{"id":208,"date":"2021-05-11T12:00:15","date_gmt":"2021-05-11T15:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=208"},"modified":"2021-05-11T14:16:17","modified_gmt":"2021-05-11T17:16:17","slug":"vera-domingos","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/vera-domingos\/","title":{"rendered":"Vera Domingos"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: a pot\u00eancia feminina na luta contra o Complexo Industrial de Suape<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 28\/09\/2020<\/p>\n\n\n\n<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 nossa s\u00e9rie de entrevistas com lutadoras de territ\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina na campanha&nbsp;<strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/strong>, compartilhamos hoje um trecho da conversa com&nbsp;<strong>Vera L\u00facia Domingos<\/strong>, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Agricultores do Engenho Ilha, em Ponte dos Carvalhos, Cabo de Santo Agostinho (PE), territ\u00f3rio impactado pelo Complexo Industrial de Suape. A entrevista foi realizada por Ana Luisa Queiroz, Educadora Popular do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Vera-Domingos.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-209\" width=\"600\" height=\"398\"\/><figcaption>Vera Domingos | Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"33bb\"><strong>PACS: O que \u00e9 luta para voc\u00ea? O que te movimenta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d14d\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Luta para mim \u00e9 o que a gente faz aqui, no Engenho Ilha, todos os dias. Luta pela busca do direito, luta pela perman\u00eancia dos modos tradicionais de viver no territ\u00f3rio. Todo dia na ativa, se reafirmando como agricultora, como fomentadora do direito e nessa busca constante de intervir nessas decis\u00f5es t\u00e3o importantes em nossas vidas. Luta faz parte da nossa exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"deae\">Me movimenta a vontade de permanecer em nossos territ\u00f3rios, colocando os p\u00e9s no ch\u00e3o. Estar plantando e estar cultivando a nossa terra quando a gente quiser. Me movimenta saber que o senhor Jos\u00e9, a dona Maria, todos t\u00eam direito a ter sua identidade preservada. Direito aos seus modos de vida tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"dac0\"><strong>PACS: Agora falando um pouquinho mais sobre voc\u00ea, sobre ser mulher, voc\u00ea se v\u00ea nas mulheres do passado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"2998\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Eu me vejo na mulher que \u00e9 dona Iolanda, j\u00e1 falecida. Uma mulher muito forte, que conviveu conosco muitos anos na Associa\u00e7\u00e3o. Eu me vejo em Marluce da Paz, que \u00e9 uma de nossas conselheiras. Eu me vejo em dona Luzinete, que at\u00e9 hoje aguarda uma decis\u00e3o do Estado por uma indeniza\u00e7\u00e3o, que teve seu esposo partindo de uma forma tr\u00e1gica, no meio da rua com infarto, depois que ficou sabendo que n\u00e3o seria indenizado. Eu me vejo em todas as mulheres da Associa\u00e7\u00e3o. Mulheres do presente, e mulheres que j\u00e1 se foram. E eu me vejo, hoje, ainda mais como mulher do que antes! Eu n\u00e3o sou mais aquela mulher que abaixa a cabe\u00e7a para o macho quando ele fala. E eu posso dizer que, infelizmente, eu j\u00e1 fui dessas. Eu descobri que ser mulher \u00e9 muito mais do que ser dona de casa, ser m\u00e3e e ser a esposa. A mulher tem seus direitos, ela tem a sua busca constante por sua identifica\u00e7\u00e3o. A mulher \u00e9 o que ela quer ser. \u00c9 para ela estar onde ela quer estar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b89d\"><strong>PACS: Como voc\u00ea se entendeu enquanto mulher ao longo da sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9235\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Eu tinha um casamento, hoje sou divorciada, onde algu\u00e9m ditava em minha casa o que deveria ser feito. Um cabra extremamente machista e perverso, que entendia que o direito da mulher se resumia na lavagem da roupa, no cuidar da crian\u00e7a e nos afazeres da casa. Eu saio dessa vida mi\u00fada que estava, vou estudar, fazer magist\u00e9rio \u00e0s escondidas, terminar o meu Ensino M\u00e9dio. Escolhi fazer isso porque ele trabalhava \u00e0 noite. De dia ele dormia, quando ele sa\u00eda, eu ia para escola. Quando ele voltava, eu tinha voltado. Terminei meu Ensino M\u00e9dio desse jeito. Quando foi no dia da minha formatura, eu disse: \u201c\u00d3, t\u00f4 me formando.\u201d \u201cNo qu\u00ea?! Mas o que \u00e9 isso?!\u201d E quase que a casa ca\u00eda, porque era uma mulher subversiva, parecia pouco, mas era muita coisa para quem n\u00e3o tinha oportunidade e n\u00e3o podia. Da\u00ed come\u00e7ou essa minha vontade de crescer cada vez mais. Conhe\u00e7o a Associa\u00e7\u00e3o e vou trabalhar l\u00e1 como professora prim\u00e1ria comunit\u00e1ria. Ali, come\u00e7o a conviver com mais homens machistas, que rotulavam a mulher como uma mula, olhavam para mulher como se ela fosse um objeto. Convivi com esse machismo nojento no meio da Associa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quando eu comecei a ver como eu poderia estar acima daquilo, perpassar aquele machismo. Ali come\u00e7ou a minha luta, enquanto mulher, dentro daquele espa\u00e7o que s\u00f3 existiam homens. Eu comecei a sair do meu casulo de mulherzinha, para me tornar quem eu sou hoje.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"070b\"><strong>PACS: Como foi esse processo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c4a2\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Comecei a fomentar em outras mulheres essa sa\u00edda do casulo tamb\u00e9m. Conheci outras mulheres, outras m\u00e3es e comecei descobrindo muitas viol\u00eancias. Viol\u00eancia sexual, viol\u00eancia dom\u00e9stica, a quest\u00e3o do machismo mesmo imperar no nosso meio, e a gente come\u00e7ou a dizer: \u201c\u00d3, vamos modificar isso aqui. \u00c9 por aqui que a gente vai modificar.\u201d Levei v\u00e1rias advert\u00eancias na Associa\u00e7\u00e3o, porque ficava instigando as mulheres a serem diferentes. De uns 15 anos para c\u00e1, a coisa melhorou, abrimos espa\u00e7o para a gente trabalhar essa quest\u00e3o do feminismo dentro da institui\u00e7\u00e3o. A gente fazia palestra com as mulheres, a gente contava para elas o que deveria ser feito ou n\u00e3o com o nosso corpo. Que era propriedade nossa, que era espa\u00e7o nosso. A gente tinha que dizer o que queria, o que n\u00e3o queria. Algumas mulheres estranharam o linguajar, se questionavam tamb\u00e9m, at\u00e9 que a gente vai se aceitando, n\u00e9? A gente vai se conhecendo, as mulheres v\u00e3o se conhecendo e v\u00e3o vendo que, de fato, n\u00e3o era aquilo que elas pensavam. N\u00e3o estavam ali s\u00f3 para procriar, estavam ali para se amar e serem amadas. Houve algumas dissolu\u00e7\u00f5es de casamentos, mas tamb\u00e9m houve novos casamentos. Ent\u00e3o, eu acho que partiu disso a\u00ed, toda minha trajet\u00f3ria como mulher e como eu me via e como eu me vejo hoje. Mudou tamb\u00e9m aqui dentro da minha casa. Eu coloquei o macho que estava aqui dentro no lugar dele, e comecei a dizer: \u201c\u00d3, o caminho \u00e9 esse aqui, se der, deu, se n\u00e3o deu a gente parte, e a gente resolve\u201d. Assusto muitos machos por a\u00ed. Paci\u00eancia, eles que eles sofram.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_1Z-xaRPTpDPm5iiupRfpyw.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-210\" width=\"701\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_1Z-xaRPTpDPm5iiupRfpyw.jpeg 414w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_1Z-xaRPTpDPm5iiupRfpyw-300x199.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 701px) 100vw, 701px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"47b8\"><strong>PACS: Como voc\u00ea v\u00ea o seu corpo? O que voc\u00ea carrega nele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8436\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Meu corpo \u00e9 minha m\u00e1quina de prazer! Me d\u00e1 tanta coisa boa! Meu corpo \u00e9 meu, ora! Quem quiser aceit\u00e1-lo, que aceite, se n\u00e3o quiser, eu aceito sozinha! Eu sei que eu dou um estrago! (risos)<\/p>\n\n\n\n<p id=\"effb\">Eu venho de fam\u00edlia que considera que a mulher tem poucos direitos, que sexo era pecado, o corpo n\u00e3o poderia ser manipulado, n\u00e3o poderia ser tocado. Minha m\u00e3e teve c\u00e2ncer de mama, nunca se tocou, porque disse que era pecado tocar na mama dela. Ent\u00e3o, eu acho que meu corpo carrega toda a minha for\u00e7a enquanto mulher, meu erotismo, minhas vontades. Eu conhe\u00e7o meu corpo, eu conhe\u00e7o cada ponto que ele necessita, que ele precisa que eu cuide, n\u00e9? Eu tenho que cuidar do que \u00e9 meu. Eu carrego no meu corpo tudo que eu acho de bom em mim, sabe? Com seus defeitinhos, com as suas imperfei\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 meu! Enquanto mulher, enquanto f\u00eamea, carrego nele tudo que eu gosto de usufruir. E n\u00e3o me questiono muito com rela\u00e7\u00e3o ao que o outro ache. Quero estar, l\u00f3gico, \u00e0 altura de agradar algu\u00e9m, mas se n\u00e3o agradar, paci\u00eancia! Eu me agrado, eu gosto de mim e eu me aceito.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e15f\"><strong>PACS: \u00c9 poss\u00edvel perceber assim, especificamente no seu corpo, os impactos vividos pelos megaprojetos? Onde que esses impactos s\u00e3o sentidos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"65a1\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>H\u00e1 momentos que a gente se agride, devido \u00e0 luta. Digamos, tem hora que a gente est\u00e1 t\u00e3o envolvida na luta, t\u00e3o machucada, que \u00e0s vezes a gente se esquece de cuidar da gente. Eu digo da gente, do nosso corpo, da nossa mente, do nosso interior\u2026 A gente sobrecarrega essas pernas, esses p\u00e9s\u2026 A carga perversa desses megaprojetos, dessas empresas que est\u00e3o a\u00ed, dessas pessoas que est\u00e3o gerindo essa empresa. E a gente se machuca muito, com sol, sem cuidados, com falta de cuidado com a estrutura corp\u00f3rea. E isso eu estou falando da parte da mat\u00e9ria. No espiritual \u00e9 muito mais. Voc\u00ea cansa sua mente, sobrecarrega, voc\u00ea tira as suas expectativas do bem, voc\u00ea come\u00e7a maquinando coisa ruim em sua mente, um estado de depress\u00e3o. E isso tudo acarreta num todo. Num corpo todo. A gente mexe com todo organismo. Ent\u00e3o, eu tenho mais enxaqueca, eu tenho mais dor de cabe\u00e7a. Minha press\u00e3o sobe mais, eu tenho mais taquicardia, eu deixo de comer. E vejo isso nas companheiras tamb\u00e9m. Quando a gente faz uma oficina com mulher, com terapia de aromas, as mulheres se deleitam. \u201cVera, eu quase que tinha um orgasmo!\u201d Eu disse: \u201cMulher, por que n\u00e3o tivesse?! Pelo amor de Deus!\u201d (risos) A gente est\u00e1 aqui para viver mesmo o que a gente quer! Nesses momentos que a gente fica solta, envolvida, elevada, sabe? E a\u00ed a gente v\u00ea que o corpo fica s\u00e3. Mas, tem momento que essa luta deixa a gente doente, literalmente doente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"83e2\"><strong>PACS: Que lugar do seu corpo voc\u00ea v\u00ea que vem a sua for\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9256\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Vem da minha mente. Eu tenho uma mente muito boa, eu tenho uma mente muito f\u00e9rtil. Essa for\u00e7a que eu tenho assim, interior, essa for\u00e7a mental, ela sempre me faz sobressair. Sempre! Quando parece que tudo est\u00e1 dando errado, tudo est\u00e1 perdido, eu dou aquela respirada fundo. Eu fujo. Eu fujo um pouco de tudo que est\u00e1 na minha frente e vou para um lugar reservado, vou para o s\u00edtio, vou para mata, que eu amo. Vou dar uma respirada, uma energizada. E quando eu volto, eu volto muito melhor. Mas a minha mente, ela tem que estar sempre s\u00e3. Porque, atrav\u00e9s dela que eu tenho outras propostas. Saio daquela hist\u00f3ria de depress\u00e3o, que muitas vezes nos toca, que \u00e9 inevit\u00e1vel. Tamb\u00e9m estimula minha criatividade, entendeu? Eu gosto muito de escrever, gosto muito da minha parte cognitiva. Isso tudo faz com que eu tenha uma sobrevida, um est\u00edmulo maior. Eu acredito que minha mente \u00e9 muito f\u00e9rtil, sempre trabalho para n\u00e3o perder essa minha ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_oKhMQxtDTues7AuWzS72BA-682x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-211\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_oKhMQxtDTues7AuWzS72BA-682x1024.jpeg 682w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_oKhMQxtDTues7AuWzS72BA-200x300.jpeg 200w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_oKhMQxtDTues7AuWzS72BA-768x1152.jpeg 768w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_oKhMQxtDTues7AuWzS72BA.jpeg 853w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"cc0b\"><strong>PACS: Falando agora dos megaprojetos, enquanto uma mulher de luta, como voc\u00ea sente a presen\u00e7a e os impactos do Complexo de Suape?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"006d\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>\u00c9 doloroso para a gente falar sobre esses megaprojetos. Complexo Suape, para o Governo de Pernambuco, desde antes de outros governadores, era a menina dos olhos do Estado, e continua sendo a menina dos olhos do Estado. Mas a luta \u00e9 muito grande, avan\u00e7amos dois passos e, logo depois, retrocedemos. A gente v\u00ea muito isso, quando a gente chega diante de um juiz, um advogado nosso mesmo. \u00c9 complicado lutar contra um megaprojeto, seja ele municipal, estadual ou federal. Se for o Estado e for da forma que \u00e9 Suape, porque nesse caso estamos falando de um grande porto que tem mais de 100 empresas dentro, que \u00e9 um megaprojeto. Ent\u00e3o, a coisa \u00e9 bastante complicada\u2026<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f83d\">Vamos \u00e0s autoridades p\u00fablicas reivindicar nossos direitos de perman\u00eancia nos territ\u00f3rios e nos dizem que Suape tem o total direito de permanecer naquela \u00e1rea. Sem reconhecer a nossa luta, sem reconhecer o direito da agricultora que estava ali. J\u00e1 teve situa\u00e7\u00e3o do comiss\u00e1rio da pol\u00edcia dizendo que n\u00e3o iria fazer o boletim de ocorr\u00eancia. Quer dizer, a gente fica nessa situa\u00e7\u00e3o perversa que \u00e9 essa estrutura do megaprojeto e sabendo que o delegado n\u00e3o quer fazer nada porque acha que vai brigar com o Estado. O comiss\u00e1rio n\u00e3o quer se envolver, porque acha que o Estado tem direito, acha que n\u00f3s somos invasores, acha que n\u00f3s somos os infratores. Ent\u00e3o, respondendo \u00e0 sua pergunta, os megaprojetos, de uma forma perversa, eles atravessam nossos direitos, em muitos casos destroem nossos sonhos. O machismo impera nesses projetos, onde as mulheres \u2014 principalmente as mulheres \u2014 n\u00e3o t\u00eam direito de fazer reivindica\u00e7\u00f5es. Dizem que a gente est\u00e1 com \u201cpoliticagem\u201d, dizem que n\u00e3o temos o que fazer em casa. E eu tenho que me sobressair, tenho que dizer que estou aqui para defender meus direitos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"06e6\"><strong>PACS: E como respirar em meio a esses conflitos? De onde tirar oxig\u00eanio para seguir nessa luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"4e5a\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>No meu caso, viver em um programa de prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, a gente fica com uma vida limitada, a gente fica com uma vidinha, assim, dando informa\u00e7\u00e3o de onde voc\u00ea vai, com quem voc\u00ea est\u00e1, onde voc\u00ea est\u00e1. Uma pessoa que \u00e9 livre como eu, que tem uma vontade de liberdade extraordin\u00e1ria, e tem que estar ali \u00f3, regrada. Muitas vezes, eu me vejo sufocada, desesperan\u00e7osa. A maioria das vezes eu estou num estado, absorvida pela luta e esque\u00e7o \u2014 na maioria das vezes \u2014 um pouco de mim, deixo um pouco de quem eu sou, para viver mais a luta. E eu vejo que n\u00e3o adianta, eu tenho que voltar, e eu volto, respiro fundo de novo. \u00c9 aquilo que eu te disse, eu fujo e vou para um lugar que pouca gente me conhe\u00e7a, e eu vou respirar fundo l\u00e1, vou escrever. Vou botar no papel o que vejo, o que quero. A\u00ed vou sonhar um pouco, e a\u00ed a gente vai. A luta fortalece. Ela te d\u00e1 f\u00f4lego tamb\u00e9m. Ela te torna mais forte. Mas se voc\u00ea parar, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o vai querer estar ali. Ent\u00e3o, a luta j\u00e1 faz parte da nossa viv\u00eancia. A luta j\u00e1 \u00e9 a nossa hist\u00f3ria. Agora que, vez ou outra, a gente precisa dar uma emergida para respirar, a gente precisa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b101\"><strong>PACS: Onde est\u00e1 a arte em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"825f\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>\u201cA arte em mim\u201d. Eu fui logo para um lado, que eu acho que foi um lado que tanto me negaram. Ent\u00e3o, eu fui negada a essa parte sexual da mulher, da vol\u00fapia da mulher, da vontade da mulher. Eu n\u00e3o conheci isso de outra mulher, eu descobri isso em mim. \u00c9 diferente, \u00e9 muito diferente! Hoje, eu converso com a minha filha abertamente sobre sexo, vontade, sexualidade, erotismo. A gente n\u00e3o tem que agradar a ningu\u00e9m, a gente tem que agradar a gente, a gente tem que olhar para gente. Eu falo com meu filho, que tem 30 anos, e digo abertamente: \u201cO homem tem que tratar a mulher muito bem. E se ele n\u00e3o tratar bem, outro vem e trate. Se o outro n\u00e3o tratar bem, ela sabe se tratar.\u201d Meu filho morre de rir! Ent\u00e3o, eu descobri essa parte em mim da fera contista, que gosta de contos er\u00f3ticos. Foi dessa nega\u00e7\u00e3o que eu entendi a arte em mim. Eu gosto de contar para outras mulheres, para outras pessoas. Homens e mulheres, quem se identificar com eles. Que a escrita seja livre, que voe, que tenha onde pousar, que pouse onde quiser pousar. Eu me encontrei nos meus contos dessa forma, na nega\u00e7\u00e3o. Foi negado uma vida inteira, e voc\u00ea sabe que aquilo existe, que aquilo \u00e9 importante, que as pessoas s\u00e3o hip\u00f3critas porque gostam, mas n\u00e3o querem falar. A\u00ed tem um monte de baboseira que a gente vai desmistificando e vai colocando no papel para ficar legal. Para outras pessoas se deliciarem, se deleitarem\u2026 E saberem que a vida \u00e9 muito boa, \u00e9 muito bela e tem que ser vivida mesmo!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4d32\"><strong>PACS: Onde voc\u00ea v\u00ea a presen\u00e7a da arte nas coletividades que voc\u00ea faz parte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"0541\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Eu vou te dizer que eu n\u00e3o s\u00f3 escrevo contos, n\u00e9? Eu tenho outras artes tamb\u00e9m, como pintura, como confec\u00e7\u00e3o de bonecas, artesanatos. Mas isso se d\u00e1 no encontro entre mulheres, nos nossos espa\u00e7os de conversa. Mas, esses coletivos, das conversas que a gente tem, das oficinas, no fazer junto e permitir com que as mulheres reflitam, se escutem e entrem em contato. \u00c9 nessa parte que eu uso muito minha arte, dos meus contos, conversando sobre eles com as mulheres, e as mo\u00e7as. Voc\u00ea faz com que outras meninas se identifiquem, se reconhe\u00e7am e n\u00e3o pratiquem os mesmos erros das m\u00e3es, das av\u00f3s\u2026 Ningu\u00e9m pode tocar no que voc\u00ea n\u00e3o quer. Que voc\u00ea n\u00e3o se permita tanta coisa que acontece com uma mulher. Ent\u00e3o, eu sempre trabalho essa parte com as nossas jovens, com as \u201cmeninas-mo\u00e7as\u201d, que a gente chama aqui, converso bastante com elas, elas gostam muito. Nesses coletivos, eu passo a minha arte para essas pessoas. Bem com a linguagem boa, que elas entendam. Eu sou apimentada, n\u00e9? A\u00ed eu deixo um pouco de pimenta no fogo. Fa\u00e7o com que elas fiquem mais agu\u00e7adas, como mulheres, para saber que n\u00e3o s\u00e3o esses machos que mandam em nada n\u00e3o, quem manda somos n\u00f3s. Quem tem que mandar, somos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d71a\"><strong>PACS: E quais pot\u00eancias voc\u00ea acha que essa arte traz?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"fbeb\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>As mulheres se auto identificam e criam seu espa\u00e7o, v\u00e3o deixando de estar naquele sistema de opress\u00e3o e falam o que acham, o que sentem. Se identificam com a hist\u00f3ria de luta, com ter um conhecimento de tens\u00e3o dos seus corpos. Isso \u00e9 t\u00e3o gratificante. Conhe\u00e7o mulheres, senhoras e jovens, que t\u00eam vida ativa, falando sexualmente. Ent\u00e3o, a gente come\u00e7ou a trabalhar isso por meio dessas viv\u00eancias em oficinas, em conversas na beira dos fornos, na beira do fog\u00e3o, fazendo geleias. E nas reuni\u00f5es mesmo de mulher, nas rodas de conversa, a gente come\u00e7ou a desmistificar essas a\u00e7\u00f5es, esses tabus que os homens t\u00eam e esse poder que eles exercem sobre essas mulheres. A pot\u00eancia mesmo, que a gente sabe que existe, \u00e9 essa quebra dessa hegemonia do homem sobre a mulher, sobre o corpo da mulher. Inclusive, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas reuni\u00f5es, nos movimentos, nas ruas, nas oficinas, aumentou muito. A gente vai conversando de s\u00edtio em s\u00edtio, jogando conversa fora com as mulheres, e elas est\u00e3o lavando roupa, a gente est\u00e1 junto. Est\u00e3o fazendo comida, a gente est\u00e1 junto. A gente est\u00e1 ali, no dia a dia, sempre que pode, a gente toca no assunto sobre quem eu sou, quem manda em mim? Qual \u00e9 a minha vontade sobre o meu corpo, sobre a minha mente? Que ningu\u00e9m venha te manipular do que voc\u00ea deve aceitar, que o outro fa\u00e7a com voc\u00ea, do que o outro manda em voc\u00ea. Voc\u00ea \u00e9 a dona da sua vontade. Os abusos que n\u00f3s v\u00edamos, n\u00e3o vemos mais. As mulheres que eram espancadas e violentadas por seus machos, a gente n\u00e3o v\u00ea mais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"25b5\">Conversamos, dialogamos sobre o cuidado de cada uma com si mesma. Tinham mulheres em nossa comunidade, para voc\u00ea ter uma ideia, que n\u00e3o usavam um hidratante. Tinham medo de se tocar, porque achavam que o seu marido poderia achar que ela estava se masturbando. S\u00e3o coisas bastante absurdas, que a gente vai analisando e vai vendo que tem meios da gente trabalhar isso nas mulheres, que est\u00e3o em pleno s\u00e9culo XXI vivendo isso. Ent\u00e3o, a gente come\u00e7a a fazer kits com hidratantes, com perfumes, com esmaltes, com lixa de p\u00e9. Tem mulher que n\u00e3o podia aparar ponta do cabelo, porque o marido j\u00e1 achava que era por causa do macho. N\u00e3o podia pintar a unha, porque se pintar a unha de vermelho, era uma prostituta. Ent\u00e3o, ainda existe isso. E a gente, com o nosso trabalho, com o nosso fazer, a gente conseguiu desmistificar muita coisa. Ent\u00e3o, eu acredito que essa arte que a gente tem usado, tem potencializado bastante aqui no nosso meio. Fazer com que essas mulheres entendam quem s\u00e3o elas, n\u00e9? Eu acho que faltou isso l\u00e1 atr\u00e1s, com muitas de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9775\"><strong>PACS: O que \u00e9 cuidado para voc\u00ea? E como voc\u00ea se cuida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"fb1d\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Cuidado, para mim, \u00e9 me fazer um carinho. Enquanto ser humano, enquanto f\u00eamea, enquanto mulher, dona de mim, da minha cabe\u00e7a, do meu corpo. Me reconhecer nos m\u00ednimos detalhes. Um ponto m\u00ednimo que me d\u00e1 prazer, o cuidar \u00e9 eu estar envolvida comigo mesma. Depositar todo meu carinho comigo. N\u00e3o esperar que o outro esteja pronto para cuidar de mim, mas que eu, enquanto Vera, enquanto a f\u00eamea, enquanto a mulher, enquanto a loba, esteja para me cuidar. O meu orgasmo enquanto mulher. Eu acho que esse est\u00e1 o meu cuidado. E isso parte tanto de mim, tanto do corpo, quanto da minha mente. Se o meu corpo estiver bem, a minha mente vai estar bem. \u00c9 eu estar preocupada com o meu m\u00ednimo para que o meu m\u00e1ximo esteja bem. Me olhar no espelho, gostar do que vejo. Dizer, \u00f3: \u201cT\u00f4 viva, t\u00f4 pronta para viver hoje. Se for somente at\u00e9 hoje, eu vou estar feliz comigo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8ced\"><strong>PACS: E nesses processos todos, o que te adoece? E o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"b9a0\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>O que me adoece \u00e9 ver algumas pessoas do nosso meio desfazendo tudo que a gente faz. Para mim, o adoecimento parte disso, do preconceito, da omiss\u00e3o da justi\u00e7a e das institui\u00e7\u00f5es. A falsidade de algumas pessoas que parecem compartilhar a luta, mas na verdade n\u00e3o. A morosidade da justi\u00e7a \u00e9 um mal que adoece, e a gente tem que conviver com eles. Assim, precisamos estar sempre reivindicando, isso faz parte da luta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4314\">O que me cura \u00e9 a resili\u00eancia. De dizer sempre: \u201cVamos para frente! Vamos avante, firmes!\u201d Porque se isso n\u00e3o existir, a gente vai sucumbindo e morre. Ent\u00e3o, para mim, s\u00e3o duas coisas que andam juntas: a minha resili\u00eancia e a minha resist\u00eancia. Isso me faz estar viva e estar na luta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"dd64\"><strong>PACS: S\u00e3o quest\u00f5es amplas, mas que ao mesmo tempo tocam a gente cotidianamente, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f9aa\"><strong>Vera:&nbsp;<\/strong>Eu sou muito feliz do jeito que sou. Quando falei assim, que os homens da Associa\u00e7\u00e3o eram machistas e nos tinham como mulas, \u00e9 porque eu era a mulher que pesava 55 kg, tinha um corpo de manequim, tinha uns cabelos pelo meio da cintura e esses homens eram todos doidos. Hoje, eu sou a mulher que est\u00e1 com 96 kg, que sou uma preta maravilhosa (risos), que s\u00f3 o siri na lata, mas que sei me impor, n\u00e9? E sei tudo que quero. Hoje, eu sou bem mais feliz, tanto quanto mulher, me realizo muito mais, me conhe\u00e7o muito mais, me aceito muito mais. J\u00e1 tiveram momentos em minha vida que eu pensei em suic\u00eddio, pensei em loucuras, e hoje eu me vejo muito forte. Eu tenho um orgulho da peste de mim, sabe? Eu vejo que eu posso avan\u00e7ar muito mais. Eu tinha essa capacidade e n\u00e3o me deram essa oportunidade. E hoje eu me dou essa oportunidade! Ano que vem, vou me formar em Servi\u00e7o Social, j\u00e1 estou pensando em mestrado, eu j\u00e1 penso em doutorado, eu sou uma pessoa hiper ambiciosa com rela\u00e7\u00e3o aos meus estudos. Eu fui 27 anos casada, 27 anos de casada com uma figura perversa. Que me fez muito mal. Mas que, de 5 anos para c\u00e1, eu sou uma nova criatura, sabe? Eu descobri que eu tinha vontade, eu descobri o meu corpo, eu descobri o m\u00ednimo que eu tinha, que era meu, que eu n\u00e3o sabia. Eu me amo hoje, sabe? Eu n\u00e3o preciso que ningu\u00e9m diga que me ama, que ningu\u00e9m me queira, que ningu\u00e9m toque em mim. Se quiser tocar, beleza, a gente se toca. Se n\u00e3o quiser, v\u00e1 para \u2018conchichina\u2019, porque eu sei, me conhe\u00e7o muito bem. Ent\u00e3o eu sou muito feliz. Nossa! Eu sou a felicidade em pessoa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Associa\u00e7\u00e3o dos Agricultores do Engenho Ilha, Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"featured_media":209,"template":"","class_list":["post-208","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":254,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/208\/revisions\/254"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}