{"id":171,"date":"2021-05-06T12:55:47","date_gmt":"2021-05-06T15:55:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=171"},"modified":"2021-05-06T12:55:47","modified_gmt":"2021-05-06T15:55:47","slug":"zica-pires","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/zica-pires\/","title":{"rendered":"Zica Pires"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: ser-natureza como trincheira<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p id=\"0331\"><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 17\/08\/2020<\/p>\n\n\n\n<p id=\"864d\">Em mais uma edi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie de entrevistas com mulheres lutadoras da Am\u00e9rica Latina, hoje traremos a conversa feita com\u00a0<strong>Zica Pires<\/strong>, do quilombo Santa Rosa dos Pretos, no Maranh\u00e3o. Zica participar\u00e1 do s\u00e9timo epis\u00f3dio do\u00a0<strong>Ciclo de Debates da Campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta,<\/strong>\u00a0que ter\u00e1 como tema\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/XXdpsz7Q9-M\"><strong>\u201cMulheres e territ\u00f3rios atingidos pela Vale S. A.\u201d<\/strong><\/a>\u00a0A transmiss\u00e3o ao vivo acontecer\u00e1 no dia 19 de agosto de 2020, \u00e0s 17h, no nosso canal no Youtube e ficar\u00e1 dispon\u00edvel no mesmo, junto \u00e0s transmiss\u00f5es anteriores. A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Zica-Pires-1-1024x576.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-173\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Zica-Pires-1-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Zica-Pires-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Zica-Pires-1-768x432.jpeg 768w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Zica-Pires-1-360x202.jpeg 360w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Zica-Pires-1.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Zica Pires, do quilombo Santa Rosa dos Pretos, no Maranh\u00e3o | Foto: Instituto Pacs<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"f168\"><strong>Pacs: O que \u00e9 luta pra voc\u00ea? Por que voc\u00ea luta? O que te move?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"7987\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>Lutar \u00e9 ir contra essas ideologias de morte. N\u00e3o d\u00e1 pra pensar em outra forma porque h\u00e1 muitos mil\u00eanios a gente pensa dessa maneira. N\u00e3o tinha necessidade de se lutar antes, apenas de viver. Hoje, se luta para sobreviver. E se luta para sobreviver porque h\u00e1 brancos que, de algum modo, s\u00e3o uma raiz estragada dessa na\u00e7\u00e3o primeira da qual eu perten\u00e7o. Ent\u00e3o, lutar \u00e9 muito complexo. O que me motiva \u00e9 buscar viver de novo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"58ce\"><strong>Pacs: Como voc\u00ea se identifica como mulher?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"6c97\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>O que \u00e9 ser mulher, de fato? Porque isso tamb\u00e9m \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o. Ser feminino \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o. Eu sei que eu perten\u00e7o a uma natureza diferente de outras naturezas. Essa natureza que eu sou hoje vai compor outra que vai vir depois de mim. Eu n\u00e3o sei se eu me descobri mulher, mas eu tenho certeza que eu me descobri natureza. A minha natureza \u00e9 um fragmento de uma maior. Eu n\u00e3o acredito muito nesses r\u00f3tulos que passam a dar. Na minha cabe\u00e7a n\u00e3o funciona assim. Eu sinto que eu sou uma natureza que n\u00e3o precisa de r\u00f3tulo nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2ad4\"><strong>Pacs: Voc\u00ea se sente atingida por esse modelo de desenvolvimento e os megaprojetos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"1f95\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>Esses modelos de desenvolvimento atingem no momento em que a gente fala em \u201cdes-envolvimento\u201d. Essa palavra em si j\u00e1 assassina todas as naturezas. Ela diz que vai separar o que est\u00e1 envolvido. Na l\u00f3gica \u00e9 isso: eu vou \u201cdes-envolver\u201d. Eu n\u00e3o quero. Eu quero estar envolvida cada vez mais. O envolvimento serve, o desenvolvimento n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d48e\"><strong>Pacs: Como voc\u00ea v\u00ea e sente o seu corpo? O que voc\u00ea carrega nele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"a2f8\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>Eu sinto ele como uma parte furiosa de uma natureza maior e que, \u00e0s vezes, est\u00e1 calmo, em uma tempestade que vai iniciar, mas que de repente escurece e fica tudo tranquilo \u2014 porque se clarear d\u00e1 problema. \u00c0s vezes, eu sou a natureza em curso de f\u00faria quando eu vejo viol\u00eancias que s\u00e3o cometidas todo dia, desde sempre. Ent\u00e3o, quando eu olho para o que aprendemos de forma mal ensinada a chamar de corpo, eu vejo marcas que n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis, porque n\u00e3o s\u00e3o coisas superficiais, mas que est\u00e3o dentro. Curioso porque eu olho bastante para essa casca porque ela me faz voltar todo tempo ao passado. N\u00e3o d\u00e1 para pensar em um amanh\u00e3, que \u00e9 hoje e que j\u00e1 foi ontem, esse passado, sem olhar para o que est\u00e1 atr\u00e1s. Eu n\u00e3o posso ir contra o que vai acontecer para frente, mas eu tenho que saber o que aconteceu at\u00e9 esse momento. Ver e rever quantas vezes preciso for esse processo que se deu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ea37\"><strong>Pacs: Onde e como voc\u00ea sente esses impactos do desenvolvimento no seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"2d61\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>Quando eu escuto isso, esse \u201cdes-envolver\u201d, come\u00e7a pelos p\u00e9s, que \u00e9 raiz. Se te cortam os p\u00e9s, voc\u00ea n\u00e3o tem mais essa liga\u00e7\u00e3o direta, te cortaram as ra\u00edzes, seu contato maior. Depois eu penso no tronco, como uma \u00e1rvore arrancada pela raiz. V\u00e3o cortando essas ra\u00edzes e de repente n\u00e3o cortam o tronco, eles partem para os galhos e para a copa. V\u00e3o arrancar os galhos que eu entendo como essas extens\u00f5es, que \u00e9 como nos seguramos. Depois eles tiram a copa, que \u00e9 arrancar a cabe\u00e7a. Depois, violentam o que seria o tronco da \u00e1rvore e o que a gente chama de tronco tamb\u00e9m \u2014 porque \u00e9. \u00c9 dessa forma. Esse des-envolvimento arranca os p\u00e9s, arranca os bra\u00e7os, arranca as m\u00e3os, arranca a cabe\u00e7a e depois estupra o tronco.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a308\"><strong>Pacs: De onde voc\u00ea acha que vem a sua for\u00e7a? De onde voc\u00ea tira oxig\u00eanio para seguir na luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"5aa2\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>A minha for\u00e7a vem dessa liga\u00e7\u00e3o. Vem dessa passagem do p\u00e9. Se eu n\u00e3o tenho contato, eu n\u00e3o consigo sentir as coisas. Eu tiro oxig\u00eanio das folhas, literalmente das folhas, porque \u00e9 o que ainda tem de puro. Eu sou uma criatura do mato, ent\u00e3o eu primeiro escuto o que tem aqui para depois ouvir o que tem l\u00e1 fora. Por isso, \u00e9 importante respirar fundo e ter coragem de ir e lutar. Eu vou porque se eu n\u00e3o luto, eu n\u00e3o respiro, se eu n\u00e3o respiro, que sentido tem? Ent\u00e3o eu preciso defender, eu preciso garantir, tanto a minha sobreviv\u00eancia quanto a dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c682\"><strong>Pacs: Como voc\u00ea v\u00ea a arte? Como ela est\u00e1&nbsp;<\/strong><mark><strong>e<\/strong><\/mark><strong>m voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"cadf\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>sou uma criatura de profundezas e \u00e9 dif\u00edcil chegar l\u00e1. Mas \u00e9 importante a gente caminhar primeiro para dentro, saber o que tem dentro e o que tem atr\u00e1s. Eu mergulho muito nisso. A arte, de algum modo, nem \u00e9 quest\u00e3o do eu, mas do outro, \u00e9 quebrar o que, de forma violenta, \u00e9 colocado. As barreiras. A arte serve como uma ponte entre a natureza dos outros, como um olhar diferente. Normalmente, a minha natureza n\u00e3o est\u00e1 com as melhores caras, mas a arte \u00e9 essa forma de trazer a sensibilidade e a beleza desse caminho profundo que eu fa\u00e7o. N\u00e3o gosto muito de falar sobre ele, mas \u00e9 uma forma de mostrar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"65d2\"><strong>Pacs: O que te adoece e o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"dd63\"><strong>Zica:&nbsp;<\/strong>O que me adoece \u00e9 a ignor\u00e2ncia do homem. Isso me adoece e tenho dificuldade com isso. O homem \u00e9 um detalhe t\u00e3o m\u00ednimo na natureza, \u00e9 uma dimens\u00e3o, perdido em uma outra dimens\u00e3o muito maior. A ignor\u00e2ncia de achar que se sabe das coisas. A gente sabe o que nos \u00e9 permitido saber e nada al\u00e9m disso. A ignor\u00e2ncia do homem me adoece porque eu paro, olho, fico refletindo e penso: como pode uma criatura que n\u00e3o tem nada achar que sabe das coisas? Quando eu percebo isso, o que me cura \u00e9 justamente saber que \u00e9 poss\u00edvel sempre ver com mais que dois olhos, ver de outras formas, e isso me cura porque \u00e9 entendermos que somos dimens\u00f5es que n\u00e3o temos controle. Eu sou movida por essa coisa real de saber que n\u00e3o vale a pena se adoecer acreditando que eu detenho alguma coisa ou sei das coisas. Essa reflex\u00e3o me melhora porque eu sei que eu posso ser muita coisa, mas eu n\u00e3o quero ser aquilo que acha que sabe, porque eu n\u00e3o sei de nada e tamb\u00e9m n\u00e3o quero saber.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8c02\"><strong>Pacs: O que voc\u00ea pensa sobre o tempo? O seu tempo e o tempo da natureza\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"19ed\"><strong>Zica:\u00a0<\/strong>Hoje \u00e9 dia 21 de julho. Ontem foi 20. No lanche ontem foi servido suco de manga. Eu n\u00e3o entendi o porqu\u00ea. As mangueiras j\u00e1 trocaram de folhagem pela terceira vez esse m\u00eas e tem umas que come\u00e7aram a estourar as folhas novas, porque tem umas que ficam cor de rosa. Daqui a um tempo, elas v\u00e3o estourar umas flores e depois umas mangas bem pequenininhas, os bot\u00f5es. V\u00e3o ficar o final de julho, agosto, setembro e outubro, quatro meses. Daqui a quatro meses, no come\u00e7o de novembro, aparecem as primeiras mangas. No meio de novembro, vai ter uma quantidade maior. No m\u00eas de dezembro vai ter muita manga. Mas, curiosamente, foi servido suco de manga ontem. Eu n\u00e3o entendi. A gente n\u00e3o sabe de nada. Se n\u00f3s n\u00e3o respeitamos um ciclo natural, a gente n\u00e3o respeita o que n\u00f3s somos. Porque se eu conseguiria tomar um suco de manga ontem, ent\u00e3o eu vou subir nessa mangueira e comer uma manga hoje. Mas n\u00e3o tem. Que manga misteriosa \u00e9 essa? A natureza n\u00e3o funciona assim, ela tem ciclos e aqui n\u00e3o \u00e9 o momento. O meu tempo \u00e9 esse tempo de entender e respeitar isso. Eu n\u00e3o tomei suco de manga porque n\u00e3o \u00e9 \u00e9poca de manga. Mas me pergunta se daqui a quatro meses eu n\u00e3o posso tomar? A\u00cd eu tomo. Porque essa natureza (a minha) sabe respeitar esse tempo. Ela n\u00e3o vai sentir vontade de se alimentar de manga porque ter\u00e3o outras coisas. Ent\u00e3o, o meu tempo n\u00e3o \u00e9 um tempo que fica preso porque a minha semana passa em meses. Em tempos dif\u00edceis em que tende a se pensar muitas coisas, o primeiro sentimento \u00e9 de desespero. Se houvessem realmente motivos para estarmos desesperados, a gente n\u00e3o teria todas as solu\u00e7\u00f5es em volta. S\u00f3 ser\u00e1 realmente um momento de desespero quando n\u00e3o tiver mais nada. Enquanto houver, \u00e9 importante a gente saber que \u00e9 preciso se levantar, ficar de p\u00e9 e se preparar, porque tem coisa muito maior para ser defendida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quilombo Santa Rosa dos Pretos, Maranh\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"featured_media":173,"template":"","class_list":["post-171","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/171\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":174,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/171\/revisions\/174"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/173"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}