{"id":507,"date":"2021-06-14T15:27:39","date_gmt":"2021-06-14T18:27:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=507"},"modified":"2021-06-14T15:27:39","modified_gmt":"2021-06-14T18:27:39","slug":"os-impactos-da-vale-s-a-em-cajamarca-peru-pelo-olhar-de-mirtha-villanueva","status":"publish","type":"material","link":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/os-impactos-da-vale-s-a-em-cajamarca-peru-pelo-olhar-de-mirtha-villanueva\/","title":{"rendered":"Os impactos da Vale S.A em Cajamarca (Peru), pelo olhar de Mirtha Villanueva"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*O texto foi escrito por Karoline Kina, com base na fala de Mirtha Villanueva, integrante das organiza\u00e7\u00f5es&nbsp;<a href=\"http:\/\/grufides.org\/\">GRUFIDES<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Defensoras-de-la-vida-y-la-Pachamama-141848413295589\/\">Defensoras de la Vida y de la Pachamama, de Cajamarca<\/a>&nbsp;(Peru), durante o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XXdpsz7Q9-M&amp;t=1470s\">s\u00e9timo Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/a>, cujo tema foi \u201cMulheres e territ\u00f3rios impactados pela Vale S.A\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu falo de Cajamarca, uma cidade que se localiza no norte peruano e tem 1 milh\u00e3o e meio de habitantes. Nos anos 1990, a atividade imperante era a agropecu\u00e1ria, mas com Fujimori, presidente do pa\u00eds at\u00e9 o ano de 2000, a minera\u00e7\u00e3o domina. A Cordilheira dos Andes, que passa por Cajamarca, possui nascentes de rios, que v\u00e3o \u00e0 Bacia Amaz\u00f4nica e \u00e0 Bacia do Pac\u00edfico, e eu diigo isso pela import\u00e2ncia que tem Cajamarca pela \u00e1gua que fornece \u00e0 floresta amaz\u00f4nica e \u00e0 costa do Peru.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos anos 2000, Tivemos uma amea\u00e7a com a Iniciativa para a Integra\u00e7\u00e3o da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), programa conjunto dos governos dos 12 pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, quando o ex-presidente Alan Garc\u00eda P\u00e9rez fez conv\u00eanio com o governo Lula para construir a Interoce\u00e2nica, conjunto de rodovias com o objetivo de ligar o Oceano Pac\u00edfico at\u00e9 o Brasil, no Norte, Centro e Sul do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 parte, estavam as hidroel\u00e9tricas, pois planejavam construir 21, segundo o conv\u00eanio ente os presidentes. Mas, felizmente, aqui em Cajamarca n\u00e3o sucumbimos, porque das 21 mega represas que iam instalar no Peru, 3 estavam em territ\u00f3rio cajamarquense. Segundo o que nos diziam, as constru\u00e7\u00f5es seriam realizadas para fornecer eletricidade para as comunidades que n\u00e3o tinham energia. Algo totalmente falso, pois as obras visavam beneficiar a minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fizemos uma forte defesa para que n\u00e3o houvesse essas hidrel\u00e9tricas. E ganhamos, n\u00e3o as constru\u00edram, porque veio todo o problema de corrup\u00e7\u00e3o com a Odebrecht. Ent\u00e3o, paralisaram a constru\u00e7\u00e3o, mas eles seguem insistindo em querer entrar no territ\u00f3rio. As rondas, que s\u00e3o uma estrat\u00e9gia da sociedade civil que se organiza, contam com os vigilantes das comunidades, para que essas empresas n\u00e3o se instalem aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, temos 35 projetos de minera\u00e7\u00e3o em Cajamarca. Al\u00e9m disso, muitas terras t\u00eam sido convertidas para agroexporta\u00e7\u00e3o, as terras da costa. Esses dois tipos de megaempreendimentos utilizam a \u00e1gua do subsolo. Na parte de Bambamarca, voc\u00eas ver\u00e3o rios que v\u00e3o \u00e0 floresta, rios vermelhos, rios verdes. H\u00e1 uma morte terr\u00edvel de rios! N\u00f3s estamos trabalhando com as comunidades e comit\u00eas de vigil\u00e2ncia ambiental para monitorar a qualidade da \u00e1gua dos rios atrav\u00e9s dos macroinvertebrados. A natureza \u00e9 t\u00e3o inteligente, t\u00e3o pr\u00f3diga, que h\u00e1 alguns desse organismos que n\u00e3o podem viver em \u00e1guas contaminadas, ent\u00e3o s\u00e3o indicadores. \u00c9 como um sistema de alarme precoce e trabalhamos isso com as comunidades e companheiras mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, no bairro de Condebamba, a mineradora Vale S.A quis se instalar, e em corrup\u00e7\u00e3o com o Estado, tentaram adentrar no segundo vale interandino com a maior biodiversidade do pa\u00eds, o Vale de Condebamba. Foi uma tentativa de instala\u00e7\u00e3o nesse local, em que houve, inclusive, criminalizados e criminalizadas. Tratou-se de tirar a mineradora pelos equ\u00edvocos e abusos que ela j\u00e1 havia cometido com as organiza\u00e7\u00f5es. E, agora, nesses lugares onde quiseram ingressar, se estabeleceu a minera\u00e7\u00e3o informal, contaminando os nossos rios.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/vale-peru-1024x683.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-508\" srcset=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/vale-peru-1024x683.jpeg 1024w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/vale-peru-300x200.jpeg 300w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/vale-peru-768x512.jpeg 768w, http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/vale-peru.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Renato Cosentino | Justi\u00e7a Global<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos problemas que enfrent\u00e1vamos quando \u00edamos em defesa desses territ\u00f3rios \u00e9 que havia muita criminaliza\u00e7\u00e3o, por parte da mineradora e do Estado, de defensoras e defensores. Ent\u00e3o, a Vale tinha gente camuflada na organiza\u00e7\u00e3o e que ia, tirava fotos, e reportava o que era dito. Temos registros feitos por companheiras sobre esse tipo de espionagem em nosso meio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por esse motivo, passamos a estimular e disseminar o jornalismo cidad\u00e3o, como uma op\u00e7\u00e3o para den\u00fancias comunit\u00e1rias, via r\u00e1dio, de viola\u00e7\u00e3o de direitos. Dessa forma, quando elas est\u00e3o em comunidades distantes e essas empresas fazem algo, h\u00e1 comunicadoras que fazem a den\u00fancia, e dessa forma temos nos defendido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gostaria de destacar tamb\u00e9m que, dentro de todo esse contexto, os impactos recaem intensamente sobre n\u00f3s, mulheres. Aqui, temos comunidades ind\u00edgenas de mulheres que falam apenas quechua. Muitas sofrem golpes e insultos quando v\u00e3o em defesa de suas terras e contra a minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse machismo perverso que existe, ainda mais nesses tempos de pandemia, se uma mulher campesina \u00e9 uma m\u00e3e solteira, vi\u00fava, ou que n\u00e3o casou, ela \u00e9 totalmente desamparada e violada em seus direitos, porque para semear, para cultivar a terra, \u00e9 preciso m\u00e3o de obra. Agora, h\u00e1 homens que v\u00e3o trabalhar nas minas por um tempo e depois voltam, e quando as mulheres solicitam essa m\u00e3o de obra, eles exigem pagamentos altos iguais os da mina, por um dia de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, as companheiras relatam press\u00f5es como essas na vida cotidiana. A condi\u00e7\u00e3o das mulheres e meninas, durante a pandemia, apenas se agravou, com o aumento tamb\u00e9m da viol\u00eancia dom\u00e9stica. S\u00e3o problemas psicol\u00f3gicos e espirituais que se desencadearam ou se agravaram com toda essa situa\u00e7\u00e3o. Nossas curandeiras n\u00e3o est\u00e3o podendo seguir seus rituais, as parteiras, tampouco atuar nas nossas comunidades atingidas por essas mineradoras. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 a gratid\u00e3o que davam \u00e0 M\u00e3e Terra, porque essas mulheres tinham seus costumes de agradecer pelas plantas medicinais, e essas cerim\u00f4nias n\u00e3o t\u00eam ocorrido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mineradora Vale, que fez t\u00e3o mal justamente ao local onde estou neste instante, em acordos com o Estado, com a pol\u00edcia, com fraudes, quis impor o projeto. Foram precisos anos de luta contra essa empresa. Agora, essa mineradora tem buscado adentrar em Ayacucho, na regi\u00e3o central do pa\u00eds. Os companheiros aqui de Cajamarca est\u00e3o em contato com os povos de l\u00e1 para fortalecer a defesa das terras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seguimos em resist\u00eancia, seguimos fortalecendo a capacita\u00e7\u00e3o das mulheres, seguimos falando de corpos e territ\u00f3rios, de como, enquanto mulheres, nos maltratam, e como estamos t\u00e3o ligadas ao corpo da M\u00e3e Terra. H\u00e1, assim, toda uma din\u00e2mica agora de forma\u00e7\u00e3o, de conversa, de di\u00e1logo, de saberes, para melhor poder entender, porque nos falta muito. Nunca estivemos na defesa de nada, era uma rela\u00e7\u00e3o corpo-territ\u00f3rio muito bonita, e agora eles nos v\u00eam contaminar. Ent\u00e3o, estamos fazendo com que o jornalismo cidad\u00e3o tamb\u00e9m possa ser poss\u00edvel, al\u00e9m dos comit\u00eas de vigil\u00e2ncia, que as mulheres vigiem e sejam protagonistas da defesa dos territ\u00f3rios. Essas s\u00e3o algumas das a\u00e7\u00f5es que estamos fazendo para lutar pelas nossas terras e nossas vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*O texto foi escrito por Karoline Kina, com base na fala de Mirtha Villanueva, integrante das organiza\u00e7\u00f5es&nbsp;GRUFIDES&nbsp;e&nbsp;Defensoras de la Vida y de la Pachamama, de Cajamarca&nbsp;(Peru), durante o&nbsp;s\u00e9timo Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, cujo tema foi \u201cMulheres e territ\u00f3rios impactados pela Vale S.A\u201d. 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