{"id":156,"date":"2021-05-06T12:43:03","date_gmt":"2021-05-06T15:43:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=156"},"modified":"2021-05-06T12:43:03","modified_gmt":"2021-05-06T15:43:03","slug":"ana-laide-barbosa","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/ana-laide-barbosa\/","title":{"rendered":"Ana La\u00edde Barbosa"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: pot\u00eancias ancestrais \u00e0s margens do Xingu<\/h3>\n\n\n\n<p id=\"2f13\"><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 22\/06\/2020<\/p>\n\n\n\n<p id=\"315e\">A entrevistada de hoje da s\u00e9rie com lutadoras de territ\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina \u00e9 Ana La\u00edde\u00a0Barbosa, do Movimento Xingu Vivo, no Par\u00e1. Ana La\u00edde participar\u00e1 do terceiro epis\u00f3dio do Ciclo de Debates da\u00a0<strong>Campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/strong>, que ter\u00e1 como tema\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OqNVszQTjTA\"><strong>\u201cCuidado coletivo e ancestralidades nas pr\u00e1ticas de (re)exist\u00eancia\u201d<\/strong><\/a>. A transmiss\u00e3o ao vivo acontecer\u00e1 no dia 24 de junho de 2020, \u00e0s 17h, no nosso canal no Youtube e ficar\u00e1 dispon\u00edvel na plataforma. A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"612\" height=\"408\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_n-wk1-Ny2UVq5mwZm98nKQ.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-158\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_n-wk1-Ny2UVq5mwZm98nKQ.jpeg 612w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_n-wk1-Ny2UVq5mwZm98nKQ-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 612px) 100vw, 612px\" \/><figcaption>Foto: Instituto Pacs<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"6c7f\"><strong>Ana La\u00edde, nos conta um pouco da sua hist\u00f3ria e o que \u00e9 luta para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f276\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Sou Ana La\u00edde Soares Barbosa, pescadora, nascida \u00e0s margens de um rio chamado Tau\u00e1, no munic\u00edpio de Santo Ant\u00f4nio do Tau\u00e1. Eu sou banhada pelas \u00e1guas doces e pelas \u00e1guas do mar. Sou filha de pescador, pescadora, de agricultores. Sou filha de povo escravizado. Meus bisav\u00f3s foram escravizados, acorrentados e levaram desse mundo as marcas das corrente em seus corpos. N\u00f3s n\u00e3o dizemos lutar, porque n\u00f3s estamos parados no nosso espa\u00e7o e tempo, convivendo naturalmente com a natureza, com \u00e1gua, com a floresta. Por que a gente brigaria com a \u00e1gua, se ela nos alimenta? Por que a gente brigaria com a floresta, se ela nos d\u00e1 tudo que precisamos? N\u00f3s n\u00e3o lutamos, n\u00f3s nos defendemos. Quem luta \u00e9 quem quer se apossar dos nossos corpos, \u00e1guas e florestas. Eles \u00e9 que lutam e que fazem a guerra contra n\u00f3s. N\u00f3s n\u00e3o. Estamos aqui.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f1e7\"><strong>E o que te movimenta nessa defesa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"cf52\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Quando tiram, derrubam ou cortam uma \u00e1rvore \u00e9 como cortar um dedo nosso. N\u00f3s sentimos dor. E quando sentimos dor n\u00f3s nos defendemos. E \u00e9 isso: a gente se defende.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4f05\"><strong>Como e quando voc\u00ea se entendeu mulher ao longo da sua trajet\u00f3ria de vida e de defesa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"10fb\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Quando fui violentada, eu ainda era crian\u00e7a. Percebi como querem nos transformar em objeto de prazer sem perguntar. Assim como a natureza tamb\u00e9m \u00e9 destru\u00edda por puro objeto de prazer. O que \u00e9 do ch\u00e3o para n\u00f3s n\u00e3o vale nada, mas para quem derruba as \u00e1rvores elas se transformam em carros do ano, nas melhores roupas finas, nos melhores apartamentos, em condi\u00e7\u00f5es de viajar o mundo todo. Apenas pelo prazer, por objetos, pelo individualismo, para poder dizer que \u201cpode\u201d alguma coisa nesse universo, nesse mundo. S\u00f3 por isso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9bf0\"><strong>Voc\u00ea se v\u00ea nas mulheres do passado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f04c\"><strong>Ana:\u00a0<\/strong>Eu sou movida hoje por frases, imagens, pelo acalanto da minha v\u00f3 e da minha bisav\u00f3. Eu n\u00e3o entendia por que que elas repassavam c\u00f3digos e li\u00e7\u00f5es de como lidar com a natureza. Com<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f04c\">o pisar o primeiro momento na terra ou passar por cima de uma grota de \u00e1gua, ou entrar numa mata mais fechada. Eu n\u00e3o entendia e a gente chamava de serm\u00e3o, por que todo aquele serm\u00e3o? Fui crescendo com isso e comecei a perceber que era simplesmente porque a gente n\u00e3o podia desrespeitar os mais velhos. E os mais velhos eram eles: a \u00e1rvore, a m\u00e3e \u00e1gua, a m\u00e3e natureza, a terra. Ent\u00e3o tinha que pedir licen\u00e7a! N\u00f3s tamb\u00e9m fomos criadas pedindo licen\u00e7a e tomando ben\u00e7\u00e3o dos mais velhos e foi esse caminho que eu segui ensinada por elas. Por elas\u2026 Eu me vejo sim, nelas. Eu sou continuidade disso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"03e0\"><strong>Quando a gente fala desses megaprojetos de morte, que vem avan\u00e7ando sobre os nossos corpos, sobre os nossos territ\u00f3rios, quais s\u00e3o os megaprojetos que voc\u00ea enfrenta diretamente? E como que voc\u00ea sente a presen\u00e7a dos impactos deles?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d246\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>O maior que enfrentamos hoje chama-se Belo Monte. \u00c9 a barragem feita no Rio Xingu, na volta Grande do Rio Xingu. O segundo maior projeto \u00e9 a Belo Sun, a mineradora canadense que tamb\u00e9m est\u00e1 se instalando na volta grande do Xingu. Todos aqueles projetos, que para mim n\u00e3o s\u00e3o megaprojetos, s\u00e3o projetos de morte e projetos de morte n\u00e3o cabem nesse mundo. N\u00e3o cabem numa vida onde a natureza est\u00e1 aqui fazendo seu equil\u00edbrio conosco. N\u00e3o cabem porque destroem e matam. N\u00e3o existe compatibilidade desses projetos com o nosso. O nosso projeto \u00e9 um rio livre, \u00e9 um rio cheio de peixe com suas \u00e1guas de manejos, com tudo que ele pode oferecer para n\u00f3s. Um rio com seres vivos, seres encantados, vis\u00edveis e invis\u00edveis. Ent\u00e3o, \u00e9 a natureza. Esse \u00e9 o nosso projeto, sabe? Quem faz esses projetos de morte s\u00e3o ocos por dentro. Eles n\u00e3o t\u00eam solidariedade, n\u00e3o t\u00eam humanidade, n\u00e3o tem sentimentos. Aonde eles devem estar? Talvez seja nesse concreto, porque eles s\u00e3o como pedra.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a07c\"><strong>E quando voc\u00ea v\u00ea um empreendimento como esse da Belo Monte, secando o Xingu, como \u00e9 que voc\u00ea encara?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"2f66\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Eu sinto a morte. Eu sinto que eles [os encantados] est\u00e3o em agonia, porque o local que estavam est\u00e1 sendo removido e destru\u00eddo, ent\u00e3o eu sinto a dor deles tamb\u00e9m. E eu fico me perguntando: \u201cAonde \u00e9 que n\u00f3s vamos nos encontrar?\u201d Porque aqui era o territ\u00f3rio sagrado deles. E agora, onde \u00e9 que est\u00e3o? Onde vamos nos encontrar novamente? Isso fica na cabe\u00e7a. Onde est\u00e1 a Cobra Grande? Onde est\u00e1 o Boto? Onde est\u00e1 a Iara? Aonde est\u00e1 o Curupira? Onde est\u00e1 a Matinta? Eles est\u00e3o em agonia. O espa\u00e7o deles est\u00e1 sendo violado. Sempre gosto de fazer uma compara\u00e7\u00e3o para o povo branco colonizador. Se o cemit\u00e9rio, que \u00e9 um local sagrado para os entes deles que est\u00e3o enterrados l\u00e1, fosse violado qual seria o sentimento deles? Ser\u00e1 que eles iriam ficar quietos e sem reagir? O que eles iam fazer? E por que eles t\u00eam o direito de vir violar os territ\u00f3rios sagrados dos nossos povos? Por que eles t\u00eam o direito de vir violar o local sagrado dos nossos antepassados? E ficar por isso? Se fossemos n\u00f3s fazendo isso n\u00f3s ser\u00edamos enquadrados na lei de terroristas. N\u00f3s ser\u00edamos presos, confinados, mas eles n\u00e3o passam pela mesma lei que n\u00f3s. A lei deles \u00e9 diferente da nossa. Quem nos protege s\u00e3o os nossos antepassados e os nossos encantados.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a382\"><strong>Como foi a sua chegada nesse territ\u00f3rio e ao Movimento Xingu Vivo Para Sempre?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"cabb\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Eu j\u00e1 c\u00edrculo nesse territ\u00f3rio j\u00e1 faz um bom tempo, mas desde 2014 como membro do Movimento Xingu Vivo Para Sempre. E, para quem compreende e est\u00e1 perto, \u00e9 um movimento que se distancia dos outros. Isso me apaixona. O Xingu Vivo n\u00e3o \u00e9 um movimento que est\u00e1 querendo conduzir o povo, e \u00e9 por isso eu estou nele. \u00c9 um movimento que tenta trazer as comunidades e os povos para que possam ser protagonistas da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, e esse \u00e9 o seu papel. N\u00e3o est\u00e1 para ditar o caminho, mas sim para dizer: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o protagonistas dessa hist\u00f3ria. N\u00f3s podemos colaborar! S\u00e3o voc\u00eas que v\u00e3o dizer aonde a gente pode colaborar\u201d. Por isso \u00e9 um privil\u00e9gio estar sendo coordenada pela Dona Ant\u00f4nia Melo, porque ela entendeu esse processo e ela rompeu com muita coisa para permanecer. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ela \u00e9 chamada de deusa do Xingu, porque ela se diferencia de muitas lideran\u00e7as\u2026 Ela nem \u00e9 considerada lideran\u00e7a, \u00e9 uma ente viva que percebeu esse processo da hist\u00f3ria. E \u00e9 por isso que eu tamb\u00e9m tenho o poder de escolha e s\u00e3o esses elementos, s\u00e3o essas coisas pequenas, que me fazem ser Xingu Vivo. O Movimento nunca arredou o p\u00e9 da sua hist\u00f3ria, nunca mudou de percurso, porque ia privilegiar um ou outro. Ao contr\u00e1rio! Quem tem que ser privilegiado \u00e9 o povo, s\u00e3o os povos e eles t\u00eam nome e endere\u00e7o. Povos ind\u00edgenas, pescadores, extrativistas, agricultores, quilombolas, jovens, crian\u00e7as, mulheres\u2026 O povo que \u00e9 violentado 24 horas nesse territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"dead\"><strong>Como que voc\u00ea v\u00ea o seu corpo no meio disso? O que voc\u00ea carrega no seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ff83\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Morrendo aos poucos. \u00c9 pouco de cada coisa. Vamos morrendo junto, mas tamb\u00e9m ressuscitamos. Assim como a \u00e1gua vai e vem, uma hora est\u00e1 turva, outra hora est\u00e1 l\u00edmpida, e a gente vai se conectando, e vai ressuscitando, ressurgindo. E carrego a dor. O sofrimento. As l\u00e1grimas que brotam. Mas, tamb\u00e9m, a felicidade de ver a liberdade fluindo, vigorando, renascendo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5fe3\"><strong>Voc\u00ea consegue perceber no seu corpo, em alguma parte espec\u00edfica, os impactos vividos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9d38\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>No meu est\u00f4mago, ele \u00e9 o primeiro a sofrer o impacto. Eu sinto dor como se fosse uma gastrite. J\u00e1 me disseram que \u00e9 uma gastrite nervosa, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 a rea\u00e7\u00e3o que ele tem diante de toda essa maldade que existe no mundo, um mundo doente. Sinto tamb\u00e9m nos pulm\u00f5es com as crises de asma. S\u00e3o essas as partes do corpo que mais se afetam diante do sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8f83\"><strong>E voc\u00ea consegue sentir de onde vem a sua for\u00e7a? Voc\u00ea sente no seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"cbf7\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Da esperan\u00e7a dos olhos do povo, que mesmo perdendo tudo, ainda acha que pode e acredita em uma poss\u00edvel mudan\u00e7a. E de que um dia eu ainda posso ver o rio correr livre. Que a gente possa derrubar, destruir Belo Monte e que a gente possa restaurar a floresta!No meu corpo vem a for\u00e7a vem do cora\u00e7\u00e3o! Eu tamb\u00e9m sinto no meu invis\u00edvel, porque ele brota. \u00c9 ele que d\u00e1 essa for\u00e7a pulsante. Por exemplo, a gente tem que passar por cima disso, tem algo muito mais forte que \u00e9 ver justamente essa claridade que a \u00e1gua est\u00e1 turva, est\u00e1 barrada, mas ela pode ir escorrendo aos poucos, deixar fluir como era naturalmente. Ent\u00e3o a gente sente isso, tamb\u00e9m. E como tu expressa isso? N\u00e3o tem como tu expressar, mas a\u00ed tu te movimentas. A tua l\u00edngua fala muito. Os teus sentimentos falam. Os teus olhos falam. Meus olhos falam quando eu vejo a felicidade e l\u00e1grima. L\u00e1grimas tamb\u00e9m de felicidade, sabe? O abra\u00e7o apertado. Sentir o outro, \u00e9 sentir essa energia que est\u00e1 vindo. \u00c9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"23e4\"><strong>Como voc\u00ea respira em meio aos conflitos? De onde voc\u00ea acha que tira oxig\u00eanio para seguir na luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"7533\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Primeiro fechando os olhos e buscando o fundo da minha alma, a minha respira\u00e7\u00e3o. \u00c9 pelo sopro que vai se juntar com o vento e que eu o trago de volta para mim, que me oxigena, que me ressuscita e me d\u00e1 for\u00e7a pra que eu possa continuar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bd65\"><strong>A pr\u00f3pria luta pode ser um respiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"b7b8\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Tamb\u00e9m, mas \u00e9 muito mais sobre nos conectarmos e agradecermos pelas pequenas vit\u00f3rias. A luta \u00e9 necess\u00e1ria, mas n\u00f3s n\u00e3o a queremos. Queremos confraternizar pelo belo, o novo, o renascer. A luta \u00e9 necess\u00e1ria para que n\u00e3o percamos tudo isso e para n\u00e3o nos acomodarmos. Poder\u00edamos deixar tudo \u201ctranquilo\u201d, mas n\u00e3o, ela \u00e9 necess\u00e1ria. N\u00e3o fui eu que trouxe a luta para minha vida e ainda assim ela come\u00e7ou muito cedo. Come\u00e7ou por causa do cora\u00e7\u00e3o doente da humanidade que diz que a mulher n\u00e3o pode ter filho fora do casamento. O patriarcado est\u00e1 muito presente nas comunidades tradicionais, mas n\u00e3o foram elas que geraram isso, foi a coloniza\u00e7\u00e3o, o mundo ocidental que trouxe isso para c\u00e1. N\u00e3o tinha isso entre o nosso povo, as mulheres eram livres. Todos \u00e9ramos, mas impuseram coisas que foram moldando a gente. Trouxeram deuses, regras e leis que n\u00e3o conhec\u00edamos. Trouxeram a falta de \u00e9tica. Tentaram trazer uma moeda e fazer essa moeda ser a floresta, ser a \u00e1gua, ser os rios, mas essa moeda a gente nem come. Queriam transformar todo o nosso bem natural, tudo que a gente v\u00ea no mundo, o vento, o ar, a \u00e1gua, a floresta em uma moeda com a cara de uma pessoa que a gente nem conhece. N\u00e3o \u00e9 isso. N\u00e3o se compra terra. N\u00e3o se compra a natureza. N\u00e3o se compra o ar. N\u00e3o se compra o ser humano. Tentaram fazer isso conosco e ainda tentam, mas a gente resiste.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"93bc\"><strong>E nas coisas bem pequenininhas do dia a dia o que te d\u00e1 um respiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c19d\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Est\u00e1 dif\u00edcil agora, mas \u00e9 saber que ainda tem pessoas que lutam. \u00c9 lembrar que tem povos ind\u00edgenas lutando, que h\u00e1 mulheres lutando, que tem crian\u00e7as felizes, ainda, brincando no meio da gente. S\u00e3o as pequenas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8ae8\"><strong>Falando em arte, onde ela est\u00e1 em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9df0\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Na criatividade! Uma criatividade que n\u00e3o vai para o papel. Uma criatividade que n\u00e3o sei explicar. \u00c9 uma criatividade que busca despertar a gente! A gente busca dizer que a vida n\u00e3o \u00e9 morte e que ainda n\u00e3o estamos mortos, que podemos muito mais. \u00c9 uma arte da linguagem, do saber raciocinar, pensar e trazer tudo que aprendemos com nossos ancestrais, com a nossa floresta, com as nossas \u00e1guas e dizer: \u201cVem junto, n\u00e9? Transforma conosco.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"04e3\"><strong>E onde a arte est\u00e1 presente nas suas coletividades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8cd7\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>No pensar. Eu acho que o pensar \u00e9 uma arte, mas um pensar para o bem e para o bem-viver, para o comum. A arte de pensar isso hoje e para que a gente possa manter o equil\u00edbrio com a natureza, com os seres humanos, com os animais, com a floresta, com o ar, conosco, com os encantados\u2026 \u00c9 uma arte de pensar, que est\u00e1 sendo destru\u00edda, est\u00e3o arrancando a nossa \u00faltima gota de esperan\u00e7a. Ent\u00e3o pensar hoje, brotar isso novamente, \u00e9 sim uma arte. E essa arte ainda \u00e9 invis\u00edvel. Existe arte invis\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"68ca\"><strong>Quais s\u00e3o as pot\u00eancias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"b12a\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>O cantar. Eu vi a Luiza Munduruku trazendo forte o canto do Povo Munduruku dizendo \u201cseguindo em frente\u201d. Eu vi a arte da fala do Inaldo Gamela, dizendo: \u201cVenham, cuidem da terra!\u201d Ent\u00e3o s\u00e3o esses elementos que essa arte aos poucos brota novamente. Essa arte foi abafada. Tentaram\u2026 Tentaram arranc\u00e1-la de n\u00f3s. Tentaram matar, aprisionar, mas n\u00e3o se aprisiona, n\u00e9?! Se colocar \u00e1gua na sua m\u00e3o, voc\u00ea consegue guardar? Ent\u00e3o, essa \u00e9 a arte tamb\u00e9m, ela escorre.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a770\"><strong>O que \u00e9 cuidado para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"a0fd\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Cuidado? A B\u00edblia diz que um dos primeiros mandamentos diz assim: \u201cAmar a Deus sobre todas as coisas, e ao teu pr\u00f3ximo como a tu mesmo.\u201d Eu quero usar essa palavra e dizer assim: \u201cAmar ao pr\u00f3ximo sobre todas as coisas, e aos deuses e \u00e0s deusas com a todos n\u00f3s.\u201d Porque somos todos de deuses e deusas. N\u00e3o todos, n\u00e9? Mas os que est\u00e3o lutando pela vida, \u00e9 claro, porque quem luta pela morte n\u00e3o faz parte desse universo, n\u00e3o faz parte desse projeto. Isso \u00e9 cuidar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cfce\"><strong>Como voc\u00ea se cuida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ae4e\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Tentando n\u00e3o ter uma crise de asma e pra isso tenho que continuar lutando, respirando a floresta, pisando nela, tocando-a com cuidado, rezando junto com ela, sofrendo junto com ela, mas pegando o ar que ela tamb\u00e9m me devolve, para os pulm\u00f5es e renovar esse ar polu\u00eddo que t\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cb23\"><strong>O que te adoece?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"daa3\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>A maldade. E a maldade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com o ser humano. Eu fico doente quando vejo uma \u00e1rvore caindo. Eu choro. Eu fico mal quando eu vejo as pessoas maltratando o pr\u00f3ximo. O lugar delas \u00e9 diferente do nosso, mas n\u00e3o respeitam o lugar que escolhemos para n\u00f3s. N\u00f3s escolhemos estar aqui! Escolhemos viver na Amaz\u00f4nia, ou Amaz\u00f4nia nos escolheu, mas somos um elo. As pessoas criticam isso, destroem porque acham que a gente n\u00e3o tem que estar aqui. Querem expulsar a gente para a cidade. Que coisa! N\u00f3s escolhemos isso. N\u00f3s queremos isso aqui. \u00c9 o meu pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"91c9\"><strong>E o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c322\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>A liberdade das \u00e1rvores e da natureza. A minha liberdade. A liberdade do nosso povo de pescadores e dos ind\u00edgenas. Sem nos amarrarmos nas coisas que n\u00e3o queremos e est\u00e3o querendo impor para a gente. Respeitem a gente! Respeitem o nosso modo de viver. N\u00e3o vamos l\u00e1 mexer com eles, nem sabemos onde eles moram\u2026 Ent\u00e3o deixa a gente quieto!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b74e\"><strong>E para finalizar, qual \u00e9 a for\u00e7a que voc\u00ea traz dos encantados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"4731\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Eu nasci praticamente em um terreiro e eu circulava no meio da m\u00e3e Erundina, que \u00e9 uma encantada. Eu circulava no meio do Rompe Mato que \u00e9 o encantado das florestas. Circulava no meio do \u2014 eu acho que ele \u00e9 meu grande mestre \u2014 Z\u00e9 Raimundo que \u00e9 o encantado das \u00e1guas. Eu circulava no meio deles. Eles brincavam comigo, me protegiam. Sempre trouxe eles comigo, mas tamb\u00e9m sempre tive muita for\u00e7a. Quando eu vou na mata, quando eu vou na \u00e1gua eu sempre vejo. Sinto que eles est\u00e3o ali, que est\u00e3o cuidando da gente, mas hoje eu vejo que eles est\u00e3o pedindo tamb\u00e9m, que eles est\u00e3o em agonia. Eu comecei nessa luta \u2014 a que empurram a gente \u2014 em alguns lugares sagrados, e eu comecei a v\u00ea-los, num momento de m\u00edstica, de contempla\u00e7\u00e3o, do nosso grupo. Ent\u00e3o eu me retirava, fechava meus olhos e quando eu abria tinham outros seres que n\u00e3o eram s\u00f3 o nosso povo e eu dizia: \u201cMeu Deus, o que est\u00e1 acontecendo?\u201d E eles estavam l\u00e1, e eu disse: \u201cN\u00e3o, quem s\u00e3o eles?\u201d. V\u00e1rias vezes, eu comecei a enxergar l\u00e1, junto com a gente, eles parados, mas fazendo do mesmo jeito que n\u00f3s est\u00e1vamos, eles estavam. Comecei a pensar: \u201c\u00b4\u00c9 loucura da minha cabe\u00e7a? Ser\u00e1?\u201d Eu levei um tempo para entender que eram seres da floresta, das \u00e1guas, daquele lugar, que estavam ressurgindo com a nossa for\u00e7a e n\u00f3s est\u00e1vamos chamando eles tamb\u00e9m no momento dos nossos rituais, das m\u00edsticas e dos cantos para as \u00e1guas, o fogo e a floresta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Xingu Vivo, Par\u00e1<\/p>\n","protected":false},"featured_media":159,"template":"","class_list":["post-156","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":160,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/156\/revisions\/160"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}