{"id":454,"date":"2021-05-14T18:28:33","date_gmt":"2021-05-14T21:28:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=454"},"modified":"2021-05-14T18:28:33","modified_gmt":"2021-05-14T21:28:33","slug":"rio-de-janeiro-historia-de-ocupacao-impactos-dos-megaprojetos-e-resistencia-pelo-olhar-de-sandra-quintela","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/rio-de-janeiro-historia-de-ocupacao-impactos-dos-megaprojetos-e-resistencia-pelo-olhar-de-sandra-quintela\/","title":{"rendered":"Rio de Janeiro: Hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o, impactos dos megaprojetos e resist\u00eancia pelo olhar de Sandra Quintela"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>*Mat\u00e9ria fruto de entrevista com Sandra Quintela, economista, educadora popular, integrante da Coordena\u00e7\u00e3o Am\u00e9rica Latina e Caribe da Rede Jubileu Sul e vice-presidenta do Instituto Pacs. O bate-papo foi realizado por Ana Luisa Queiroz e Yasmin Bitencourt, pesquisadoras e educadoras popular do Instituto Pacs, no escopo da #CampanhaMulheresTerrit\u00f3riosdeLuta. O texto foi escrito por Karoline Kina<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"6199\">Na hist\u00f3ria de desenvolvimento do Rio de Janeiro, marcada pela ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, a regi\u00e3o da Zona Oeste se destaca, principalmente por ser cobi\u00e7ada por suas grandes riquezas naturais e humanas. Atualmente, o local abriga os bairros mais populosos da cidade e os menores indicadores de desenvolvimento humano, \u00e9 o territ\u00f3rio da maior parte da popula\u00e7\u00e3o negra, de pescadores\/as tradicionais e marisqueiras, grupos esses que s\u00e3o diretamente impactados pela atua\u00e7\u00e3o dos megaprojetos e megaeventos na regi\u00e3o em suas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"767\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_HhZ-7X1kIlfnnji3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-455\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_HhZ-7X1kIlfnnji3.jpeg 767w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/0_HhZ-7X1kIlfnnji3-225x300.jpeg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 100vw, 767px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"b040\">Em dezembro de 2018, O Instituto Pacs lan\u00e7ou o livro \u201cVidas Atingidas \u2014 hist\u00f3rias coletivas de luta na Ba\u00eda de Sepetiba\u201d, que traz relatos de luta e resist\u00eancia nos territ\u00f3rios da Zona Oeste, expondo as viola\u00e7\u00f5es de direitos e os impactos socioambientais causados pela presen\u00e7a de portos, sider\u00fargicas, empresas de grande porte no entorno. Em 2016, a publica\u00e7\u00e3o \u201cAtingidas \u2014 Hist\u00f3ria de vida de mulheres na cidade ol\u00edmpica\u201d trouxe os impactos de outro tipo de megaempreendimento, os megaeventos, que possu\u00edam tamb\u00e9m a regi\u00e3o como palco. Apesar das consequ\u00eancias comprovadas, as vidas atingidas lidam com a invisibilidade dos impactos cotidianos e com a apropria\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, que interrompem suas rotinas e modos de produ\u00e7\u00e3o de viver, como explica Sandra Quintela: \u201cS\u00e3o essas pessoas an\u00f4nimas que, para n\u00f3s, fazem o milagre da vida acontecer no seu dia a dia, pescando, apanhando mariscos, sendo jovem, convivendo com a contradi\u00e7\u00e3o de viver em um bairro que n\u00e3o possui pol\u00edticas p\u00fablicas de ensino e educa\u00e7\u00e3o. Pessoas que se deslocam para grandes dist\u00e2ncias em busca de acesso a direitos b\u00e1sicos. Mulheres que fazem projetos de cartografia social ou que se lan\u00e7am sobre seus territ\u00f3rios para compreender e resistir a esses processos de viola\u00e7\u00f5es de direitos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"8db3\">Para Sandra, a cidade do Rio de Janeiro tem se afundado no \u201cmantra\u201d dos grandes investimentos, nacionais e estrangeiros, que na realidade n\u00e3o trouxeram e continuam n\u00e3o trazendo o tal \u201cdesenvolvimento\u201d: \u201cA gente tem aqui, a Companhia Sider\u00fargica do Atl\u00e2ncia -TKCSA (atual Ternium Brasil), que na \u00e9poca era o maior empreendimento alem\u00e3o fora da Alemanha, a maior sider\u00fargica do Brasil. A gente tem o COMPERJ, que era o maio complexo petroqu\u00edmico. A gente tem no Rio de Janeiro uma das maiores feiras de petr\u00f3leo&nbsp;<em>offshore<\/em>&nbsp;do mundo. Temos uma das maiores produ\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo do Brasil, e \u00e9 aqui no Rio de Janeiro. H\u00e1 uma s\u00e9rie de estatais importantes, que n\u00e3o propiciaram desenvolvimento integral e org\u00e2nico, nem do estado, nem da cidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"9d93\">N\u00e3o apenas a Zona Oeste, como toda a cidade do Rio de Janeiro tem sido frequentemente transformada nos \u00faltimos anos, principalmente pela reconfigura\u00e7\u00e3o urbana atrav\u00e9s de mega-obras, como destaca Sandra: \u201cTanto de transporte \u2014 no caso o BRT, que foi uma obra que os movimentos criticaram muito na \u00e9poca, porque n\u00e3o d\u00e1 conta dos desafios de uma cidade como o Rio de Janeiro \u2014 como na \u00e1rea da cultura \u2014 Museu do Amanh\u00e3 e outros \u2014 tamb\u00e9m criticados na \u00e9poca, por conta de que ali era uma regi\u00e3o onde se deu fortemente todo o processo de escravid\u00e3o e recebimento de trabalhadores escravizados. Uma regi\u00e3o hist\u00f3rica, que deveria trabalhar a mem\u00f3ria, se apaga a mem\u00f3ria e se projeta o amanh\u00e3?\u201d, questiona ela. Sandra tamb\u00e9m pontua o processo de privatiza\u00e7\u00e3o na cidade, desde o saneamento b\u00e1sico na Zona Oeste, at\u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o inteira, na \u00e1rea central e portu\u00e1ria da cidade, conhecido agora como Porto Maravilha. Todo esse contexto traz ainda a quest\u00e3o das remo\u00e7\u00f5es, da gentrifica\u00e7\u00e3o e do encarecimento da cidade, ocasionando a expuls\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es mais pobres dos centros, deixando um legado de cidade endividada, controlada pelo capital e militarizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"30c8\">Nesse contexto de militariza\u00e7\u00e3o da cidade, Sandra destaca ainda os patroc\u00ednios de entidades patrimoniais como as Opera\u00e7\u00f5es Seguran\u00e7a Presente (Lapa Presente, Aterro Presente, \u2026): \u201cNa medida que voc\u00ea investe em seguran\u00e7a privada, de alguma maneira voc\u00ea est\u00e1 investindo em mil\u00edcias, porque a mil\u00edcia ela se fortalece com a seguran\u00e7a privada. \u00c9 a seguran\u00e7a privada de ruas nas periferias, dos neg\u00f3cios, etc. Ent\u00e3o, obviamente, essas entidades empresariais que financiam esse policiamento privado, est\u00e3o investindo tamb\u00e9m num modelo de seguran\u00e7a, que n\u00e3o \u00e9 mais a p\u00fablica. \u00c9 a privada. E a seguran\u00e7a privada responde a quem? Aos interesses privados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"51ba\"><strong>Mulheres, viola\u00e7\u00f5es e resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"d05d\">Sobre os impactos de todos esses processos, para Sandra, n\u00e3o existe uma forma de se medir, mas \u00e9 poss\u00edvel notar os aumentos nos n\u00fameros de pessoas com depress\u00e3o, outros problemas de sa\u00fade, mortes e perdas de v\u00ednculos comunit\u00e1rios: \u201cH\u00e1 a perda dos lugares de refer\u00eancia, a perda da qualidade de vida em si. Porque a pessoa que vive em um lugar e \u00e9 removida, ela tem um dano para vida inteira. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para aquele per\u00edodo, aquele momento\u201d. Dos grupos mais impactados, considerando o contexto de sociedade racista, patrimonialista e mis\u00f3gina, ela destaca as mulheres, principalmente mulheres negras: \u201cQuando eu digo que o legado para a cidade foi a militariza\u00e7\u00e3o e a d\u00edvida, obviamente, isso cai principalmente sobre as costas das mulheres. Na minha opini\u00e3o, as mulheres s\u00e3o as mais impactadas nesse processo de gentrifica\u00e7\u00e3o, principalmente as mulheres negras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"22ff\">Apesar disso, de acordo com ela, as resist\u00eancias seguem lutando contra os violadores e viola\u00e7\u00f5es: \u201cAs resist\u00eancias foram m\u00faltiplas. A Vila Aut\u00f3dromo, por exemplo, com o seu&nbsp;<a href=\"https:\/\/museudasremocoes.com\/\"><strong>Museu das Remo\u00e7\u00f5es<\/strong><\/a>, \u00e9 um s\u00edmbolo bastante relevante desse processo de resist\u00eancia, e tantas outras comunidades que continuam resistindo. Eu acho que o Comit\u00ea Popular da Copa e das Olimp\u00edadas tamb\u00e9m foi um espa\u00e7o important\u00edssimo, nessas resist\u00eancias que j\u00e1 vinham l\u00e1 no Pan Americano\u201d. Sobre as mulheres, ela relembra momentos como a Primavera Feminista, em 2015, e o revigoramento do movimento feminista culminado pelo \u201cEle n\u00e3o\u201d, nas manifesta\u00e7\u00f5es em 2018: \u201cHoje, a data de 8 de mar\u00e7o voltou a ter muita for\u00e7a. Ao mesmo tempo, a resposta do sistema tamb\u00e9m \u00e9 muito forte. O feminic\u00eddio aumenta. Acho que \u00e9 esse fluxo, refluxo que a gente est\u00e1 trabalhando e que a gente precisa entender a din\u00e2mica da hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica, a hist\u00f3ria vai e vem, a hist\u00f3ria avan\u00e7a e retrocede, mas n\u00e3o est\u00e1 parada\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"247b\">Dessa forma, tem sido observado o aumento no n\u00famero de assassinatos, estupros e viol\u00eancias de todas as formas contra as mulheres. Sandra reafirma a ideia do corpo da mulher como um territ\u00f3rio de guerra: \u201cAs guerras, as cidades eram invadidas por tropas estrangeiras ou tropas inimigas e o que, muitas vezes, ocorria primeiro eram as viola\u00e7\u00f5es dos corpos das mulheres. O estupro em massa. Ent\u00e3o, \u00e9 essa express\u00e3o do corpo das mulheres como um territ\u00f3rio em disputa nas guerras, nesse processo que a gente vive. Obviamente, n\u00f3s n\u00e3o estamos em guerra, mas estamos vivendo aqui no Rio um genoc\u00eddio.\u201d Segundo ela, no pa\u00eds, h\u00e1 uma viol\u00eancia sist\u00eamica contra as popula\u00e7\u00f5es negras e contra os grupos mais empobrecidos, que s\u00e3o negros. Os dados evidenciam e expressam a maneira violenta e estruturante da viol\u00eancia contra as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"c01c\">\u201cEu n\u00e3o sei como vai ser nos pr\u00f3ximos 10 anos, se continuar essa explora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima. Vai ter um processo de adoecimento muito forte e com um sistema de sa\u00fade totalmente colapsando. N\u00e3o vejo futuro muito bom. A n\u00e3o ser que a gente se mobilize e lute para mudar tudo isso. As cidades s\u00e3o reflexos desse processo de sugamento, de for\u00e7a viva, do trabalho, da for\u00e7a viva da natureza\u2026 E as cidades refletem de maneira muito evidente essas desigualdades. O Rio de Janeiro \u00e9 um retrato disso\u201d, conclui Sandra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Mat\u00e9ria fruto de entrevista com Sandra Quintela, economista, educadora popular, integrante da Coordena\u00e7\u00e3o Am\u00e9rica Latina e Caribe da Rede Jubileu Sul e vice-presidenta do Instituto Pacs. O bate-papo foi realizado por Ana Luisa Queiroz e Yasmin Bitencourt, pesquisadoras e educadoras popular do Instituto Pacs, no escopo da #CampanhaMulheresTerrit\u00f3riosdeLuta. O texto foi escrito por Karoline Kina. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":455,"template":"","material-category":[3],"class_list":["post-454","material","type-material","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","material-category-texto"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material"}],"about":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/material"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/454\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":456,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/454\/revisions\/456"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/455"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"material-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material-category?post=454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}