{"id":219,"date":"2021-05-11T12:36:05","date_gmt":"2021-05-11T15:36:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=219"},"modified":"2021-05-11T14:10:40","modified_gmt":"2021-05-11T17:10:40","slug":"ana-santos","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/ana-santos\/","title":{"rendered":"Ana Santos"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: Agricultura urbana, feminismo e resist\u00eancia na Favela da Penha e Serra da Miseric\u00f3rdia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 12\/11\/2020<\/p>\n\n\n\n<p>Em mais um material da s\u00e9rie de entrevistas com lutadoras de territ\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina na campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, compartilhamos hoje um bate-papo com Ana Santos, integrante do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CEMIntegracaoNaSerra\/about\/?ref=page_internal\"><strong>Centro de Educa\u00e7\u00e3o Multicultural (CEM)<\/strong><\/a>\u00a0e da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/redecau\/\"><strong>Rede Carioca de Agricultura Urbana<\/strong><\/a>. A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-222\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1-300x300.jpeg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1-150x150.jpeg 150w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1-768x768.jpeg 768w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1-230x230.jpeg 230w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Ana-Santos-1.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"9c20\"><strong>PACS: O que \u00e9 luta para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8ee3\"><strong>Ana<\/strong>: Bem, eu, enquanto mulher preta, acho que eu j\u00e1 nas\u00e7o lutando, n\u00e9? Primeiro, lutar para resistir, para viver\u2026 e essa luta, para mim, ela come\u00e7ou pela educa\u00e7\u00e3o. Com 9 anos de idade comecei a ensinar minhas irm\u00e3s, minha av\u00f3\u2026 ent\u00e3o, eu entendi essa luta como a leitura, porque eu via a leitura como abrir os olhos para o mundo. Eu acreditava que se a gente sabe ler, a gente sabe escolher. E, depois, a luta de manter minha fam\u00edlia. Meu pai foi assassinado, e a\u00ed, mais uma vez, eu e minha m\u00e3e tivemos que lutar para manter viva a nossa fam\u00edlia. Ent\u00e3o, primeiro uma luta muito interna dentro de casa, depois essa luta come\u00e7a a ir para rua. E a\u00ed que eu entendo o que \u00e9 lutar, o que \u00e9 militar, e o que \u00e9 se envolver na milit\u00e2ncia e entender que essa luta se expande para a cidade. Como mulher, como resist\u00eancia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cf09\"><strong>PACS: E nesse processo todo, o que voc\u00ea acha que te movimentou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"afbf\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;As mulheres\u2026 a rela\u00e7\u00e3o com as mulheres. A minha casa sempre teve muitas mulheres, minha tia, minha av\u00f3, minha m\u00e3e, e isso sempre me moveu. O amor da minha fam\u00edlia, minha fam\u00edlia mulher. E me move, tamb\u00e9m, saber que \u00e9 poss\u00edvel mudar essa realidade que a gente vive, que juntos \u00e9 poss\u00edvel. Ent\u00e3o, a mudan\u00e7a \u00e9 o que move.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9fe5\"><strong>PACS:<\/strong>&nbsp;<strong>E como voc\u00ea se entendeu como mulher? E como mulher de luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"653e\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Eu me entendi como mulher com 14 anos de idade, quando meu pai foi assassinado. Ali, eu precisei n\u00e3o s\u00f3 me entender como mulher, mas como pai. Muito doido isso, n\u00e9? Porque, at\u00e9 ent\u00e3o, eu tinha uma luta muito\u2026 n\u00e3o uma luta feminista. Eu n\u00e3o conseguia me ver feminista, mas a perda do meu pai foi um momento que eu falei: \u201cAgora eu tenho que ser adulta, de verdade.\u201d Ent\u00e3o, ali eu me vejo como mulher.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d3cc\">Depois, quando eu chego na favela, eu come\u00e7o a me entender feminista e a entender a minha luta, apesar de que ali eu n\u00e3o via como luta. Eu via como ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o. Vir para dentro da favela foi muito importante, n\u00e3o s\u00f3 pelo conflito, mas de ver como as mulheres vivem aqui dentro, como \u00e9 forte o machismo aqui, como \u00e9 forte o racismo, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d7af\"><strong>PACS: Voc\u00ea se v\u00ea nas mulheres do passado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8669\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Muito, a cozinha \u00e9 o reflexo disso. Quando eu nem sabia direito ler e escrever, eu j\u00e1 sabia ajudar na cozinha, eu j\u00e1 tinha esse papel. Muita mulher fala que: \u201cAh, a gente luta por trabalho, por igualdade no trabalho\u2026\u201d. Eu nasci trabalhando, minha lembran\u00e7a de vida \u00e9 trabalhando. E a cozinha sempre nesse trabalho\u2026 ou educa\u00e7\u00e3o, ou a cozinha, n\u00e9? E eu me encontro nas mulheres do meu passado, porque s\u00e3o minha origem\u2026ind\u00edgena, africana. S\u00e3o mulheres muito fortes. E eu sempre quis ser muito forte igual a minha av\u00f3, que est\u00e1 hoje com 100 anos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c887\"><strong>PACS: Como foi a sua trajet\u00f3ria? De onde voc\u00ea saiu, onde voc\u00ea nasceu, como voc\u00ea chega at\u00e9 aqui?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"eacc\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Nasci na Baixada Fluminense, em Nil\u00f3polis. Ent\u00e3o, com nove anos, come\u00e7o a dar aula em casa e continuei at\u00e9 os 14, quando meu pai morre. Desse tempo em diante, a gente tem que come\u00e7ar a rever a nossa vida, e a\u00ed, eu tenho que trabalhar como bab\u00e1, ajudar minha m\u00e3e fora. Nossa vida j\u00e1 n\u00e3o era muito boa, mas ela fica muito ruim. Antes do meu pai morrer, a gente j\u00e1 tinha uma decis\u00e3o de vir para a Penha e, quando eu fa\u00e7o 20 anos, eu decido vir. Falo: \u201cN\u00e3o, eu quero mesmo ficar na Penha.\u201d E a minha m\u00e3e n\u00e3o quis, minha m\u00e3e quis continuar l\u00e1. S\u00f3 que, para mim, era muito dolorido, porque logo depois que meu pai morreu, a minha av\u00f3 n\u00e3o aguentou e morreu tamb\u00e9m. O meu tio foi assassinado logo em seguida, ent\u00e3o era muito terror ficar no lugar onde tr\u00eas pessoas que eu amava muito morreram.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7d82\">Ent\u00e3o, eu chego na favela mesmo com esse intuito de continuar o trabalho, porque em Nil\u00f3polis n\u00e3o tem o tr\u00e1fico armado, mas tem o jogo de bicho. Ele \u00e9 muito massacrante ali, porque determina que empresa que vai ter, qual \u00e9 a cor que vai ser o turno, qual o dinheiro que vai entrar, e eles s\u00e3o donos de tudo ali dentro. Ent\u00e3o, a experi\u00eancia que eu tinha era nenhuma com 18, 19 anos. Isso me imobilizava. Me sentir imobilizada me parava, n\u00e9? Como \u00e9 que eu fa\u00e7o para lutar? E eu vi que a favela era um lugar mais aberto, apesar de ter todo o tr\u00e1fico, a inser\u00e7\u00e3o de projetos aqui era muito mais f\u00e1cil do que l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"745e\"><strong>PACS: Como surge o CEM?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8507\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Ele nasce muito inspirado no trabalho do Luiz Poeta, que fundou o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.verdejar.org\/\"><strong>Verdejar<\/strong><\/a>, quando eu cheguei e vi aquele coroa, eu fiquei muito apaixonada. Coroa muito simples, com v\u00e1rios matos na m\u00e3o, pegando, cheirando e contagiando. E eu falei: \u201cGente, eu quero trabalhar com isso.\u201d D\u00e1 para ser professora e trabalhar nesses caminhos, n\u00e9? Ent\u00e3o, a gente come\u00e7a e desenvolve aqui o espa\u00e7o chamado Centro de Educa\u00e7\u00e3o Multicultural. E a\u00ed, pelo Luiz Poeta e pela Marcelle, a gente chega na Rede Carioca. Eu come\u00e7o a entender que o nosso trabalho n\u00e3o era s\u00f3 de educa\u00e7\u00e3o, mas era de Agricultura Urbana, e que isso era poss\u00edvel. Ent\u00e3o, a gente muda o nome para Centro de Integra\u00e7\u00e3o da Serra da Miseric\u00f3rdia, envolvendo plantio, a educa\u00e7\u00e3o e outros aspectos culturais. Eu come\u00e7o a entender que a soberania alimentar nutricional pode ser eixo central desse trabalho. Atrav\u00e9s da comida que a gente come\u00e7a a se transformar, a interagir e a introduzir a Agricultura Urbana nesse processo. E entender essa maturidade tamb\u00e9m, que a agrofloresta aqui n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel hoje, mas \u00e9 poss\u00edvel mudar a casa que eu estou. Ela n\u00e3o precisa ser de papel\u00e3o, ela n\u00e3o precisa ser de palha, eu n\u00e3o preciso cagar dentro de um buraco. Eu posso acessar comida, eu posso cuidar da \u00e1gua, eu posso interagir com o ambiente e gerar g\u00e1s. Ent\u00e3o, esse processo de Agricultura Urbana vem abrindo, que a partir da minha casa, do meu corpo, do meu territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"896c\"><strong>PACS: Enquanto essa mulher que luta, como voc\u00ea sente os impactos dos megaprojetos dentro da favela?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"1fcf\"><strong>Ana:&nbsp;<\/strong>Voc\u00ea consegue perceber esse grande impacto quando voc\u00ea sabe que est\u00e1 dentro de uma \u00e1rea verde, em recupera\u00e7\u00e3o urbana, e que isso n\u00e3o faz diferen\u00e7a nenhuma para a cidade. Que quanto mais se precisa de cimento e de pedra, mais eles v\u00e3o explorar a terra, mais a gente vai estar fora dessa condi\u00e7\u00e3o: \u201cQue direito \u00e0 cidade eu tenho?\u201d Ent\u00e3o, o processo de militariza\u00e7\u00e3o aqui em 2012, quando veio a UPP, foi muito forte, porque um bairro que n\u00e3o tem escola t\u00e9cnica, que n\u00e3o tem hospital que funciona direito e voc\u00ea v\u00ea uma unidade de pol\u00edcia pacificadora, de ocupa\u00e7\u00e3o a cada 20 metros. Que crescimento \u00e9 esse de cidade? Seguran\u00e7a para qu\u00ea? Quando voc\u00ea tem um parque da cidade, que ele \u00e9 gradeado por corrente e por arame farpado, e que a quadra \u00e9 ocupada pela pol\u00edcia. Quando durante a copa, a pedreira que explodiu uma vez por dia, passa a explodir duas vezes por dia. Para mim, ter ficado em Vargem Grande foi muito sens\u00edvel \u2014 Ana precisou passar um per\u00edodo em Vargem Grande junto aos agricultores locais, fortalecendo a Feira da Ro\u00e7a \u2014 porque eu fui para um lugar que \u00e9 um territ\u00f3rio muito conflituoso, mas muito diferente da favela. As armas, as coisas s\u00e3o todas invis\u00edveis, mas que \u00e9 uma viol\u00eancia muito forte, mas diferente. S\u00f3 que eu conseguia dormir, porque n\u00e3o tinha tiro, eu tinha facilidade de ir e vir. E a\u00ed, quando eu volto, a primeira coisa que me aconteceu foi me paralisar de novo, porque fica claro como a gente normaliza a situa\u00e7\u00e3o que a gente vive de viol\u00eancia. A gente naturaliza esse processo de viol\u00eancia contra os nossos corpos, para resistir e seguir vivendo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c979\">Os jovens que participavam do projeto do CEM, que precisou ser paralisado por for\u00e7as externas, a metade morreu, gente. Porque quando voc\u00ea est\u00e1, voc\u00ea naturaliza tanto. E a\u00ed, eu falei: \u201cCaralho, que lugar \u00e9 esse? Tipo\u2026 a metade morreu, e a outra metade hoje est\u00e1 no tr\u00e1fico.\u201d A\u00ed a gente via a import\u00e2ncia do nosso trabalho e de coexistir aqui dentro, e de criar redes, de se fortalecer. Porque o projeto para favela, \u00e9 mesmo um projeto de vida, para a gente n\u00e3o viver muito tempo, n\u00e9? Quando eu vejo que a minha av\u00f3 tem 100 anos, eu falo: \u201cGente, ser\u00e1 que eu chego a 100 anos aqui dentro?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c93f\"><strong>PACS: Como voc\u00ea v\u00ea o seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"719f\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Na articula\u00e7\u00e3o de agroecologia, as meninas fizeram o encontro do corpo. Eu n\u00e3o via meu corpo, para mim era s\u00f3 um corpo de trabalho. Eu preciso estar de p\u00e9, para resistir e trabalhar. E a\u00ed, era um trabalho que, mesmo sendo coletivizado, era muito para o outro. Acho que a Roda de Mulheres, o grupo do GT da Articula\u00e7\u00e3o de Agroecologia do Rio de Janeiro, eles come\u00e7am a me entender, esse corpo meu tamb\u00e9m, n\u00e9? Mas, o meu corpo, sendo bem sincera, \u00e9 um corpo de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5189\"><strong>PACS: O que voc\u00ea carrega nesse corpo de trabalho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8a4f\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Eu carrego luta, esperan\u00e7a. Eu carrego vontade de vencer, sabe? Vontade de vencer junto com outras mulheres. Eu carrego amor, partilhar, solidariedade, esperan\u00e7a. E carrego revolta tamb\u00e9m. Muitas das vezes, porque, que rela\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, n\u00e9? Essa mesma terra que gera um fruto, que gera um alimento, que \u00e9 a terra do cultivo, tamb\u00e9m nos enterra. Esse meu corpo est\u00e1 em qual terra, sabe? Nessa mesma terra que planta, mas essa mesma terra que a gente v\u00ea cada dia um sendo derrubado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b817\"><strong>PACS: Voc\u00ea consegue ver e sentir no seu corpo de onde vem o impacto desses megaprojetos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"856e\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Eu tenho muitas doen\u00e7as pulmonares, ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil engolir tudo que est\u00e1 vindo. O pulm\u00e3o sente muito\u2026 voc\u00ea tem que resistir, tem que estar sempre bem. Assim, eu estou com o grupo das mulheres, eu tenho que estar bem porque eu sei que a vida delas, muita das vezes, \u00e9 mais dif\u00edcil do que a minha. Ent\u00e3o, \u00e9 um corpo fr\u00e1gil por dentro, mas enrijecido por fora. \u00c9 um corpo que n\u00e3o \u00e9 cuidado, que levanta todos os dias e que, muitas vezes, nem se toca, mas que precisa estar de p\u00e9. Eu acho que eu s\u00f3 vivo mesmo porque eu consigo manter vivas muitas outras mulheres. Mas, a minha vida, sendo bem sincera, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Sem demagogia, eu me vejo como uma ferramenta mesmo, que pode levar e fazer as mulheres acreditarem e transformar junto com elas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6642\"><strong>PACS: Como respirar no meio desses conflitos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"e2c8\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Nesse momento, assim, quando nos unimos. Quando fa\u00e7o atividades com as mulheres na favela. Mas vem tanta coisa tamb\u00e9m, que ao mesmo tempo que \u00e9 um respiro, \u00e9 ir para casa mastigada, sofrida. At\u00e9 estar no momento de respiro, acaba sendo tamb\u00e9m um momento de afli\u00e7\u00e3o, sem exagero.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"19f6\"><strong>PACS:<\/strong>&nbsp;<strong>Voc\u00ea acha que a luta pode ser um respiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"68b4\"><strong>Ana<\/strong>: Em alguns momentos, sim. Nos encontros, n\u00e9? At\u00e9 para voc\u00ea ver sua luta por outro \u00e2ngulo, quando voc\u00ea tem outras perspectivas. O encontro \u00e9 um respiro. Viajar \u00e9 um respiro. Eu s\u00f3 viajo por conta da luta, quando tem encontro da Rede. Fora disso, eu acho que eu nunca ia viajar, pelo dinheiro, pelo acesso, ou porque eu tamb\u00e9m n\u00e3o ia me dar esse luxo de sair, viajar\u2026 Ent\u00e3o, o respiro se d\u00e1 tamb\u00e9m nesses grandes encontros.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"47a6\"><strong>PACS: De que parte do seu corpo voc\u00ea sente que vem a sua for\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d7da\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;Minha for\u00e7a vem da minha garra, n\u00e9? Do meu peito. Acho que \u00e9 por isso que a asma est\u00e1 sempre muito forte. Aqui, \u00f3, no meu cora\u00e7\u00e3o, no meu peito. Isso me faz acreditar. E, ao mesmo tempo, isso tamb\u00e9m me paralisa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1299\"><strong>PACS: Onde a arte est\u00e1 em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"8717\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;A arte est\u00e1 nos meus turbantes, a arte est\u00e1 na cozinha, porque eu sempre cozinhei para as minhas irm\u00e3s. Eu n\u00e3o queria que elas tivessem que comer as sobras que a minha m\u00e3e trazia. S\u00f3 que a variedade de pratos era muito pouca e n\u00e3o tinha o Google nessa \u00e9poca. Ent\u00e3o, a arte come\u00e7ou a vir pela criatividade mesmo, de transformar o que eu tinha. Minha av\u00f3 tinha um quintal onde ela plantava. A gente tinha muitas \u00e1rvores frut\u00edferas e isso que transformava todo nosso prato. A\u00ed sempre tinha um suco, sempre tinha um talinho no meio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"19f0\"><strong>PACS: O que te adoece? E o que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"f780\"><strong>Ana:<\/strong>&nbsp;A pedreira me adoece. Ela me adoece quando eu vou por tr\u00e1s e vejo que est\u00e1 tudo um lixo, e cada vez pior. Ela me adoece com p\u00f3 de pedra. Essa viol\u00eancia, simb\u00f3lica e n\u00e3o simb\u00f3lica, me adoece muito. \u00c9 uma ang\u00fastia o tempo todo, sabe?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2593\">Me curo quando eu estou em rede, quando eu estou em roda, sabe? Quando eu vejo algu\u00e9m experimentando algo que eu fiz, que \u00e9 barato, e que \u00e9 poss\u00edvel, transformador, que vai mudar a perspectiva delas na cozinha. Porque eu sei que uma das coisas que mais sucateia o povo e que mais mant\u00e9m o povo mesmo nesse lugar \u00e9 a alimenta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quando eu vejo que \u00e9 poss\u00edvel pensar e transformar as pessoas a partir da alimenta\u00e7\u00e3o, isso me d\u00e1 muita vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CEM e Rede Carioca de Agricultura Urbana, Rio de Janeiro<\/p>\n","protected":false},"featured_media":221,"template":"","class_list":["post-219","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/219","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/219\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":247,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/219\/revisions\/247"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=219"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}