#MulheresTerritóriosdeLuta: a resistência de mulheres negras aos megaprojetos em Pernambuco

Por Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)

Dando sequência à nossa série de entrevistas com lutadoras de territórios da América Latina, essa semana compartilhamos um trecho da conversa com Rosimere Nery, educadora popular da FASE Pernambuco e da coordenação do Fórum Suape, sobre luta, ser mulher, negritude e a realidade de luta das mulheres contra o Complexo Industrial de Suape (PE). Mere esteve na segunda edição do Ciclo de Debates da Campanha #MulheresTerritóriosdeLuta, que abordou o tema “Trabalho Reprodutivo e a Repatriarcalização dos Corpos Territórios”, disponível no nosso canal no Youtube. A entrevista foi realizada por Marina Praça, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.

Rosimere Nery, educadora popular em Pernambuco | Foto: Instituto Pacs

Rosimere, o que é luta para você? Nos conta um pouco da sua história?

Mere: O que me move a estar na luta é me indignar com algo, quando eu me indigno, eu entro de cabeça. Para mim, a minha história tem três fases. A primeira, quando eu compreendi aos 17 anos a qual classe eu pertencia. Eu me questionava sobre por que as outras pessoas tinham e eu não podia ter. Quando tive que largar a universidade, percebi que eu tinha uma classe e a essa classe não era permitido fazer academia, eu era obrigada a trabalhar para poder me sustentar. A minha segunda descoberta foi quando eu comecei a trabalhar com movimento sindical. Nesse espaço eu via que as mulheres sempre tinham o lugar da organização, das finanças… Na verdade eram elas que faziam tudo, mas quem liderava, quem recebia as glórias, eram os homens.

Depois, quando me descobri negra, como mulher negra, aos vinte seis, vinte sete anos de idade, foi uma coisa bem estranha… Porque como eu entrei na luta muito cedo, minha luta era por direito, por salário, por igualdade. Foi quando eu comecei a ver que existe uma questão de gênero, raça e classe que determina o lugar onde você está. Comecei a perceber também por que nas favelas a maioria é de pessoas negras, por que nas comunidades pobres a maioria são pessoas negras, por que a polícia só faz baculejo em pessoas negras. Foi aí que eu me descobri negra. Diferente dos meus filhos, os dois se descobriram negros desde bebê, porque eu estou sempre dizendo.

Como foi se descobrir mulher e mulher negra?

Mere: Eu só percebi porque as mulheres sempre tinham funções. Quando a gente ia para algum espaço, tínhamos funções, quando a gente ia discutir na chapa do movimento sindical, sempre era para sermos secretárias, mas tesoureira nem sempre, porque dinheiro era no poder dos homens, assim como a presidência. Foi assim que comecei a perceber que tinha um lugar que davam para as mulheres e que era esse lugar da organização, que era um pouco repetir o que a gente já fazia em casa, na família, no privado, o cuidar, o organizar.

Para mim a luta de ser feminista é diária, porque ser feminista não é só dizer que sou. É uma luta todo dia, porque tem momentos que se você não cuidar, você reproduz o machismo, que é uma coisa dada, que é o jeito nosso de ser mãe. Pensar sobre isso é pensar sobre a minha mãe, ela nos mostrava que somos negras. Hoje eu entendo que era isso o que ela queria dizer, por isso que a gente tinha que ser muito boa. Não podia nunca pegar em coisa de ninguém, nunca deixou a gente trabalhar na casa de nenhuma família para não ser escrava de ninguém. Ela sempre dizia “Vocês nunca vão ser escravas de ninguém, “Enquanto eu tiver vida, a gente vai se sustentar!”. Ela sempre disse que trabalhar em casa de família era sempre escrava da família. Ela preferia lavar roupa manhã, tarde e noite, e manter a gente tudo em casa ajudando no trabalho, mas em casa.

Minha mãe é uma figura super importante para mim, na minha formação, nos meus princípios, na minha indignação, em ajudar as outras pessoas e a entender que o nosso corpo, de mulher negra, é o corpo do trabalho. Eu pensava que eu não tinha nenhum trauma da minha infância, por não ter as coisas, por exemplo, mas eu tenho em relação a minha vida de mulher. É nesse sentido que eu digo que minha mãe me ensinou algo muito importante, mas que também me deixou marcada, com algo que traz dor. Ela ensinou a gente a trabalhar, sabe como é? Trabalha, trabalha, trabalha, e não cuidar de mim, de meu corpo, nunca dizer assim “Tô cansada. Não aguento!”. É muito difícil fazer isso, para qualquer que seja a pessoa.

Rosimere, falando sobre o Complexo Industrial de Suape[1], em Pernambuco, quais são os principais impactos desse megaprojeto no território e na vida das mulheres de lá?

Mere: Quando eu cheguei na FASE, em 2012, o Complexo estava com muitas obras, a instalação da refinaria e outras atividades ocorrendo naquela região. Nesse mesmo período, estive lá em um final de semana a passeio. Fui à praia e, ao chegar, fiquei enlouquecida com a quantidade de homens ali. Imagina um lugar daquele tamanhinho com mais de 10 mil homens dentro. Eram tantos homens que você não conseguia passar sem ser permanentemente assediada. Era uma coisa louca!

Quando cheguei na semana seguinte na FASE conversei com a Adelmo Barros, na época coordenador da Fase, que acompanhava essa frente, e começamos a dialogar sobre o Complexo do Suape a partir do que é ser mulher num território que estava totalmente invadido por homens. Homens que se achavam massa, perfeitos, eles eram tudo. E as mulheres não eram nada, entende? Eles assediavam de uma forma que era abusiva demais. Foi a partir desses diálogos que o Centro das Mulheres do Cabo fez um estudo sobre a questão da prostituição e o aumento da prática no território a partir da implementação do Complexo Industrial.

Eram muitos casos de estupros, muitas meninas enlouquecidas com os homens porque esses homens que chegavam lá pareciam que lhes proporcionariam uma situação ótima. Eram homens de todo o Nordeste e do Sul, que eram os que tinham casas melhores, e eles faziam o que queriam, que estava “tudo certo”. Nesse processo também começaram a chegar diversas drogas em uma velocidade muito grande naquelas comunidades. Agora você via crack e cocaína, um aumento no uso e no consumo de drogas muito grande e, consequentemente, o aumento da violência.

O Cabo começou a aparecer muito na mídia nacional como o município mais vulnerável para jovens negros morarem. E são as mulheres que têm, até hoje, os chamados Filhos do Vento, que são as crianças que nasceram de homens que diziam um nome qualquer, e que depois foram embora, e deixaram meninas grávidas e sem nenhuma referência ou contato.

O Centro fez um levantamento que apresenta o número de meninas que ficaram grávidas que não sabem quem é o pai. E isso fora os estupros que ocorreram. Isso é um impacto muito direto na vida dessas mulheres.

Complexo Industrial de Suape, em Pernambuco | Foto: Instituto Pacs

Sabemos que uma das principais atividades dessa região é a pesca. Como a chegada desse megaprojeto impactou a vida das pescadoras?

Mere: O impacto na vida das mulheres pescadoras, as mulheres que trabalham com marisco, com sururu e outros frutos do mar também foi grande. Com a ampliação do porto as mulheres não têm mais onde pescar. Diante disso, elas começaram a se organizar em grupos, alugavam uma kombi e iam pescar em Mangue Seco, que fica em outro município, Igarassu, no litoral Norte. Então saíam de lá do Cabo — onde tinha bastante sururu, ostra — e iam pescar em outro lugar. Muitas mulheres tiveram que fazer isso e era extremamente pesado para elas. Pesado no ponto de vista que elas tinham que deixar as crianças, pesado no ponto de vista financeiro, porque elas tinham que alugar um transporte. Além disso, o cansaço, porque quando elas voltam com o pescado, como os mariscos, têm que cozinhar, fazer tudo que elas já faziam quando elas pescavam ali na porta de casa, como elas falavam. Então nesse processo, o impacto na vida dessas mulheres foi enorme.

E para as mulheres que vivem da agricultura?

Mere: Para as mulheres que trabalham com a captura, com a colheita de frutas, que são as agricultoras, também foi impactante. Primeiro devido à retirada de famílias. São 25 mil pessoas retiradas do território e esse número deve ter aumentado, porque agora mesmo a Ilha de Cocaia está sendo retirada, a Ilha de Cocaia está sendo retirado, já tinham retirado as famílias da Ilha de Tatuoca,nós do Fórum Suape ainda estamos trabalhando nesse levantamento. Com a chegada de todas as empresas, mais de 100 naquele território, as políticas públicas que tinham continuaram as mesmas. Se você tem água três vezes por semana, por exemplo, para um número x de pessoas e essa quantidade se mantém após o aumento do consumo, é necessária uma ampliação no abastecimento. E os postos de saúde do mesmo jeito, não tiveram uma ampliação. Falam que o plano diretor de Suape foi feito, mas na prática você não vê as políticas públicas desse território ampliadas. Houve a ampliação econômica das indústrias e do comércio que chegaram no território, mas isso não significou melhora na qualidade de vida das pessoas, até porque dos postos de trabalho gerados, 1% eram ocupados por mulheres. Nesse 1%, os trabalhos eram de cozinha, limpeza, faxina ou atividades afins. Poucas mulheres conseguiram trabalhos que não fossem precarizados ou de serviços domésticos. Isso falando das mulheres do território, porque tinham outras mulheres que vinham de fora. Teve uma que veio da Alemanha, uma mulher negra inclusive, que trabalhava com navio, mas são poucos esses casos. Para as pessoas do território, apesar do discurso de melhoria de vida para a população, a realidade é ao contrário! A qualidade de vida delas piorou, como foi o caso da retirada das pessoas da Ilha de Itatuoca, em que retiraram uma comunidade inteira, e agora a Ilha tá lá vazia.

E quais são os impactos à saúde e à saúde mental dessas mulheres?

Mere: Muitas pessoas adoecidas. Especialmente as mulheres tiveram e ainda têm muitos problemas com a questão da saúde mental. Primeiro pela própria forma que a milícia se comportava com os moradores das ilhas, das comunidades. Eles fechavam as áreas e elas não podiam passar para poder pescar, por exemplo. Eles fechavam a passagem para ir buscar água, então você tinha que fazer caminhos maiores e, normalmente, quem vai buscar água são as mulheres. Mulheres que vão buscar água para lavar prato, lavar roupa, dar banho em menino, fazer comida, então para elas também, além de todo esse processo, aumenta o trabalho.

Diante disso tudo, de onde você acha que vem a sua força e a das mulheres de Suape?

Mere: Das outras mulheres. E principalmente de olhar para elas e ver que, numa situação muito mais difícil de vida, elas conseguem. Vem de fazer esses trabalhos para as mulheres, de ver essas mulheres rindo, dançando, isso me dá não só a força, mas me dá o oxigênio para respirar. Se você pega essas lideranças, especialmente as mulheres pescadoras agora que eu estou muito próxima, e mulheres catadoras também, que são duas categorias extremamente invisibilizadas, talvez as catadoras muito mais ainda, muito mais massacrada do ponto de vista de trabalhar diretamente com lixo, com o que as pessoas jogam foram, e mal tratadas pelas pessoas quando estão executando o serviço. São mulheres que quando a gente está junto, rindo e conversando, é maravilhoso. Acho que é o coração que me move. Eu passei por muitas coisas difíceis na Zona da Mata de Pernambuco, e nunca desisti, sempre tive vontade de estar participando, estar lutando pelos direitos. Isso independe de quem seja, mas logicamente, quando é do meu povo, eu me sinto mais atrevida com relação a questão da política.

E o feminismo?

Mere: É uma coisa impressionante, porque vem de dentro dizer o que é ser feminista. Para mim e para elas. É dizer para marido: “Lave a sua cueca! A partir de agora não lavo mais”. Você imagina isso? Então uma mulher a vida inteira teve a obrigação de lavar a cueca, chegar a esse ponto e dizer: “Eu não estou pedindo não, eu só tô te avisando que eu vou pra uma reunião”. Isso é o que me dá o oxigênio para estar na luta.

Para finalizar, como seguir nessa luta?

Mere: Acho que o grande foco nosso hoje é nos unirmos e enfrentar a dor com alegria. Atravessar esse momento em que as pessoas só trazem e só pensam coisas tristes, além do que já se vive no cotidiano. Normalmente as pessoas vão embora da luta, porque também ninguém aguenta. Então isso tem feito com que nos coletivos que eu tenho atuado, que é a Rede de Mulheres Negras e o Fórum de Mulheres de Pernambuco, nós buscamos tratar isso de uma outra forma. Tratar da questão política dura, mas também trazer a leveza, a alegria e o cuidado entre nós. Nos juntar para rir, dançar, compartilhar práticas de cuidado, coisas boas, alegres, que nos energizem. Para mim, não soltar a mão de ninguém tem uma dimensão que é muito profunda, é se escutar de verdade, estar juntas, discordar e se fortalecer.

Diante disso tudo, de onde você acha que vem a sua força e a das mulheres de Suape?

Mere: Acho que o grande foco nosso hoje é nos unirmos e enfrentar a dor com alegria. Atravessar esse momento em que as pessoas só trazem e só pensam coisas tristes, além do que já se vive no cotidiano. Normalmente as pessoas vão embora da luta, porque também ninguém aguenta. Então isso tem feito com que a Fase tenham realizado encontros para discutir autocuidado, porque as pessoas com quem trabalhamos estão demandado essa necessidade, e nos coletivos que eu tenho atuado, que é a Rede de Mulheres Negras e o Fórum de Mulheres de Pernambuco, nós buscamos tratar também do auto cuidado. Tratar da questão política dura, mas também trazer a leveza, a alegria e o cuidado entre nós. Nos juntar para rir, dançar, compartilhar práticas de cuidado, coisas boas, alegres, que nos energizem. Para mim, não soltar a mão de ninguém tem uma dimensão que é muito profunda, é se escutar de verdade, estar juntas, discordar e se fortalecer. É a irmandade entre nós.

[1] Complexo Industrial Portuário Governador Eraldo Gueiros — SUAPE, localizado nos municípios de Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca, no estado de Pernambuco. Ocupa atualmente uma região de aproximadamente 13.500 hectares.

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