{"id":424,"date":"2021-05-14T17:28:10","date_gmt":"2021-05-14T20:28:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=424"},"modified":"2021-05-14T17:28:10","modified_gmt":"2021-05-14T20:28:10","slug":"mulher-negra-mae-periferica-vivencias-de-uma-realidade-militarizada","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/mulher-negra-mae-periferica-vivencias-de-uma-realidade-militarizada\/","title":{"rendered":"Mulher negra m\u00e3e perif\u00e9rica: viv\u00eancias de uma realidade militarizada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"6ef0\"><strong>Entrevista com Marina Ribeiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"a23e\">Educadora popular e cientista social de forma\u00e7\u00e3o, Marina dos Santos Ribeiro, 45, \u00e9 mulher negra, perif\u00e9rica e m\u00e3e de tr\u00eas filhos. Nascida no centro da cidade do Rio, foi em Campo Grande, na periferia da Zona Oeste, que construiu a sua vida, sua fam\u00edlia e sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"4eb1\">A trajet\u00f3ria na milit\u00e2ncia se iniciou ainda cedo, quando participava da Pastoral da Juventude, estando ligada politicamente \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. Era aluna de um dos primeiros pr\u00e9-vestibulares da cidade, o Centro de Apoio Popular da Zona Oeste, onde atuou tamb\u00e9m como coordenadora. Marina \u00e9 ainda uma das fundadoras do IFHEP, o Instituto de Forma\u00e7\u00e3o Humana e Educa\u00e7\u00e3o Popular, onde \u00e9 militante at\u00e9 os dias de hoje. Durante a gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais, na Funda\u00e7\u00e3o Educacional Unificada Campo Grandense (FEUC), conheceu o Instituto Pacs e participou de uma das primeiras edi\u00e7\u00f5es do curso Mulheres e Economia, um \u201cdivisor de \u00e1guas\u201d em sua vida e vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"a2c6\">Hoje, ela se apresenta como mulher negra e feminista, militante do movimento negro e de mulheres, faz parte da Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste, e reflete sobre temas como racismo e viol\u00eancia estruturais, al\u00e9m dos impactos da militariza\u00e7\u00e3o na vida e nos corpos das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/max\/1880\/1*5WwYVnRWnUQ_CUnq1Nn4IA.png\" alt=\"\"\/><figcaption>Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"4ede\"><strong>Como o debate da militariza\u00e7\u00e3o chega pra voc\u00ea e, como mulher negra, como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o disso com o racismo e a viol\u00eancia estrutural e institucional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"ed1d\"><strong>Marina:&nbsp;<\/strong>Depois de um tempo, eu percebi, nesse processo de reflex\u00e3o, que a militariza\u00e7\u00e3o chega na pr\u00e1tica, no cotidiano e que ela sempre esteve muito presente na minha vida, na periferia. Eu sou uma mulher negra e sempre morei na periferia. Na periferia do Rio de Janeiro, na Zona Oeste, em Campo Grande, em um sub-bairro, ou seja, periferia da periferia. L\u00e1, a militariza\u00e7\u00e3o sempre existiu com outro formato. Todos sabiam da presen\u00e7a de homens armados, homens \u201cde bem\u201d, ligados \u00e0 pol\u00edcia ou n\u00e3o. De fato, sempre houve um grupo que se colo- 90 cava como dono do territ\u00f3rio. S\u00e3o eles que organizam as rela\u00e7\u00f5es e a legitimidade dos pequenos com\u00e9rcios, quem pode e quem n\u00e3o pode. Isso tamb\u00e9m acontece no acesso \u00e0 terra, no transporte alternativo, na venda do botij\u00e3o de g\u00e1s ou coisas assim. Como moradora, acompanhei o avan\u00e7o da mil\u00edcia na Zona Oeste. Faz parte da hist\u00f3ria daquele territ\u00f3rio. Quando a mil\u00edcia, com esse nome e formato de organiza\u00e7\u00e3o chega ao territ\u00f3rio, as pessoas que estavam de frente antes, um grupo de homens armados que se intitulavam donos do local, s\u00e3o substitu\u00eddas nesse comando por outras, que tinham liga\u00e7\u00e3o direta com o novo grupo de homens armados, a mil\u00edcia. Uma das primeiras mudan\u00e7as sentida pelos moradores \u00e9 a cobran\u00e7a feita pela seguran\u00e7a do bairro. Na parte em que eu morava, decidiram que n\u00e3o iriam cobrar dos moradores, j\u00e1 que n\u00f3s viv\u00edamos na parte mais pobre, mas cobravam dos comerciantes. Naquela \u00e9poca n\u00e3o existia uma reflex\u00e3o sobre o que era esse processo da militariza\u00e7\u00e3o, essa disputa para eliminar um grupo que j\u00e1 estava l\u00e1 no comando. Na periferia n\u00e3o existe uma pol\u00edcia que seja comunit\u00e1ria, que seja um mediador das rela\u00e7\u00f5es, em situa\u00e7\u00f5es como pequenos roubos ou furtos. \u00c9 a mil\u00edcia que toma conta de tudo, n\u00e3o tem comercio de drogas como se v\u00ea em outras favelas. O que a gente v\u00ea s\u00e3o jovens envolvidos e trabalhando para a mil\u00edcia, infelizmente. Jovens pobres moradores do local, que terminam sendo executados. E \u00e9 a mil\u00edcia quem v\u00ea, prende, julga e extermina. Nessa ideia de \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Acho que ningu\u00e9m imaginaria que iria se construir um processo de domina\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio, de economia e de poder, porque nunca foi s\u00f3 a quest\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a das fam\u00edlias daquele local, tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de poder e ao poder econ\u00f4mico. Nesse processo, a militariza\u00e7\u00e3o que tinha e 91 tem o discurso de prote\u00e7\u00e3o, \u00e9 na pr\u00e1tica um processo de elimina\u00e7\u00e3o, sobretudo dos jovens mais pobres, jovens negros em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. A militariza\u00e7\u00e3o, pra gente, significa controle do territ\u00f3rio, controle e exterm\u00ednio dos corpos negros. Jovens pobres vulnerabilizados nesse processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"4b97\"><strong>Como voc\u00ea identifica os impactos do modelo de cidade-mercadoria instaurado no Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"8d01\"><strong>Marina:&nbsp;<\/strong>Tem uma constata\u00e7\u00e3o que a gente precisa fazer e que \u00e9 muito dif\u00edcil. Na Zona Oeste, a militariza\u00e7\u00e3o e a mil\u00edcia n\u00e3o s\u00e3o vistas como algo ruim, infelizmente. Elas, de alguma forma, garantem essa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a que, de fato, passa pela elimina\u00e7\u00e3o do outro, e n\u00e3o pelo acesso a justi\u00e7a, igualdade, direitos, di\u00e1logo e constru\u00e7\u00e3o de novos caminhos. Na cultura local, isso \u00e9 muito real. \u201cA mil\u00edcia \u00e9 necess\u00e1ria. \u00c9 importante ter pessoas que fazem esse tipo de seguran\u00e7a\u201d, \u00e9 o que dizem. \u00c9 comum e \u00e9 reconhecido dessa forma, por conta de uma aus\u00eancia total do Estado. Ou de um Estado que est\u00e1 presente dessa forma. Se voc\u00ea vai na Zona Sul, al\u00e9m de ter a presen\u00e7a da pol\u00edcia militar, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, de cuidado e de prote\u00e7\u00e3o com os moradores daquele territ\u00f3rio. Na periferia, tanto a pol\u00edcia como a mil\u00edcia, n\u00e3o oferecem uma rela\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de controle. Na maior parte da Zona Oeste, isso est\u00e1 diretamente vinculado \u00e0 mil\u00edcia, porque ela \u00e9 quem garante o controle e organiza de fato a forma que a seguran\u00e7a se estabelece naquele territ\u00f3rio. Nessa l\u00f3gica de cidade-mercadoria, tem a maneira que se constr\u00f3i essa imagem de cidade que \u00e9 controlada, que precisa funcionar como tur\u00edstica, ou seja, o turismo como com\u00e9rcio. Voc\u00ea vende essa imagem de que tem controle da viol\u00eancia respondendo com 92 mais viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a gente tem um governador agora que defende abertamente o tiro na cabe\u00e7a. Ele n\u00e3o faz isso de forma t\u00e3o expl\u00edcita porque \u00e9 inconsequente, mas porque sabe que esse discurso vai ser absorvido de forma positiva porque \u00e9 essa resposta que a classe m\u00e9dia alta, os turistas, os donos de hot\u00e9is, quem ganha com essa cidade-vitrine, quer. Um discurso que garante a l\u00f3gica de com\u00e9rcio dessa cidade e que vende um modelo para os outros centros urbanos desse pa\u00eds. A militariza\u00e7\u00e3o serve como essa esp\u00e9cie de servi\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o para uma parte da popula\u00e7\u00e3o carioca e brasileira, uma elite que quer usufruir da beleza, do turismo e que n\u00e3o se importa com a consequ\u00eancia desse controle para quem mora nas favelas e periferias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"6bc2\"><strong>Qual \u00e9 o impacto das diversas formas e for\u00e7as da militariza\u00e7\u00e3o na vida das mulheres que vivem a Zona Oeste?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"eded\"><strong>Marina:&nbsp;<\/strong>Pra n\u00f3s, mulheres negras, a rua sempre foi um lugar de viol\u00eancias. A rua num sentido de enfrentamento, porque n\u00e3o existe outra forma sen\u00e3o essa. Eu sa\u00eda para trabalhar desde muito cedo, aos 15 anos. A minha m\u00e3e era costureira e o meu pai, sapateiro, o que n\u00e3o era comum naquela \u00e9poca, os pais terem um of\u00edcio, direitos trabalhistas garantidos, carteira assinada, f\u00e9rias e d\u00e9cimo terceiro. Eu ajudava a minha m\u00e3e a costurar em casa, ent\u00e3o ser costureira foi a minha primeira profiss\u00e3o. Existia essa quest\u00e3o de precisar se virar desde muito cedo, de ter que trabalhar e, ainda assim, continuar estudando. Chegou uma hora em que a minha fam\u00edlia falou: \u201cvoc\u00ea tem certeza que quer estudar?\u201d Eu n\u00e3o tinha dinheiro para pagar passagem, ent\u00e3o tinha que ir para o pr\u00e9-vestibular andando por uma hora todos os dias. Eu saia \u00e0s 22h30, andava por um caminho muito perigoso, em que fui assaltada algumas vezes, e chegava em casa quase meia-noite. Eu buscava nunca andar sozinha e sempre encontrar alguma forma de garantir algum tipo de prote\u00e7\u00e3o para n\u00e3o estar t\u00e3o exposta. Ent\u00e3o, esse impacto \u00e9 real, mas o que voc\u00ea aprende \u00e9 a conviver e a construir estrat\u00e9gias para que ele n\u00e3o seja t\u00e3o profundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"4913\"><strong>Como voc\u00ea sente esse impacto enquanto mulher negra e m\u00e3e?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"b86b\"><strong>Marina:&nbsp;<\/strong>Na pr\u00e1tica, sendo uma mulher negra e m\u00e3e de pessoas negras, quando os filhos crescem o medo muda, mas segue presente. Como m\u00e3e, voc\u00ea acaba vendo os seus filhos sofrendo as mesmas viol\u00eancias, racistas e sexistas. E quando voc\u00ea tem um filho, um menino negro, \u00e9 desesperador. Existe a nossa luta enquanto mulheres, de nos proteger, de resistir ao ass\u00e9dio e a tantas outras formas de viol\u00eancia, e a forma com que isso se reproduz nas nossas vidas, na viv\u00eancia com diferentes viol\u00eancias que envolvem diretamente os homens. Quando voc\u00ea pensa a rela\u00e7\u00e3o que os homens t\u00eam com a viol\u00eancia \u00e9 muito diferente da que as mulheres t\u00eam. Quando voc\u00ea vive num ambiente onde a 94 viol\u00eancia faz parte da cultura, com homens armados para fazer a seguran\u00e7a e ligados ao poder, a gente sabe que essa forma de ser homem vai determinar o que \u00e9 masculinidade. Al\u00e9m existir uma viol\u00eancia institucional, existe a viol\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es. Esse homem que vive esse ambiente de cultura de viol\u00eancia vai reproduzir isso na sua rela\u00e7\u00e3o pessoal com as mulheres: com as suas m\u00e3es, irm\u00e3s, amigas, companheiras e com filhas e filhos. \u00c9 um ambiente em que a \u00fanica possibilidade de existir est\u00e1 ligada a essa cultura de produ\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e de controle de vidas e de corpos. Ter um filho negro \u00e9 saber que ele vai ser sempre alvo da viol\u00eancia. Ent\u00e3o, esse processo da militariza\u00e7\u00e3o tem in\u00fameros problemas, mas eu coloco dois muito fortes: o primeiro \u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de uma masculinidade extremamente violenta que vai se afirmar como uma forma de ser homem, principalmente nesses territ\u00f3rios. E problematizar para que esse jovem negro n\u00e3o reproduza isso tudo. O outro pensar em como agir para que a vida dele n\u00e3o esteja sempre em perigo, j\u00e1 que ele sempre vai ser o alvo primordial da viol\u00eancia. O tempo todo sou levada, um ato involunt\u00e1rio, a querer saber o que meu filho, esse jovem negro, est\u00e1 fazendo, porque, para os outros, a possibilidade de ele estar fazendo algo errado j\u00e1 existe s\u00f3 por ele ser negro. Na pr\u00e1tica, nosso cuidado, o cuidado da m\u00e3e negra, tamb\u00e9m \u00e9 controle e n\u00e3o nos damos conta disso\u2026 N\u00e3o sei se conseguiria fazer diferente. Sabemos que nessa sociedade o erro \u00e9 ser negro. A rela\u00e7\u00e3o do racismo e da militariza\u00e7\u00e3o \u00e9 estruturalmente intr\u00ednseca. A militariza\u00e7\u00e3o nasce de uma perspectiva de enfrentar um dado inimigo: a popula\u00e7\u00e3o negra. No meu corpo, eu sinto o tempo todo medo pela vida das minhas filhas e do meu filho circulando pela cidade. E em como lidar com um jovem negro, de 15 anos, para que ele n\u00e3o seja alvo da viol\u00eancia e n\u00e3o reproduza uma l\u00f3gica de masculinidade pautada na viol\u00eancia, no controle e na opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"6898\"><strong>Quais os processos de resist\u00eancia e como a gente pode sobreviver ou vencer essa disputa da cidade\/vida a partir da perspectiva de uma mulher negra perif\u00e9rica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"9e5d\"><strong>Marina:&nbsp;<\/strong>O debate sobre o autocuidado \u00e9 algo essencial e que a gente n\u00e3o d\u00e1 a devida import\u00e2ncia. \u00c9 o autocuidado, para al\u00e9m de um momento terap\u00eautico, e tamb\u00e9m como um ato pol\u00edtico, como parte da nossa forma de se organizar e pensar politicamente. Se a gente pensar que o impacto da militariza\u00e7\u00e3o no corpo das mulheres negras tem esse efeito todo, como n\u00e3o reproduzir uma l\u00f3gica que \u00e9 de opress\u00e3o, \u00e9 LGBTf\u00f3fica, machista, sexista e mis\u00f3gina? Como ir contra tudo o que \u00e9 estrutural? Tem uma hora em que a gente n\u00e3o vai suportar porque a carga de exig\u00eancia \u00e9 muito grande. O medo \u00e9 muito grande. A gente n\u00e3o consegue dar conta disso tudo. Nesse sentido, o autocuidado chega tarde ao nosso debate. Eu percebo que o autocuidado n\u00e3o \u00e9 pra te ausentar da luta, e sim pra te qualificar para estar nela e entender quais s\u00e3o os seus limites e como voc\u00ea pode contribuir afetivamente. Pensar dessa forma j\u00e1 \u00e9 autocuidado. Cada mulher, dependendo de onde vem, do seu espa\u00e7o de luta e das suas quest\u00f5es, sente de forma diferente. N\u00e3o d\u00e1 pra explicar o quanto essa contradi\u00e7\u00e3o produz sofrimento e dor. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um corpo fisicamente cansado, mas um corpo que sofre a partir do afeto que vem sendo produzido em meio a todas essas contradi\u00e7\u00f5es. Para a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 o sofrimento de existir em uma sociedade extremamente racista. O autocuidado tem que ser uma decis\u00e3o pol\u00edtica de enfrentar todas essas quest\u00f5es e entender os nossos pr\u00f3prios limites. \u00c9 construir um ambiente para que essas mulheres, de vidas e territ\u00f3rios diferentes, possam continuar na luta sem sucumbir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"de73\"><strong>Pensando no seu corpo, fisicamente, onde voc\u00ea mais sente os impactos da militariza\u00e7\u00e3o e de onde vem a sua pot\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"9f04\"><strong>Marina:&nbsp;<\/strong>Eu acho que sinto no corpo todo (risos). Sinto na cabe\u00e7a, porque eu estou sempre pensando, o que me leva a ter muitas perguntas, muitos porqu\u00eas. Eu n\u00e3o entendia como as contradi\u00e7\u00f5es podiam ser t\u00e3o reais e expl\u00edcitas e as pessoas n\u00e3o conseguiam ver. Acho que tem algo que \u00e9 de cada indiv\u00edduo, esse inc\u00f4modo, essa indigna\u00e7\u00e3o, que nem todo mundo tem, mas n\u00f3s, negras e negros, sentimos, todas n\u00f3s. Pra mim, minha indigna\u00e7\u00e3o vem da necessidade de transformar aquilo que eu estou vendo. Eu sempre achei que podia ser diferente e que podia mudar. E, mais ainda, que eu precisava fazer alguma coisa pra mudar. Isso aconteceu com o pr\u00e9-vestibular, com a alfabetiza\u00e7\u00e3o para os jovens e adultos, com o trabalho, com as mulheres\u2026 Foi quando comecei a ter retorno dessas pessoas. \u00c9 como despertar e enxergar detalhes, porque, culturalmente, a gente culpa a v\u00edtima, aquela que sofre a viol\u00eancia por estar sendo oprimida, e n\u00e3o o sistema que produz a opress\u00e3o. \u00c9 um inc\u00f4modo que d\u00e1 no corpo todo, tanto por ficar parada, quanto por fazer algo. Tudo gera dor, mas depende do lugar em que voc\u00ea escolhe estar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"7688\">Este texto \u00e9 parte do livro&nbsp;<a href=\"http:\/\/biblioteca.pacs.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/AFortalezaDasMulheres-1.pdf\"><strong>\u201cA Fortaleza das Mulheres\u201d<\/strong><\/a>&nbsp;(2020), uma parceria entre o Instituto Pacs e Gizele Martins, comunicadora comunit\u00e1ria da favela da Mar\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Marina Ribeiro Educadora popular e cientista social de forma\u00e7\u00e3o, Marina dos Santos Ribeiro, 45, \u00e9 mulher negra, perif\u00e9rica e m\u00e3e de tr\u00eas filhos. Nascida no centro da cidade do Rio, foi em Campo Grande, na periferia da Zona Oeste, que construiu a sua vida, sua fam\u00edlia e sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. 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