Lançamento de livro com histórias de luta na Zona Oeste tem bate-papo e caminhada por quintais agroecológicos em Campo Grande

Caminhada pelos quintais agroecológicos do Bosque das Caboclas / FOTO: Anette Carla Alencar

Uma comunidade do bairro de Santa Cruz que literalmente tem respirado pó de minério liberado no ar por uma enorme fábrica. Pescadores forçados a mudar radicalmente – e para pior – suas vidas porque agora falta a água que sobra para a siderurgia. Na Baía de Sepetiba, marisqueiras que enfrentam empreendimentos causadores de profundos impactos socioambientais, mas são vendidos como fonte de riqueza para o bairro, para a cidade e o país.

Flávio Rocha, do Coletivo Martha Trindade, relembrou a Vigilância Popular em Saúde  / FOTO: Anette Carla Alencar

Algumas destas histórias de vida e luta são contadas pelo livro “Vidas Atingidas: histórias coletivas de luta na Baía de Sepetiba”, relançado no domingo (14), na Associação de Moradores e Amigos do Bosque dos Caboclos, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio (localidade rebatizada pelas moradoras de “Bosque das Caboclas” pelo histórico participação das mulheres nas mobilizações políticas do bairro).

O evento celebrou o que os diferentes grupos que participaram têm em comum: suas respostas práticas a uma ideia de desenvolvimento que não os inclui. É o caso, por exemplo, do Coletivo Martha Trindade, formado por jovens que passaram a medir a qualidade do ar nos arredores da siderúrgica TKCSA (atual Ternium Brasil), denunciando a presença de material particulado no ar além do permitido, devido a operação da maior companhia siderúrgica da América Latina localizada no bairro de Santa Cruz.

“A Vigilância Popular em Saúde começou com uma parceria do PACS com a Fiocruz que nos formou. Depois de aprender a fazer as medições, compartilhamos os resultados com alguns deputados e órgãos de controle ambiental como o Inea para buscar reparações e cobrar um posicionamento do poder público”, contou Flávio Rocha, membro do coletivo, relembrando um processo que integrou saberes na defesa dos direitos dos atingidos pela siderurgia.

FOTO: Anette Carla Alencar

Outra das comunidades diretamente afetadas pela mesma fábrica é a de pescadores que vivem do canal de São Francisco de onde a Ternium retira enorme volume de água devolvida em nível abaixo do permitido e qualidade incompatível com a pesca. “Os esgotos caem para o rio. Antes com duas horas, duas horas e meia, eu pegava três ou quatro caixas de peixe. Agora a fartura acabou! E não tem só o problema da saúde, mas a perda do nosso trabalho”, disse o pescador Jaci Nascimento, sobre um pouco do que também conta um dos capítulos do livro.

Em nome da Associação de Moradores e Amigos do Bosque das Caboclas, que recebeu o evento, Saney Souza falou da potência do encontro de várias mobilizações territoriais na Zona Oeste ali representadas. “É um momento bem complicado da política, com um governo fascista e sabemos que vamos ter que segurar a onda por mais algum tempo. Mas essas redes de militância, de luta, fazem com que a gente se fortaleça, com que a gente se levante hoje e amanhã de novo e mais uma vez…”, comentou Souza, que também faz parte da Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste e da Rede Carioca de Agricultura Urbana (CAU).

O lançamento foi encerrado com distribuição de exemplares do livro, lanche coletivo e uma caminhada por quintais agroecológicos do Bosque das Caboclas, onde mulheres contaram sobre o dia a dia entre as roças, a memória e presente de lutas da comunidade . Os quintais ali são verdadeiros símbolos de que é possível garantir o sustento em harmonia com a natureza.

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