{"id":139,"date":"2021-05-06T12:18:55","date_gmt":"2021-05-06T15:18:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=139"},"modified":"2021-05-11T14:21:15","modified_gmt":"2021-05-11T17:21:15","slug":"139","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/139\/","title":{"rendered":"Teresa Boedo"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: Defensoras de direitos humanos na Am\u00e9rica Latina<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_b2yWQz8UtNzpJacmRB9qYg-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-142\" width=\"745\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_b2yWQz8UtNzpJacmRB9qYg-1.jpeg 414w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_b2yWQz8UtNzpJacmRB9qYg-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_b2yWQz8UtNzpJacmRB9qYg-1-360x202.jpeg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 745px) 100vw, 745px\" \/><figcaption>Foto: Iniciativa Mesoamericana de Mujeres Defensoras de Derechos Humanos<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"0a37\"><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado originalmente em duas partes no Medium e site do Instituto Pacs em 09\/06\/2020 e 08\/04\/2021<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5e08\">Tendo em vista o campo de debates\u00a0<strong>Mulheres e Megaprojetos<\/strong>, o Instituto Pacs tem realizado uma s\u00e9rie de entrevistas com mulheres lutadoras de diferentes territ\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina. Compartilharemos hoje um fragmento da entrevista realizada com Teresa Boedo, ativista feminista e defensora dos Direitos Humanos. Desde a Guatemala, Teresa \u00e9 tamb\u00e9m co-diretora da Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos. A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"184e\"><strong>PACS: O que \u00e9 luta para voc\u00ea e o que te move?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f813\">Teresa: Sou ativista desde muito&nbsp;jovem, natural da Galiza, uma regi\u00e3o no noroeste da Espanha. Tamb\u00e9m nasci em um lugar com muitos privil\u00e9gios, mas tamb\u00e9m com muitas desigualdades. Desde pequena estou no ativismo, minha forma\u00e7\u00e3o sempre me orientou a trabalhar com mulheres, desde muito jovem e de uma forma muito organizada, mas tamb\u00e9m muito necess\u00e1rio para mim. Sempre digo que o feminismo salvou minha vida, de muitas maneiras, mas tamb\u00e9m conseguiu me tirar de transes e enredos muito complexos. A aproxima\u00e7\u00e3o ao feminismo foi org\u00e2nica. Estive em diferentes espa\u00e7os, mais territoriais, mais espec\u00edficos, de diversidade sexual, de diversidade funcional. Tenho trabalhado muito com organiza\u00e7\u00f5es e povos origin\u00e1rios, e sempre estive em espa\u00e7os de articula\u00e7\u00e3o em redes e na luta pelos corpos das mulheres, por justi\u00e7a para as mulheres, pelo bem-esta. Isto \u00e9 construir um sonho emancipat\u00f3rio que nos permita viver coletivamente, n\u00f3s mulheres, e atender aos impactos e desgastes que este sistema patriarcal, racista e capitalista tem sobre nossos corpos, nossas emo\u00e7\u00f5es, mentes e energias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3b9a\">Bom, para mim a luta \u00e9 isso: articular, compartilhar, me enredar, pensar junto. \u00c9 construir uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre as mulheres. O feminismo sempre foi meu espa\u00e7o de luta, meu protetor, meu quadro pol\u00edtico e minha proposta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a483\">Tamb\u00e9m estou misturando minha carreira, ou seja, participei de diferentes processos de cria\u00e7\u00e3o de metodologias feministas, de sexualidades diversas, de processos multiculturais, de reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o conjunta, de fortalecimento institucional, de cria\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de pensamento pol\u00edtico. E mais recentemente estou entrando no tema da cura da viol\u00eancia estrutural, como o cuidado tem que ser uma pr\u00e1tica cotidiana, pol\u00edtica, cultural e organizacional para construir esse bem-estar, fortalecer as redes da vida, transformar mem\u00f3rias corporais, sist\u00eamicas, ancestrais, e dessa vida que todas n\u00f3s levamos, certo?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d197\"><strong>PACS: Ent\u00e3o, o feminismo est\u00e1 no centro da sua vida e luta? E a perspectiva do corpo, onde entra?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9c52\">Teresa: Bem, se eu sou uma feminista pela autonomia, liberdade e emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e procuro desmantelar, curar e destruir o sistema patriarcal heteronormativo como um paradigma onde todos os sistemas de opress\u00e3o se sobrep\u00f5em, o racista, o capitalista, etc.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3429\">E sobre o corpo, eu acho que o assunto do corpo aqui \u00e9 um \u00f3timo tema, na verdade. Em outras palavras, para mim \u00e9 um processo de constante transforma\u00e7\u00e3o e reencontro. Sempre digo que estou em um processo de reencontro constante comigo mesma. Ainda mais agora, no contexto de um ressurgimento da viol\u00eancia em nossos pa\u00edses, onde estamos sentindo mais os impactos de toda essa viol\u00eancia sist\u00eamica, o corpo assume uma posi\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria para mim, para minha luta e, portanto, para a luta de todas. Porque \u00e9 nele onde vemos muitos impactos e condi\u00e7\u00f5es que devem estar na base para a constru\u00e7\u00e3o da nossa proposta emancipat\u00f3ria, porque \u00e9 no corpo onde todos os impactos do trabalho, do ativismo se refletem na energia, emocional, intelectual, e a n\u00edvel f\u00edsico. E \u00e9 onde devemos come\u00e7ar a trabalhar. E para mim, colocar o corpo no centro, cuidar da vida, viver bem, ou seja, o corpo tem um papel fundamental, \u00e9 pe\u00e7a chave nesse sonho emancipat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3f78\"><strong>PACS: Onde est\u00e1 a arte em voc\u00ea e em suas coletividades? Quais pot\u00eancias a arte traz?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"fb90\">Teresa: No que diz respeito \u00e0 arte, me parece que cada vez mais estamos nos aproximamos de propostas art\u00edsticas capazes de transmitir esse sonho emancipat\u00f3rio que temos, porque n\u00f3s, mulheres, estamos ligadas \u00e0 capacidade de criar e a arte vem muito com essa habilidade, que sempre nos associou com a capacidade de criar vida. A energia criativa que as mulheres t\u00eam \u00e9 aquela que tem m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s da arte, certo? Acredito que sejam m\u00faltiplas ferramentas que nos ajudam a realizar nosso sonho emancipat\u00f3rio e nosso bem-estar. Porque \u00e9 por l\u00e1 que tamb\u00e9m nos permitimos deixar ir, nos expressamos e \u00e9 uma forma muito das mulheres, porque tamb\u00e9m implica coletivizar, implica deixar ir, implica cura.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a77b\"><strong>PACS: Em seu corpo, de onde voc\u00ea sente que vem a sua for\u00e7a e onde voc\u00ea sente mais o impacto, a dureza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9560\">Teresa: Acho importante falar nisso, eu tenho endometriose, que \u00e9 supostamente uma doen\u00e7a que dizem que \u00e9 cr\u00f4nica. Eu resistia muito em aceitar isso e tive que trabalhar muito nessa condi\u00e7\u00e3o. Mas para mim, tudo realmente se manifesta no \u00fatero, primeiro se manifesta l\u00e1, nas genitais. Sinto tamb\u00e9m dores de cabe\u00e7a e enxaquecas e toda a quest\u00e3o da indigest\u00e3o que tem a ver com n\u00e3o ser capaz de digerir tanta merda \u2026 abarriga incha, diarreia constantemente e, al\u00e9m disso, dores musculares, ombros, cotovelos, articula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5d48\"><strong>PACS: E sua for\u00e7a, vem de onde?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"532b\">Teresa: Coincidentemente, tamb\u00e9m vem do \u00fatero. \u00c9 o ponto mais vulner\u00e1vel, mas ao mesmo tempo \u00e9 o mais forte, porque \u00e9 nele que me recupero, \u00e9 onde me torno ciente, \u00e9 onde recupero a minha for\u00e7a criadora.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3cd9\"><strong>PACS: Como voc\u00ea se cuida, o que \u00e9 cuidado para voc\u00ea? Como voc\u00ea v\u00ea o cuidado? O que te deixa doente e o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c376\">Teresa: Neste momento, me sinto muito desafiada a esse n\u00edvel, devido ao stress e responsabilidade com o que lidamos. Estou em um momento no qual tenho que fazer muitos ajustes no meu dia a dia para ficar minimamente saud\u00e1vel. Neste processo de reflex\u00e3o, porque o que quero dizer \u00e9 que n\u00e3o fiz tudo, longe disso, para mim \u00e9 um processo de reflex\u00e3o constante. O cuidado tem que ser algo cotidiano e que necessita ser trabalhado em diferentes n\u00edveis. Pessoalmente, estou trabalhando na minha nutri\u00e7\u00e3o como um dos primeiros elementos que me causam cuidado e bem-estar. Estou trabalhando no n\u00edvel corporal, preciso caminhar, correr, nadar, fazer algum tipo de massagem, etc. Quer dizer, estou dizendo a voc\u00ea como dimens\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 que eu pratico tudo, quem dera! Essa dimens\u00e3o, aquela primeira da comida e do corporal, que diz respeito ao corpo por fora e ao corpo por dentro, tem a ver com um trabalho emocional, preciso de um acompanhamento terap\u00eautico, seja transpessoal, terapia integrativa, algum tipo de terapia emocional que me permita colocar tudo no seu lugar, ter um espa\u00e7o para catarse, etc. Conhecer meus medos, minhas frustra\u00e7\u00f5es, minhas emo\u00e7\u00f5es. Tenho que trabalhar no n\u00edvel energ\u00e9tico e isso \u00e9 algo que sempre esquecemos e acredito que os povos origin\u00e1rios continuam nos ensinando e nos dando ferramentas nesse sentido. Em outras palavras, h\u00e1 uma quest\u00e3o do campo de energia, do espa\u00e7o vital, da energia da sua casa, do seu espa\u00e7o de trabalho, e tal, que temos que seguir\u2026 Que preciso trabalhar nesse n\u00edvel. Limpar a casa, limpar o espa\u00e7o, tomar banho de arruda, fazer algum tipo de aspers\u00e3o, seguindo o calend\u00e1rio maia, certo? Atender \u00e0s energias do momento, t\u00ea-las presentes, faz\u00ea-las conscientes, entender que n\u00e3o sou o centro do mundo, que existe um sistema que est\u00e1 aqui funcionando, que \u00e9 uma energia que devemos honrar e agradecer.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4021\">Ent\u00e3o, para mim, o cuidado tamb\u00e9m tem a ver com estabelecer limites no trabalho, no ativismo, na luta, porque a gente tem a tend\u00eancia de nos abandonar, de nos desgastar. Eu falo porque eu fa\u00e7o constantemente. Na sexta-feira passada fiquei louca, n\u00e3o parei e meu corpo me impediu com c\u00f3licas menstruais, porque meu \u00fatero sabe quando n\u00e3o aguento mais, mas eu continuo e continuo, meu \u00fatero me diz \u201cEu vou pegar voc\u00ea com uma mega c\u00f3lica para voc\u00ea ter que parar um pouco.\u201d E a\u00ed est\u00e1 quando entra com todo esse poder que n\u00e3o h\u00e1 escolha sen\u00e3o fazer, ent\u00e3o me obriga a abaixar meu corpo, me obriga a parar e por limites. Ou seja, no plano intelectual e mental, aprender a colocar limites para trabalhar, saber dizer n\u00e3o, saber dizer sim ao que \u00e9 bom para mim, saber quando tenho que parar, continuar aprofundando com esse conhecimento, aclarar sobre o que me faz bem e o que n\u00e3o me faz bem.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"afb2\">Ter cuidado se n\u00e3o trabalho em todas essas dimens\u00f5es, por mais que ande meia hora por dia, n\u00e3o \u00e9 o suficiente para mim. Pra mim \u00e9 uma quest\u00e3o integral, tem que ser do dia a dia, agora estou conseguindo refletir sobre isso e ter mais din\u00e2mica, porque dentro das organiza\u00e7\u00f5es a gente precisa coloca o cuidado no centro, entre as companheiras e de cada uma para si mesmas, isso \u00e9 urgente\u2026<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8b85\">Tamb\u00e9m num trabalho virtual que a gente faz, como cuidar, porque n\u00e3o estou olhando para voc\u00ea, como respeitar os limites umas das outras\u2026 tamb\u00e9m tomar cuidado nesse sentido\u2026 e como continuar nos fazendo tema de discuss\u00e3o porque precisamos do apoio das nossas organiza\u00e7\u00f5es para nos conscientizarmos disso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e396\">Bom, para mim, cuidar \u00e9 um ato de justi\u00e7a, que tem a ver com estar no mundo, cuidar da vida.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"f443\"><strong>PACS<\/strong>: <strong>Voc\u00ea pode falar de maneira geral sobre o contexto centro-americano em rela\u00e7\u00e3o aos megaprojetos, sua forma de opera\u00e7\u00e3o, impactos e as rela\u00e7\u00f5es de poder que sustentam esses empreendimentos?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p><strong>Teresa:<\/strong>&nbsp;Ent\u00e3o, o que eu queria aportar a respeito do aprofundamento do modelo extrativista na regi\u00e3o e dessa necropol\u00edtica a qual estamos submetidas, \u00e9 que h\u00e1 efeitos de viol\u00eancia, de despojo, de deslocamento for\u00e7ado e repress\u00e3o cada vez mais elevados contra comunidades inteiras, sobretudo comunidades ind\u00edgenas, campesinas, afrodescendentes. Isso \u00e9 uma tend\u00eancia em que a viol\u00eancia \u00e9 progressivamente maior e est\u00e1 for\u00e7ando esse deslocamento massivo, cujo reflexo tamb\u00e9m vemos agora mesmo em caravanas migrantes na regi\u00e3o. Essa luta tamb\u00e9m se faz sustent\u00e1vel pelo controle dos recursos naturais a partir dos territ\u00f3rios em que as pessoas est\u00e3o saindo massivamente e isso \u00e9 importante mencionar. As mobiliza\u00e7\u00f5es, ou as for\u00e7as de mobiliza\u00e7\u00e3o, a favor do direito \u00e0 \u00e1gua, como em El Salvador e tamb\u00e9m na Guatemala, a partir da aprova\u00e7\u00e3o da Lei da \u00c1gua, como no M\u00e9xico, com tudo isso do novo Trem Maia e a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais por um megaprojeto tur\u00edstico; sofreram com a repress\u00e3o e a forte viol\u00eancia por parte do Estado e das empresas extrativistas. Cada vez mais, essa viol\u00eancia e essa repress\u00e3o aumentam, ademais, sem nenhum custo pol\u00edtico. E tamb\u00e9m vemos que h\u00e1 um recrudescimento desses conflitos territoriais. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o lutas que permanecem nos territ\u00f3rios, mas os atores que neles interv\u00eam se tornam muito mais complexos. Esse modelo extrativista tamb\u00e9m est\u00e1 se estendendo e expandindo na regi\u00e3o gra\u00e7as ao maior poder que as for\u00e7as armadas v\u00e3o tendo nos diferentes Estados. Est\u00e3o devolvendo o poder \u00e0s for\u00e7as armadas e aos militares e isso est\u00e1 provocando um controle territorial por parte dos militares, for\u00e7as policiais e paramilitares. Dou como exemplo o caso de Honduras, El Salvador e agora mais recentemente na Guatemala, onde os governos est\u00e3o crescentemente aderindo a uma pol\u00edtica de amplia\u00e7\u00e3o das tropas de elite, tanto da pol\u00edcia como das for\u00e7as armadas, outorgando, fazendo processos de recrutamento massivo, aumentando as for\u00e7as armadas do pa\u00eds em mais de 10 mil, 15 mil, 20 mil efetivos nos diferentes pa\u00edses. O que tamb\u00e9m nos preocupa muito nesse processo \u00e9 o v\u00ednculo com a intelig\u00eancia israelense, a presen\u00e7a de Mosak e a compra de armamento e equipamento b\u00e9lico dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c4a6\">Por exemplo, em Honduras o ex\u00e9rcito acaba de receber 4 milh\u00f5es de d\u00f3lares para o agroneg\u00f3cio. Desde quando o ex\u00e9rcito tem compet\u00eancia a n\u00edvel de agricultura nos pa\u00edses? Ent\u00e3o se firmam conv\u00eanios desse estilo que fazem, unicamente, perpetuar ou facilitar um controle territorial por parte das for\u00e7as armadas. E o que estamos vendo com muito horror \u00e9 o aumento das diferentes tropas de elite. Cada vez inventam uma nova pol\u00edcia \u2014 \u201c<em>dire\u00e7\u00e3o policial de n\u00e3o sei o que<\/em>\u201d, ou seja, justamente para permitir essa presen\u00e7a que \u00e9 maior, claro, a n\u00edvel territorial. Tamb\u00e9m vemos que as pol\u00edticas neoliberais recentemente aprovados nos pa\u00edses centro-americanos reduzem o or\u00e7amento em educa\u00e7\u00e3o, em sa\u00fade, e o aumentam em temas de investimento estrangeiro e para as for\u00e7as armadas, o que est\u00e1 aprofundando cada vez mais a desigualdade e o empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e7cd\">Esse modelo extrativista tamb\u00e9m se estende na regi\u00e3o e prevalece em nossos pa\u00edses porque \u00e9 fomentado por parte de atores do Estado. Isto \u00e9, com n\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o e impunidade enormes, para os quais, como dizia, n\u00e3o h\u00e1 nenhum custo pol\u00edtico, o que faz com que esse modelo possa se amplificar. E, bom, o que vemos com maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que esses conflitos territoriais est\u00e3o vindo acompanhados cada vez mais de processos de criminaliza\u00e7\u00e3o e judicializa\u00e7\u00e3o dos defensores da terra, do territ\u00f3rio e dos bens naturais. Agora vamos apresentar um informe mesoamericano dos \u00faltimos tr\u00eas anos (2017, 2018 e 2019), no qual vemos um aumento dos assassinatos especialmente de integrantes e l\u00edderes de movimentos campesinos ind\u00edgenas, a frente de processos de defesa dos recursos naturais, como \u00e9 o caso de Honduras e Guatemala. Preocupa, principalmente, o n\u00edvel de assassinatos, mas o que vemos \u00e9 uma maior judicializa\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis, especialmente das companheiras que est\u00e3o em defesa do territ\u00f3rio. Entendendo aqui a criminaliza\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno que se demarca n\u00e3o somente dentro do poder judicial ou do sistema judicial, mas que vai desde campanhas de desprest\u00edgio, difama\u00e7\u00e3o, estigmatiza\u00e7\u00e3o do trabalho das mulheres defensoras, amea\u00e7as, ass\u00e9dios, ou seja, tamb\u00e9m por parte da comunidade interna \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 um fen\u00f4meno que nos preocupa muit\u00edssimo. Esses elementos se ampliam diante da permissividade, que o modelo extrativista est\u00e1 tendo na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"79b3\"><strong>PACS<\/strong>: <strong>Como a l\u00f3gica patriarcal se relaciona com o modelo de produ\u00e7\u00e3o extrativista neoliberal?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"dec1\"><strong>Teresa:<\/strong>&nbsp;Para come\u00e7ar, temos um mapa de atores muito complexo e obviamente patriarcal desde o momento em que vemos uma imbrica\u00e7\u00e3o de atores estatais e paraestatais, mas tamb\u00e9m do narcotr\u00e1fico. A regi\u00e3o tem muita for\u00e7a e presen\u00e7a dos narcotraficantes, dos cart\u00e9is e&nbsp;<em>las maras<\/em><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-defensoras-de-direitos-humanos-na-am%C3%A9rica-latina-97327f5a7f3#_ftn1\">[1]<\/a>,e isso se imbrica com os poderes estatais. No entanto, h\u00e1 tamb\u00e9m nos Estados fortes v\u00ednculos com atores evang\u00e9licos e neopentecostais, que s\u00e3o historicamente patriarcais e abertamente antifeministas. E que se veem v\u00ednculos fort\u00edssimos nas estruturas do Estado, mas tamb\u00e9m nos poderes militares e elites pol\u00edtico-econ\u00f4micas dos pa\u00edses. N\u00e3o queremos perder isso de vista, mas tamb\u00e9m gostaria de mencionar o fato dos mecanismos regionais de direitos humanos estarem liderados por pessoas abertamente antifeministas e antig\u00eanero, contr\u00e1rias ao debate sobre a desigualdade de g\u00eanero na regi\u00e3o. Fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o ao Magro da OEA<a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-defensoras-de-direitos-humanos-na-am%C3%A9rica-latina-97327f5a7f3#_ftn2\">[2]<\/a>, com sua agenda completamente ambivalente com rela\u00e7\u00e3o aos direitos humanos, com um papel nefasto, sem ser capaz de se posicionar contra as repress\u00f5es violentas dos Estados e tirando foto com atores bastante duvidosos em toda a regi\u00e3o at\u00e9 Nicar\u00e1gua, mas tamb\u00e9m na Guatemala e em Porto Rico. Para n\u00f3s, o intervencionismo e as pol\u00edticas neocoloniais por parte dos EUA da era Trump t\u00eam aumentado. Me parece que h\u00e1 um peso super patriarcal e neocolonial que temos tamb\u00e9m na regi\u00e3o e que tudo isso igualmente vem acompanhado de uma profunda crise da esquerda, em que os aliados dos movimentos sociais ou a sociedade civil organizada est\u00e3o desvirtuados. E o vemos com respeito \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em Nicar\u00e1gua, onde houve uma total neglig\u00eancia por parte das for\u00e7as de esquerda em falar de uma crise sociopol\u00edtica no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"4f1e\"><strong><strong>PACS<\/strong><\/strong>: <strong>Pod\u00edamos reproduzir a mesma an\u00e1lise de conjuntura sobre o Brasil tamb\u00e9m.<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"89b3\"><strong>Teresa:<\/strong>&nbsp;Sim, e \u00e9 o que fal\u00e1vamos, o tema da ideologia de g\u00eanero como um guarda-chuva antifeminista. Outro dia tivemos uma sess\u00e3o com uma&nbsp;<em>compa<\/em>&nbsp;brasileira chamada Sonia Correia, que est\u00e1 realizando uma investiga\u00e7\u00e3o com todos os atores antifeministas na regi\u00e3o. Foi um&nbsp;<em>webinar<\/em>&nbsp;espetacular! Porque pens\u00e1vamos que era uma coisa que saiu liderada pela igreja cat\u00f3lica, mas n\u00e3o. Aqui houve uma imbrica\u00e7\u00e3o de atores. Ou seja, h\u00e1 um efeito aglutinador bem pensado e bem estruturado de pensamento n\u00e3o t\u00e3o radical ou extremista, ou conservador, por\u00e9m que conseguiu atrav\u00e9s de campanhas como, por exemplo, \u201c<em>n\u00e3o se meta com meu filho<\/em>\u201d<a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-defensoras-de-direitos-humanos-na-am%C3%A9rica-latina-97327f5a7f3#_ftn3\">[3]<\/a>, que alcan\u00e7aram um efeito aglutinador de atores que n\u00e3o necessariamente estavam originalmente em uma posi\u00e7\u00e3o antifeminista ou antig\u00eanero, mas que foram conduzidos. Foram construindo essas ofensivas, na medida em que fomos avan\u00e7ando em nossos direitos. Ademais, para n\u00f3s o perigoso \u00e9 que tudo isso n\u00e3o vem somente da igreja cat\u00f3lica, evang\u00e9lica e etc. As ofensivas antig\u00eanero s\u00e3o igualmente apoiadas por empresas nacionais e internacionais, para seguir conseguindo influ\u00eancias nos diferentes territ\u00f3rios. Uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria \u00e9 sobre como se imbricaram com esses diferentes atores, incluindo aqui tamb\u00e9m o crime organizado, para conseguir essa influ\u00eancia, essa presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"02d1\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-defensoras-de-direitos-humanos-na-am%C3%A9rica-latina-97327f5a7f3#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;<em>Las Maras&nbsp;<\/em>\u00e9 uma refer\u00eancia as gangues existentes em El Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9262\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-defensoras-de-direitos-humanos-na-am%C3%A9rica-latina-97327f5a7f3#_ftnref2\">[2]<\/a>&nbsp;Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"00f9\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-defensoras-de-direitos-humanos-na-am%C3%A9rica-latina-97327f5a7f3#_ftnref3\">[3]<\/a>&nbsp;Refer\u00eancia a campanha que promovida pela ultradireita que, dentre outros efeitos, busca retirar conte\u00fados cr\u00edticos sobre a desigualdade entre g\u00eaneros dos curr\u00edculos escolares, a partir do guarda-chuva da ideologia de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"70f9\"><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guatemala<\/p>\n","protected":false},"featured_media":148,"template":"","class_list":["post-139","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/139\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":257,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/139\/revisions\/257"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}