{"id":417,"date":"2021-05-14T17:18:21","date_gmt":"2021-05-14T20:18:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=417"},"modified":"2021-05-14T17:18:21","modified_gmt":"2021-05-14T20:18:21","slug":"o-racismo-ambiental-e-as-faces-brancas-e-patriarcais-dos-megaprojetos-de-desenvolvimento-cris-faustino","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/o-racismo-ambiental-e-as-faces-brancas-e-patriarcais-dos-megaprojetos-de-desenvolvimento-cris-faustino\/","title":{"rendered":"O racismo ambiental e as faces brancas e patriarcais dos megaprojetos de \u201cdesenvolvimento\u201d \u2014 Cris Faustino"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O texto foi organizado por Karoline Kina, com base na fala de Cris Faustino, integrante do Instituto Terramar, durante o sexto Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, cujo tema foi o \u201cRacismo Ambiental em contexto de megaprojetos\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sempre fico pensando o que dizer ainda sobre quest\u00f5es como o racismo, porque a gente j\u00e1 vem h\u00e1 muitos anos falando sobre essas coisas. Tem sido uma conquista, no meu entender, a atua\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia antirracista, da fala das mulheres negras, porque elas s\u00e3o bastante representativas, vivas, cheias de conhecimentos, ancestralidades e intelectualidades, ent\u00e3o n\u00e3o tem revers\u00e3o, \u00e9 um processo irrevers\u00edvel, como diria Vilma Reis da Bahia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"458\" height=\"346\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_AybNvfP2hdnhpmDo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-418\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_AybNvfP2hdnhpmDo.jpg 458w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_AybNvfP2hdnhpmDo-300x227.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"3ac7\">Acredito que uma das principais&nbsp;coisas que dificulta o debate \u00e9 a compreens\u00e3o aprofundada sobre o racismo estrutural e a forma como ele \u00e9 fundante da nossa hist\u00f3ria. O Brasil come\u00e7a com uma expropria\u00e7\u00e3o territorial e todos esses ciclos econ\u00f4micos, o per\u00edodo colonial e p\u00f3s colonial, s\u00e3o baseados na explora\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas, al\u00e9m da ambiental. A hist\u00f3ria da degrada\u00e7\u00e3o da natureza remonta a esse tempo de coloniza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m tamb\u00e9m de toda a quest\u00e3o de quem domina e quem tem sido prejudicado dentro do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"d78d\">Apesar dos avan\u00e7os no debate por meio das intelectualidades negras e dos povos ind\u00edgenas, no meu entender, ainda falta um enorme salto na compreens\u00e3o mais ampliada sobre o que \u00e9 o racismo e as desigualdades, para al\u00e9m dos dados estat\u00edsticos. Compreender para al\u00e9m de uma abstra\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, \u00e9 preciso entender como uma pr\u00e1tica que \u00e9 vivida no cotidiano e que \u00e9 geradora de intensas viol\u00eancias. N\u00e3o h\u00e1 como discutir a quest\u00e3o ambiental como racismo, se voc\u00ea n\u00e3o consegue enxergar como ele \u00e9 efetivo, n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o e \u00e9 por isso que lutamos por pol\u00edticas afirmativas, de mudan\u00e7as no agora, pois ainda temos uma grande dificuldade em ultrapassar do pensamento para a constru\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica do enfrentamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"f6ab\">No debate sobre os megaprojetos de \u201cdesenvolvimento\u201d, \u00e9 importante nos questionarmos ainda quais s\u00e3o os territ\u00f3rios demandados por essas empresas, quem s\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es, as suas hist\u00f3rias. \u00c9 preciso fazermos essa leitura das hist\u00f3rias dos territ\u00f3rios demandados pelos megaprojetos. Por exemplo, a minera\u00e7\u00e3o, a siderurgia, a produ\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica, o turismo convencional e todo o resto s\u00e3o atividades que demandam vastos territ\u00f3rios e que n\u00e3o se encerram numa cadeia produtiva em si. S\u00e3o cadeias articuladas e com rela\u00e7\u00f5es desiguais, tanto do ponto de vista ambiental, quanto social e da \u201cinclus\u00e3o\u201d no mercado de trabalho e nos direitos trabalhistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"84d1\">S\u00e3o muitas demandas, um uso excessivo de \u00e1gua e uma produ\u00e7\u00e3o intensa de energia. Esses projetos demandam, inclusive, os danos ambientais e sociais, porque eles n\u00e3o t\u00eam a possibilidade de serem implementados sem ger\u00e1-los. Esses locais s\u00e3o territ\u00f3rios que t\u00eam o que as pessoas chamam de recursos naturais, que s\u00e3o os produtos que v\u00e3o ser explorados pelo extrativismo industrial de larga escala e, com isso, h\u00e1 toda uma destrui\u00e7\u00e3o dos modos de vida tradicionais e seus v\u00ednculos profundos com a natureza. Essa destrui\u00e7\u00e3o ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cultural, tamb\u00e9m est\u00e1 relacionada com o trabalho e com a destrui\u00e7\u00e3o dos corpos, das ancestralidades e da subjetividade. Tudo isso faz parte dessa demanda, dessa necessidade dos grandes empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"386c\">Diante disso, \u00e9 fundamental que haja acordos razo\u00e1veis de prote\u00e7\u00e3o, mas o que existe s\u00e3o garantias jur\u00eddicas para quem degrada o meio ambiente e os direitos dos povos, baseadas em institucionalidades brancas, muitas vezes identificadas e pertencentes aos grupos cujos interesses s\u00e3o dominantes. S\u00e3o acordos predominantes e legitimados e, em sua grande parte, feitos sem a participa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es negras, ind\u00edgenas ou origin\u00e1rias desses povos. E a\u00ed, uma vez firmados, essas empresas trabalham na constru\u00e7\u00e3o de um senso comum que enalte\u00e7a a ideia de um processo, supostamente, desejado e esperado pela maioria das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"95b6\">Todo esse contexto acaba gerando in\u00fameros conflitos nos territ\u00f3rios, que impactam n\u00e3o s\u00f3 os ecossistemas e a biodiversidade, mas tamb\u00e9m nas subjetividades, juventudes, nos espa\u00e7os de trabalho e conviv\u00eancia e isso, obviamente, \u00e9 fator que acaba afastando parte da popula\u00e7\u00e3o local dos seus modos de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"8ca3\">Para as mulheres, os impactos s\u00e3o muitos e diversos, incluindo os preju\u00edzos \u00e0 sua sa\u00fade mental, por conta dos agravos das preocupa\u00e7\u00f5es. N\u00f3s n\u00e3o temos nem espa\u00e7o nos empregos gerados por esses megaprojetos, pois h\u00e1 uma subalterniza\u00e7\u00e3o dos processos produtivos onde se incluem as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"867b\">O poder pol\u00edtico de decis\u00e3o est\u00e1 sob o dom\u00ednio das elites brancas, o que fortalece seu poder de incid\u00eancia sobre as popula\u00e7\u00f5es, de um poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e jur\u00eddico sob comando do brancos, ricos, racistas e heteropatriarcais. Por isso, h\u00e1 uma demanda forte da nossa articula\u00e7\u00e3o em dar visibilidade tanto ao processo de explora\u00e7\u00e3o, quanto \u00e0s pot\u00eancias e possibilidades trazidas pelas mulheres enquanto sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"d00e\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto foi organizado por Karoline Kina, com base na fala de Cris Faustino, integrante do Instituto Terramar, durante o sexto Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, cujo tema foi o \u201cRacismo Ambiental em contexto de megaprojetos\u201d. 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