{"id":422,"date":"2021-05-14T17:31:15","date_gmt":"2021-05-14T20:31:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=422"},"modified":"2021-05-14T17:31:15","modified_gmt":"2021-05-14T20:31:15","slug":"a-ancestralidade-como-forma-de-resistencia-saney-souza","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/a-ancestralidade-como-forma-de-resistencia-saney-souza\/","title":{"rendered":"A ancestralidade como forma de resist\u00eancia \u2014 Saney Souza"},"content":{"rendered":"\n<p>Minha av\u00f3 tinha o nome de Sabina, que tamb\u00e9m era o nome da m\u00e3e de Zumbi dos Palmares. Ela era uma pessoa extremamente vaidosa, que adorava usar len\u00e7os, estava sempre bem arrumadinha e eu cresci vendo isso. At\u00e9 hoje, eu guardo um len\u00e7o que era dela, porque eu tenho essa grande refer\u00eancia na minha identifica\u00e7\u00e3o por conta do turbante, estou sempre com len\u00e7o na cabe\u00e7a, porque eu cresci vendo a minha av\u00f3 assim. Ent\u00e3o, parte da minha identidade vem dela.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_3vgj4NewSeMj9pEk-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-429\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_3vgj4NewSeMj9pEk-1.jpeg 1024w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_3vgj4NewSeMj9pEk-1-300x200.jpeg 300w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_3vgj4NewSeMj9pEk-1-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Saney Souza |  Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"2dde\">Ela deixou de viver&nbsp;fisicamente quando tinha 92 anos, morreu dentro de casa. Apesar de ter uma enfermidade, no dia que faleceu ela n\u00e3o sentia dor, ela s\u00f3 olhou para minha m\u00e3e que estava dando uma arrumada na casa, deu um pequeno sorriso e partiu. Quando a gente pensa sobre o plano f\u00edsico, a gente associa muito \u00e0 quest\u00e3o da dor, da perda, de voc\u00ea n\u00e3o ver mais a pessoa. Mas, quando a gente fala das resist\u00eancias, a gente traz tudo isso que n\u00e3o est\u00e1 vivo fisicamente e que a nossa luta, a forma que a gente \u00e9 e est\u00e1 na sociedade hoje, nesses enfrentamentos todos, resgata um pouco de cada uma dessas pessoas que n\u00e3o est\u00e3o mais aqui.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fccd\">Meu pai, Badu, fez parte de um grupo chamado \u201cOs Tinco\u00e3s\u201d, na d\u00e9cada de 70. Um grupo que tocava m\u00fasica afro-brasileira, em uma \u00e9poca em que pouco se falava sobre, era algo muito violentado e estigmatizado. Se hoje j\u00e1 \u00e9, imagina naquele per\u00edodo. Foi um grupo revolucion\u00e1rio, de tr\u00eas homens negros, com atabaques e canto. Trabalho que ficou registrado na hist\u00f3ria da m\u00fasica no pa\u00eds, e at\u00e9 hoje \u00e9 refer\u00eancia, principalmente quando a gente fala de m\u00fasica brasileira e da raiz da m\u00fasica afro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bda6\">Um fato curioso \u00e9 que Tinco\u00e3s \u00e9 o nome de uma ave, que tinha o apelido de \u201calma de caboclo\u201d. Meu pai participou desse grupo, que significa essa ave, que tem esse nome, e a\u00ed ele conhece a minha m\u00e3e e os dois formam uma fam\u00edlia, que ficou junta durante uns anos. Depois de um tempo, eles se separam, a gente vem para Campo Grande e minha m\u00e3e acaba fazendo parte de uma ocupa\u00e7\u00e3o urbana chamada \u201cBosque dos Caboclos\u201d. Eu chego nesse lugar, e a\u00ed com todo um trabalho meu e com a institui\u00e7\u00e3o que eu fa\u00e7o parte at\u00e9 hoje, nasce a \u201cColetiva de Mulheres As Caboclas\u201d. Ent\u00e3o, tem toda uma liga\u00e7\u00e3o do que o meu pai trouxe com \u201cOs Tinco\u00e3s\u201d, o casamento com a minha m\u00e3e, ela vir para c\u00e1 e para a ocupa\u00e7\u00e3o, e depois de um tempo eu chegar nesse grande movimento de mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c331\">Eu trago a import\u00e2ncia dessa reflex\u00e3o, porque \u00e9 o que a gente \u00e9, \u00e9 um pouco do lugar onde a gente mora e de uma trajet\u00f3ria. Eu j\u00e1 venho de uma continuidade, eu j\u00e1 venho de v\u00e1rias hist\u00f3rias, que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as minhas e as da minha fam\u00edlia. \u00c9 um territ\u00f3rio que a gente precisa ter muito mais vida pra contar. E, como as nossas hist\u00f3rias, essas mem\u00f3rias que a gente traz s\u00e3o as nossas riquezas, nosso patrim\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0182\">Estamos vivendo num mundo muito violento com as mulheres, sobretudo com as mulheres negras. \u00c9 uma sociedade que, o tempo todo tem estigmas, in\u00fameros preconceitos. Ent\u00e3o, quando trazemos um pouco da hist\u00f3ria, da experi\u00eancia dos nossos territ\u00f3rios para compartilhar com todo mundo, \u00e9 uma forma de sinalizar que tem muita coisa boa acontecendo, e que tamb\u00e9m a gente n\u00e3o vai deixar de continuar lutando.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0831\">Tem uma frase de Suely Carneiro que me inspira demais que diz: \u201cOrganizem-se, porque n\u00e3o h\u00e1 mais limites para a viol\u00eancia racista\u201d. Ent\u00e3o, \u00e9 o que a gente t\u00e1 fazendo, \u00e9 para nos entendermos e nos fortalecermos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"79f0\">Eu proponho que a gente traga essas pessoas que fazem parte da nossa resist\u00eancia. Quem s\u00e3o essas mulheres? Quando foi que isso aconteceu? Como \u00e9 que eu tenho essa pessoa hoje? Como eu trago isso? Pode ser por um cheiro, por uma comida, uma roupa\u2026 \u00e9 assim que a gente traz essas pessoas de resist\u00eancias para as nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"79f0\">*<em>O texto foi organizado por Karoline Kina, com base na fala no terceiro Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, que trouxe como tema o \u201cCuidado coletivo e ancestralidades nas pr\u00e1ticas de (re)exist\u00eancias\u201d. Saney \u00e9 integrante da Coletiva As Caboclas e filha de Dona Hellen, s\u00edmbolo da resist\u00eancia negra na Zona Oeste do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha av\u00f3 tinha o nome de Sabina, que tamb\u00e9m era o nome da m\u00e3e de Zumbi dos Palmares. Ela era uma pessoa extremamente vaidosa, que adorava usar len\u00e7os, estava sempre bem arrumadinha e eu cresci vendo isso. 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