambientais no território de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, onde está localizada. A Ternium Brasil faz parte do Grupo Techint, um conglomerado de empresas que atuam em escala global, e hoje é considerada uma das usinas de siderurgia mais avançadas do mundo.

Com o intuito de aumentar a atenção da sociedade e do poder público para os verdadeiros responsáveis pela falta de água, a mobilização denunciou as estratégias de controle privado sobre o bem comum. A água que jorra para a Ternium (e outras empresas da Associação das Empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz e adjacências – AEDIN) e faltará para a população, tem impactado mais diretamente as vidas de moradores/as e pescadores/as que dependem do Canal de São Francisco. De lá, hoje sai mais água que entra, inviabilizando o sustento das famílias que vivem da pesca.

Vale mais o aço que a água?

#PareTKCSA agora é PareTernium

Através da Lei de Acesso à Informação, o Pacs pediu ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) os dados referentes ao consumo de água da Ternium, como parte de uma estratégia construída para desgastar a imagem da siderúrgica até 2021, ano em que se encerra a licença de operação.A gente entendeu que era necessário criar um trabalho paralelo ao de atuação no território e de análise crítica e teórica sobre a questão siderúrgica e mineral, um processo de desgaste público da empresa, até porque ela está ainda escondida atrás da identidade da TKCSA, a antiga siderúrgica”, explica Pedro D’Andrea, geógrafo e pesquisador do Instituto Pacs. 

A ideia de publicizar o dado do consumo anual de água da siderúrgica de 570 bilhões de litros partiu da necessidade de desconstruir uma crença amplamente difundida na crise hídrica no estado. Os dois motivos estruturantes apontados pela falsa noção de escassez seria a falta de chuvas e uso descontrolado de água pela população, culpabilizando a natureza e dos indivíduos. “Esses fatores escondem a questão estrutural que está por trás da verdadeira causa da crise hídrica, que é um fator político onde se tem os maiores setores da economia primária do país, que é o agronegócio, mineração, siderurgia e produção de bebidas alcoólicas e não alcoólicas sendo os maiores usuários e gastadores de água. Então, não dá pra dizer que falta água porque não chove ou porque o banho é demorado. Tem muita água pra poucos CNPJs e falta muita água pra muita gente”, explica D’Andrea. 

A ação ocorreu nas redes sociais do Instituto Pacs e de organizações, movimentos populares e parlamentares, além de contar com pronunciamentos do vereador Renato Cinco e do deputado estadual Flávio Serafini, ambos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), pautando o tema na Câmara dos Vereadores e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. 

A mobilização contou também com a população de Santa Cruz, impactada diretamente pela presença da Ternium. A estudante Wanessa Afonso, que faz parte do Coletivo Martha Trindade, criado por jovens do bairro em 2016 como uma forma de resistência à ação da siderúrgica, aponta a importância de enfraquecer a reputação da empresa no país. “Temos que desgastar o nome da Ternium pra que as pessoas percebam que não é só porque nós somos pobres que nós temos que aturar essas violações. Esse dado é algo que retoma a história do ambiente que a gente vive. Foi importante pra eles começarem a fazer essa ligação do que a gente sofre e quem causa esse sofrimento”, relata. 

Muda o nome, permanecem as violações. Junte-se a nós e exija: Pare Ternium! 

Saiba mais sobre a campanha em: www.pareternium.org

Conheça em detalhes os impactos socioambientais da Ternium na Zona Oeste do Rio, neste artigo do Instituto Pacs publicado no Le Monde Diplomatique Brasil:http://bit.ly/Texto_LeMonde_PareTernium

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