{"id":436,"date":"2021-05-14T17:55:50","date_gmt":"2021-05-14T20:55:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=436"},"modified":"2021-05-14T17:55:50","modified_gmt":"2021-05-14T20:55:50","slug":"o-estado-mata-antes-de-apertar-o-gatilho","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/o-estado-mata-antes-de-apertar-o-gatilho\/","title":{"rendered":"O Estado mata antes de apertar o gatilho"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"890a\"><strong><em>Por Buba Aguiar, do Coletivo Fala Akari, da Favela de Acari, zona norte do Rio de Janeiro<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"a8a8\">A militariza\u00e7\u00e3o dos corpos marginalizados vem ganhando propor\u00e7\u00e3o cada vez maior. Podemos enxergar isso pelo modus operandi da atua\u00e7\u00e3o policial nas favelas e periferias. O estado brasileiro \u00e9 o principal respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do pensamento de que h\u00e1 uma classe de \u201ccorpos mat\u00e1veis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"940\" height=\"788\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_XOY6_tVsjhYHVFXSFhTYkg.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-438\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_XOY6_tVsjhYHVFXSFhTYkg.png 940w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_XOY6_tVsjhYHVFXSFhTYkg-300x251.png 300w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_XOY6_tVsjhYHVFXSFhTYkg-768x644.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><figcaption>Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"5cb3\">Vivemos sob tutela de um estado policialesco que atua pelos interesses das classes dominantes em detrimento dos direitos do povo, e a militariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios favelados \u00e9 um mecanismo utilizado para manuten\u00e7\u00e3o e perpetua\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios de quem j\u00e1 os t\u00eam e para o controle dos indiv\u00edduos vistos \u00e0 margem da pir\u00e2mide social.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4fb6\">A tortura, por exemplo, \u00e9 um resqu\u00edcio n\u00e3o somente da \u00e9poca de ditadura militar, mas da \u00e9poca da escravatura, quando diversos procedimentos eram usados para punir indiv\u00edduos que n\u00e3o se encaixavam nos padr\u00f5es sociais da \u00e9poca, ou seja, os negros escravizados, indiv\u00edduos que eram objetificados e animalizados. O estado, ainda hoje, usa de tais mecanismos para punir, de diversas formas, aqueles que s\u00e3o constru\u00eddos como \u201co inimigo\u201d: a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4ff5\">Por\u00e9m, a v\u00edtima da viol\u00eancia do estado n\u00e3o \u00e9 somente o indiv\u00edduo diretamente atravessado por ela. \u00c9 tamb\u00e9m, por exemplo, a m\u00e3e que 20 chora por seu filho executado em opera\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9f1b\">Todo o aparato usado pelo estado nas opera\u00e7\u00f5es policiais, que violam os direitos do povo favelado, \u00e9 digno de situa\u00e7\u00e3o de guerra, al\u00e9m do discurso para o uso de tais ferramentas, o da \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, ser falacioso e com vi\u00e9s explicitamente racista, ainda tem o fato de que os dois lados mais vistos nessa chamada guerra, agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica e varejistas de drogas, n\u00e3o est\u00e3o em p\u00e9 de igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"40f7\">O in\u00edcio do uso de grandes ve\u00edculos blindados, conhecidos como caveir\u00f5es, se d\u00e1 na \u00c1frica do Sul, no regime do apartheid, para interven\u00e7\u00f5es nos guetos, em 1948. Podemos dizer que a finalidade do uso, l\u00e1 e aqui, \u00e9 a mesma: pol\u00edtica de segrega\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio. Oficialmente, o caveir\u00e3o deveria ser usado somente para apoio em opera\u00e7\u00f5es e resgate de policiais feridos durante as mesmas, por\u00e9m o uso do carro blindado \u00e9 de combate.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c57d\">Em 2014, o estado do Rio de Janeiro ganhou oito novos caveir\u00f5es para as Pol\u00edcias Civil e Militar. Os carros, fabricados por uma empresa sul-africana, foram colocados para uso na mesma semana em que chegaram ao Rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9e59\">Geralmente de cor preta, carrega na lateral a imagem de uma caveira brava que tem uma adaga cravada e duas armas cruzadas, e j\u00e1 chegou a ter alto falantes adaptados que anunciavam de forma macabra a chegada do blindado nas favelas, o caveir\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo mais adequado para falar de terrorismo de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"03c4\">A viol\u00eancia urbana \u00e9 parte, de forma proposital, da agenda pol\u00edtica que nos cerca. \u00c9 necess\u00e1ria a an\u00e1lise do aumento da viol\u00eancia urbana, principalmente na perpetua\u00e7\u00e3o do Estado como monopolizador da viol\u00eancia na sociedade, e instaurando a base para uma so- 21 ciabilidade violenta o Estado tem nas m\u00e3os a desculpa perfeita para o controle e a vigil\u00e2ncia da massa, com foco nas favelas e periferias do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b95f\">\u00c9 importante tamb\u00e9m expor a semelhan\u00e7a entre as opress\u00f5es orquestradas contra o povo em outros pa\u00edses, como a Palestina. O Brasil \u00e9, por exemplo, um dos principais compradores de tecnologia e treinamento militar israelense, ou seja, o Brasil \u00e9 um dos maiores clientes da ind\u00fastria de armas de Israel. Os instrumentos usados no genoc\u00eddio do povo palestino s\u00e3o os mesmos usados pelo Estado brasileiro contra o povo pobre e favelado. Isso poderia ser apenas uma compara\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o fosse o fato de que a Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro e o Ex\u00e9rcito brasileiro tiveram renova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e b\u00e9lica importada das For\u00e7as Armadas Israelenses.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f8d8\">O Estado age atrav\u00e9s da pol\u00edtica do medo em rela\u00e7\u00e3o aos moradores de favelas. Essa pol\u00edtica \u00e9 posta em pr\u00e1tica de v\u00e1rias formas, n\u00e3o apenas com o uso de seu bra\u00e7o repressor, a Pol\u00edcia Militar, mas tamb\u00e9m com a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas nesses lugares. Al\u00e9m de toda precariedade que o estado nos imp\u00f5e, nos matando, ora de pouco em pouco, ora de forma expressa. Quando uma pessoa \u00e9 morta numa favela, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o afeta apenas \u00e0 fam\u00edlia, mas a toda a comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"04e5\">As marcas da viol\u00eancia do estado podem ser notadas nas pessoas que sofrem essa viol\u00eancia, n\u00e3o apenas fisicamente, mas tamb\u00e9m psicologicamente. Quem tem proximidade com as pessoas mortas pela pol\u00edcia podem entrar num processo de luto intermin\u00e1vel. Assim como quem \u00e9 agredido pelos policiais pode entrar num processo de revolta sem fim. Mas todo aquele que vive um cotidiano de viola\u00e7\u00f5es de direitos por parte do Estado, mais cedo ou mais tarde, pode vir a apresentar danos psicol\u00f3gicos. E diante das sucessivas viol\u00eancias vivenciadas por n\u00f3s, povo das favelas, n\u00e3o seria diferente com a gente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ff5e\">Entre o final de 2016 e o come\u00e7o de 2017 dei uma relaxada no meu tratamento terap\u00eautico. Por\u00e9m desde o in\u00edcio do m\u00eas de janeiro desse ano a Favela de Acari, onde moro, assim como v\u00e1rias outras favelas, sofreu com in\u00fameras opera\u00e7\u00f5es policiais nas quais os agentes sempre praticam absurdas viola\u00e7\u00f5es e abusos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a036\">Com isso, percebi um aumento, tanto na frequ\u00eancia quanto na in- 24 tensidade, das minhas crises de ansiedade. Meu organismo altera os padr\u00f5es fisiol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos no modo de reagir a esse cotidiano de mortes, de sangue escorrendo, e de m\u00e3es, filhas, primas, irm\u00e3s e esposas chorando.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e0cc\">Tais rea\u00e7\u00f5es geram preocupantes tens\u00f5es corporais. Alguns profissionais da sa\u00fade dizem que a ansiedade pode colaborar, por nos colocar num estado de aten\u00e7\u00e3o e alerta nos protegendo de poss\u00edveis perigos. Mas como lidar com isso quando vivemos sob constante perigo, amea\u00e7a e viol\u00eancia vindas de um agente visto como intoc\u00e1vel, como \u00e9 o estado, especialmente seu bra\u00e7o armado?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ae1a\">Nossa mente conhece nossos medos e quando eles parecem ser distantes fantasmas, ela trata de faz\u00ea-los presentes. Certa vez estava no meu trabalho formal e ouvi o barulho dos fogos que anunciam a chegada da pol\u00edcia na favela. Aquilo desencadeou uma forte crise de ansiedade. Somente depois de algumas horas, quando j\u00e1 estava mais calma, descobri que n\u00e3o haviam soltado fogos. Minha mente foi quem soltou meus fantasmas, num momento totalmente inesperado. E assim se tornam frequentes os calafrios, a sensa\u00e7\u00e3o de aperto no peito, as palpita\u00e7\u00f5es, os tremores, as n\u00e1useas, a falta de ar, v\u00f4mitos, tonturas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b89b\">Em graus elevados, a ansiedade acarreta uma s\u00e9rie de problemas no que se refere \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica de quem sofre do transtorno. As dificuldades para dormir e os pesadelos est\u00e3o entre esses problemas, e tamb\u00e9m est\u00e3o entre os que detectei em mim. E piorou de uns tempos pra c\u00e1, visto que tem havido v\u00e1rias incurs\u00f5es policiais com trocas de tiros durante a noite, e tamb\u00e9m a pr\u00e1tica da tr\u00f3ia pelos policiais, que \u00e9 quando eles ficam escondidos em alguma casa na favela por horas at\u00e9 atacarem de surpresa sem uma opera\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"58ae\">Num outro momento da minha vida, estive em acompanhamento nutricional para conseguir ganhar alguns poucos quilos e chegar ao peso ideal para meu IMC (\u00cdndice de Massa Corporal), por\u00e9m uma outra consequ\u00eancia da ansiedade s\u00e3o os dist\u00farbios alimentares. Com isso, os quilos que deveria ganhar, eu perdi.As dores de cabe\u00e7a e nas costas se tornaram companhias constantes, juntamente com a falta de \u00e2nimo para sair e estudar. O cansa\u00e7o tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e9d8\">E a vida se torna quase uma maratona di\u00e1ria que quando eu termino me sinto merecedora de uma medalha: tomar caf\u00e9 correndo para sair enquanto ainda n\u00e3o entraram, perder a fome no almo\u00e7o porque ainda est\u00e3o na favela e humilhando moradores. N\u00e3o ir para faculdade, ou porque est\u00e1 ocorrendo opera\u00e7\u00e3o, ou porque o hor\u00e1rio de sa\u00edda da faculdade \u00e9 tarde e corro o risco de ser baleada numa emboscada deles. Quando \u00e9 poss\u00edvel ir para faculdade, minimamente tranquila, ok. Mas como estudar ao som dos tiros, que muitas vezes s\u00e3o disparados a esmo pelos policiais?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2852\">Como sabemos que a causa de nossa dor \u00e9 um elemento p\u00fablico, os agentes do estado, a repara\u00e7\u00e3o dos danos causados deveria ser tamb\u00e9m p\u00fablica, incluindo atendimento cl\u00ednico, com terapias p\u00fablicas de qualidade. As terapias s\u00e3o de grande import\u00e2ncia para o autoconhecimento do indiv\u00edduo, no mapeamento do motivo que fez com que a pessoa desenvolvesse tal ou qual dist\u00farbio. Importante tamb\u00e9m para que a pessoa tenha uma vida de qualidade sabendo lidar com os gatilhos de suas crises.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fd61\">Mas como ter uma vida de qualidade quando a causa disso chuta os port\u00f5es com grossas botinas e diz gritando que chegou para levar sua alma?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9882\"><strong><em>O Estado consegue matar antes de apertar o gatilho.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"e402\">Este texto \u00e9 parte do livro&nbsp;<a href=\"http:\/\/biblioteca.pacs.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/AFortalezaDasMulheres-1.pdf\"><strong>\u201cA Fortaleza das Mulheres\u201d<\/strong><\/a>&nbsp;(2020), uma parceria entre o Instituto Pacs e Gizele Martins, comunicadora comunit\u00e1ria da favela da Mar\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Buba Aguiar, do Coletivo Fala Akari, da Favela de Acari, zona norte do Rio de Janeiro A militariza\u00e7\u00e3o dos corpos marginalizados vem ganhando propor\u00e7\u00e3o cada vez maior. 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