{"id":249,"date":"2021-05-11T14:15:17","date_gmt":"2021-05-11T17:15:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=249"},"modified":"2021-05-11T14:15:17","modified_gmt":"2021-05-11T17:15:17","slug":"dayane-chaves","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/dayane-chaves\/","title":{"rendered":"Dayane Chaves"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: Dayane Chaves e a resist\u00eancia na Comunidade Quilombola remanescente dos Quilombos de Salvaterra<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 06\/04\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>Em mais uma entrevista da sequ\u00eancia com mulheres lutadoras da Am\u00e9rica Latina na campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta, trazemos hoje a conversa com Dayane Chaves Amador, da Comunidade Quilombola remanescente dos Quilombos de Salvaterra, Vila Uni\u00e3o, Campinas. O material foi produzido por Marina Pra\u00e7a e Ana Luisa Queiroz e editado por Karoline Kina.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Dayane-Chaves-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-250\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Dayane-Chaves-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Dayane-Chaves-300x225.jpeg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Dayane-Chaves-768x576.jpeg 768w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Dayane-Chaves.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"302b\"><strong>PACS: O que \u00e9 luta para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"6ae7\">Dayane: Acho que luta s\u00e3o todos os enfrentamentos que a gente acaba encontrando todos os dias, e a forma que a gente enfrenta essas barreiras que s\u00e3o colocadas nas nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2737\"><strong>PACS: O que te movimenta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c45c\">Dayane:&nbsp;Sempre falo, assim, que eu sigo um exemplo da mam\u00e3e. Porque a minha m\u00e3e teve 12 filhos, e ela estudou at\u00e9 a quinta s\u00e9rie do Ensino Fundamental. Da quinta s\u00e9rie, ela fez um curso de t\u00e9cnico de enfermagem. E a\u00ed, desse curso, quando todo mundo disse para ela n\u00e3o se inscrever, n\u00e3o tentar um concurso p\u00fablico para trabalhar na Prefeitura, ela fez escondida do papai, porque ele tamb\u00e9m n\u00e3o permitia, e ela passou em terceiro lugar. Ela sempre foi um exemplo de luta, porque ter 12 filhos, ela teve filhos g\u00eameos, onde o papai nunca trocou uma fralda, nunca limpou. E, na \u00e9poca, n\u00e3o era a fralda descart\u00e1vel, era fralda de pano. E ter g\u00eameos pra usar fralda de pano, todo dia lavar, ter que trabalhar. Teve tempo na vida dela que ela passou seis, sete meses sem receber, indo todo dia trabalhar mesmo assim, e depois o papai n\u00e3o permitindo ela estudar e ela ia escondido dele. Quando ela come\u00e7ou a lutar, em prol do posto de sa\u00fade, para vir para comunidade, \u00e0s vezes ela ia para o movimento, para evento e o papai fazia ela descer de dentro do \u00f4nibus, quando ele sa\u00eda de casa ela subia no outro \u00f4nibus e ia. No decorrer da minha vida, assim, eu nunca vi ele bater nela, n\u00e9? Eu n\u00e3o sei se ele bateu, quando n\u00f3s \u00e9ramos menores, que eu n\u00e3o lembro. Em compensa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia psicol\u00f3gica era forte. Mesmo assim, em nenhum momento ela desistiu. Minha m\u00e3e terminou o Ensino M\u00e9dio depois de adulta, com quase 50 anos. E, para mim, chegar ao n\u00edvel que a mam\u00e3e foi, apesar de hoje eu estar numa forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas chegar ao n\u00edvel de batalha que ela enfrentou, e chegar assim, do jeito que ela est\u00e1. Porque a mam\u00e3e est\u00e1 valendo mais que eu, ela est\u00e1 bem mais bonita do que eu. Eu ainda n\u00e3o tenho nenhum filho, e ela teve 12, deu conta de criar todos. O papai n\u00e3o ficava em casa. A gente nunca teve uma ceia de Natal, desde crian\u00e7a, com panetone, com peru. Mas t\u00ednhamos uma ceia de Natal com bolo de macaxeira, com galinha de quintal, galinha caipira assada de forno, farofa. Ela fazia das coisas que tinha no quintal de casa, e todo Natal ela fazia uma ceia. E o papai n\u00e3o participava, porque ele ia para festa, mas ela fazia para gente. E a gente ficava esperando dar meia-noite para poder comer. A gente n\u00e3o teve brinquedo, mas a mam\u00e3e, dava o que ela podia. \u00c0s vezes, eu evito o conflito, que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de resist\u00eancia para mim. Dar um passo atr\u00e1s, para a gente dar dois na frente tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de resist\u00eancia. De vez em quando, eu tenho que abaixar a cabe\u00e7a, para ali na frente eu ter que levantar. Ent\u00e3o, s\u00e3o estrat\u00e9gias que a gente usa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3741\"><strong>PACS: Como voc\u00ea se entendeu mulher ao longo da sua trajet\u00f3ria? Voc\u00ea se v\u00ea nas mulheres do passado, na sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"3d90\">Dayane: Eu sou um pouco cr\u00edtica nessa quest\u00e3o, tamb\u00e9m hoje eu entendo que as rela\u00e7\u00f5es de poder, rela\u00e7\u00f5es que existiram no passado, s\u00e3o bem semelhantes \u00e0s que acontecem hoje. No passado, existia viol\u00eancia sexual, a pedofilia, existiam v\u00e1rias coisas\u2026 S\u00f3 que ficavam escondidas. As mulheres eram violentadas e se calavam, escondiam isso. As mesmas coisas que existem hoje, assim, ao meu entender, no mundo, existiam no passado. Mas, em compensa\u00e7\u00e3o, hoje as pessoas falam. Hoje as pessoas comentam, discutem sobre isso. E eu n\u00e3o sei se eu j\u00e1 me entendi enquanto mulher, porque eu ainda n\u00e3o me descobri, quem eu sou na verdade, assim, no mundo, mas eu tenho alguns conceitos que eu sigo, que eu acho que \u00e9 correto. Ent\u00e3o, toda vez que eu achar que algo n\u00e3o concorda com a forma correta que deve ser, eu vou questionar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bb16\"><strong>PACS: Voc\u00ea se reconhece como uma mulher de luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"1d9c\">Dayane: Todos os dias a gente tem batalhas, lutas a tra\u00e7ar\u2026 Ent\u00e3o, eu acho que todas as vezes que a gente encontra meios de derrubar pessoas, por exemplo, o machismo, a homofobia, derrubar esses pensamentos\u2026 \u00e9 um momento de luta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4a01\"><strong>PACS: No seu territ\u00f3rio voc\u00ea vive a realidade de algum megaprojeto, alguma coisa que impacta ele? E como voc\u00ea sente esses impactos no seu corpo, como mulher?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"4dbe\">Dayane: Conforme o desenvolvimento, e eu digo um desenvolvimento entre aspas, porque n\u00e3o \u00e9 um desenvolvimento\u2026 Para mim, desenvolvimento \u00e9 algo que vem para melhorar a vida da gente. Mas a\u00ed, a rodovia PA \u00e9 dentro da minha comunidade. Ent\u00e3o\u2026 Vila Uni\u00e3o era uma comunidade que tinha pouca as casas. Hoje em dia, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais assim. Se tu for andar na comunidade direto, que \u00e9 na beira da rodovia, voc\u00ea v\u00ea a quantidade de com\u00e9rcio que tem\u2026 Uma casa, um com\u00e9rcio, uma casa, um com\u00e9rcio, uma casa, um com\u00e9rcio. A\u00ed tem um posto de gasolina, tem duas distribuidoras de g\u00e1s\u2026 E a\u00ed vai vindo um com\u00e9rcio atr\u00e1s do outro. Esse fluxo que tem dentro da comunidade tem tornado a nossa vida mais perigosa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a287\">Entre 2015 e 2016, foi constru\u00eddo um posto de gasolina na frente de casa, em cima da casa de umas antigas moradoras. Esse espa\u00e7o era para ser um local de mem\u00f3ria. Era para ser alguma coisa que ficasse como recorda\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de quem era aquela mulher que morava ali, o que ela foi dentro da comunidade, uma pessoa que cuidava dos outros, que trabalhava com as plantas medicinais, assim como a mam\u00e3e. Era para ser. E a\u00ed constru\u00edram o posto de gasolina ali, n\u00e3o tem um vest\u00edgio de como que era a casa dela. S\u00f3 est\u00e1 na mem\u00f3ria da gente. Eu sempre falo porque, enquanto a gente n\u00e3o lembrar, a mem\u00f3ria se apaga, ela deixa de existir. Se a gente n\u00e3o compartilha essa mem\u00f3ria, essa lembran\u00e7a se esquece\u2026 As pessoas se esquecem. E a\u00ed eu tirei uma foto, porque o dono do posto de gasolina mandou um dos funcion\u00e1rios dele pulverizar veneno para matar o capim que vai crescendo. O rapaz estava de short, camisa e com a bomba pulverizando veneno no capim. E as pessoas passando, as pessoas paravam no posto pra abastecer. gente mora l\u00e1 na frente, e a gente \u00e9 diretamente afetado. A nossa sa\u00fade \u00e9 afetada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e629\"><strong>PACS: A sua comunidade tem uma din\u00e2mica comunit\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"69f5\">Dayane: Pois \u00e9. A\u00ed, o que acontece na comunidade? Por conta do grande fluxo de com\u00e9rcio, a comunidade come\u00e7ou a desenvolver rapidamente. Ent\u00e3o, grande parte dos moradores que hoje est\u00e3o na comunidade, n\u00e3o s\u00e3o pessoas daqui. S\u00e3o pessoas que vieram de fora, mas assim, a gente tem a Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e3es e Produtores e Remanescentes de Quilombos na comunidade, onde pessoas da minha fam\u00edlia fazem parte, pessoas de outras fam\u00edlias que tamb\u00e9m residem na comunidade fazem parte. Mas, tem gente que n\u00e3o \u00e9 da comunidade, est\u00e1 aqui, e quer fazer parte da associa\u00e7\u00e3o pelos benef\u00edcios do que o ser quilombola traz. Tem gente que, por exemplo, p\u00f5e no tal\u00e3o de energia l\u00e1, de dono de com\u00e9rcio, que n\u00e3o \u00e9 na comunidade, que n\u00e3o tem essa descend\u00eancia, n\u00e3o carrega, porque ser quilombola n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ter os tra\u00e7os. Tem todo um contexto hist\u00f3rico ancestral que a gente traz, e tem pessoas, como comerciantes, que consta no comprovante de resid\u00eancia deles como quilombola para pagar energia mais barato.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"44cc\"><strong>PACS: E o que era produzido l\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"5068\">Dayane: A gente trabalha com abacaxi, com mandioca. S\u00f3 que varia. Porque, abacaxi, mandioca \u00e9 o ano todo, n\u00e9? Mas, na \u00e9poca do inverno \u2014 porque a gente tem duas esta\u00e7\u00f5es: s\u00f3 inverno e ver\u00e3o \u2014 ent\u00e3o, de janeiro a junho, inverno, de julho a dezembro, ver\u00e3o. Ent\u00e3o, no ver\u00e3o a gente limpa a \u00e1rea, para plantar o abacaxi, maniva. A\u00ed a gente apronta j\u00e1 no ver\u00e3o para, no come\u00e7o do inverno, a gente tirar o produto. Na \u00e9poca da chuva, que \u00e9 o inverno, a gente planta melancia, feij\u00e3o, milho, maxixe, planta jerimum, v\u00e1rias outras coisas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7277\">E agora, assim, a gente est\u00e1 come\u00e7ando a trabalhar com as hortas. De vez em quando, numas casas, a gente j\u00e1 percebe no quintal umas basquetinhas, com couve, cheiro verde, com hortel\u00e3zinho\u2026 Ent\u00e3o, as pessoas come\u00e7aram a produzir tamb\u00e9m nos seus quintais os seus pr\u00f3prios bens de consumo, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1adf\"><strong>PACS: Como voc\u00ea v\u00ea o seu corpo? O que voc\u00ea carrega nele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"461f\">Dayane: Ah, eu acho que eu carrego muita coisa. N\u00e3o s\u00f3 no f\u00edsico, mas assim, no esp\u00edrito. Eu acredito no esp\u00edrito. Eu sempre converso, eu digo: \u201cEu n\u00e3o sei quem me protege, mas algu\u00e9m me protege.\u201d N\u00e3o sei se s\u00e3o meus ancestrais, os orix\u00e1s\u2026 N\u00e3o sei se \u00e9 Deus, mas de alguma forma o meu corpo espiritual tem prote\u00e7\u00e3o. E esse corpo espiritual ele acaba refletindo no meu corpo f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"70c7\"><strong>PACS: Voc\u00ea sente algum impacto no seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"3b36\">Dayane: \u00d3, eu sinto toda essa influ\u00eancia de fora, eu sinto no corpo. A gente \u00e9 carne, \u00e9 sangue\u2026 Mas, assim, a gente tem essa rela\u00e7\u00e3o com nosso espa\u00e7o. As pessoas dizem que \u00e9 muita terra para pouco \u00edndio, muita terra para pouco quilombola, mas a gente tem essa rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o, a gente tem essa rela\u00e7\u00e3o com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4968\">Eu, por exemplo, corria para o mato todas as vezes que acontecia alguma coisa de ruim comigo, ou com a minha fam\u00edlia, com qualquer um dos meus irm\u00e3os, eu corria para o mato e eu ficava no mato at\u00e9 eu me acalmar. Depois que eu me acalmava, voltava para casa. Ent\u00e3o, quando eu estava assim com raiva, com \u00f3dio\u2026 De certa forma, estar ali me acalmava. Eu acho que, para n\u00f3s, \u00e9 muito mais do que s\u00f3 a terra, muito mais do que s\u00f3 as \u00e1rvores. A gente se sente parte disso. E a\u00ed, quando vem a rodovia e corta o espa\u00e7o que a gente vive, quando vem um fazendeiro e destr\u00f3i o espa\u00e7o que a gente est\u00e1 acostumado e monta l\u00e1 o seu com\u00e9rcio, monta seu ponto de venda para enriquecer, ele est\u00e1 destruindo uma coisa que tamb\u00e9m faz parte da gente. Eu me sinto terra. Eu me sinto \u00e1gua. Eu me sinto mato, sabe? Ent\u00e3o, eu me sinto parte disso. E n\u00e3o tem como a gente ver o nosso espa\u00e7o, a mata que a gente estava acostumado a ver todos os dias, sendo destru\u00edda, sem a gente sentir que isso tamb\u00e9m vem destruindo o nosso corpo. Porque, pode n\u00e3o parecer, mas destr\u00f3i quem a gente \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"46bb\"><strong>PACS: E de onde vem a sua for\u00e7a no seu corpo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"5a01\">Dayane: Eu n\u00e3o sei de onde vem. Tem momentos que parece que quando a gente est\u00e1 no fundo do po\u00e7o, ele tem um subsolo, tem um por\u00e3o, e assim, do nada surge: \u201cE se a gente fizesse isso?\u201d E a\u00ed, a gente vai, tenta fazer e acaba dando certo. Eu n\u00e3o sei, de fato, de onde vem, mas eu acho que no momento que a gente acalma, que o estresse passa, a solu\u00e7\u00e3o aparece.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"82f6\"><strong>PACS: De onde vem o seu respiro? De onde voc\u00ea tira for\u00e7a para seguir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"49ae\">Dayane: Eu sempre lembro de algumas pessoas que conheci no passado e que hoje eu tamb\u00e9m tive o prazer de escutar hist\u00f3rias de lutas, ler livros de pessoas que foram lutadores, que enfrentaram, e \u00e0s vezes querendo ou n\u00e3o, do nada vem uma mensagem da nossa mente, daquilo que a gente leu. Por exemplo, tem o Zumbi dos Palmares, tem Dandara, tem um Ganga Zumba, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. S\u00e3o pessoas que s\u00e3o exemplos para gente. Zumbi dos Palmares, t\u00e3o novo, mas assim, ele dava um passo atr\u00e1s, para dar dois na frente. S\u00e3o estrat\u00e9gias de luta! Quando eu digo que a gente vai abaixar a cabe\u00e7a agora, para que depois a gente levante, quando eu digo: \u201cN\u00e3o, eu vou evitar o conflito\u201d, n\u00e3o \u00e9 porque eu estou fugindo da briga, mas porque evitar o conflito \u00e9 uma estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6ca5\"><strong>PACS: E o que te d\u00e1<\/strong>&nbsp;<strong>alegria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"3f43\">Dayane: Eu sou muito diferente. Ent\u00e3o, cada dia eu acordo com um humor diferente. Por isso que eu conhe\u00e7o muitas m\u00fasicas, porque todos os dias eu acordo com uma m\u00fasica diferente na mente. Tem vezes que eu acordo com o Canto das Tr\u00eas Ra\u00e7as na mente, tem vezes que eu acordo com o Canto de Oxum na mente, tem vez que eu acordo com C\u00e1ssia Eller na mente\u2026 E a\u00ed, tem vez que eu acordo com Pabllo Vittar. Eu n\u00e3o paro para escutar o som, eu paro para escutar a letra. E tem letras que s\u00e3o muito engra\u00e7adas e isso muda\u2026 Muda muito meu humor. Se eu estou estressada, quando n\u00e3o d\u00e1 para ir para mata, eu escuto uma m\u00fasica. A\u00ed eu digo: \u201cN\u00e3o, \u00e9 essa m\u00fasica que eu tenho que escutar.\u201d Sabe? Doralyce: \u201cN\u00f3s somos mulheres de todas as cores, de v\u00e1rias idades, de muitos amores\u2026\u201d Ent\u00e3o, essa m\u00fasica eu escuto quanto estou assim, puta da vida. Quando tentam me diminuir por conta da minha posi\u00e7\u00e3o \u201cmulher\u201d, que eu n\u00e3o tenho capacidade, que eu n\u00e3o devo fazer isso, que eu n\u00e3o devo usar essa roupa, que eu n\u00e3o devo me vestir assim, que eu n\u00e3o devo falar palavr\u00e3o, que eu n\u00e3o devo ir no bar beber! Quando o pessoal est\u00e1 falando assim: \u201cAh e tal, tu t\u00e1 muito gorda, cuidado que tu vai explodir, n\u00e3o sei o qu\u00ea e tal.\u201d Eu escuto Doralyce: \u201cMiss Beleza, Miss Beleza Universal\u2026\u201d. Porque, cara, a gente \u00e9 mulher de todas as cores, de todas as idades\u2026 Independente de cor, de ra\u00e7a, de posi\u00e7\u00e3o, de op\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 dessa forma que eu vejo, sabe? \u00c9 assim que eu acho que a vida funciona. E eu acho que deveria ser assim sempre.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f4cd\"><strong>PACS: Voc\u00ea acha que a pr\u00f3pria luta pode ser um respiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d05f\">Dayane: Eu acho, porque assim, se a gente n\u00e3o encontra a luta, se a gente n\u00e3o encontra dificuldades, se a gente n\u00e3o encontra enfrentamento, se a gente n\u00e3o encontra esses machistas no mundo, parece que tudo \u00e9 f\u00e1cil, sabe? Porque, \u00f3, se eu n\u00e3o encontrasse\u2026 Eu tenho um irm\u00e3o que \u00e9 muito escroto. Eu digo para ele que se ele n\u00e3o fosse meu irm\u00e3o, ele n\u00e3o era nem meu amigo. Porque ele \u00e9 muito machista. E ele \u00e9 muito escroto mesmo. Ele \u00e9 um cara, assim\u2026 Ent\u00e3o, se eu todo dia, constantemente, n\u00e3o tivesse que tra\u00e7ar discuss\u00f5es com ele para tentar mudar o pensamento, e eu n\u00e3o tivesse que ir em busca de um conhecimento para eu ter uma consci\u00eancia diferente, eu acho que\u2026 Eu seria muito bobinha. Tipo assim, eu sempre fui caladinha. E se eu n\u00e3o tomo um posicionamento na minha vida, hoje eu seria uma pessoa muito reprimida. Eu n\u00e3o estaria aqui, eu n\u00e3o teria oportunidade de conversar com a juventude, eu n\u00e3o teria oportunidade de discutir com os jovens da minha comunidade, falando com eles sobre sexualidade, tentando mudar a vis\u00e3o deles sobre o g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"39ee\"><strong>PACS: Voc\u00ea sente prazer em todas essas articula\u00e7\u00f5es que voc\u00ea constr\u00f3i?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"67f6\">Dayane: Muito. Quando eu tenho uma oportunidade de conversar com pessoas na comunidade que, assim, jovens, crian\u00e7as\u2026 Pode ser at\u00e9 mais velho, que \u00e0s vezes sentam\u2026 E eles me escutam, e eu percebo que, de alguma forma, alguma coisa mudou, eu me sinto realizada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1f87\"><strong>PACS: E sobre a arte, onde voc\u00ea acha que a arte est\u00e1 em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"a491\">Dayane: A minha vida \u00e9 arte, n\u00e9? Eu acho que o conhecimento que a gente tem sobre os nossos ancestrais \u00e9 arte. O saber que a gente tem, de trabalhar com as plantas medicinais \u00e9 uma forma de arte. Se eu serro um bambu pra fazer um vasinho, tamb\u00e9m \u00e9 arte. \u00c9 um conhecimento, que eu digo conhecimento tradicional, mas ele \u00e9 arte. A forma que eu me visto, o turbante que eu uso, a maquiagem que eu coloco, os acess\u00f3rios que eu uso. O momento que eu me monto, que eu me produzo. Ent\u00e3o, para mim, a arte \u00e9 eu mostrar o quanto que eu sou bonita, o quanto que eu sei fazer. Que o que eu sei fazer \u00e9 bonito. Eu me sinto uma obra de arte.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f062\"><strong>PACS: O que \u00e9 o cuidado para voc\u00ea e como voc\u00ea se cuida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9d03\">Dayane: Eu tenho a necessidade de ser sincera\u2026 Eu n\u00e3o me cuido tanto. Eu acho que \u00e9 um problema, e tamb\u00e9m \u00e9 uma qualidade\u2026 A gente carrega muitas coisas que a gente n\u00e3o comenta. A gente n\u00e3o comenta, \u00e0s vezes, nem com os amigos. A gente guarda. E como que a gente fala quem \u00e9 a gente, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cdf0\">\u00d3, quando as minhas amigas est\u00e3o doentes, quem faz o rem\u00e9dio para elas sou eu. Quem faz o mingau, quem leva na cama, quem faz o ch\u00e1, quem faz o banho, o xarope\u2026 Elas me chamam de m\u00e3e Day, n\u00e9? Eu aprendo, e eu fa\u00e7o para elas. As minhas irm\u00e3s est\u00e3o com dor nas pernas, est\u00e3o cansadas, sou eu que vou fazer a massagem nas pernas delas\u2026 Eu vou colocar de molho na \u00e1gua morna\u2026 Ent\u00e3o, assim, eu sempre tenho esse cuidado de estar cuidando do outro. Eu n\u00e3o tenho muito essa coisa de cuidar de mim. Eu admito, eu n\u00e3o tenho mesmo. \u00c0s vezes, eu me sinto mal, assim, e eu esque\u00e7o, eu n\u00e3o tomo rem\u00e9dio\u2026 mas, quando eu vejo que algu\u00e9m que eu gosto est\u00e1 doente, eu me desespero.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b8b9\"><strong>PACS: O que te adoece?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d76e\">Dayane: \u00c0s vezes, as pessoas falam as coisas para mim, e por incr\u00edvel que pare\u00e7a, eu n\u00e3o esque\u00e7o. Eu guardo, eu digo que est\u00e1 tudo na caixinha do rancor do meu cora\u00e7\u00e3o e eu guardo. Isso me adoece.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6481\">Hoje eu tenho 27 anos, e h\u00e1 3 anos, logo quando eu entrei na faculdade, eu j\u00e1 estava nesse processo de estar ou n\u00e3o estar na igreja. Estava nesse processo de: vou sair. Na verdade, eu j\u00e1 nem ia mais, n\u00e9? E a\u00ed, o que foi que aconteceu\u2026 Antes de eu falar com o pastor e tomar uma decis\u00e3o, porque quando eu sa\u00ed da igreja, eu cheguei no pastor e disse: \u201cEu n\u00e3o vou mais participar.\u201d Eu tinha que falar a verdade para a pessoa. A\u00ed, eu estava em casa e tive uma sensa\u00e7\u00e3o muito forte de que eu iria morrer. Eu n\u00e3o sabia o que fazer, e eu sabia que eu iria morrer, eu estava com aquela sensa\u00e7\u00e3o assim, e meu cora\u00e7\u00e3o, sabe? Ficou miudinho, come\u00e7ou a me dar falta de ar\u2026 A\u00ed eu comecei a pensar: \u201cCara, eu estou muito nova para morrer, eu ainda n\u00e3o vivi nada.\u201d Porque eu cresci na igreja. Apesar de eu sair muito, mas eu ainda\u2026 Eu n\u00e3o tive oportunidade de viver, o que eu estou vivendo hoje, sabe? Pra mim, aprender tudo que eu tenho aprendido. Conversar com as pessoas, conhecer outras culturas\u2026 E a\u00ed, eu estava com essa sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte que eu iria morrer, e eu tinha um caderno que eu comecei a escrever e chorar. Ficou todo molhado o papel, de tanto choro. Eu solu\u00e7ava de tanto chorar, e at\u00e9 me emociono assim quando eu falo, e fui escrevendo\u2026 Escrevi para as minhas amigas, escrevi para o meu pai, falando umas verdades, escrevi para mam\u00e3e, escrevi pros meus irm\u00e3os\u2026 Eu fui deixando conselho para algumas pessoas, tipo, mensagem que eu achava que\u2026 assim, \u201ceu quero que voc\u00ea fa\u00e7a isso e isso por mim, eu quero isso\u201d\u2026 E eu escrevi, eu acho que eu quase acabei com o caderno de tanto escrever\u2026 E eu fui escrevendo, e a\u00ed eu dormi. Quando chegou no outro dia de amanh\u00e3, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, eu acordei e eu n\u00e3o tinha morrido. Mas, eu me senti muito melhor. E a\u00ed, eu sa\u00ed, eu conversei com o pastor, disse que eu n\u00e3o ia mais ficar na igreja e tudo\u2026 Tomei uma decis\u00e3o e, assim, eu acho que a Dayane do passado morreu. Foi um processo e o corpo da gente se renova. Eu acredito nisso. O esp\u00edrito da gente se renova.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"edad\"><strong>PACS: O que te cura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"97f3\">Dayane: Ah, eu adoro os meus sobrinhos. Eu brigo quando as minhas irm\u00e3s batem neles. Eu sinto que est\u00e3o me batendo tamb\u00e9m. Eu cresci em um ambiente que a gente apanhava, sabe? E eu acredito muito que meus pais fizeram isso porque eles n\u00e3o sabiam outra forma de criar, mas hoje a gente tem outras formas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cf37\">Quando eu chego de viagem, eles v\u00eam todos correndo para me abra\u00e7ar. N\u00e3o tem como, eles me renovam todos os dias, sabe?<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunidade Quilombola remanescente dos Quilombos de Salvaterra, Campinas<\/p>\n","protected":false},"featured_media":250,"template":"","class_list":["post-249","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":252,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/249\/revisions\/252"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}