{"id":310,"date":"2021-05-13T16:11:03","date_gmt":"2021-05-13T19:11:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=310"},"modified":"2021-05-13T16:11:34","modified_gmt":"2021-05-13T19:11:34","slug":"isolamento-social-intensifica-sobrecarga-de-trabalho-reprodutivo-no-cotidiano-das-mulheres","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/isolamento-social-intensifica-sobrecarga-de-trabalho-reprodutivo-no-cotidiano-das-mulheres\/","title":{"rendered":"Isolamento social intensifica sobrecarga de trabalho reprodutivo no cotidiano das mulheres"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"6cb5\"><strong><em>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"78f7\">Os impactos dos megaprojetos na vida das mulheres a partir do aumento do trabalho reprodutivo e do poder patriarcal nos territ\u00f3rios (o que chamamos de repatriarcaliza\u00e7\u00e3o dos corpos-territ\u00f3rios) s\u00e3o ainda mais intensificados durante a pandemia. Por esse motivo, esse foi o tema do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BwjyrENnWBY\">segundo&nbsp;<strong>Ciclo de Debates<\/strong><\/a><strong>&nbsp;#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/strong>, uma iniciativa da campanha realizada pelo Instituto Pacs, que traz o caminho das lutas marcadas e vividas em realidades que exigem (re)exist\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e1b7\">A\u00a0<a href=\"https:\/\/medium.com\/@pacsinstituto\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-formas-de-viver-e-re-existir-616214d52a28\">Campanha Mulheres Territ\u00f3rios de Luta<\/a>\u00a0\u00e9 uma dentre tantas express\u00f5es de uma hist\u00f3ria viva e coletiva que est\u00e1 presente em diversas mulheres. S\u00e3o corpos que, submersos em sentimentos, reflex\u00f5es e dores, se veem como parte de lutas e conflitos. S\u00e3o mulheres que vivem situa\u00e7\u00f5es que parecem bem maiores que elas mesmas, mas em realidade s\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o e o eco de seus corpos-territ\u00f3rios. S\u00e3o hist\u00f3rias, reflex\u00f5es, sentimentos, expropria\u00e7\u00f5es e reapropria\u00e7\u00f5es, artes, sonhos, encontros, coletividades, natureza, viol\u00eancias, lutos, indigna\u00e7\u00e3o, encantamentos e muitas formas de viver e (re)existir.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"393\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_JanT5pd1XHrE8FTZZjbF4g.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-311\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_JanT5pd1XHrE8FTZZjbF4g.png 700w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_JanT5pd1XHrE8FTZZjbF4g-300x168.png 300w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_JanT5pd1XHrE8FTZZjbF4g-360x202.png 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"5809\">Considerando esse contexto, questionamentos sobre a forma como o patriarcado forja o corpo das mulheres e a divis\u00e3o sexual do trabalho foram feitos durante o encontro virtual, a partir da perspectiva das comunidades tradicionais, perif\u00e9ricas e das mulheres negras e ind\u00edgenas. Angela Cuenca, do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ColectivoCASABolivia\/\">Colectivo Casa<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redlatinoamericanademujeres.org\/\">Red Latinoamericana de Mujeres Defensoras de Derechos Sociales y Ambientales<\/a>, falou sobre sua viv\u00eancia e seu trabalho pol\u00edtico na Bol\u00edvia onde ocorre forte interfer\u00eancia de atividade mineradora e, consequentemente, seus impactos socioambientais e coloniais: \u201cO patriarcado, esse sistema que gera opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, \u00e9 constru\u00eddo historicamente na Bol\u00edvia sobre o corpo das mulheres\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ddcd\">O pa\u00eds, que tem a atividade mineradora desde a \u00e9poca colonial como base de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, tamb\u00e9m possui em seu hist\u00f3rico m\u00faltiplas viol\u00eancias. \u201cMulheres ind\u00edgenas foram despojadas da for\u00e7a que representavam em seus povos, ao serem reduzidas ao trabalho dom\u00e9stico. E tamb\u00e9m \u2018coisificadas\u2019 para satisfazer os espanh\u00f3is durante o per\u00edodo de coloniza\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Angela. Essa rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, baseado em uma estrutura racista e patriarcal, ainda \u00e9 muito presente no contexto atual e afeta diretamente a vida das mulheres na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b870\">Outra quest\u00e3o abordada por Angela no Ciclo foram os impactos da cadeia mineradora na Bol\u00edvia. S\u00e3o mais de 17 milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos mineiros espalhados em Oruro, a cidade em que vive, como tamb\u00e9m em outras comunidades. \u201cH\u00e1 rios mortos devido \u00e0 alta contamina\u00e7\u00e3o mineira\u201d. H\u00e1 ainda a expropria\u00e7\u00e3o da \u00e1gua pelas empresas transnacionais, que provoca um grave desabastecimento das comunidades de seus entornos e um impacto enorme nas formas de viver tradicionais desses locais. \u00c9 o caso de Tatoral, que possui apenas 1 hora de \u00e1gua na semana, enquanto na mina h\u00e1 \u00e1gua abundante.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ce75\">Os megaprojetos na regi\u00e3o impactam diretamente a vida das mulheres, n\u00e3o somente com os abusos sexuais praticados pelos trabalhadores que chegam junto com essas empresas, mas tamb\u00e9m na pr\u00f3pria rotina familiar delas. Este \u00e9 um exemplo da repatriarcaliza\u00e7\u00e3o citada, assim como a falta de acesso aos recursos naturais e a invisibilidade das defensoras. A quest\u00e3o da dificuldade do acesso \u00e0 \u00e1gua, por exemplo, causa uma sobrecarga de trabalho dom\u00e9stico para as mulheres, que precisam do elemento para consumo ou produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Com a pandemia do Covid-19, esses impactos s\u00e3o amplificados. \u201cQu\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 combater o v\u00edrus lavando as m\u00e3os se n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua para consumir? Companheiras est\u00e3o, nesse momento, tendo que acordar cedo, sair \u00e0s escondidas, fugir de militares, para fazer a colheita\u201d, questionou Angela.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b836\">Mesmo na conjuntura atual, em que iniciativas coletivas t\u00eam sido ainda mais fundamentais para a regi\u00e3o, Angela apontou uma invisibiliza\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia das mulheres pela defesa do direito \u00e0 terra, mesmo em papel de lideran\u00e7a nos movimentos. \u201cAs mulheres s\u00e3o desprestigiadas, deslegitimadas e criminalizadas. Elas alertam e identificam os danos \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, na cultura, na fam\u00edlia e nos territ\u00f3rios. Sensibilizam a fam\u00edlia e a comunidade, tecendo posi\u00e7\u00f5es em defesa da vida, pensando no futuro de seus filhos. Mas ao fim, aparecem os homens \u00e0 frente das negocia\u00e7\u00f5es\u201d, relata. Na regi\u00e3o, ind\u00edgenas, origin\u00e1rias e campesinas comp\u00f5em a Red Nacional de Mujeres Defensoras de la Madre Tierra, que lutam pelo exerc\u00edcio dos direitos das mulheres e contra a viol\u00eancia ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1533\">Assim como Angela, Rosimere Nery, que faz parte da&nbsp;<a href=\"https:\/\/fase.org.br\/\">Fase-PE<\/a>&nbsp;e do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/forumdemulherespe\/about\">F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco<\/a>, tamb\u00e9m falou sobre os impactos dos megaprojetos, desde a perspectiva da l\u00f3gica patriarcal, nas formas de vida das mulheres da regi\u00e3o do Complexo Industrial Portu\u00e1rio Governador Eraldo Gueiros \u2014 SUAPE: \u201cUma centena de pessoas chegou na cidade junto com as obras e isso afetou diretamente a vida da comunidade. As mulheres ficaram inseguras, com medo de passear nas ruas. Muitas meninas foram enganadas por esses homens, porque eles iniciavam uma rela\u00e7\u00e3o e depois sumiam. Isso trouxe para as mulheres muito sofrimento e dor\u201d, desabafou. O complexo fica localizado nos munic\u00edpios de Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca, no estado de Pernambuco, e ocupa atualmente uma regi\u00e3o de aproximadamente 13.500 hectares.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"493c\">Durante sua fala, Mere destacou ainda como o racismo e o patriarcado afetam a vida de mulheres negras e como a divis\u00e3o sexual do trabalho agrava ainda mais essas quest\u00f5es: \u201cHistoricamente nos foi dito que n\u00f3s devemos ser submissas ao homem e isso foi colocado na constru\u00e7\u00e3o da nossa sociedade, assim como o racismo. As mulheres negras, que foram fundamentais na constru\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds, s\u00e3o at\u00e9 hoje invisibilizadas e negligenciadas. Essas mulheres n\u00e3o est\u00e3o ocupando os cargos de lideran\u00e7a\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d1af\">No contexto da pandemia, o caso de Miguel Ot\u00e1vio foi citado por Rosimere. O menino de 5 anos morreu no dia 2 de junho ap\u00f3s cair de uma altura de 35 metros em Recife, enquanto a m\u00e3e, mulher, negra e empregada dom\u00e9stica passeava com o animal de estima\u00e7\u00e3o dos patr\u00f5es. A crian\u00e7a, que estava sob responsabilidade da patroa, foi colocada sozinha no elevador do pr\u00e9dio pela mulher. \u201cPor que ele caiu do pr\u00e9dio? N\u00e3o se deixa uma crian\u00e7a sozinha no elevador. Por que a m\u00e3e estava trabalhando? Ela n\u00e3o deveria estar, porque foi decretada a quarentena aqui em Pernambuco. Mas ela teve que ir e levar o filho dela\u201d, exp\u00f4s Mere.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"835d\">No Brasil, segundo dados do IBGE de 2018, s\u00e3o 6,24 milh\u00f5es de trabalhadores dom\u00e9sticos, dos quais 92% s\u00e3o mulheres. \u201c\u00c9 a maior taxa do mundo, composta por mulheres negras e de baixa escolaridade. Eu fico pensando que agora, durante a quarentena, essas pessoas ficam falando que as desigualdades aumentaram, mas isso sempre aconteceu\u201d, destacou Rosimere. Ela citou ainda o caso da primeira v\u00edtima de Covid-19 do Rio de Janeiro, empregada dom\u00e9stica, que pegou o v\u00edrus da patroa que havia retornado recentemente da It\u00e1lia e faleceu pouco tempo ap\u00f3s a contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c481\">O trabalho dom\u00e9stico como fonte de renda tamb\u00e9m foi abordado por Ana Santos, educadora popular do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CEMIntegracaoNaSerra\/\">Centro de Integra\u00e7\u00e3o na Serra da Miseric\u00f3rdia<\/a>&nbsp;e da Rede Carioca de Agricultura Urbana. Ela, que \u00e9 moradora do Complexo da Penha, favela da zona norte do Rio de Janeiro, destacou como a atividade, muitas vezes praticada informalmente, ainda \u00e9 naturalizada e colocada como \u00fanica alternativa para mulheres negras e perif\u00e9ricas: \u201c\u00c9 um trabalho muito honesto ser empregada dom\u00e9stica, mas \u00e9 s\u00f3 isso que nos resta?\u201d, questionou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c780\">O Complexo de favelas da Penha \u00e9 reconhecido pelo Instituto Pereira Passos por 11 favelas, apesar da regi\u00e3o compreender mais territ\u00f3rios. O local, que sofre a neglig\u00eancia por parte das autoridades at\u00e9 mesmo no reconhecimento de sua extens\u00e3o, vive o impacto da militariza\u00e7\u00e3o diariamente, do extrativismo em pequena escala e da viv\u00eancia em uma cidade-mercadoria como o Rio de Janeiro. Ana destacou como tem sido desafiador, durante a atual conjuntura, lidar com esses impactos: \u201cA viol\u00eancia do estado ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o fuzil armado, mas \u00e9 todas essas aus\u00eancias negligenciadas e afirmadas em nossos corpos. Voc\u00ea imagina, na pandemia, como a situa\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o est\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a14d\">Outro ponto abordado por Ana durante o encontro foi a falta de visibilidade sobre o trabalho reprodutivo na vida das mulheres: \u201cDesde sempre essa \u00e9 a nossa realidade. S\u00f3 agora se deram conta que a gente lava, passa, cozinha e que com a pandemia a gente ficou sobrecarregada. O papel dessa mulher aqui da favela, da Baixada Fluminense, onde \u00e9 meu ber\u00e7o, \u00e9 de luta, de resist\u00eancia e de cuidado da fam\u00edlia. \u00c9 ela quem p\u00f5e o p\u00e3o dentro de casa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ddb5\">Apesar de todas as consequ\u00eancias trazidas pela conjuntura, Ana contou que a pandemia possibilitou uma maior articula\u00e7\u00e3o com as mulheres que vivem nos locais onde atua: \u201c\u00c9 por meio das crian\u00e7as, da cozinha e da pandemia que eu to conseguindo montar um ex\u00e9rcito. S\u00e3o as mulheres que hoje organizam todas as cestas da solidariedade e que tamb\u00e9m pensam na \u00e1gua da sua comunidade. N\u00f3s mulheres conseguimos ocupar esse espa\u00e7o\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4afb\">Ana encerrou a sua fala citando como a uni\u00e3o de mulheres, como as que comp\u00f5em o GT Mulheres da\u00a0<a href=\"https:\/\/aarj.wordpress.com\/\">Articula\u00e7\u00e3o de Agroecologia do Rio de Janeiro<\/a>\u00a0(AARJ), do qual tamb\u00e9m faz parte, tem sido fundamental para revolucionar durante o momento atual: \u201cA gente, por meio das nossas lutas, de todo o movimento de mulheres, vem fortalecer outras mulheres com um kit de cuidados porque n\u00f3s estamos preocupadas com n\u00f3s. Isso aqui \u00e9 poder, e \u00e9 a partir desse poder que a gente vai revolucionar dentro da favela. \u00c9 a partir desse poder, que est\u00e1 nas nossas m\u00e3os, com nossos saberes, que a gente se une, luta e transforma\u201d, concluiu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assista o v\u00eddeo na \u00edntegra:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta 2 \u2013 Trabalho reprodutivo\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BwjyrENnWBY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs) Os impactos dos megaprojetos na vida das mulheres a partir do aumento do trabalho reprodutivo e do poder patriarcal nos territ\u00f3rios (o que chamamos de repatriarcaliza\u00e7\u00e3o dos corpos-territ\u00f3rios) s\u00e3o ainda mais intensificados durante a pandemia. 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