{"id":329,"date":"2021-05-13T16:47:08","date_gmt":"2021-05-13T19:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=329"},"modified":"2021-05-13T16:47:08","modified_gmt":"2021-05-13T19:47:08","slug":"sandra-vita","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/sandra-vita\/","title":{"rendered":"Sandra Vita"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: a f\u00e9 como respiro diante de um cotidiano marcado pelos megaprojetos<\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>, publicado em 12\/05\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevistada de hoje da s\u00e9rie com lutadoras de territ\u00f3rios da Am\u00e9rica Latina \u00e9 Sandra Vita, do Movimento pela Soberania Popular na Minera\u00e7\u00e3o (MAM), em Minas Gerais. Sandra participou do s\u00e9timo epis\u00f3dio do Ciclo de Debates da\u00a0<strong>Campanha #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/strong>, que teve como tema\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XXdpsz7Q9-M\"><strong>\u201cMulheres e Territ\u00f3rios Impactados pela Vale S.A.\u201d<\/strong><\/a>. A transmiss\u00e3o ao vivo est\u00e1 dispon\u00edvel no nosso canal do Youtube. A entrevista foi realizada em 2019 por Marina Pra\u00e7a, coordenadora e educadora popular, e Ana Luisa Queiroz, pesquisadora e educadora popular, ambas do Instituto Pacs.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"628\" height=\"846\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sandravita.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-332\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sandravita.png 628w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sandravita-223x300.png 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 628px) 100vw, 628px\" \/><figcaption>Sandra Vita  |  Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"c5cc\"><strong>PACS: O que \u00e9 luta para voc\u00ea? O que te movimenta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"3688\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Luta \u00e9 o que vejo como forma de resistir e ir em busca daquilo que a gente defende como sendo o melhor para todos aqueles que est\u00e3o \u00e0 minha volta. Al\u00e9m da minha fam\u00edlia, \u00e9 claro, as pessoas que convivem comigo, aqueles que fazem parte da nossa casa comum.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5fc6\">Defender nossos direitos virou correr atr\u00e1s deles, j\u00e1 que est\u00e3o sendo arrancados, e v\u00e3o continuar sendo se a gente n\u00e3o fizer luta. Ent\u00e3o luta para mim \u00e9 defender aquilo que \u00e9 nosso e que as pessoas querem tirar. E que a gente tem chamado tamb\u00e9m de viola\u00e7\u00e3o de direito.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5429\">O mal que nos aflige, a quest\u00e3o miner\u00e1ria, os grandes empreendimentos que chegam e assolam a vida do povo brasileiro, a vida da mulherada, a vida das nossas crian\u00e7as e nossos idosos com requinte de crueldade. Precisamos resistir. \u00c9 se colocar diante dessas situa\u00e7\u00f5es e dizer \u201cn\u00e3o\u201d. Dizer que a gente n\u00e3o aceita! Se tiver 1% de chance de dar certo, se tiver 1% de chance de a vida valer a pena, eu acredito nesse 1%. \u00c9 claro que acima de tudo, eu acredito em Deus, porque \u00e9 a f\u00e9 que nos move. Eu creio que essa luta um dia vai dar certo. Ainda que eu n\u00e3o veja, meus filhos ver\u00e3o, meus netos ver\u00e3o, e isso me move.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ad98\"><strong>PACS: Como voc\u00ea se entendeu enquanto mulher ao longo da sua trajet\u00f3ria de vida e de luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"666e\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Na grande maioria das vezes, eu me entendi como algu\u00e9m que foi diminu\u00edda. Diminu\u00edda no sentido de condi\u00e7\u00e3o de fazer, de ser invisibilizada, culpada e muito ocupada. Muito embora, muitas das vezes n\u00f3s somos sempre fragilizadas. E dizer que n\u00f3s somos fortes, que n\u00f3s somos resistentes, que a gente luta com emo\u00e7\u00e3o, a gente luta com cora\u00e7\u00e3o, que a nossa vida \u00e9 diferente, que n\u00f3s somos diferentes, que a gente pensa n\u00e3o com a raz\u00e3o, a gente pensa com cora\u00e7\u00e3o e age com ele. Tentam banalizar, invisibilizar, nos colocar como menor, como pior no que fazemos, nos colocar como seres que n\u00e3o tem muita signific\u00e2ncia. Mas eu tamb\u00e9m aprendi que isso nunca foi verdade. Que foi s\u00f3 uma forma de nos controlar para nos enfraquecer e deturpar todas as coisas que a gente tem coragem de fazer e que os homens n\u00e3o t\u00eam. Porque n\u00f3s somos cora\u00e7\u00e3o. Porque n\u00f3s somos emo\u00e7\u00e3o. N\u00f3s somos muito capazes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0c7c\"><strong>PACS: E voc\u00ea se v\u00ea nas mulheres mais velhas, nas mulheres do seu passado, nas suas ancestrais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"66f0\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Sim, vejo. Eu s\u00f3 sou o que sou por isso, n\u00e9? Eu s\u00f3 sou o que sou porque eu aprendi com algu\u00e9m, algu\u00e9m deixou um legado. Algu\u00e9m fez antes de mim. Muitas das coisas que eu fa\u00e7o hoje s\u00e3o porque algu\u00e9m fez um dia. Ent\u00e3o n\u00e3o tem nada de novo. Na verdade, a gente pode at\u00e9 inovar em algumas coisas, mas o b\u00e1sico, a base, ela veio do passado. Para que eu esteja aqui agora falando dessas coisas, mulheres tiveram que morrer. Outras mulheres tiveram que ser tombadas pra garantir a minha fala, para garantir a minha liberdade, pra garantir o meu espa\u00e7o, pra garantir que eu pudesse puxar uma luta, pra garantir que eu pudesse falar na frente de qualquer homem que eu quiser falar, o que eu quiser falar. Elas garantiram que eu pudesse ser o que eu sou hoje, por causa de tudo que elas enfrentaram, por causa de todo o tratamento que elas tiveram\u2026 Eu me vejo sim, muito nas mulheres do passado, que constru\u00edram uma luta, que foram para frente, que levantaram a bandeira, que n\u00e3o tiveram medo e que morreram por isso. Derramaram seu sangue por causa disso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7b06\"><strong>PACS: E enquanto a mulher de luta que voc\u00ea \u00e9 hoje, como voc\u00ea sente a presen\u00e7a dos impactos da minera\u00e7\u00e3o? Como voc\u00ea sente isso em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"56a8\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;A princ\u00edpio, eu sinto muita raiva. Depois da raiva, eu sinto uma impot\u00eancia imensa, porque a Vale adoeceu minha fam\u00edlia. A Vale adoeceu minhas filhas. A Vale adoeceu minha neta.&nbsp;<strong>A Vale adoece as pessoas por onde ela passa. E esses impactos chegam, n\u00e3o s\u00f3 para mim, de uma forma muito bruta, de uma forma muito grande. N\u00e3o \u00e9 de mim s\u00f3, mas de todas as pessoas que est\u00e3o morrendo por causa da Vale. E aquelas que est\u00e3o tendo morte em vida, porque, sim, o que acontece em diversos lugares a\u00ed, \u00e9 isso: \u00e9 uma morte em vida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9c6d\">\u00c9 o sofrimento que est\u00e1 invisibilizado porque as autoridades n\u00e3o querem saber disso. As autoridades est\u00e3o a favor do empreendedor e n\u00e3o est\u00e3o a favor das pessoas. N\u00e3o importa onde a minera\u00e7\u00e3o esteja, n\u00e3o importa que seja a Vale<strong>. Onde tem um complexo miner\u00e1rio, tem v\u00edtima, ainda que n\u00e3o seja fatal.<\/strong>&nbsp;E eu estou falando isso hoje por n\u00f3s, Morro D\u2019\u00c1gua Quente, Catas Altas. Eu estou falando isso por Bar\u00e3o de Cocais, que vive o trauma, o terror, o pavor da lama invis\u00edvel at\u00e9 os dias de hoje. Eu estou falando isso por Bento Rodrigues, que teve suas vidas assoladas, foram arrancadas do seu territ\u00f3rio, e fazem quase 6 anos agora que as pessoas que foram enterradas vivas e as suas situa\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o foram resolvidas. E tamb\u00e9m por Brumadinho, com tantas fam\u00edlias que passaram por tudo que passaram, por toda perda que sofreram. Alguns corpos que n\u00e3o foram identificados, outros que n\u00e3o foram localizados\u2026&nbsp;<strong>\u00c9 uma luta e um sofrimento muito grande e n\u00e3o tem como eu sofrer e sentir a minha dor e n\u00e3o sentir a dor do outro. A dor \u00e9 coletiva. A luta \u00e9 coletiva e a dor tamb\u00e9m \u00e9.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"75be\"><strong>PACS: E, nesse processo, como voc\u00ea v\u00ea o seu corpo? O que voc\u00ea carrega nele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"0b40\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Eu n\u00e3o tive meu corpo violentado, abusado ou desrespeitado pelo megaprojeto mineral, como outras mulheres t\u00eam. Mas tamb\u00e9m eu n\u00e3o tenho corpo cuidado como muitas mulheres. Eu gostaria de me voltar para isso, ter tempo para os cuidados pessoais, mas a gente abre m\u00e3o de se cuidar por todo resto e pela luta. O impacto no meu corpo \u00e9 o impacto de sentir a dor que n\u00e3o \u00e9 uma dor f\u00edsica, que \u00e9 uma dor emocional. \u00c9 uma dor no peito, \u00e9 uma dor no cora\u00e7\u00e3o de ver tanta coisa acontecendo e de sentir tanta vontade, tanto desejo de poder fazer algo. Por mais que a gente tente dar forma, que a gente consiga tentar, pedir ajuda, denunciar, ir pros espa\u00e7os e tentar aprender alguma coisa, fazer algumas estrat\u00e9gias, ainda assim a gente n\u00e3o consegue avan\u00e7ar pra fazer com que tudo isso mude.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"afb8\"><strong>PACS: E como \u00e9 respirar em meio a todos esses conflitos? De onde tirar oxig\u00eanio para seguir na luta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"711f\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;O fato de voc\u00eas estarem aqui me d\u00e1 for\u00e7a para seguir, me faz respirar. Falar da situa\u00e7\u00e3o vivida aqui, contar os impactos vividos por companheiras e companheiros em Bar\u00e3o, de Bento, de Brumadinho, e ter esses encontros s\u00e3o respiros para mim. Ir aos lugares para denunciar, porque \u00e9 a pr\u00f3pria luta que me motiva e s\u00e3o lugares que pe\u00e7o socorro tamb\u00e9m. E quando as pessoas reconhecem nossas lutas. Saber que tem outras pessoas que est\u00e3o na luta! Mas tamb\u00e9m sofro muito, sigo porque eu creio em Deus. Eu digo que eu sou Crist\u00e3 Evang\u00e9lica. E crist\u00e3o \u00e9 quem segue Cristo. Quem dera que eu conseguisse seguir Cristo. Eu n\u00e3o consigo, n\u00e3o, mas eu tenho que crer, n\u00e9? Eu creio que \u00e9 Cristo quem me move, no sentido de me fortalecer e que as miseric\u00f3rdias se renovam todo dia sobre minha vida. Eu creio muito nisso. Ent\u00e3o \u00e9 o Senhor quem me fortalece. E, para al\u00e9m disso, a\u00ed eu creio tamb\u00e9m, que \u00e9 ele quem coloca no meu caminho as pessoas que precisam estar no meu caminho para me fortalecer nessa caminhada. \u00c9 o cuidado de Deus e de Cristo na minha vida, de colocar as pessoas no meu caminho para que elas possam contribuir com isso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e5f6\">Ent\u00e3o, \u00e9 a pr\u00f3pria luta, abaixo de Deus, no meu entendimento, que me fortalece. Eu fico pensando, \u00e0s vezes, que eu sou um ser muito pol\u00edtico. E eu sou esse ser, assim, de luta desde sempre. Eu n\u00e3o queria ser assim, mas o que que eu ia ser?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ff60\"><strong>PACS: E no cotidiano, nas coisas pequenas? O que voc\u00ea acha que te d\u00e1 um respiro no seu dia-a-dia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"95e4\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;A gente n\u00e3o tem muito tempo para ficar sem pensar no que fazer, porque sempre que n\u00e3o tem uma coisa, tem outra. E quem se envolve com o povo, falaram ontem que \u00e9 bruxa, eu n\u00e3o vejo como bruxa, mas porque eles chamam a gente de outras coisas, de vagabunda, desocupadas, baderneiras, sem servi\u00e7o, que \u201cest\u00e1 precisando de homem\u201d. \u00c9 coisa desse tipo \u201cNa hora que arrumar um homem, para\u201d, mas, assim, na realidade, quando est\u00e1 no sangue \u2014 porque t\u00e1 no sangue! Eu n\u00e3o sei nem como, mas est\u00e1 no sangue \u2014 tudo para a gente \u00e9 um motivo para luta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a6ce\"><strong>PACS: Esse prazer, ao mesmo tempo que voc\u00ea fala que voc\u00ea n\u00e3o quer ser isso, tamb\u00e9m existe em ser e em estar na luta, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"742c\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Eu tenho muito prazer. Como eu contei, por exemplo, como foi uma experi\u00eancia. A gente baixou no \u00f4nibus aqui e foi parar l\u00e1 do Par\u00e1, porque era o lan\u00e7amento do MAM. Isso d\u00e1 prazer. \u00c9 por causa da viagem? N\u00e3o. A viagem \u00e9 cansativa, a viagem \u00e9 desgastante. Leva crian\u00e7a, no risco da estrada, mas d\u00e1 prazer e d\u00e1 prazer demais porque tem umas coisas que, assim, que arrepiam o corpo. Que bate forte o cora\u00e7\u00e3o e que voc\u00ea v\u00ea que, verdadeiramente, voc\u00ea est\u00e1 de alguma forma ali representada por v\u00e1rias pessoas, que est\u00e3o falando a mesma l\u00edngua, que est\u00e3o na mesma luta e que, sim, um dia vai dar certo. D\u00e1 prazer. O primeiro ato de rebeldia, quando a gente conseguiu invadir a C\u00e2mara por causa do C\u00f3digo da Minera\u00e7\u00e3o, e a gente conseguiu travar o processo, que ela j\u00e1 estava travando a pauta, a gente conseguiu continuar travando e n\u00e3o deixamos que votassem. E que a gente conseguiu, com aquela galera toda l\u00e1, claro que n\u00f3s \u00e9ramos s\u00f3 o povo do Morro, mas n\u00f3s \u00e9ramos uma Van! E a gente nunca tinha ido num espa\u00e7o de luta e n\u00f3s \u00e9ramos do Morro na Van e n\u00f3s rodamos daqui at\u00e9 Bras\u00edlia. N\u00f3s chegamos l\u00e1 quebrada; E fomos para C\u00e2mara, nunca tinha pisado em Bras\u00edlia, e a\u00ed quando eles mudam a data de vota\u00e7\u00e3o, porque souberam que tinha aquele grupo l\u00e1, e a gente consegue atrav\u00e9s daquele povo que morava l\u00e1, introduzir a gente na C\u00e2mara, e a gente consegue invadir a plen\u00e1ria. E no grito, a gente conseguir chamar audi\u00eancia p\u00fablica nos Estados miner\u00e1rios. Aquilo foi muito, muito, muito gratificante. Voc\u00ea entender, assim, \u201c\u00f3, \u00e9 verdade, a gente pode\u201d, \u201co povo pode\u201d. E a\u00ed, quando n\u00f3s tivemos a audi\u00eancia no nosso estado, foi a audi\u00eancia que mais lotou. Foi a audi\u00eancia mais participativa, foi a audi\u00eancia que a gente arrancou o povo deles da mesa, e colocou o nosso no grito! Ent\u00e3o, assim, \u201cah, mas tudo voc\u00eas resolvem no grito\u201d. Algumas coisas voc\u00ea tem que resolver no grito, sim. Ent\u00e3o tem esses prazeres, mas \u00e9 prazer que vai continuar? \u00c9 o prazer moment\u00e2neo, que importa! E a gente faz um monte de bobagem, a gente faz da nossa viv\u00eancia, n\u00f3s n\u00e3o somos t\u00e9cnicos, n\u00f3s n\u00e3o. A gente fala da nossa realidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0f4c\"><strong>PACS: Mas t\u00e9cnico fala um monte de bobagem tamb\u00e9m\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"9399\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Mas a gente pensa que n\u00e3o, n\u00e9? Porque a gente pensa que o povo est\u00e1 l\u00e1, e sabe tudo, n\u00e9? Igual a Vale. Na hora que ela l\u00e1, aquele monte de gente, que acha aqueles dados l\u00e1 e que exp\u00f5e aquilo. Nossa, a\u00ed vai caindo baba, voc\u00ea vai limpando. Mas a gente fala de n\u00f3s, fala da nossa realidade. Numa audi\u00eancia em Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro n\u00f3s fomos apoiar, numa van, e j\u00e1 sab\u00edamos como reagir, falar e reivindicar nossos direitos. E a empresa estava com muita seguran\u00e7a, com muitos olheiros, toda articulada. E o povo de Concei\u00e7\u00e3o estava frio na \u00e9poca. O povo das comunidades rurais estavam l\u00e1. Muita gente com crian\u00e7a no colo, mas assim muita gente. Povo muito simples. E a pol\u00edcia com uma postura, assim, de se impor mesmo pra cima da gente, pra cima do pessoal. N\u00f3s est\u00e1vamos e fizemos cartazes, fizemos faixas para constranger os empreendedores. Era essa nossa estrat\u00e9gia! E a\u00ed na hora da apresenta\u00e7\u00e3o do empreendimento, a gente fez um combinado, que quanto mais a gente tirasse a aten\u00e7\u00e3o deles, menos eles v\u00e3o conseguir passar o que eles precisavam. E a gente tinha um promotor na mesa, um promotor nosso. Descobrimos como fazer uma sombra com nossos cartazes e atrapalhar a leitura do cara, E a\u00ed o cara n\u00e3o conseguia ler, porque estava preso na leitura, e porque ele n\u00e3o conseguia ler, ele n\u00e3o conseguia explicar o projeto. Porque ele estava preso no texto, ele n\u00e3o conhecia o projeto.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"72c5\">Fal\u00e1vamos para o povo de Concei\u00e7\u00e3o \u201cvoc\u00eas n\u00e3o precisam ter medo, n\u00e3o precisa nem saber falar, a gente nem sabe. A gente vai l\u00e1 e fala assim mesmo.\u201d Tinha muita pol\u00edtica, mas n\u00e3o nos intimidamos, \u00e9ramos muitos. E a\u00ed o pessoal come\u00e7ou ir para frente tamb\u00e9m. V\u00e1rios deles foram. V\u00e1rios moradores, e foram porque a gente foi junto com eles, articulados. Cada um falava num momento. E antes disso n\u00f3s fizemos ato na rua, reproduzindo o crime da Vale e Samarco em Bento Rodrigues. Fizemos um ato no meio da rua, paramos com a carraiada, coisa que a gente n\u00e3o planejou aconteceu. E foi muito massa, porque o povo chorou. Assim, foi comovente o neg\u00f3cio. E isso acabou chamando um pouco para audi\u00eancia \u00e0 noite. Esses s\u00e3o os ganhos que a gente tem.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d3af\">A gente conseguiu atrasar muito o processo em Concei\u00e7\u00e3o, por causa disso. E a\u00ed o povo tamb\u00e9m come\u00e7ou a entender que eles precisavam ir para as audi\u00eancias. Come\u00e7aram a fazer as assembleias populares em Concei\u00e7\u00e3o, e eles conseguiram avan\u00e7ar. S\u00f3 que como que avan\u00e7a com uma AngloAm\u00e9rica, sabe? Avan\u00e7a at\u00e9 certo ponto, a\u00ed depois foi aprovado projeto, e era para loteamento de barragem. Ent\u00e3o, assim, por mais que voc\u00ea ganhe um tempo pra respirar, voc\u00ea ganha um tempo para pensar e ele precisam l\u00e1, na verdade, \u00e9 serem retirados, desapropriados, porque eles est\u00e3o embaixo da barragem. A\u00ed eles est\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o negociando, parte deles est\u00e3o negociando processo de desapropria\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim: extremamente dif\u00edcil. Mas tem sim, tem esses momentos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ad4b\">A\u00ed tem aqueles momentos tamb\u00e9m, o dia que eu n\u00e3o quero pensar em nada, que eu n\u00e3o quero saber de nada, que eu n\u00e3o quero conversar sobre isso, que eu n\u00e3o quero falar sobre isso, eu gosto muito de ficar sozinha. Eu gosto, eu gosto da minha presen\u00e7a, eu gosto da minha companhia. Eu amo estar na minha companhia, ent\u00e3o, assim, a Sara fica muito com a minha m\u00e3e, e eu fico aqui em casa. E eu gosto muito de jogar buraco\u2026no celular com rob\u00f4. E a\u00ed fica eu e Deus aqui.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e3c4\"><strong>PACS: Onde que voc\u00ea acha que est\u00e1 a arte em voc\u00ea? E a\u00ed a arte ela tem m\u00faltiplas possibilidades, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"d402\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Nossa, arte? Eu? A arte em mim, est\u00e1 nos outros. Eu sou mestre nisso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fca1\"><strong>PACS : Mas voc\u00ea tem arte da mobiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Voc\u00ea tem a arte do encontro\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"c26d\"><strong>Sandra:<\/strong>&nbsp;Eu consigo mobilizar. Tem umas mobiliza\u00e7\u00f5es que eu consigo fazer porque eu percebo que as pessoas gostam muito de agito, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"67b6\"><strong>PACS \u2014 Ent\u00e3o voc\u00ea tem a arte do agito, a arte do encontro\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"48e8\">Sim, mas a\u00ed depende do encontro. E normalmente, quem participa desses espa\u00e7os, \u00e9 o p\u00fablico mais jovem e eles v\u00e3o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5c28\"><strong>Tem umas hist\u00f3rias sobre isso.\u00a0<\/strong>N\u00f3s fizemos uma atividade na c\u00e2mara, ia ter uma vota\u00e7\u00e3o de plen\u00e1ria, e o Prefeito estava pedindo, no projeto, pra votar os cargos comissionados. S\u00f3 sei que o projeto n\u00e3o atendia de maneira alguma a comunidade, s\u00f3 interesse dele, interesse pol\u00edtico partid\u00e1rio dele. E a\u00ed, n\u00f3s t\u00ednhamos conseguido os votos para n\u00e3o passar o projeto e a\u00ed minha prima ligou pra mim e faltava 20 minutos pras 16, eu largo do servi\u00e7o 16 horas, pra dizer que: o vereador de Morro (Edvane) ia votar a favor, prometeram 20 obras do Morro pra ele votar a favor. Nossa a\u00ed estavam esperando eu mandar as frases, para escrever nos cartazes, para saber o qu\u00ea que ia t\u00e1 escrito nos cartazes pra gente levar pra c\u00e2mara. Quando eu soube disso, 20 pras 16 da tarde, e a reuni\u00e3o era 19 horas da noite. Ent\u00e3o eu tinha o caminho de Catas Altas at\u00e9 o Morro para pensar. Vim pensando o qu\u00ea que ia fazer, o que que ia fazer. Pensei: vamos matar ele atrav\u00e9s desses cartazes. Vamos escrever pra ele, \u201cpelo amor de Deus n\u00e3o vote\u201d. \u201cEdvane, o povo do Morro confia em voc\u00ea, n\u00e3o vote\u201d. \u201cEdvane, o Prefeito n\u00e3o votou em voc\u00ea\u2026\u201d Tudo com o nome dele, Edvane, Edvane, Edvane! Porque era ele que tinha vendido o voto por 20 obras. Cheguei em casa com essas ideias falei com as meninas: Vamos escrever pra Edvane diretamente. Vamos mandar os cartazes todos nele. A gente j\u00e1 tinha galera que ia para C\u00e2mara. Vamos escrever, tamb\u00e9m, os cartazes pra Ronaldo, outro vereador. \u201cRonaldo, a gente n\u00e3o esperava isso de voc\u00ea. A gente esperava que seu voto\u2026.\u201d A\u00ed as meninas falaram assim, \u201ccalma, Sandra, n\u00e3o vamos bater nele n\u00e3o. Vamos pegar ele pela emo\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, igual o Edvane. \u201cRonaldo, n\u00f3s confiamos em voc\u00ea, n\u00f3s precisamos do seu voto\u201d. E a\u00ed a gente conseguiu com esses cartazes. A gente chega chegando\u2026 A\u00ed chega, se n\u00e3o for para causar, a gente nem vai. A\u00ed chegamos com os cartazes foi tudo para frente, para plen\u00e1ria. Colamos cartazes na plen\u00e1ria, mostramos o cartaz na frente do vereador. Cartaz na frente do outro vereador, povo pirou na C\u00e2mara, n\u00f3s derrubamos todos os projetos que teve nesse dia. Todos. Ent\u00e3o, assim, essa arte a\u00ed, tem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAM, Minas Gerais<\/p>\n","protected":false},"featured_media":332,"template":"","class_list":["post-329","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/329\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":333,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/329\/revisions\/333"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}