Debate de lançamento do livro “Outras Economias” aborda invisibilidade do trabalho feminino e o papel das mulheres na construção cotidiana de alternativas ao atual modelo de desenvolvimento

Publicação do Instituto PACS é resultado de reflexões e experiências de mulheres sobre iniciativas econômicas comprometidas com a defesa dos territórios e o bem viver em comunidades na América Latina

Trabalho que sustenta a vida, mas historicamente conta com pouco reconhecimento. Economias comprometidas, em primeiro lugar, com o bem viver das comunidades e com a preservação da natureza, mas constantemente legadas à invisibilidade, principalmente por terem à frente as mulheres. O lugar da agricultura urbana e dos quintais agroecológicos na criação de alternativas ao atual modelo de desenvolvimento. A cozinha como “trincheira de luta”, sobretudo, para as mulheres negras. Todos foram temas da mesa de debates do lançamento do livro Outras Economias: alternativas ao capitalismo e ao atua modelo de desenvolvimento, na segunda-feira (1º), no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ). O evento teve ainda exibição do documentário Guardiãs do Território: agroecologia e resistência no Rio de Janeiro, que mostra histórias de mulheres líderes do movimento agroecológico no Rio.

Resultado de um seminário que teve como tema a crítica ao modelo hegemônico de desenvolvimento, Outras Economias reúne ideias e experiências de alternativas, do ponto de vista de mulheres, reafirmando que a economia não necessariamente deve estar subordinada à acumulação infinita de riqueza e à manutenção das desigualdades. Na verdade, muito pelo contrário.

O lançamento do Outras Economias contou com uma mesa de mulheres que debateram a economia feminista em resistência ao modelo atual de desenvolvimento. | Foto: Instituto Pacs

 

 

 

 

 

É o que explicou a economista e vice-presidenta do PACS Sandra Quintela ao abordar o tema da economia feminista presente na publicação. “O livro fala e nós falamos aqui de desvelar esse trabalho oculto que é, muitas vezes, o trabalho das mulheres. Não apenas em termos estatísticos, mas falar, mostrar, as lutas do cotidiano e como elas se expressam em iniciativas que existem na América Latina e que vêm sendo, de fato, capitaneadas por mulheres. A economia feminista é isso: algo que garante a sustentação da vida no planeta. Porque não é o mercado que sustenta. Portanto, a economia não é o mercado, mas o conjunto de processos que satisfazem as necessidades materiais. A economia deveria ser uma esfera e não a esfera da nossa vida”, observou. Sandra lembrou ainda da urgência em visibilizar o trabalho feminino caso queiramos transformar uma sociedade “que mantém vivo um patriarcado milenar”.

De acordo com a PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios -, das mais de 71 milhões de famílias brasileiras, 42% são chefiadas por mulheres, a maior parte sozinhas. Elas também acabam muito mais responsabilizadas por, além dos afazeres domésticos, pelo cuidado com as pessoas. Dados da PNAD Contínua de 2017 mostram que 86% das mulheres de 14 anos ou mais participaram de cuidados pessoais com moradores de casa contra 65,5% dos homens.

Elô Nunes destacou que, na realidade da Zona Oeste do Rio, este tipo de desigualdade tende a se agravar pela lógica de desenvolvimento instalada na região nas últimas décadas. “Se pensamos nas mudanças no território a partir do início dos anos 2000, vemos um processo de expulsão. As mulheres têm maior dificuldade de locomoção. E hoje, com as obras na região, são obrigadas a recorrer ao BRT. Isso afeta suas vidas porque reduziu o direito à mobilidade: se uma mãe demorava 1h20 para chegar ao trabalho e hoje ela leva 3h, ela não vai ter mais condições de trabalhar porque não vai ter como cuidar dos filhos”, constatou.

Elô e outras 24 mulheres – com atuação nos campos da agroecologia, da educação popular, da economia solidária e de movimentos de luta pela moradia – de bairros da Zona Oeste do Rio participaram da Militiva: processo coletivo de investigação militante que mapeou violações, resistências, bem como outras economias na região. Na Militiva, Elô trabalhou junto a um grupo de marisqueiras na Baia de Sepetiba. Ela chamou atenção para o mesmíssimo problema de que tratou o debate e a publicação: “essas mulheres sequer eram consideradas trabalhadoras”, contou.

Encerrando a discussão, Ana Santos, da Rede Carioca de Agricultura Urbana (Rede CAU) e do Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação de Agroecologia do RJ (AARJ), falou sobre como o racismo e o sexismo impactam a experiência das mulheres negras que têm liderado iniciativas que pautam alternativas à lógica de acumulação e exploração incessantes.

O lançamento do Outras Economias contou com uma mesa de mulheres que debateram a economia feminista em resistência ao modelo atual de desenvolvimento. | Foto: Instituto Pacs

“O que é cozinha e porque dizemos que ela é trincheira de luta? Por que para a sociedade, principalmente quando olha para a mulher preta, esse tem que ser um espaço subalterno? Ela não pode ser a chefe de cozinha?”, questionou para argumentar que estas também são formas, atravessadas pelo racismo, de não reconhecimento e sub-valorização do trabalho das mulheres negras. Números confirmam: segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE, das mulheres que sustentam lares com filhos de até 14 anos, 57% estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, são membros de famílias que vivem com 5,5 dólares por dia. Se considerada a raça, 64,4% das mães negras vivem nessas condições.

O evento terminou com debate com a plateia e distribuição do livro que também está disponível para download na Biblioteca Berta Cáceres.

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