{"id":152,"date":"2021-05-06T12:37:06","date_gmt":"2021-05-06T15:37:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=152"},"modified":"2021-05-06T12:37:06","modified_gmt":"2021-05-06T15:37:06","slug":"rosimere-nery","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/rosimere-nery\/","title":{"rendered":"Rosimere Nery"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: a resist\u00eancia de mulheres negras aos megaprojetos em Pernambuco<\/h3>\n\n\n\n<p id=\"d97c\"><strong><em>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/em><\/strong>, publicado em 15\/06\/2020<\/p>\n\n\n\n<p id=\"03cf\">Dando sequ\u00eancia \u00e0 nossa s\u00e9rie de entrevistas com lutadoras de territ\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina,\u00a0essa semana compartilhamos um trecho da conversa com Rosimere Nery, educadora popular da FASE Pernambuco e da coordena\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Suape, sobre luta, ser mulher, negritude e a realidade de luta das mulheres contra o Complexo Industrial de Suape (PE). Mere esteve na segunda edi\u00e7\u00e3o do Ciclo de Debates da Campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, que abordou o tema \u201cTrabalho Reprodutivo e a Repatriarcaliza\u00e7\u00e3o dos Corpos Territ\u00f3rios\u201d, dispon\u00edvel no nosso canal no Youtube. A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RosimereNery-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-154\" width=\"849\" height=\"565\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RosimereNery-1.jpeg 1000w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RosimereNery-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/RosimereNery-1-768x511.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 849px) 100vw, 849px\" \/><figcaption>Rosimere Nery, educadora popular em Pernambuco | Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"9102\"><strong>Rosimere, o que \u00e9 luta para voc\u00ea? Nos conta um pouco da sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"0957\"><strong>Mere:&nbsp;<\/strong>O que me move a estar na luta \u00e9 me indignar com algo, quando eu me indigno, eu entro de cabe\u00e7a. Para mim, a minha hist\u00f3ria tem tr\u00eas fases. A primeira, quando eu compreendi aos 17 anos a qual classe eu pertencia. Eu me questionava sobre por que as outras pessoas tinham e eu n\u00e3o podia ter. Quando tive que largar a universidade, percebi que eu tinha uma classe e a essa classe n\u00e3o era permitido fazer academia, eu era obrigada a trabalhar para poder me sustentar. A minha segunda descoberta foi quando eu comecei a trabalhar com movimento sindical. Nesse espa\u00e7o eu via que as mulheres sempre tinham o lugar da organiza\u00e7\u00e3o, das finan\u00e7as\u2026 Na verdade eram elas que faziam tudo, mas quem liderava, quem recebia as gl\u00f3rias, eram os homens.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7d1f\">Depois, quando me descobri negra, como mulher negra, aos vinte seis, vinte sete anos de idade, foi uma coisa bem estranha\u2026 Porque como eu entrei na luta muito cedo, minha luta era por direito, por sal\u00e1rio, por igualdade. Foi quando eu comecei a ver que existe uma quest\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe que determina o lugar onde voc\u00ea est\u00e1. Comecei a perceber tamb\u00e9m por que nas favelas a maioria \u00e9 de pessoas negras, por que nas comunidades pobres a maioria s\u00e3o pessoas negras, por que a pol\u00edcia s\u00f3 faz&nbsp;<em>baculejo<\/em>&nbsp;em pessoas negras. Foi a\u00ed que eu me descobri negra. Diferente dos meus filhos, os dois se descobriram negros desde beb\u00ea, porque eu estou sempre dizendo.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"0121\"><strong>Como foi se descobrir mulher e mulher negra?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"979a\"><strong>Mere:&nbsp;<\/strong>Eu s\u00f3 percebi por que as mulheres sempre tinham fun\u00e7\u00f5es. Quando a gente ia para algum espa\u00e7o, t\u00ednhamos fun\u00e7\u00f5es, quando a gente ia discutir na chapa do movimento sindical, sempre era para sermos secret\u00e1rias, mas tesoureira nem sempre, porque dinheiro era no poder dos homens, assim como a presid\u00eancia. Foi assim que comecei a perceber que tinha um lugar que davam para as mulheres e que era esse lugar da organiza\u00e7\u00e3o, que era um pouco repetir o que a gente j\u00e1 fazia em casa, na fam\u00edlia, no privado, o cuidar, o organizar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"30b3\">Para mim a luta de ser feminista \u00e9 di\u00e1ria, porque ser feminista n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dizer que sou. \u00c9 uma luta todo dia, porque tem momentos que se voc\u00ea n\u00e3o cuidar, voc\u00ea reproduz o machismo, que \u00e9 uma coisa dada, que \u00e9 o jeito nosso de ser m\u00e3e. Pensar sobre isso \u00e9 pensar<\/p>\n\n\n\n<p id=\"30b3\">sobre a minha m\u00e3e, ela nos mostrava que somos negras. Hoje eu entendo que era isso o que ela queria dizer, por isso que a gente tinha que ser muito boa. N\u00e3o podia nunca pegar em coisa de ningu\u00e9m, nunca deixou a gente trabalhar na casa de nenhuma fam\u00edlia para n\u00e3o ser escrava de ningu\u00e9m. Ela sempre dizia \u201cVoc\u00eas nunca v\u00e3o ser escravas de ningu\u00e9m, \u201cEnquanto eu tiver vida, a gente vai se sustentar!\u201d. Ela sempre disse que trabalhar em casa de fam\u00edlia era sempre escrava da fam\u00edlia. Ela preferia lavar roupa manh\u00e3, tarde e noite, e manter a gente tudo em casa ajudando no trabalho, mas em casa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"34ba\">Minha m\u00e3e \u00e9 uma figura super importante para mim, na minha forma\u00e7\u00e3o, nos meus princ\u00edpios, na minha indigna\u00e7\u00e3o, em ajudar as outras pessoas e a entender que o nosso corpo, de mulher negra, \u00e9 o corpo do trabalho. Eu pensava que eu n\u00e3o tinha nenhum trauma da minha inf\u00e2ncia, por n\u00e3o ter as coisas, por exemplo, mas eu tenho em rela\u00e7\u00e3o a minha vida de mulher. \u00c9 nesse sentido que eu digo que minha m\u00e3e me ensinou algo muito importante, mas que tamb\u00e9m me deixou marcada, com algo que traz dor. Ela ensinou a gente a trabalhar, sabe como \u00e9? Trabalha, trabalha, trabalha, e n\u00e3o cuidar de mim, de meu corpo, nunca dizer assim \u201cT\u00f4 cansada. N\u00e3o aguento!\u201d. \u00c9 muito dif\u00edcil fazer isso, para qualquer que seja a pessoa.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"a15f\"><strong>Rosimere, falando sobre o Complexo Industrial de Suape<\/strong><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-a-resist%C3%AAncia-de-mulheres-negras-aos-megaprojetos-em-pernambuco-de735c510a9a#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><strong>, em Pernambuco, quais s\u00e3o os principais impactos desse megaprojeto no territ\u00f3rio e na vida das mulheres de l\u00e1?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"3f54\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;Quando eu cheguei na FASE, em 2012, o Complexo estava com muitas obras, a instala\u00e7\u00e3o da refinaria e outras atividades ocorrendo naquela regi\u00e3o. Nesse mesmo per\u00edodo, estive l\u00e1 em um final de semana a passeio. Fui \u00e0 praia e, ao chegar, fiquei enlouquecida com a quantidade de homens ali. Imagina um lugar daquele tamanhinho com mais de 10 mil homens dentro. Eram tantos homens que voc\u00ea n\u00e3o conseguia passar sem ser permanentemente assediada. Era uma coisa louca!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7732\">Quando cheguei na semana seguinte na FASE conversei com a Adelmo Barros, na \u00e9poca coordenador da Fase, que acompanhava essa frente, e come\u00e7amos a dialogar sobre o Complexo do Suape a partir do que \u00e9 ser mulher num territ\u00f3rio que estava totalmente invadido por homens. Homens que se achavam&nbsp;<em>massa<\/em>, perfeitos, eles eram tudo. E as mulheres n\u00e3o eram nada, entende? Eles assediavam de uma forma que era abusiva demais. Foi a partir desses di\u00e1logos que o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.mulheresdocabo.org.br\/\">Centro das Mulheres do Cabo<\/a>&nbsp;fez um estudo sobre a quest\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o e o aumento da pr\u00e1tica no territ\u00f3rio a partir da implementa\u00e7\u00e3o do Complexo Industrial.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ce50\">Eram muitos casos de estupros, muitas meninas enlouquecidas com os homens porque esses homens que chegavam l\u00e1 pareciam que lhes proporcionariam uma situa\u00e7\u00e3o \u00f3tima. Eram homens de todo o Nordeste e do Sul, que eram os que tinham casas melhores, e eles faziam o que queriam, que estava \u201ctudo certo\u201d. Nesse processo tamb\u00e9m come\u00e7aram a chegar diversas drogas em uma velocidade muito grande naquelas comunidades. Agora voc\u00ea via crack e coca\u00edna, um aumento no uso e no consumo de drogas muito grande e, consequentemente, o aumento da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"29be\">O Cabo come\u00e7ou a aparecer muito na m\u00eddia nacional como o munic\u00edpio mais vulner\u00e1vel para jovens negros morarem. E s\u00e3o as mulheres que t\u00eam, at\u00e9 hoje, os chamados Filhos do Vento, que s\u00e3o as crian\u00e7as que nasceram de homens que diziam um nome qualquer, e que depois foram embora, e deixaram meninas gr\u00e1vidas e sem nenhuma refer\u00eancia ou contato.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1a64\">O Centro fez um levantamento que apresenta o n\u00famero de meninas que ficaram gr\u00e1vidas que n\u00e3o sabem quem \u00e9 o pai. E isso fora os estupros que ocorreram. Isso \u00e9 um impacto muito direto na vida dessas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"05cc\"><strong>Sabemos que uma das principais atividades dessa regi\u00e3o \u00e9 a pesca. Como a chegada desse megaprojeto impactou a vida das pescadoras?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"5648\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;O impacto na vida das mulheres pescadoras, as mulheres que trabalham com marisco, com sururu e outros frutos do mar tamb\u00e9m foi grande. Com a amplia\u00e7\u00e3o do porto as mulheres n\u00e3o t\u00eam mais onde pescar. Diante disso, elas come\u00e7aram a se organizar em grupos, alugavam uma kombi e iam pescar em Mangue Seco, que fica em outro munic\u00edpio, Igarassu, no litoral Norte. Ent\u00e3o sa\u00edam de l\u00e1 do Cabo \u2014 onde tinha bastante sururu, ostra \u2014 e iam pescar em outro lugar. Muitas mulheres tiveram que fazer isso e era extremamente pesado para elas. Pesado no ponto de vista que elas tinham que deixar as crian\u00e7as, pesado no ponto de vista financeiro, porque elas tinham que alugar um transporte. Al\u00e9m disso, o cansa\u00e7o, porque quando elas voltam com o pescado, como os mariscos, t\u00eam que cozinhar, fazer tudo que elas j\u00e1 faziam quando elas pescavam ali na porta de casa, como elas falavam. Ent\u00e3o nesse processo, o impacto na vida dessas mulheres foi enorme.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"5857\"><strong>E para as mulheres que vivem da agricultura?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"2830\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;Para as mulheres que trabalham com a captura, com a colheita de frutas, que s\u00e3o as agricultoras, tamb\u00e9m foi impactante. Primeiro devido \u00e0 retirada de fam\u00edlias. S\u00e3o 25 mil pessoas retiradas do territ\u00f3rio e esse n\u00famero deve ter aumentado, porque agora mesmo a Ilha de Cocaia est\u00e1 sendo retirada, a Ilha de Cocaia est\u00e1 sendo retirado, j\u00e1 tinham retirado as fam\u00edlias da Ilha de Tatuoca,n\u00f3s do F\u00f3rum Suape ainda estamos trabalhando nesse levantamento. Com a chegada de todas as empresas, mais de 100 naquele territ\u00f3rio, as pol\u00edticas p\u00fablicas que tinham continuaram as mesmas. Se voc\u00ea tem \u00e1gua tr\u00eas vezes por semana, por exemplo, para um n\u00famero x de pessoas e essa quantidade se mant\u00e9m ap\u00f3s o aumento do consumo, \u00e9 necess\u00e1ria uma amplia\u00e7\u00e3o no abastecimento. E os postos de sa\u00fade do mesmo jeito, n\u00e3o tiveram uma amplia\u00e7\u00e3o. Falam que o plano diretor de Suape foi feito, mas na pr\u00e1tica voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea as pol\u00edticas p\u00fablicas desse territ\u00f3rio ampliadas. Houve a amplia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das ind\u00fastrias e do com\u00e9rcio que chegaram no territ\u00f3rio, mas isso n\u00e3o significou melhora na qualidade de vida das pessoas, at\u00e9 porque dos postos de trabalho gerados, 1% eram ocupados por mulheres. Nesse 1%, os trabalhos eram de cozinha, limpeza, faxina ou atividades afins. Poucas mulheres conseguiram trabalhos que n\u00e3o fossem precarizados ou de servi\u00e7os dom\u00e9sticos. Isso falando das mulheres do territ\u00f3rio, porque tinham outras mulheres que vinham de fora. Teve uma que veio da Alemanha, uma mulher negra inclusive, que trabalhava com navio, mas s\u00e3o poucos esses casos. Para as pessoas do territ\u00f3rio, apesar do discurso de melhoria de vida para a popula\u00e7\u00e3o, a realidade \u00e9 ao contr\u00e1rio! A qualidade de vida delas piorou, como foi o caso da retirada das pessoas da Ilha de Itatuoca, em que retiraram uma comunidade inteira, e agora a Ilha t\u00e1 l\u00e1 vazia.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"7a0a\"><strong>E quais s\u00e3o os impactos \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 sa\u00fade mental dessas mulheres?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"097e\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;Muitas pessoas adoecidas. Especialmente as mulheres tiveram e ainda t\u00eam muitos problemas com a quest\u00e3o da sa\u00fade mental. Primeiro pela pr\u00f3pria forma que a mil\u00edcia se comportava com os moradores das ilhas, das comunidades. Eles fechavam as \u00e1reas e elas n\u00e3o podiam passar para poder pescar, por exemplo. Eles fechavam a passagem para ir buscar \u00e1gua, ent\u00e3o voc\u00ea tinha que fazer caminhos maiores e, normalmente, quem vai buscar \u00e1gua s\u00e3o as mulheres. Mulheres que v\u00e3o buscar \u00e1gua para lavar prato, lavar roupa, dar banho em menino, fazer comida, ent\u00e3o para elas tamb\u00e9m, al\u00e9m de todo esse processo, aumenta o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"42fd\"><strong>Diante disso tudo, de onde voc\u00ea acha que vem a sua for\u00e7a e a das mulheres de Suape?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"0c7a\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;Das outras mulheres. E principalmente de olhar para elas e ver que, numa situa\u00e7\u00e3o muito mais dif\u00edcil de vida, elas conseguem. Vem de fazer esses trabalhos para as mulheres, de ver essas mulheres rindo, dan\u00e7ando, isso me d\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 a for\u00e7a, mas me d\u00e1 o oxig\u00eanio para respirar. Se voc\u00ea pega essas lideran\u00e7as, especialmente as mulheres pescadoras agora que eu estou muito pr\u00f3xima, e mulheres catadoras tamb\u00e9m, que s\u00e3o duas categorias extremamente invisibilizadas, talvez as catadoras muito mais ainda, muito mais massacrada do ponto de vista de trabalhar diretamente com lixo, com o que as pessoas jogam foram, e mal tratadas pelas pessoas quando est\u00e3o executando o servi\u00e7o. S\u00e3o mulheres que quando a gente est\u00e1 junto, rindo e conversando, \u00e9 maravilhoso. Acho que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o que me move. Eu passei por muitas coisas dif\u00edceis na Zona da Mata de Pernambuco, e nunca desisti, sempre tive vontade de estar participando, estar lutando pelos direitos. Isso independe de quem seja, mas logicamente, quando \u00e9 do meu povo, eu me sinto mais atrevida com rela\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"e560\"><strong>E o feminismo?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"f8ef\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;\u00c9 uma coisa impressionante, porque vem de dentro dizer o que \u00e9 ser feminista. Para mim e para elas. \u00c9 dizer para marido: \u201cLave a sua cueca! A partir de agora n\u00e3o lavo mais\u201d. Voc\u00ea imagina isso? Ent\u00e3o uma mulher a vida inteira teve a obriga\u00e7\u00e3o de lavar a cueca, chegar a esse ponto e dizer: \u201cEu n\u00e3o estou pedindo n\u00e3o, eu s\u00f3 t\u00f4 te avisando que eu vou pra uma reuni\u00e3o\u201d. Isso \u00e9 o que me d\u00e1 o oxig\u00eanio para estar na luta.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"3e65\"><strong>Para finalizar, como seguir nessa luta?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"8945\"><strong>Mere:<\/strong>&nbsp;Acho que o grande foco nosso hoje \u00e9 nos unirmos e enfrentar a dor com alegria. Atravessar esse momento em que as pessoas s\u00f3 trazem e s\u00f3 pensam coisas tristes, al\u00e9m do que j\u00e1 se vive no cotidiano. Normalmente as pessoas v\u00e3o embora da luta, porque tamb\u00e9m ningu\u00e9m aguenta. Ent\u00e3o isso tem feito com que nos coletivos que eu tenho atuado, que \u00e9 a Rede de Mulheres Negras e o F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco, n\u00f3s buscamos tratar isso de uma outra forma. Tratar da quest\u00e3o pol\u00edtica dura, mas tamb\u00e9m trazer a leveza, a alegria e o cuidado entre n\u00f3s. Nos juntar para rir, dan\u00e7ar, compartilhar pr\u00e1ticas de cuidado, coisas boas, alegres, que nos energizem. Para mim, n\u00e3o soltar a m\u00e3o de ningu\u00e9m tem uma dimens\u00e3o que \u00e9 muito profunda, \u00e9 se escutar de verdade, estar juntas, discordar e se fortalecer.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\" id=\"d842\"><strong>Diante disso tudo, de onde voc\u00ea acha que vem a sua for\u00e7a e a das mulheres de Suape?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p id=\"2081\"><strong>Mere:&nbsp;<\/strong>Acho que o grande foco nosso hoje \u00e9 nos unirmos e enfrentar a dor com alegria. Atravessar esse momento em que as pessoas s\u00f3 trazem e s\u00f3 pensam coisas tristes, al\u00e9m do que j\u00e1 se vive no cotidiano. Normalmente as pessoas v\u00e3o embora da luta, porque tamb\u00e9m ningu\u00e9m aguenta. Ent\u00e3o isso tem feito com que a Fase tenham realizado encontros para discutir autocuidado, porque as pessoas com quem trabalhamos est\u00e3o demandado essa necessidade, e nos coletivos que eu tenho atuado, que \u00e9 a Rede de Mulheres Negras e o F\u00f3rum de Mulheres de Pernambuco, n\u00f3s buscamos tratar tamb\u00e9m do auto cuidado. Tratar da quest\u00e3o pol\u00edtica dura, mas tamb\u00e9m trazer a leveza, a alegria e o cuidado entre n\u00f3s. Nos juntar para rir, dan\u00e7ar, compartilhar pr\u00e1ticas de cuidado, coisas boas, alegres, que nos energizem. Para mim, n\u00e3o soltar a m\u00e3o de ningu\u00e9m tem uma dimens\u00e3o que \u00e9 muito profunda, \u00e9 se escutar de verdade, estar juntas, discordar e se fortalecer. \u00c9 a irmandade entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e0df\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-a-resist%C3%AAncia-de-mulheres-negras-aos-megaprojetos-em-pernambuco-de735c510a9a#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;Complexo Industrial Portu\u00e1rio Governador Eraldo Gueiros \u2014 SUAPE, localizado nos munic\u00edpios de Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca, no estado de Pernambuco. Ocupa atualmente uma regi\u00e3o de aproximadamente 13.500 hectares.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FASE, Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"featured_media":154,"template":"","class_list":["post-152","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":155,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/152\/revisions\/155"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/154"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}