{"id":201,"date":"2021-05-11T11:45:38","date_gmt":"2021-05-11T14:45:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=201"},"modified":"2021-05-11T14:07:56","modified_gmt":"2021-05-11T17:07:56","slug":"luciana-melo","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/luciana-melo\/","title":{"rendered":"Luciana Melo"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: a arte e a educa\u00e7\u00e3o popular como liberta\u00e7\u00e3o e respiro<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 28\/09\/2020<\/p>\n\n\n\n<p>Em mais um material da s\u00e9rie de entrevistas com mulheres lutadoras da Am\u00e9rica Latina na campanha\u00a0<strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/strong>, trazemos hoje uma conversa realizada com\u00a0<strong>Luciana Melo<\/strong>, educadora popular do MST e que tamb\u00e9m tem atuado no MAM. Nascida no nordeste paraense, Luciana conta um pouco da sua trajet\u00f3ria de atua\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rios atingidos por megaprojetos e o encontro com a arte nessa caminhada. O material foi produzido por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"466\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LucianaMelo.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-203\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LucianaMelo.jpeg 700w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LucianaMelo-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption>Luciana Melo em atividade cultural. | Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"ca4a\"><strong>PACS: O que \u00e9 luta para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"19a6\"><strong>Luciana:<\/strong>&nbsp;Lutar significa correr atr\u00e1s de alguma coisa, seja de um direito, seja uma possibilidade de ser, ter. As minhas experi\u00eancias de luta estavam muito relacionadas com a luta de outros, e a\u00ed acabavam sendo minhas lutas tamb\u00e9m. Eu reconhe\u00e7o como luta quando eu entro no movimento estudantil, porque voc\u00ea reconhece uma pauta, sujeitos que est\u00e3o em torno de uma mesma condi\u00e7\u00e3o. Depois fui ser professora municipal de um mun\u00edcipio do Par\u00e1, um lugar muito pequeno, que me sufocava. A\u00ed fiz o concurso para professora de educa\u00e7\u00e3o especial em Marab\u00e1 e passei. Mas a minha rela\u00e7\u00e3o com o movimento come\u00e7a uns quatro anos depois. Eu era professora com foco na educa\u00e7\u00e3o especial, me envolvia pedagogicamente em rela\u00e7\u00e3o aos alunos, mas fazia ter a pauta da luta da defici\u00eancia como uma pauta minha, que \u00e9 quando eu encontro o MST, uma rela\u00e7\u00e3o que aconteceu via mulheres. Fui para uma oficina de teatro com as mulheres, mas foi muito louco porque eu n\u00e3o tinha uma rela\u00e7\u00e3o com o teatro, come\u00e7a desse encontro. Eu comecei a entender que a luta perpassa por outras formas, pela educa\u00e7\u00e3o, pela forma\u00e7\u00e3o e a arte. \u00c9 construir processos formativos, com crian\u00e7as, com mulheres. De l\u00e1 para c\u00e1, eu venho participando de processos formativos que eu encaro como trincheiras de luta. Ent\u00e3o, para mim luta \u00e9 isso, construir processos de forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 onde eu me vejo lutando, onde eu constru\u00ed minha perspectiva de luta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5261\"><strong>PACS: O<\/strong>&nbsp;<strong>que te movimenta para construir esses processos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"6797\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>O que me motiva \u00e9 poder potencializar o que todo mundo \u00e9 capaz de fazer. Inclusive eu. Porque quando eu potencializo algu\u00e9m\/a mim, eu tenho condi\u00e7\u00e3o de potencializar voc\u00ea. E muita coisa que eu fa\u00e7o \u00e9 de experimento meu tamb\u00e9m, eu n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o em arte\u2026ent\u00e3o \u00e9 isso que me motiva, \u00e9 poder potencializar nas pessoas aquilo que elas s\u00e3o capazes de fazer, e o que elas s\u00e3o capazes eu n\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f2f9\"><strong>PACS: Em que momento da sua trajet\u00f3ria de vida voc\u00ea se entende mulher e mulher de luta? E como voc\u00ea se v\u00ea nas mulheres do seu passado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"3b67\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>O momento que, aos treze anos de idade, fomos morar eu, minhas duas irm\u00e3s e minha m\u00e3e em Bel\u00e9m, e todo mundo achava uma loucura minha m\u00e3e fazer isso. Quando ela se separou do meu pai, eu tinha 4 anos de idade e a gente foi morar na casa dos meus av\u00f3s para que minha m\u00e3e pudesse voltar a estudar. Ela sofreu viol\u00eancia dom\u00e9stica, ent\u00e3o era estudar para poder trabalhar. Quando ela resolveu ir para Bel\u00e9m fazer faculdade, ela ficou um ano sozinha l\u00e1 e depois ela pensou \u201cagora vou levar as meninas porque \u00e9 importante que elas estudem em Bel\u00e9m\u201d, e foi todo mundo contra. E a\u00ed eu acho que esse foi o primeiro momento que a gente teve a no\u00e7\u00e3o do que era ser mulher, porque \u00e9ramos quatro mulheres. Diziam que a gente ia ser puta, que a gente n\u00e3o ia dar certo, todo mundo tentando tutelar a gente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a7d0\">Para minha m\u00e3e era muito importante que a gente estudasse, ent\u00e3o quando a minha irm\u00e3 g\u00eamea engravidou foi uma outra vez que eu tive no\u00e7\u00e3o que era uma mulher, porque a gente tinha 19 anos, ela engravidou, e foi louco porque est\u00e1vamos sob a tutela de minha av\u00f3 porque minha m\u00e3e estava em Macap\u00e1. \u00c9ramos quatro mulheres, s\u00f3 que agora com minha av\u00f3, e a minha irm\u00e3 gr\u00e1vida. 4 mulheres cuidando da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8821\">Depois, quando eu sofri uma viol\u00eancia sexual quando estava indo para o trabalho, eu tive no\u00e7\u00e3o que eu era mulher tamb\u00e9m a\u00ed, eu sofri um assalto e uma tentativa estupro. E isso me fez lembrar de outras est\u00f3rias que eu tinha passado antes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d92c\">Ent\u00e3o tudo isso me forja como uma mulher de luta, porque \u00e9 isso n\u00e9, voc\u00ea lutar pela independ\u00eancia, lutar, sua luta pessoal, de sair de casa com 20 anos de idade para um outro munic\u00edpio, para dar aula, para trabalhar, ent\u00e3o eu acho que tudo isso forjou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6161\"><strong>PACS: Ainda nessa perspectiva da mulher que luta, em tr\u00e2nsito e movimento, como voc\u00ea sente a presen\u00e7a dos impactos dos megaprojetos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"30ed\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o que minha vida em Bel\u00e9m era impactada por coisas que estavam al\u00e9m da minha vida ali. O movimento estudantil me d\u00e1 uma leitura pol\u00edtica que eu me deslumbrava. O massacre de Caraj\u00e1s foi tema de vestibular para mim, que j\u00e1 me impactou. Mas, quando eu chego em Marab\u00e1 e a\u00ed sim, porque primeiro que Marab\u00e1, para n\u00f3s da regi\u00e3o nordeste do estado, \u00e9 o&nbsp;<em>bang-bang<\/em>, faroeste. Quando eu disse para os meus amigos que eu ia morar e trabalhar l\u00e1, eles disseram \u201cnossa, voc\u00ea \u00e9 louca, o que voc\u00ea vai fazer l\u00e1\u201d. Era o lugar do garimpo, isso estava muito distante do meu corpo f\u00edsico, do meu imagin\u00e1rio simb\u00f3lico. Porque, mesmo em Bel\u00e9m, em Castanhal, eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o com o lugar que n\u00e3o perpassava, que eu n\u00e3o sentia o que era isso. Ent\u00e3o, quando eu chego em Marab\u00e1, eu entendo que \u00e9 isso. Que \u00e9 o lugar de faroeste mesmo, que a lei que impera \u00e9 a lei do poder pol\u00edtico, econ\u00f4mico\u2026 lugar de estrangeiro. Assim, em todas as escalas que voc\u00ea possa imaginar, estrato social \u00e9 maranhense, o colonizador \u00e9 o goiano, aquele que vem por causa de gado, depois a minera\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que esse olhar amplia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"eca7\"><strong>PACS: Voc\u00ea consegue, de alguma forma, sentir a mineraliza\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es nesses territ\u00f3rios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"0fb5\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>Quando uma das minhas tias soube que eu estava indo para Marab\u00e1, acho que eu estava um ano l\u00e1\u2026 ela me ligou e disse&nbsp;<em>\u201cLuciana, voc\u00ea est\u00e1 morando em Marab\u00e1? Voc\u00ea conhece o pessoal da Vale? (\u2026) \u201cn\u00e3o, porque eu quero que o Tony (meu primo), v\u00e1 trabalhar a\u00ed, se eu te mandar o curr\u00edculo, voc\u00ea manda?\u201d<\/em>&nbsp;Ent\u00e3o, no imagin\u00e1rio de muitas pessoas de fato, isso \u00e9 constru\u00eddo de forma muito forte ali, onde est\u00e1 a minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b71b\">Para mim foi muito forte perceber a pot\u00eancia que os caras t\u00eam de colocar em n\u00f3s o imagin\u00e1rio positivo. Eles t\u00eam esse poder. A Vale convidou o Grupo Arraial do Pavulagem, um grupo de cultura popular, para fazer um show em pra\u00e7a p\u00fablica, e os caras fizeram uma apresenta\u00e7\u00e3o. No primeiro momento, eu estranhei a aceita\u00e7\u00e3o do convite porque eu conhe\u00e7o parte da hist\u00f3ria, Arraial da Pavulagem e Vale. Estranhei. Quando n\u00f3s chegamos l\u00e1, a Vale simplesmente distribuiu em pra\u00e7a p\u00fablica um chap\u00e9u que \u00e9 um s\u00edmbolo muito forte do Arraial, com fitas coloridas. Em todo o cortejo do Arraial voc\u00ea encontrava pessoas na rua com o chap\u00e9u de palha e as fitas penduradas. A Vale distribuiu mais de 1000 chap\u00e9us de palha com as fitas coloridas, da cor dela, verde e amarela. Voc\u00ea olhava em pra\u00e7a p\u00fablica de Marab\u00e1, todo mundo foi, muita gente foi para esse lugar, inclusive n\u00f3s do movimento, da Universidade. Voc\u00ea via toda a pra\u00e7a de chap\u00e9u de palha com a cor da Vale. Para mim, isso foi muito forte e tamb\u00e9m me deu uma dimens\u00e3o do nosso desafio, do quanto isso impacta a gente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c921\"><strong>PACS: Como voc\u00ea acha que esses processos que voc\u00ea desenvolve conseguem contrapor esse imagin\u00e1rio que \u00e9 constru\u00eddo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f584\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>De toda a forma, eu tive espa\u00e7os muito favor\u00e1veis, ent\u00e3o eu vou dizer que \u00e9 100% (risadas). Eu estive nos cursos de forma\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o do campo, que envolvia alunos do movimento tamb\u00e9m. Ganhamos aqueles e aquelas que inicialmente n\u00e3o eram do movimento, porque a gente consegue construir na pr\u00e1tica real, coisas concretas e eles conseguem perceber mudan\u00e7as de perspectiva na forma de ser m\u00e3e, pai, de ser educador, de ser patr\u00e3o, empregado. Eles falam \u201co que a gente aprende aqui a gente faz la, a gente faz em casa\u201d. O fato de colocar uma x\u00edcara em cima da mesa faz diferen\u00e7a pra gente almo\u00e7ar, ent\u00e3o \u00e9 mudar as perspectivas. Eu n\u00e3o preciso comer num lugar sujo sendo pobre. Ent\u00e3o, nesse sentido, \u00e9 fundamental a gente permanecer construindo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_L_uMMTIVGlTqRPpmq4lTPw.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-204\" width=\"567\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_L_uMMTIVGlTqRPpmq4lTPw.jpeg 414w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_L_uMMTIVGlTqRPpmq4lTPw-300x199.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption>Luciana Melo em atividade cultural. | Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"337c\"><strong>PACS: Como voc\u00ea v\u00ea o seu corpo e o que carrega nele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"52c5\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>Eu tive muitos problemas com meu corpo, porque era magra, porque tinha peito grande, porque n\u00e3o era para ter na regi\u00e3o onde eu moro. Mas, n\u00e3o no sentido que eu neguei, mas em dado momento, eu descobri que era um corpo que necessitava, que necessita na verdade, de cuidados, em todos os sentidos, para continuar a luta, para n\u00e3o desistir da luta. O corpo da mulher \u2014 eu vivi v\u00e1rias experiencias, n\u00e9?! \u2014 \u00e9 um corpo com possibilidade de viol\u00eancia permanente. Pensando na sociedade que a gente vive, ele est\u00e1 exposto, colocado num lugar de viol\u00eancia. A autoagress\u00e3o que cada uma de n\u00f3s nos coloca em dado momento, para atingir um padr\u00e3o, para atingir uma expectativa do outro e da outra que se torna um nosso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5602\">O corpo \u00e9 um lugar de passagem, o aborto, mais do que a maternidade, me colocou um lugar no corpo que foi muito forte. O lugar do corpo que pode cometer crimes vistos pelos outros. E o quanto o meu corpo ficou \u00e0 merc\u00ea de uma n\u00e3o ajuda. E quanto toda essa domina\u00e7\u00e3o do nosso corpo nos coloca num lugar de falta de conhecimento sobre os nossos tempos, o que \u00e9 forte em n\u00f3s, o que \u00e9 fraco em n\u00f3s, o quanto \u00e9 potente. O quanto o nosso corpo \u00e9 lugar de passagem, de dor. Ent\u00e3o, ter no\u00e7\u00e3o disso \u00e9 importante para pensar o quanto, por exemplo, a luta nos coloca forte, mas tamb\u00e9m nos fragiliza.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c05e\"><strong>PACS: De onde vem a sua for\u00e7a quando voc\u00ea pensa no corpo? Tem algum lugar do seu corpo que voc\u00ea sente mais sente os impactos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"7be0\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>Vem de mim (risadas). Eu tenho muito medo. Ent\u00e3o, a for\u00e7a vem muitas vezes do medo. Eu tenho medo de ser violentada, eu n\u00e3o tenho medo de morrer, eu tenho medo da forma da morte. Eu tenho muita vontade de fazer muita coisa, eu tenho medo de n\u00e3o conseguir fazer o que eu tenho vontade. Acho que \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"16e0\">E pernas, os membros inferiores, s\u00e3o os lugares que eu mais sinto. Eu tenho uma experi\u00eancia com as pernas que \u00e9 muito louca. A minha v\u00f3 amarrava minhas pernas, porque a gente sempre estava com as pernas separadas, ent\u00e3o ela amarrava com fralda. Eu tenho uma lembran\u00e7a corp\u00f3rea das pernas amarradas que \u00e9 uma coisa, eu n\u00e3o durmo em saco de dormir nunca, nunca. Porque \u00e9 como se eu estivesse amarrada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"607f\"><strong>PACS: Voc\u00ea acha que a pr\u00f3pria luta pode ser um respiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"fc0b\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>Total, porque para mim, lutar \u00e9 trabalhar, n\u00e3o s\u00e3o coisas diferentes. \u201cAh, hoje eu vou sair para lutar, hoje eu vou sair para trabalhar\u201d, n\u00e3o\u2026 Entendeu?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9f73\"><strong>PACS: Onde est\u00e1 a arte em voc\u00ea e quais as pot\u00eancias que ela te traz?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"3235\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>A arte foi um lindo encontro, um encontro consciente, porque ela sempre esteve presente, de uma forma muito natural. Mas, quando eu me encontro com a arte no sentido de processos formativos, a arte n\u00e3o s\u00f3 como uma alegoria, n\u00e3o s\u00f3 como divers\u00e3o, mas a arte como uma oportunidade real de construir alguma coisa, ela se torna o meu lugar, no final das contas. Porque essa vida dom\u00e9stica tamb\u00e9m me colocou desafios, que \u00e9 construir esse espa\u00e7o como um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 de reprodu\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9d3d\">A arte \u00e9 uma possibilidade metodol\u00f3gica para mim. Ent\u00e3o, quando eu descobri que eu posso ensinar alguma coisa e utilizar a arte como um m\u00e9todo ou como recurso, foi libertador para mim, enquanto professora.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7181\">A rela\u00e7\u00e3o com a arte manual tamb\u00e9m foi muito importante, tem sido. No per\u00edodo do aborto, eu fiz 100 bonecas Abayomi, e perguntaram: \u201cmas t\u00e1 fazendo bonecas por qu\u00ea?\u201d e eu dizia: \u201ceu n\u00e3o sei, mas eu preciso fazer\u201d. 45 dias em processo, fazendo bonecas. A arte manual como uma movimenta\u00e7\u00e3o do corpo, para poder a mente n\u00e3o explodir, n\u00e3o sucumbir.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"01ed\"><strong>PACS: O que te adoece e o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f73e\"><strong>Luciana:&nbsp;<\/strong>O meu medo, \u00e9 uma coisa que eu preciso vencer. O medo me paralisa. Eu sinto que isso me adoece porque eu quero muito ir, eu quero muito fazer, eu quero muito. Uma coisa que eu preciso desconstruir em mim \u00e9 essa ideia de que eu n\u00e3o sou capaz. \u00c9 construir uma autoconfian\u00e7a mais altru\u00edsta, mais potente. Quando eu fa\u00e7o, eu descubro que eu sou potente.<br>O que me cura s\u00e3o os encontros. Hoje eu fiquei super feliz de sair de casa, de me arrumar, ent\u00e3o isso me cura. A possibilidade de continuar circulando. O que me cura de fato \u00e9 continuar insistindo nos encontros, a\u00ed isso me cura, porque eu me liberto de mim mesma, em alguns momentos. E a\u00ed, claro, um ch\u00e1 de camomila me cura, tem que ter uma cervejinha, uma boa m\u00fasica pra dan\u00e7ar me cura, uma boa noite de amor me cura (risadas), uma boa hist\u00f3ria, um bom filme, uma boa conversa, a possibilidade de ver o p\u00f4r do sol me cura, acho que s\u00e3o essas coisas que curam a gente, que \u00e0s vezes esquecemos ou fazemos quest\u00e3o de sair do fronte delas para viver o mart\u00edrio, porque a gente tem um pouco de sado as vezes n\u00e9? Acho que \u00e9 isso, e tomar consci\u00eancia disso \u00e9 um exerc\u00edcio, precisa ser um exerc\u00edcio permanente.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MST e MAM<\/p>\n","protected":false},"featured_media":203,"template":"","class_list":["post-201","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":243,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/201\/revisions\/243"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}