Pesquisa sobre os impactos dos investimentos chineses no Brasil, na Índia e na África do Sul é lançada na Universidade Federal Rural (UFRRJ)

 

Foi lançada na quinta (6), no auditório Marielle Franco, da Universidade Federal Rural (UFRRJ), a pesquisa “Investimentos da China no Brasil, África do Sul e Índia: Arranjos Institucionais, Atores e Impactos”, que traz dados sobre os maiores investimentos chineses nos três países; as principais empresas chinesas atuando em cada um por setor; os projetos envolvendo capital chinês; quem e que instituições (bancos, governos, empresas e comunidades locais) estiveram envolvidas em cada projeto; além dos possíveis impactos ambientais, sociais, trabalhistas e disputas envolvendo investimentos chineses no Brasil, África do Sul e Índia.

Internacionais (LIERI) da UFRRJ, com a Action Aid Brasil e o Instituto PACS, o trabalho confirma que os investimentos chineses na América Latina e África tem se concentrado em energia, recursos naturais e suas respectivas infraestruturas, enquanto os que miram nos EUA e Europa se destinam mais a serviços, telecomunicações, mídia e alta manufatura. Esta dinâmica reforça a divisão internacional do trabalho num contexto de reprimarização – ou seja, de volta da predominância de exportação de produtos primários – da economia brasileira.

Para a professora Ana Garcia, coordenadora da pesquisa, no Brasil está em jogo a posse de terras por meio desses investimentos estrangeiros. “O Brasil atualmente proíbe que investidores de fora adquiram terras nacionais diretamente. Então, para ter terras aqui, os estrangeiros, entre eles os chineses, acabam se aliando aos investidores daqui. Na prática está em jogo a soberania do país, que pode estar sendo entregue ao investidor estrangeiro. Embora de forma deliberada isso ainda não seja permitido no país, por enquanto”, alertou Garcia.

Nos três países investigados, a lógica de desenvolvimento fortemente estimulada pela China é caracterizada pelo uso da terra, a super exploração do trabalho, flexibilização – quando não violação aberta – das legislações ambientais e processos de privatização e expropriação de territórios.

É o que destacou Gerardo Vergas, Action Aid Brasil, ao falar das consequências para as populações: “Nossa intenção foi trazer questões que ajudassem a entender o papel dessa potência emergente, que está determinando parte dos rumos da economia global. Mas queríamos trazer uma dimensão dos impactos territoriais desses investimentos. Ou seja, queríamos saber o que se dá quando os investimentos de fato acontecem. Porque eles não são etéreos, eles vão se concretizar em infraestruturas, megaprojetos, impactos nos territórios, na vidas das pessoas, e vão mudar definitivamente – e às vezes de forma negativa – o percurso de vida de comunidades inteiras”.

Em 2016, a China se tornou, pela primeira vez, o segundo maior investidor global, perdendo apenas para os Estados Unidos. O protagonismo gestado por décadas resultou de uma estratégia de desenvolvimento que deu destaque às políticas de promoção do investimento externo.

Yasmin Bitencourt, pesquisadora do Instituto PACS que estudou especificamente os impactos dos investimentos chineses na Índia, lembrou a importância de se conhecer mais as instituições e dinâmicas envolvendo os países BRICS em geral.

“É muito importante que a gente olhe para essas instituições novas, porque elas são fundamentais para entender o modelo de desenvolvimento que está sendo construído”. A pesquisadora citou o aceno de aproximação do Brasil para a Índia com a eleição do primeiro ministro Narendra Modi. Logo após o fim do pleito, o premiê trocou mensagens com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro via Twitter, o que na opinião de Bitencourt indica um possível alinhamento entre dois políticos com perfis conservadores, porém, ultra liberais na economia.

Mensagem a que o primeiro ministro indiano respondeu com: “Espero ansiosamente para conhecê-lo pessoalmente e trabalhar com o senhor para desenvolver as relações Índia-Brasil em todas as esferas”.

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