{"id":430,"date":"2021-05-14T17:35:06","date_gmt":"2021-05-14T20:35:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=430"},"modified":"2021-05-14T17:35:06","modified_gmt":"2021-05-14T20:35:06","slug":"territorios-sentidos-o-encontro-com-o-rio-xingu-e-com-um-projeto-de-mortes","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/territorios-sentidos-o-encontro-com-o-rio-xingu-e-com-um-projeto-de-mortes\/","title":{"rendered":"Territ\u00f3rios Sentidos: o encontro com o Rio Xingu e com um projeto de mortes"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"e823\"><strong><em>Por Marina Pra\u00e7a, educadora popular e coordenadora do Instituto Pacs<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>*Relato dos sentires em um territ\u00f3rio percorrido em novembro de 2019 \u2014 texto escrito h\u00e1 seis meses atr\u00e1s, poss\u00edvel que alguns eventos sejam demarcados em um tempo passado, mas o projeto de morte e o vivido nos corpos territ\u00f3rios segue vivos, apesar das poucas condi\u00e7\u00f5es para tal. Para informa\u00e7\u00f5es mais atualizadas, acesse a reportagem do Movimento Xingu Vivo para Sempre, parceiro do Instituto Pacs e que me recebeu no recorrido em 2019:&nbsp;<a href=\"https:\/\/xinguvivo.org.br\/2020\/03\/06\/o-xingu-colapsou-e-sobrevida-do-povo-esta-se-inviabilizando-denunciam-guardioes\/\">O Xingu colapsou e a sobrevida do povo est\u00e1 se inviabilizando.<\/a><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_Q_DBJ11QOkegvLNdQqnwlg-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-433\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_Q_DBJ11QOkegvLNdQqnwlg-1024x682.jpeg 1024w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_Q_DBJ11QOkegvLNdQqnwlg-300x200.jpeg 300w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_Q_DBJ11QOkegvLNdQqnwlg-768x512.jpeg 768w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_Q_DBJ11QOkegvLNdQqnwlg-1536x1024.jpeg 1536w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_Q_DBJ11QOkegvLNdQqnwlg-2048x1365.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"25b2\">Imposs\u00edvel n\u00e3o voltar de Altamira sem l\u00e1grimas duras, submersas em raiva, dor, ang\u00fastia. Imposs\u00edvel voltar das margens do Rio Xingu, da regi\u00e3o da Volta Grande do Xingu, sem o cora\u00e7\u00e3o apertado, sem ter perdido um pouco da vida que corre por dentro. Que a Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte do cons\u00f3rcio Norte Energia S.A era um dos maiores erros da hist\u00f3ria, a express\u00e3o dura e crua da crueldade e gan\u00e2ncia humana, eu j\u00e1 tinha entendido. Mas n\u00e3o sabia, antes de vir aqui, que essa \u00e9 uma das express\u00f5es mais evidentes do que \u00e9 um Projeto de Morte, um gigante projeto de diversas mortes,\u00a0<a href=\"https:\/\/xinguvivo.org.br\/2019\/11\/26\/nota-de-protesto-malditos-sejam-os-que-festejam-belo-monte\/\">festejado por muitos desta desumanidade que vivemos.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p id=\"5092\">Vivemos aqui a Morte do Rio Xingu, a morte de milhares de esp\u00e9cies de PEIXES, a morte da floresta no entorno, a morte da forma de vida de ribeirinhos, pescadores, ind\u00edgenas, e a morte das pessoas que viviam e vivem nessa casa-corpo-territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"869a\">Parece que nada importa: estudos, pesquisas, certezas de que \u00e9 e sempre foi um ERRO. A tal da ci\u00eancia, t\u00e3o inquestion\u00e1vel, no caso da Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte foi deixada de lado. Indo para o argumento mais raso. Desde o in\u00edcio sabia-se que a capacidade produtiva da Usina era pequena para o tamanho do investimento, desde antes sabia-se que os per\u00edodos de seca do Rio Xingu tornavam o empreendimento um perigo, os estudos j\u00e1 apontavam que dificilmente o Rio sobreviveria a essa barragem.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9cee\">Quase n\u00e3o h\u00e1 mais peixe. O pouco que tem est\u00e1 magro e deformado. Os pescadores e as pescadoras n\u00e3o tem mais como produzir e reproduzir suas vidas. Cria-se todos os tipos de formas de conseguir algo para seguir vivendo. Mas j\u00e1 tem fam\u00edlias passando fome. Perderam suas formas de vida \u2014 por completo. O Rio se tornou turvo, sem vida, n\u00e3o se pode mais consumir a \u00e1gua e, em pouco tempo, nem mais poder\u00e3o nele se banhar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0767\">Este n\u00e3o \u00e9 um projeto produtor de mortes?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/max\/12000\/1*pOBQJejqoPb5yRcWh7JcXA.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption>Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"3afd\">Em 2019, mais de 10 anos depois do in\u00edcio do projeto, a Norte Energia, em decreto oficial, vem pedir apoio do Estado \u2014 o mesmo que permitiu que esse CRIME ocorresse e apoiou desde o in\u00edcio o ecoc\u00eddio que geraria um genoc\u00eddio \u2014 ao anunciar \u00e0 Ag\u00eancia Nacional das Aguas(ANA) que h\u00e1 possibilidade do rompimento da Barragem de Pimental. Agora, n\u00e3o sabem o que fazer. O crime foi&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/08\/politica\/1573170248_680351.html\">anunciado<\/a>. N\u00e3o h\u00e1 nenhum plano.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6046\">Na Vila do Bambu \u2014 comunidade as margens da Volta Grande do Xingu \u2014 a primeira que ser\u00e1 destru\u00edda, caso ocorra o rompimento, j\u00e1 existem placas de evacua\u00e7\u00e3o, sirenes, pontos de encontro e etc. A comunidade que vive nesse momento o pavor constante, o medo e o desespero, se indigna e de raiva falam: \u201cquerem que nos encontremos para morrer juntos?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2638\">Quem acredita ainda que h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es dentro desse sistema, desse modelo de desenvolvimento capitalista, racista e patriarcal, deveria vir at\u00e9 Altamira, na comunidade de Belo Monte, na Vila de Canari, no Bambu, na Volta Grande do Xingu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1eab\">Invista na constru\u00e7\u00e3o de um olhar verdadeiramente humano. Venha conversar com Dona F\u00e1tima, Sarah, Dona Ana, Ana Ala\u00edde, Dona Ant\u00f4nia e tantas outras pessoas. Venha sentir a transforma\u00e7\u00e3o do clima vivido nessa \u00e1rea, sentir na pele o tal do aquecimento global. Venha \u00e0 margem de um Rio gigante, lindo (ainda) e n\u00e3o tenha a possibilidade de comer um peixe. Se veja comendo frango industrial cheio de horm\u00f4nios a margem de um dos maiores rios da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5755\">Sente na beira do Rio Xingu e se permita escut\u00e1-lo. O que ele tem para lhe contar. Se silencie e escute. Se permita escutar os gritos de socorro do Xingu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cbbe\">Passei quatro dias por aqui, parece pouco, mas foi vida. Em Altamira, Belo Monte e Vila Canari. Compartilhando hist\u00f3rias, olhares, sentimentos e indigna\u00e7\u00e3o com mulheres, principalmente, sobre o direito \u00e0 vida em meio a megaprojetos de mortes. Nesse grande encontro de pouco tempo rel\u00f3gio, mas muito tempo-exist\u00eancia, estiveram presentes em trocas, os Mundurukus, Gamelas, Borari e outras comunidades ribeirinhas, garimpeiros artesanais, agricultores, quilombolas do Xingu, do Tapaj\u00f3s e outros cantos de vida. Homens e mulheres em luta permanente contra a coloniza\u00e7\u00e3o dos corpos e mentes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8a93\">Aqui se aprende com o corpo. Os olhos, a escuta, o sentir, ao se espelhar como o Xingu e se ver no outro, o se entramar sendo v\u00e1rios em um s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9051\">Nas margens do Xingu compartilhamos a Oficina Secas e Mulheres Rios sentindo o calor at\u00edpico comentado por todas, o megaprojeto de morte tamb\u00e9m alterou o clima local. Na Vila Canari \u00e9ramos mais de 40 mulheres, que juntas cozinhavam, conversavam, pintaram, contaram hist\u00f3ria, e compartilharam vida em meio \u00e0 morte. Todas falavam da falta de condi\u00e7\u00f5es de manter suas fam\u00edlias. Contavam da ruptura de seus modos de subsist\u00eancia e das possibilidades de sorrir banhando no Rio e sentindo o ar fresco que quase n\u00e3o circula mais. O que percorria a cabe\u00e7a era: como essas mulheres tem for\u00e7as para seguir? Como elas, as que garantem a vida de suas fam\u00edlias, conseguem fazer isso sem rio, sem peixe, sem sorrisos?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"abdf\">No seguinte as escutas seguiram, conversas e o sentir nas Margens do Xingu em Altamira, escutando os ensinamentos negros, ind\u00edgenas e dos povos da floresta e do rio, vivos e encantados. Ao ver surgimento dos n\u00facleos xinguenses para construir um comit\u00ea popular da bacia hidrogr\u00e1fica do Xingu<a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/territ%C3%B3rios-sentidos-o-encontro-com-o-rio-xingu-e-com-um-projeto-de-mortes-d6f80cfbe18#_ftn1\">[1]<\/a>. No \u00faltimo, um grande encontro, \u201c<a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/pt-br\/blog\/blog-do-xingu\/indigenas-ribeirinhos-jovens-e-cientistas-no-centro-do-debate-sobre-o-futuro-da-amazonia\">Amaz\u00f4nia \u2014 Centro do mundo<\/a>\u201d daqueles que sentimos um pouco menos, pois nos misturamos tanto, que fica dif\u00edcil decifrar as coisas, mas bom para escutar os grandes, ver os entramados pol\u00edticos existentes, ver os inimigos presentes e aflitos com a pot\u00eancia dos encontros (sim, haviam infiltrados querendo combater nossas for\u00e7as e gerar o conflito).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ffdf\">Assim, \u00e9 para seguir, de m\u00e3os dadas com tantos e distante de tantos outros. Tem militante que se alimenta de conflito, da a\u00e7\u00e3o direta, do enfrentamento. Eu fa\u00e7o uma sauda\u00e7\u00e3o, das mais verdadeiras, a eles. Precisamos de gente guerreira, disposta a guerra. Eu n\u00e3o sou dessas, talvez tenha tentado ser em algum momento. Acreditando que poderia, queria, achando que era mais digna ser assim. Eu quero dist\u00e2ncia dos que me fazem mal. Dos que destroem vidas e que matam a mim e tantas irm\u00e3s e irm\u00e3os por dentro. Nos mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"425d\">Tenho medos, ang\u00fastias e me sinto fraca. Como n\u00e3o desistir da luta? Como respirar em meio a tanta destrui\u00e7\u00e3o? Como sobreviver num mundo que as mortes se multiplicam, e tantos d\u00e3o suporte a isso? Como sobreviver as mortes das formas de reprodu\u00e7\u00e3o da humanidade?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1067\">Mas a\u00ed tamb\u00e9m est\u00e1 nossa ruptura. No viver diferente, nas brechas, no produzir vida em paralelo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. No n\u00e3o aceitar certos disciplinamentos e maneiras impostas aos nossos corpos e din\u00e2micas sociais. Construir um corpo livre e sadio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"730e\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/territ%C3%B3rios-sentidos-o-encontro-com-o-rio-xingu-e-com-um-projeto-de-mortes-d6f80cfbe18#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;Para saber mais dos n\u00facleos e o que eles vem realizando:&nbsp;<a href=\"https:\/\/xinguvivo.org.br\/2019\/11\/21\/comunidades-do-medio-xingu-se-mobilizam-contra-impactos-em-seus-territorios\/\">https:\/\/xinguvivo.org.br\/2019\/11\/21\/comunidades-do-medio-xingu-se-mobilizam-contra-impactos-em-seus-territorios\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marina Pra\u00e7a, educadora popular e coordenadora do Instituto Pacs *Relato dos sentires em um territ\u00f3rio percorrido em novembro de 2019 \u2014 texto escrito h\u00e1 seis meses atr\u00e1s, poss\u00edvel que alguns eventos sejam demarcados em um tempo passado, mas o projeto de morte e o vivido nos corpos territ\u00f3rios segue vivos, apesar das poucas condi\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":433,"template":"","material-category":[3],"class_list":["post-430","material","type-material","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","material-category-texto"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material"}],"about":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/material"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/430\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":434,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/430\/revisions\/434"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/433"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"material-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material-category?post=430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}