{"id":161,"date":"2021-05-06T12:47:25","date_gmt":"2021-05-06T15:47:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=161"},"modified":"2021-05-11T13:08:08","modified_gmt":"2021-05-11T16:08:08","slug":"francisca-fernandez","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/francisca-fernandez\/","title":{"rendered":"Francisca Fernandez"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: resist\u00eancia pelo direito \u00e0 \u00e1gua no Chile<\/h3>\n\n\n\n<p id=\"872d\"><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado originalmente em duas partes no Medium e site do Instituto Pacs em 13\/08\/2020 e 01\/04\/2021<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2f0a\">Em 2019, ap\u00f3s anos de sucateamento da Companhia Estadual de \u00c1guas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE), um epis\u00f3dio de contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua foi mobilizado como justificativa para mais uma tentativa de privatiza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o no estado. Aprovado em novembro de 2019 na C\u00e2mara dos Deputados, o Projeto de Lei 4162\/2019 que prev\u00ea a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de saneamento b\u00e1sico em territ\u00f3rio nacional, atrav\u00e9s da transfer\u00eancia do servi\u00e7o para a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e Saneamento B\u00e1sico (ANA), encontra-se em tr\u00e2nsito no Senado. A aprova\u00e7\u00e3o do PL estabeleceria um novo marco regulat\u00f3rio que pode aumentar a dificuldade do acesso aos servi\u00e7os, em um pa\u00eds onde apenas 53,2% da popula\u00e7\u00e3o utiliza esgotamento sanit\u00e1rio e 83,6% tem acesso a servi\u00e7os de abastecimento de \u00e1gua<a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-resist%C3%AAncia-pelo-direito-%C3%A0-%C3%A1gua-no-chile-90229c890be4#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e2b4\">Pr\u00f3ximo de n\u00f3s, encontramos a experi\u00eancia chilena onde a \u00e1gua foi privatizada pela ditadura de Pinochet, em 1980. Para contribuir na reflex\u00e3o sobre o agravamento nas desigualdades gerado pela privatiza\u00e7\u00e3o desse bem comum e t\u00e3o fundamental \u00e0 vida, seus impactos sobre as mulheres e outras reflex\u00f5es da luta ambiental feminista no Chile, damos sequ\u00eancia a s\u00e9rie de entrevistas da\u00a0<strong>Campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta\u00a0<\/strong>e trazemos uma conversa com\u00a0<strong>Francisca Fernandez<\/strong>, que atua no Movimento por el \u00c1gua y los Territ\u00f3rio e na Coordinadora Feminista 8M, no Chile.  A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a e Yasmin Bitencourt, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"480\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Francisca-Fernandez.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-162\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Francisca-Fernandez.jpeg 720w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Francisca-Fernandez-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption>Francisca Fernandez, integrante do Movimento por el \u00c1gua y los Territ\u00f3rio e da Coordinadora Feminista 8M, no Chile | Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"cdb8\"><strong>PACS: O que \u00e9 a luta para voc\u00ea? O que te move?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"65c1\">Pancha: Me parece que hoje \u00e9 um ato vital. \u00c9 a pr\u00f3pria vida. Sempre pensei a luta n\u00e3o como uma proje\u00e7\u00e3o, como um ponto de chegada, mas como uma forma de viver a vida. Uma forma de viver em um contexto, por exemplo, no Chile, onde o neoliberalismo est\u00e1 fortemente consolidado. Logo, a luta se torna uma forma de exist\u00eancia no que diz respeito \u00e0s opress\u00f5es, \u00e0 viol\u00eancia estrutural que vivemos. Tem a ver com o cotidiano, tem a ver com atitude e por existir, n\u00e3o \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o, mas sim, no cotidiano projetamos uma mudan\u00e7a profunda. Portanto, lutar \u00e9 um ato vital.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e585\">Acredito que o que mobiliza a luta \u00e9 primeiro reconhecer as opress\u00f5es que cada uma de n\u00f3s habita. Tem um nome acad\u00eamico, \u201cinterseccionalidade\u201d. Aqui usamos a palavra \u201ctecido\u201d, que Silvia Rivera Cusicanqui, uma soci\u00f3loga Aymara, prop\u00f5e. Em outras palavras, voc\u00ea tem que ver todos os fios de opress\u00e3o que nos cruzam e, ao reconhec\u00ea-los, eles s\u00e3o os primeiros elementos a come\u00e7ar a se mover e se mobilizar. Ent\u00e3o, sem d\u00favida, uma dessas grandes opress\u00f5es \u00e9 ser mulher. Obviamente, sendo mulher, a opress\u00e3o tem muito mais for\u00e7a se voc\u00ea for ind\u00edgena, camponesa, afro, se for imigrante. Mas o simples fato de se construir uma mulher, traz opress\u00f5es, ent\u00e3o isso me mobiliza. E primeiro meu corpo-territ\u00f3rio, e segundo o territ\u00f3rio no qual vivo. Me mobiliza muito a luta contra a contamina\u00e7\u00e3o, contra o extrativismo, porque tem a ver com o territ\u00f3rio externo onde constru\u00edmos comunidade. Ou seja, sinto que s\u00e3o as primeiras coisas que me movem: ser mulher, me reconhecer nessa cadeia de opress\u00e3o, mas tamb\u00e9m reconhecer as cadeias de opress\u00e3o onde vivo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d068\"><strong>PACS: Como voc\u00ea se entendeu como mulher ao longo da vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c3ad\">Pancha: Uma frase clich\u00ea: \u201cningu\u00e9m nasce, mas \u00e9 feito\u201d. E observe que sou filha de uma m\u00e3e feminista, mas minha m\u00e3e se tornou uma feminista no ex\u00edlio. Meus pais s\u00e3o exilados da ditadura de Pinochet, viveram seu ex\u00edlio na Fran\u00e7a, e l\u00e1 se abrem novos horizontes de vida muito diferentes, onde surgem quest\u00f5es que n\u00e3o eram cl\u00e1ssicas de esquerda nesta \u00e9poca dos anos 70, como o feminismo, a luta socioambiental, o respeito aos povos origin\u00e1rios e eu nasci nessa caminhada e nessa abertura dos meus pais. Mas n\u00e3o foi f\u00e1cil porque, apesar de eu ser filha de m\u00e3e feminista, at\u00e9 na din\u00e2mica familiar havia certos privil\u00e9gios como coisas banais, por exemplo, meu irm\u00e3o comia mais, davam mais comida para ele, que de certa forma precisava de mais elementos para sua energia. Eles nunca me falaram a barbaridade \u201cporque \u00e9 homem\u201d, teria sido absolutamente contradit\u00f3rio. Mas acredito que havia um jogo bem patriarcal, naturalizado: sendo mais velho e um homem, gastava mais energia, e acho que n\u00e3o era bem assim. Ent\u00e3o, nasci em um contexto de fam\u00edlia com muita consci\u00eancia sobre a situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o e tamb\u00e9m as situa\u00e7\u00f5es de privil\u00e9gio, ou seja, reconhecendo ambas as partes. E sem d\u00favida que notei imediatamente que ser mulher era bem mais opress\u00e3o do que privil\u00e9gios. Antes o meu privil\u00e9gio era ser mesti\u00e7a, ser branca, nisso estavam os privil\u00e9gios, mas em termos de ser mulher, de jeito nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1f12\">Por\u00e9m, onde comecei a vivenciar muito mais essa quest\u00e3o da opress\u00e3o, talvez, foi ao chegar ao Chile, na volta do ex\u00edlio de meus pais. Eu sinto que na Fran\u00e7a (eu morei em um bairro de imigrantes), quanto mais diversificadas e diversificados somos, melhor podemos administrar essa diversidade como parte de nossas vidas. \u00c9ramos muitas crian\u00e7as, imigrantes de todo o mundo, de todos os pa\u00edses, religi\u00f5es, mas foi no Chile, no sistema educacional. E a\u00ed eu percebi como coisas t\u00e3o b\u00e1sicas sobre ser mulher implicavam. Se houvesse cinco crian\u00e7as que levantassem as m\u00e3os durante a aula e uma delas fosse um menino, privilegiavam o homem de falar primeiro. Aquilo tamb\u00e9m foi uma heran\u00e7a. Na universidade aconteceu a mesma coisa comigo, porque desde pequena eu gostava muito do tema acad\u00eamico, das aulas. Percebi que ia ser professora ou que ia estar ligada a isso e foi o primeiro espa\u00e7o de viol\u00eancia que ficou evidente em rela\u00e7\u00e3o a ser mulher. E a\u00ed, me dei conta do que \u00e9 ser mulher. Quer dizer, acho que parece terr\u00edvel talvez, mas enquanto as opress\u00f5es te ajudam a se reconhecer e assumir um processo de luta, um processo de empoderamento, tamb\u00e9m pode acontecer o contr\u00e1rio, \u201cquanto mais oprimida, mais cega\u201d. Quando uma mulher come\u00e7a a vivenciar as opress\u00f5es, percebe a necessidade de se fortalecer a partir dessa identidade oprimida para transformar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b3b7\"><strong>PACS: Voc\u00ea se reconhece nas mulheres do passado, ancestrais\u2026 da sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"367b\">Pancha: H\u00e1 muito tempo fiz um caminho a partir do que algumas companheiras chamam \u201cfeminismo comunit\u00e1rio\u201d, aqui no Chile falamos \u201cfeminismo dos povos\u201d ou \u201cfeminismos territoriais\u201d. No final, buscamos nossos rastros, nossos percursos ou caminhos, transitados por mulheres e dissidentes n\u00e3o a partir dos marcos que \u00e9 o movimento sufragista ou o movimento feminista cl\u00e1ssico, mas precisamente a partir de nossas av\u00f3s, nossas ancestrais. Reconhecemos a\u00ed, o legado do feminismo. E, aten\u00e7\u00e3o, obviamente, n\u00e3o necessariamente, de av\u00f3s ou ancestrais que se reconheceram como feministas, mas sim de av\u00f3s ancestrais que lutaram contra essas opress\u00f5es cotidianas. Assim, imediatamente me reconhe\u00e7o por meio de minhas duas av\u00f3s, tanto a paterna quanto a materna. Minha av\u00f3 materna do campo, migrou para a cidade, enfermeira, tornou-se socialista. Minha av\u00f3 paterna, de um porto \u201cSan Antonio\u201d, tamb\u00e9m militante de esquerda, seu irm\u00e3o um dos escritores exilados de sua cidade durante a ditadura. Mulheres que, a partir dessa a\u00e7\u00e3o vital, s\u00e3o grandes protagonistas do campo e da resist\u00eancia. Ou seja, n\u00e3o t\u00e3o elaboradamente como n\u00f3s, tivemos mais elementos combinados para isso, j\u00e1 elas mais do est\u00f4mago, mais do corpo para a resist\u00eancia. Portanto, reconhe\u00e7o o legado das minhas av\u00f3s e reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia de reconhecer essa constru\u00e7\u00e3o da nossa identidade atrav\u00e9s deste cruzamento de elementos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ccdf\">No Chile usamos uma palavra chamada \u201c<em>champurrea<\/em>\u201d, que em Mapudungun, que \u00e9 a l\u00edngua Mapuche, significa \u201cmistura\u201d. E eu, justamente, reivindico muito a ideia de uma miscigena\u00e7\u00e3o n\u00e3o-crioula, n\u00e3o essa miscigena\u00e7\u00e3o branca hegem\u00f4nica, mas essa miscigena\u00e7\u00e3o precisamente mais dissidente onde esses tra\u00e7os devem ser reconhecidos. Ou seja, reconhe\u00e7o o tra\u00e7o Mapuche, reconhe\u00e7o o tra\u00e7o espanhol, reconhe\u00e7o essas diferentes ancestralidades que nos atravessam e, como sempre, as mulheres s\u00e3o as endurecidas e aquelas que precisamente se encarregam da mem\u00f3ria, oralidade e resist\u00eancia nos diferentes momentos. Ent\u00e3o, sim, eu sou a grande defensora da linhagem de minha m\u00e3e, minhas av\u00f3s e trabalhando para conhecer a linhagem de meus ancestrais que tem sido uma quest\u00e3o pessoal, mas surge absolutamente de uma quest\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c0a3\"><strong>PACS: E como voc\u00ea v\u00ea seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8df4\">Pancha: Meu corpo\u2026 primeiro vejo meu corpo-territ\u00f3rio, e como qualquer territ\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de administrar. Ou seja, acho que o feminismo tamb\u00e9m, a\u00ed eu ampliaria, acho que a luta socioambiental tamb\u00e9m, e h\u00e1 anos que fa\u00e7o dan\u00e7a andina, me fez reconectar com o meu corpo. Meu corpo, de certa forma, constru\u00ed mais como um elemento de limita\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, voc\u00ea se lembra de quando \u00e9ramos crian\u00e7as, com os exerc\u00edcios da escola, aprendemos a estabelecer limites. Sempre o corpo como limite e ao mesmo tempo como limita\u00e7\u00e3o. \u201cEu n\u00e3o posso\u201d, \u201csim, voc\u00ea pode\u201d, \u201cvoc\u00ea&nbsp;<em>versus<\/em>&nbsp;eu\u201d. Ent\u00e3o eu acho que as diferentes lutas passam por transbordar nossos corpos, embora pare\u00e7a estranho. Mas o transbordamento foi a primeira pol\u00edtica de auto reconhecimento do corpo que me acompanha, das pernas que me acompanham no meu andar \u2026 das m\u00e3os, das minhas express\u00f5es. Ent\u00e3o, tem sido uma quest\u00e3o de auto reconhecimento e de me amar como sou. Mas eu acho que precisamente na vida neoliberal, consumista e hiperprodutiva h\u00e1 um excesso de exig\u00eancias dos padr\u00f5es de corpos que s\u00e3o tremendos. Acredito que, precisamente, a nossa gra\u00e7a \u00e9 que conseguimos incorporar que a gest\u00e3o do corpo \u00e9 o primeiro espa\u00e7o de autodetermina\u00e7\u00e3o. Eu determino em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, como quero constru\u00ed-lo, como quero caminhar, como quero habit\u00e1-lo. Mas, cuidado, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, entre n\u00f3s h\u00e1 piadas, somos sarc\u00e1sticas com partes do nosso corpo. Somos superexigentes conosco mesmos neste corpo. Ent\u00e3o, eu diria a voc\u00eas que, bom, o corpo \u00e9 o lugar onde eu moro, que eu tamb\u00e9m decido morar, e a partir da\u00ed a luta come\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b27d\"><strong>PACS: O que voc\u00ea usa no corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8817\">Pancha: Uff! O que eu n\u00e3o uso?! Haha!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4903\">Recorda\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias\u2026 Outro dia falamos com uma companheira em quarentena e ficamos mais filos\u00f3ficas (risos). S\u00e3o muitas as mem\u00f3rias que pesam sobre o corpo e h\u00e1 tamb\u00e9m uma genealogia da dor. Fal\u00e1vamos como mem\u00f3rias de dores n\u00e3o apenas do corpo que algu\u00e9m habita, mas tamb\u00e9m que os corpos v\u00e3o carregando as mem\u00f3rias de seus ancestrais, pai, m\u00e3e, av\u00f3\u2026 e que de certa forma, nesta vida nos cabe curar e assumir. Portanto, o que carregamos no corpo s\u00e3o mem\u00f3rias, s\u00e3o identidades, s\u00e3o prazeres, proje\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m s\u00e3o dores, s\u00e3o tamb\u00e9m n\u00f3s de tens\u00e3o. Tamb\u00e9m habitamos contradi\u00e7\u00f5es. Sinto que tudo o que somos, por sua vez, habitamos no corpo. Ent\u00e3o n\u00f3s, a partir desse feminismo dos povos, fazemos muito do que chamamos de mapas corporais ou cartografias corporais, onde visualizamos dores corporais com conflitos socioambientais ou com algum conflito social. Eu, por exemplo, sempre tive muitos problemas respirat\u00f3rios e tenho absoluta certeza de que esse problema respirat\u00f3rio tem a ver com um n\u00f3 de ang\u00fastia, por desconforto pessoal, desconforto social, pelo modo como vivemos. Para mim foi espec\u00edfico que o v\u00edrus da pandemia esteja ligado ao aparelho respirat\u00f3rio, porque tem a ver justamente com toda a ang\u00fastia, dor, o que a gente guarda. Portanto, \u00e9 muito simb\u00f3lico que seja um v\u00edrus representado em toda aquela dimensionalidade da respira\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, tem sido um trabalho assumir a respira\u00e7\u00e3o como um exerc\u00edcio fundamental, tem que ser pessoal, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico, claro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"77f4\"><strong>PACS: De onde vem sua for\u00e7a? Tem alguma parte do seu corpo que sente sua for\u00e7a chegando?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"161d\">Pancha: Acho que minha for\u00e7a tem v\u00e1rias \u00e2ncoras. Acredito que a primeira \u00e2ncora \u00e9 o auto reconhecimento de quem eu sou, por todas essas cruzes de coisas ruins, boas, positivas, negativas, n\u00f3s de dor, alegria, \u00e9 tamb\u00e9m uma for\u00e7a vital, minha fortaleza, porque tem todos os elementos com que eu trabalho, a fala, o que me dificulta respirar, observar o que estou vendo, ouvindo, ou seja, todos os elementos centrais est\u00e3o a\u00ed. Tamb\u00e9m podem ser as m\u00e3os, sou muito expressiva com as m\u00e3os e \u00e9 tamb\u00e9m com elas que eu fa\u00e7o as minhas tarefas. \u00c9 como se eu pensasse imediatamente nisso, mas na verdade existem muitas partes do corpo. Tamb\u00e9m, durante a quarentena, a for\u00e7a vem da comunidade, ou seja, acho que \u00e9 o essencial. Diferentes n\u00edveis de comunit\u00e1rio, o comunit\u00e1rio familiar, o comunit\u00e1rio casa, o comunit\u00e1rio trabalho, a milit\u00e2ncia comunit\u00e1ria, as lutas comunit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7c23\">E a\u00ed acredito que a nossa for\u00e7a, em todos os n\u00edveis, \u00e9 o coletivo. O coletivo da verdade, mais raz\u00e3o e sentido de ser. E eu sinto que a quarentena me colocou muito mais nessa necessidade. Mas cuidado com os conflitos, porque ao mesmo tempo a fonte de for\u00e7a pode ser a fonte de desgaste. A fam\u00edlia \u00e9 um elemento de for\u00e7a com desgaste absoluto \u2026 e dor e raiva. Eu n\u00e3o separaria nenhum elemento, assim como a milit\u00e2ncia, minha fonte de inspira\u00e7\u00e3o e for\u00e7a, mas realmente h\u00e1 momento em que digo: \u201cchega, n\u00e3o aguento mais, os conflitos s\u00e3o intensos\u201d. Mas, repito: hoje, mais do que nunca, o comunit\u00e1rio, com todas as suas dificuldades, em todos os seus planos, \u00e9 um elemento vital que nos d\u00e1 for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6d9c\"><strong>PACS: E no meio de conflitos, conflitos socioambientais e tudo\u2026 como voc\u00ea acha que \u00e9 poss\u00edvel respirar e ter f\u00f4lego?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"cf5b\">Pancha: Eu voltaria \u00e0 quest\u00e3o do comunit\u00e1rio. Em outras palavras, sinto que o comunit\u00e1rio est\u00e1 literalmente em nos pensar como um corpo total. Ou seja, n\u00e3o podemos resistir com um s\u00f3 olho, n\u00e3o podemos resistir com um s\u00f3 p\u00e9, mas com toda a nossa corporalidade, al\u00e9m disso podem ser corporalidades mutiladas, pensa que n\u00f3s no Chile, onde h\u00e1 mais de 450 pessoas mutiladas de um olho e de ambos, como uma pol\u00edtica de repress\u00e3o. Portanto, tamb\u00e9m \u00e9 pensar como corpos mutilados, que \u00e9 outra maneira de fazer um corpo. Mas eu acho que \u00e9 fundamental respirar com o corpo todo, com qualquer corpo que seja: com o corpo mutilado, com o corpo com capacidades diferentes, com o corpo trans. Quer dizer, existem maneiras diferentes, mas acho que \u00e9 essencial respirarmos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bad2\">H\u00e1 alguns anos, tornou-se mais leg\u00edtima a necessidade de fazer exerc\u00edcios corporais em conjunto em espa\u00e7os de reflex\u00e3o sobre os conflitos socioambientais. Embora antes fosse identificado como algo&nbsp;<em>hippie<\/em>, fazer esse exerc\u00edcio de respira\u00e7\u00e3o articular e hoje, h\u00e1 cerca de dois anos, vimos que a luta requer certos momentos de integra\u00e7\u00e3o corporal articular, e n\u00e3o \u00e9 por acaso que um dos primeiros exerc\u00edcios \u00e9 a consci\u00eancia da respira\u00e7\u00e3o. Portanto, essa consci\u00eancia de respirar tem que ser coletiva porque, al\u00e9m disso, nos diz o quanto \u00e9 dif\u00edcil respirar em um contexto de contamina\u00e7\u00e3o, desapropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios em sacrif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7226\"><strong>PACS: Onde voc\u00ea reconhece a arte nos espa\u00e7os comunit\u00e1rios dos quais faz parte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"fe2f\">Pancha: Olha, eu acho que \u00e9 bem latino-americano, bom, voc\u00eas como um povo mais africano, de outras latitudes tamb\u00e9m compartilham. \u00c9 como parte do elemento vital, do ser. Por exemplo, fa\u00e7o parte do movimento pela \u00e1gua, somos um bloco andino, onde dan\u00e7o a dan\u00e7a andina h\u00e1 cerca de 20 anos, ent\u00e3o, para mim, o espa\u00e7o da luta nunca se dividiu em espa\u00e7o da dan\u00e7a, muito pelo contr\u00e1rio: da dan\u00e7a foi o primeiro elemento de onde fui permeando meu territ\u00f3rio de resist\u00eancia. Portanto, \u00e9 como um elemento vital. Ent\u00e3o eu me levanto. Vejo a dan\u00e7a como outras express\u00f5es art\u00edsticas que seriam interessantes porque a gente nem mesmo as nomeia como uma express\u00e3o art\u00edstica, mas como uma forma de relacionamento a partir dessas diferentes express\u00f5es. Ent\u00e3o, aconteceu comigo que em nossa milit\u00e2ncia ou cantamos ou dan\u00e7amos, ou temos um momento para pintar. N\u00e3o sei, acho que felizmente cada vez mais povos e movimentos sociais t\u00eam tentado a partir de um saber, um saber popular que \u00e9 vital para a resist\u00eancia. Da mesma forma, pense na quantidade de pessoas que est\u00e3o em quarentena, voc\u00eas mesmos como povo, n\u00e3o sei, dan\u00e7ando das varandas, cantando&nbsp;<em>Bella Ciao<\/em>&nbsp;s\u00e3o partes dessas express\u00f5es. Ent\u00e3o a dan\u00e7a, claro, agora talvez esteja mais esculpida com minha filha mais nova, dan\u00e7amos porque gostamos de dan\u00e7ar. Mas a dan\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 um elemento de cura e um elemento de resist\u00eancia. E, obviamente, dependendo da circunst\u00e2ncia e o uso que eu dou. Neste momento, dan\u00e7a \u00e9 resist\u00eancia! (risos), porque precisamos tirar o corpo do confinamento e da resist\u00eancia, tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de relacionamento. Isso \u00e9 interessante na dan\u00e7a. Primeiro, o momento em que fico mais consciente do meu corpo, porque dan\u00e7o&nbsp;<em>pasacalle<\/em>&nbsp;na rua, depois tenho que ter cuidado para n\u00e3o confundir os p\u00e9s, ter percep\u00e7\u00e3o espacial, e, por outro lado, \u00e9 o \u00fanico momento que estou feliz, que n\u00e3o estou pensando, mas apenas fazendo. Quer dizer, acho que tamb\u00e9m \u00e9 muito curativo porque voc\u00ea est\u00e1 fazendo, mas \u00e9 um fazer que corresponde ao que voc\u00ea construiu em sua vida. N\u00e3o \u00e9 um fazer de guerra, um fazer competitivo, mas com o que sai. Obviamente, outras vezes a raiva surge tamb\u00e9m, a dor surge atrav\u00e9s da dan\u00e7a. J\u00e1 fiz, pouqu\u00edssimas vezes, mas dancei chorando, em funerais, em espa\u00e7os de dor, em protesto, onde tudo \u00e9 remexido em voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"31a9\"><strong>PACS: E o que \u00e9 cuidado para voc\u00ea? Como voc\u00ea se cuida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ef97\">Pancha: Isso \u00e9 importante, porque \u00e9 uma quest\u00e3o que, em geral, n\u00f3s que estamos no campo da mobiliza\u00e7\u00e3o e da resist\u00eancia n\u00e3o assumimos. Por\u00e9m, no feminismo \u00e9 um dos temas essenciais, o cuidado, entendido como autocuidado e cuidado comunit\u00e1rio. Cuidado por exemplo, para mim, \u00e9 ser cuidada. Bom, na comemora\u00e7\u00e3o do 8 de mar\u00e7o, nestes dois anos em que tive que fazer o porta-voz, entre muitas m\u00e3os e uma dezena fazendo os gritos de mobiliza\u00e7\u00e3o, de mais de um milh\u00e3o de mulheres e dissidentes (\u00e9 algo muito poderoso), e enquanto est\u00e1vamos na faixa principal, todas as companheiras, tanto de faixa como as que iam ao redor, nos perguntavam se t\u00ednhamos comido, se est\u00e1vamos hidratadas, se houve um momento em que checamos os p\u00e9s, se t\u00ednhamos colocado protetor solar\u2026 Ou seja, o tempo todo uma preocupa\u00e7\u00e3o que, se voc\u00ea me pergunta de outras mobiliza\u00e7\u00f5es com meus companheiros, eu n\u00e3o sinto, isto \u00e9, n\u00e3o existem tais conversas. O cuidado ali \u00e9 visto como elemento essencial para continuar na luta. Se n\u00e3o houver cuidado, n\u00e3o h\u00e1 como segurar. Ent\u00e3o, a meu ver, parece que do feminismo isso passa a ser crit\u00e9rio e bom senso. O que \u00e9 maravilhoso, mas n\u00e3o \u00e9 transversal. N\u00e3o \u00e9 transversal de forma alguma, mas acredito que justamente, para n\u00f3s feministas, parte da nossa luta \u00e9 assumir a corporalidade, o autocuidado, a gente tem mais consci\u00eancia disso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3d51\">Em rela\u00e7\u00e3o aos meus cuidados pessoais, um elemento fundamental, e a\u00ed eu volto a vincular com a dan\u00e7a, ou seja, uso a dan\u00e7a como ferramenta de resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m vejo como elemento de cuidado. \u00c0s vezes conto para minha m\u00e3e de brincadeira e ela me fala: \u201cPancha, tanto&nbsp;<em>pascalle<\/em>, tanto protesto que voc\u00ea vai!\u201d \u201c\u00c9 isso ou pagar uma terapia.\u201d Sempre falo na brincadeira, mas tamb\u00e9m \u00e9 real, para mim a dan\u00e7a acaba no pr\u00f3prio espa\u00e7o terap\u00eautico, porque \u00e9 justamente o momento que coloco de lado o racioc\u00ednio, que coloco de lado a dor, que coloco de lado a preocupa\u00e7\u00e3o. Para mim, a dan\u00e7a \u00e9 absolutamente o cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b83d\">Outro elemento do cuidado, com as dificuldades, \u00e9 a alimenta\u00e7\u00e3o, porque comemos muito mal, n\u00e3o \u00e9 nem pelos ingredientes, mas pelo tempo. Comemos r\u00e1pido, sa\u00edmos como plano de fundo. E justamente nos espa\u00e7os de resist\u00eancia, mas j\u00e1 num momento mais passivo, a comida volta a aparecer como um espa\u00e7o de cuidado. Comida, hidrata\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a. E, sem d\u00favida, todos os elementos que fazem bem \u00e0 alma: m\u00fasica, pintura, \u2026 E de novo, n\u00e3o \u00e9 por acaso que tudo est\u00e1 se desenrolando novamente na pandemia, estamos pintando mais, estamos cantando, estamos dan\u00e7ando, colocamos coisas em nossas varandas. Ent\u00e3o, a\u00ed voc\u00ea pode ver que \u00e9 um espa\u00e7o de cuidado, mas que muitas vezes o trabalho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o trabalho neoliberal de produzir, mas tamb\u00e9m o trabalho de se mobilizar e resistir, nos faz colocar esses espa\u00e7os de lado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cf86\"><strong>PACS: O que te adoece e o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"def7\">Pancha: Opa, tamb\u00e9m soa como um clich\u00ea, mas vou dizer: o neoliberalismo e o liberalismo me deixam doente. Vejamos, no Chile, esses momentos na cidade de Santiago, no inverno a polui\u00e7\u00e3o do ar dispara, porque toda a cadeia industrial est\u00e1 circundando a cidade de Santiago e, ao mesmo tempo, Santiago est\u00e1 rodeada de cordilheiras. Ent\u00e3o, se forma uma panela de press\u00e3o, onde fica a contamina\u00e7\u00e3o. E eu sou uma daquelas pessoas que ao sair para trabalhar no inverno, volta com bronquite s\u00f3 por estar com alto \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o. E essa contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 produto do modelo extrativista que o neoliberalismo estabeleceu e que \u00e9 herdeiro do capitalismo. Ent\u00e3o, claro que soa muito clich\u00ea, mas \u00e9 verdade, o neoliberalismo me deixa doente, na forma como me relaciono com o territ\u00f3rio, na forma como a natureza tem sido explorada, me deixa totalmente doente. Eu acho que essa quest\u00e3o respirat\u00f3ria tem a ver tanto com a dor pessoal, com o sentimento de perda, com a tristeza profunda, mas tamb\u00e9m com os elementos estruturais. Eu sinto que o afogamento tem muito a ver com o afogamento da injusti\u00e7a, o afogamento da polui\u00e7\u00e3o, o afogamento da raiva. Acontece muito que eu fico com raiva e fico doente. E fico zangada n\u00e3o com coisas pessoais, mas tamb\u00e9m com o que est\u00e1 acontecendo. Sei que tamb\u00e9m preciso canalizar a raiva, porque se n\u00e3o conseguir canaliz\u00e1-la, vou pegar um resfriado rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f35f\">Bem, o que me cura? O campo me cura, a \u00e1gua me cura, o ar me cura, elementos t\u00e3o vitais que nem deveriam ser considerados curadores. Mas estamos t\u00e3o mercantilizados que eles se convertem. Justamente em espa\u00e7o, tanto de resist\u00eancia, quanto de cura. Esses elementos me curam. A resist\u00eancia me cura, a comunidade me cura. Tamb\u00e9m acredito que, por isso, estamos todos um pouco preocupados nesta quarentena em n\u00e3o perder os la\u00e7os comunit\u00e1rios, porque ser comunidade tamb\u00e9m cura, em termos de continuar a resistir. E essa comunidade passa farta pelas minhas filhas, filhos, minhas companheiras, companheires. Passa por muitas partes. Ent\u00e3o, estar em comunidade me cura, ser e estar em natureza me cura, e me cura com todas as dificuldades, tentando gerar espa\u00e7os de tranquilidade e equil\u00edbrio. E muitas vezes \u00e9 pouco, mas voc\u00ea tem que tentar fazer.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4a56\"><strong>PACS: Francisca, conta para gente um pouco da sua atua\u00e7\u00e3o na luta ambiental e pela \u00e1gua no Chile?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"818b\"><strong>Francisca:<\/strong>&nbsp;Sou parte do&nbsp;<em>Movimiento por el Agua y los Territorios<\/em>&nbsp;(MAT), que criamos em 2013. Uma vez por ano h\u00e1 um encontro organizado por uma ONG, o Observatorio Latinoamericano de Conflictos Ambientales (OLCA), que se chama&nbsp;<em>AguAnte la Vida<\/em>, no qual distintos territ\u00f3rios v\u00e3o contando seus conflitos socioambientais, pensando tamb\u00e9m em como geri-los. Nesse encontro dissemos: necessitamos criar um movimento social cujo um dos eixos principais seja a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no Chile.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fa64\">A \u00e1gua no Chile foi privatizada com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1980, do ditador Pinochet. Em 1981, criaram um C\u00f3digo de \u00c1gua que afirma que embora a \u00e1gua seja um bem de uso p\u00fablico, seu acesso se d\u00e1 atrav\u00e9s de \u201cdireitos de aproveitamento (ou de uso)\u201d. Portanto, esses direitos s\u00e3o literalmente a privatiza\u00e7\u00e3o, que permite comprar, vender, alugar e at\u00e9 hipotecar direitos. Voc\u00eas nem imaginam, mas no Chile, nos jornais, h\u00e1 avisos econ\u00f4micos nos quais se vendem rios completos. \u00c9 esse n\u00edvel de atrocidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3d95\"><strong>PACS: E como foi a cria\u00e7\u00e3o do MAT?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"adb3\"><strong>Francisca:<\/strong>&nbsp;Criamos o MAT em 2013 e o interessante \u00e9 que nessa caminhada pela luta contra a privatiza\u00e7\u00e3o, nessa marcha pela derroga\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo de \u00c1gua, fomos assumindo certas perspectivas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5bb7\">A primeira \u00e9 uma perspectiva plurinacional. Entendemos que somos povos distintos, organizados pela luta de recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. De fato, somos mais de 100 organiza\u00e7\u00f5es, de Arica a Magallanes, todo o Chile, e dizemos que somos plurinacionais porque somos um conjunto de povos, comunidades e territ\u00f3rios \u2014 povos origin\u00e1rios, afro, imigrantes. Entendemos o rural e o urbano tamb\u00e9m como distintas comunidades pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"585d\">Mas, h\u00e1 uns 4 anos, tamb\u00e9m nos definimos um movimento antipatriarcal \u2014 o que entendo como um marco muito importante -, pois consideramos que o extrativismo, a extra\u00e7\u00e3o ilimitada de nossos bens comuns, como a \u00e1gua, a terra, tinham tamb\u00e9m um forte car\u00e1ter patriarcal, j\u00e1 que a forma de explorar a natureza tem sido a mesma que explora o corpo de mulheres e meninas. Al\u00e9m disso, o extrativismo se intensifica sobre as mulheres por conta de precariedades laborais, do n\u00e3o reconhecimento do trabalho reprodutivo do cuidado da vida; mas tamb\u00e9m somos n\u00f3s, as mulheres, as mais localizadas nos territ\u00f3rios de resist\u00eancias. Ent\u00e3o, a partir disso \u00e9 que, h\u00e1 dois anos, as mulheres do MAT, com mulheres de outras organiza\u00e7\u00f5es, constru\u00edram o Comit\u00ea Socioambiental da&nbsp;<em>Coordinadora Feminista 8M.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p id=\"631d\">Em outras palavras, a partir de nossa luta territorial socioambiental, nos conformamos enquanto comit\u00ea feminista e parte da&nbsp;<em>Coordinadora<\/em>. Acho muito interessante, porque \u00e9 outra forma de entender a trajet\u00f3ria feminista. N\u00e3o uma trajet\u00f3ria feminista focada somente na reflex\u00e3o feminista, mas uma trajet\u00f3ria que vem da reflex\u00e3o territorial e que, a partir da\u00ed, nos reconhecemos feministas. Tenho companheiras, por exemplo no comit\u00ea socioambiental, duas com mais de 70 anos e que se reconhecem feministas h\u00e1 2 anos a partir da luta ambiental. Ent\u00e3o, para n\u00f3s, foi super poderoso entender essa jornada, que tem sido uma jornada diferente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0710\"><strong>PACS: Voc\u00eas fazem uma cr\u00edtica direta aos megaprojetos e \u00e0 alguma empresa com nome importante?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"282c\"><strong>Francisca:<\/strong>&nbsp;Sim. O que ocorre \u00e9 que o Chile \u00e9 muito extenso (n\u00e3o grande, risos), ent\u00e3o podemos dizer que focamos nos conflitos socioambientais segundo cada territorialidade. No norte do pa\u00eds, que \u00e9 des\u00e9rtico, fronteiri\u00e7o com Peru e Bol\u00edvia, a grande luta \u00e9 contra a megaminera\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o anula que em todo o territ\u00f3rio chileno haja minera\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 no Norte em que h\u00e1 mais conflitos, porque, por um lado, est\u00e3o as transnacionais explorando o territ\u00f3rio, mas ao mesmo tempo h\u00e1 uma empresa estatal, Codelco. Ent\u00e3o aqui h\u00e1 uma mistura de lutas contra mineradoras como Cerro Colorado, Collahuasi, mineradoras de Codelco, em geral implantadas no territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9e86\">Em contrapartida, na zona Centro-Sul tamb\u00e9m h\u00e1 minera\u00e7\u00e3o. Por exemplo, aqui, a minera\u00e7\u00e3o complexa \u00e9 Anglo American, que destr\u00f3i o territ\u00f3rio. Mas uma das quest\u00f5es importantes que temos \u00e9 o agroneg\u00f3cio, a agroind\u00fastria, que trouxe problemas com pesticidas, inseticidas e as sementes transg\u00eanicas. E, infelizmente, a 40 minutos de Santiago temos o segundo maior celeiro da Monsanto-Bayer da Am\u00e9rica Latina. Nossa luta \u00e9 contra a Monsanto-Bayer e tamb\u00e9m contra empresas, por exemplo, com fazendas de porcos que contaminam todo o territ\u00f3rio e, nesse ponto, uma emblem\u00e1tica \u00e9 a Agrosuper.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"42d7\">J\u00e1 no centro-sul do Chile, h\u00e1 o problema da silvicultura, que \u00e9 a monocultura de pinho que devastou territ\u00f3rios, expropriou terras e \u00e9 a\u00ed onde se insere, sobretudo, o conflito Mapuche. Temos empresas florestais, a Mininco, que, embora chilenas, s\u00e3o empresas mistas, com capitais nacionais e estrangeiros, e vendas direcionadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9 exporta\u00e7\u00e3o: minera\u00e7\u00e3o, agroind\u00fastria, ind\u00fastria florestal. Temos um personagem, Luksic, por exemplo, que est\u00e1 tanto nas empresas de minera\u00e7\u00e3o quanto na agroind\u00fastria. Mas est\u00e1, al\u00e9m disso, em outro elemento da repress\u00e3o territorial: as usinas hidrel\u00e9tricas. Em algum momento foram empresas grandes, como Endesa (espanhola), mas agora est\u00e3o em moda as hidrel\u00e9tricas de parque, que s\u00e3o menores, driblam a avalia\u00e7\u00e3o ambiental e est\u00e3o, igualmente, degradando o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"63f6\">Assim, h\u00e1 uma empresa chamada RP Global, que em 2016 foi parte de um conflito em territ\u00f3rio Mapuche, onde, por fim, uma irm\u00e3 Mapuche chamada Macarena Vald\u00e9s foi assassinada. Ela resistia em seu territ\u00f3rio, na comunidade de Tranquil, sul do Chile, e amanheceu enforcada como se houvesse se matado, enquanto cuidava de seu filho menor e seu marido deixava o outro filho na escola. Mais tarde, fizeram per\u00edcia e se comprovou que ela havia sido assassinada e depois pendurada. Logo, tratamos de quest\u00f5es delicadas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2bc8\">Outra ag\u00eancia do extrativismo feroz no extremo Sul \u00e9 a salmonicultura, a produ\u00e7\u00e3o de salm\u00f5es. Isso tamb\u00e9m degradou territ\u00f3rios, gerou fontes de contamina\u00e7\u00e3o em um lugar muito importante na chamada Ilha Chilo\u00e9. Dessa forma, estou tratando de fazer caracteriza\u00e7\u00f5es territoriais. H\u00e1 uma mistura, no Norte tamb\u00e9m h\u00e1 agroneg\u00f3cio e etc. Aponto apenas o mais emblem\u00e1tico nesse percurso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1adb\"><strong>PACS: E qual a rela\u00e7\u00e3o das empresas com o Estado chileno?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"73a8\"><strong>Francisca:<\/strong>&nbsp;Algo muito importante a ser sublinhado: no Chile, o reconhecimento constitucional determina que o Estado \u00e9 subsidi\u00e1rio. O que isso significa? Subsidia empresas privadas para explorar os bens comuns e export\u00e1-los para obter seus pr\u00f3prios lucros, ou seja, um sal\u00e1rio. O Estado subsidia essas empresas extrativistas atrav\u00e9s de decretos, leis e acordos. Por exemplo, temos um decreto-lei 701, por meio do qual o Estado subsidia empresas florestais para incentivar o plantio de monoculturas. Mas, al\u00e9m disso, volto a insistir, trata-se do monocultivo de madeira para exporta\u00e7\u00e3o, para gera\u00e7\u00e3o de lucros para essa empresa. Isto \u00e9, aqui estamos no extrativismo puro em sua m\u00e1xima raz\u00e3o de ser, como agente do capital. Portanto, \u00e9 um Estado subsidi\u00e1rio, um Estado que n\u00e3o assume a prote\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e de outros bens comuns como um direito humano. Isso \u00e9 muito importante salientar. Assim, delega tudo, subcontrata tudo e ainda investe nos lucros das empresas privadas.&nbsp;<strong>Tudo se relaciona com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1980. Por isso, hoje no Chile estamos nos dando tanto \u00e0 luta por uma nova constitui\u00e7\u00e3o via Assembleia Constituinte, porque, na realidade, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1980 \u00e9 o que nos amarra ao neoliberalismo em todas suas esferas, que possibilita a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o; possibilita a privatiza\u00e7\u00e3o de tudo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"2c79\"><strong>PACS: E h\u00e1 impactos principais sobre a din\u00e2mica da vida, das comunidades, com o meio ambiente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"b928\"><strong>Francisca:<\/strong>&nbsp;Sim, absolutamente. Por exemplo, um dos grandes impactos \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Por uma parte a privatiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia gerado uma migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do campo \u00e0 cidade, dada \u00e0 falta de acesso \u00e0 terra e \u00e0 \u00e1gua. No Chile, o C\u00f3digo de \u00c1gua te permite uma coisa monstruosa: a \u00e1gua e a terra est\u00e3o separadas. Sendo assim, voc\u00ea pode ser dono da terra, mas n\u00e3o dos direitos de \u00e1gua, os quais podem ser comprados por uma empresa. Logo, voc\u00ea vive na sua terra, mas a \u00e1gua pertence a uma empresa. Ent\u00e3o h\u00e1 uma migra\u00e7\u00e3o por conta da press\u00e3o, no pr\u00f3prio territ\u00f3rio, das empresas florestais, da agroind\u00fastria e da minera\u00e7\u00e3o e, de outra parte, h\u00e1 uma migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada oriunda do fato de que, embora voc\u00ea possa ter terra, n\u00e3o tem \u00e1gua, pois outro sujeito a tem monopolizada pelos direitos de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4c38\">E, por outro lado, tamb\u00e9m aparece uma migra\u00e7\u00e3o que chamamos \u201cmigra\u00e7\u00e3o extrativista\u201d, que s\u00e3o todos efeitos do despojo e contamina\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios, o que faz com que as comunidades tenham que sair, porque a vida \u00e9 insustent\u00e1vel; porque \u00e9 insustent\u00e1vel respirar nesses lugares. Chamamos isso de \u201czonas de sacrif\u00edcio\u201d, ontem as chamamos \u201cterrit\u00f3rios em sacrif\u00edcio\u201d, onde h\u00e1 presen\u00e7a, por exemplo, de termel\u00e9tricas, que matam todo tipo de vida, tudo. Portanto, essa migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, essa migra\u00e7\u00e3o extrativista, tamb\u00e9m est\u00e1 gerando maiores cadeias de pobreza no contexto urbano. Porque, para onde est\u00e3o migrando? V\u00e3o migrando, no contexto urbano, para onde n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica sanit\u00e1ria, onde h\u00e1 superlota\u00e7\u00e3o. E aten\u00e7\u00e3o! No Chile existem mais de 30&nbsp;<em>comunas<\/em><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-resist%C3%AAncia-pelo-direito-%C3%A0-%C3%A1gua-no-chile-90229c890be4#_ftn2\"><strong><em>[2]<\/em><\/strong><\/a>sem \u00e1gua pot\u00e1vel. H\u00e1 mais de 150 com escassez h\u00eddrica. Assim, falamos aqui de um problema de sa\u00fade p\u00fablica, para al\u00e9m de uma problem\u00e1tica socioambiental.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5248\">Falamos disso agora na pandemia. Uma das principais campanhas da pandemia \u00e9 para lavar as m\u00e3os. Aqui, no Chile, h\u00e1 comunidades inteiras que nem sequer podem faz\u00ea-lo, pois n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua.&nbsp;<strong>N\u00f3s estamos trabalhando com uma categoria \u2014 com que outras feministas j\u00e1 trabalharam, mas estamos recuperando \u2014 chamada \u201csoberania sanit\u00e1ria dos povos\u201d. Assim como existe a soberania alimentar, atrav\u00e9s da agroecologia, das hortas familiares, tamb\u00e9m buscamos a soberania sanit\u00e1ria, do cuidado, da sa\u00fade comunit\u00e1ria. Essa soberania, portanto, \u00e9 tamb\u00e9m super importante, porque, no fundo, \u00e9 ela que, hoje, est\u00e1 permitindo a assist\u00eancia de comunidades e n\u00e3o o Estado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9248\"><strong>PACS: Como as mulheres est\u00e3o em meio a esses conflitos, em termos de impactos e resist\u00eancias? Como voc\u00ea enxerga o patriarcado nesse contexto? E como elas s\u00e3o impactadas, como resistem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"b6da\"><strong>Francisca:<\/strong>&nbsp;S\u00e3o essas contradi\u00e7\u00f5es: mulheres e meninas \u2014 tamb\u00e9m acontece muito com as meninas \u2014 somos as mais expostas ao estrago do neoliberalismo, por conta do que expliquei, mas ao mesmo tempo isso possibilitou que f\u00f4ssemos as mais mobilizadas. No entanto, ao sermos as mais mobilizadas, tamb\u00e9m somos as mais criminalizadas. Tem havido um movimento de criminaliza\u00e7\u00e3o, por exemplo, de autoridades espirituais Mapuche que s\u00e3o mulheres, as&nbsp;<em>Machis<\/em>. Temos muitos casos de&nbsp;<em>Machis&nbsp;<\/em>presas, justamente por causa da diferen\u00e7a de seus corpos de \u00e1gua, seus rios, como o pr\u00f3prio territ\u00f3rio Mapuche. Nessa \u00e1rea, ent\u00e3o, existe essa contradi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma sorte de despertar de consci\u00eancia, de despertar da luta pelos pr\u00f3prios direitos da natureza, em que \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 nem sequer um direito humano, mas um elemento vital para a manuten\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio do ecossistema e, no fundo, a manuten\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida de todos os seres que habitam o planeta. Ao mesmo tempo, esse despertar de consci\u00eancia gerou uma exist\u00eancia bastante problem\u00e1tica, porque, precisamente: existe uma feminiza\u00e7\u00e3o do extrativismo, mas simultaneamente h\u00e1 uma feminiza\u00e7\u00e3o da luta, o que nos torna mais expostas, por exemplo, \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a&nbsp;<em>cyberbulling<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"87ea\">Temos um caso, recente, de uma companheira do MAT que estava sendo sistematicamente agredida por&nbsp;<em>whatsapp<\/em>. T\u00ednhamos um grupo coletivo de informa\u00e7\u00e3o socioambiental, no qual uns sujeitos entraram e come\u00e7aram a enviar fotos de pornografia, de arma\u2026 E agora, como estamos em quarentena, n\u00e3o nos permitem fazer a den\u00fancia porque essa tem de ser presencialmente. Bizarro! Estamos realizando uma rede de campanha para visibilizar que as defensoras, em quarentena, est\u00e3o igualmente expostas ao ass\u00e9dio, ao abuso, \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o lugar das mulheres \u00e9 complexo, pois \u00e9 um lugar em que temos, primeiro, de assumir essa condi\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o, assumir que o extrativismo nos afeta, e que intensifica-se ao m\u00e1ximo em n\u00f3s; e assumir que, sendo um lugar de resist\u00eancia, \u00e9 onde devemos gerar pol\u00edticas de cuidado \u00e0s mulheres e \u00e0s dissid\u00eancias sexuais e de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"995b\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-resist%C3%AAncia-pelo-direito-%C3%A0-%C3%A1gua-no-chile-90229c890be4#_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/06\/22\/pl-que-permite-privatizacao-dos-servicos-de-saneamento-pode-ser-votado-nesta-quarta\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/06\/22\/pl-que-permite-privatizacao-dos-servicos-de-saneamento-pode-ser-votado-nesta-quarta<\/a><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d1f7\"><a href=\"https:\/\/pacsinstituto.medium.com\/mulheresterrit%C3%B3riosdeluta-resist%C3%AAncia-pelo-direito-%C3%A0-%C3%A1gua-no-chile-90229c890be4#_ftnref2\">[2]<\/a>&nbsp;Uma&nbsp;<em>comuna<\/em>&nbsp;trata-se da menor divis\u00e3o administrativa espacial do Chile. Equivaleria aos munic\u00edpios brasileiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAT, Chile<\/p>\n","protected":false},"featured_media":162,"template":"","class_list":["post-161","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/161","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":233,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/161\/revisions\/233"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}