{"id":34,"date":"2021-04-24T15:49:51","date_gmt":"2021-04-24T18:49:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=entrevista&#038;p=34"},"modified":"2021-05-11T14:04:30","modified_gmt":"2021-05-11T17:04:30","slug":"tchenna-maso","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/entrevista\/tchenna-maso\/","title":{"rendered":"Tchenna Maso"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta: Tchenna Maso, as arpilleras, a resist\u00eancia do Rio Doce e a voz das mulheres no MAB<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Por Instituto Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs)<\/strong>\u00a0\u2013 Publicado em 21\/01\/2021<\/p>\n\n\n\n<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 s\u00e9rie de entrevistas com lutadoras da Am\u00e9rica Latina pela campanha\u00a0<strong>#MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/strong>, compartilhamos hoje uma conversa com\u00a0<strong>Tchenna Maso<\/strong>, advogada, militante do Movimento dos Atingidos e das Atingidas por Barragens (MAB), que trabalha, dentre outras coisas, com mulheres atingidas no Rio Doce. A entrevista foi realizada por Marina Pra\u00e7a, Rafaela Dornelas e Yasmin Bitencourt, ambas do Instituto Pacs, e a edi\u00e7\u00e3o do texto por Karoline Kina.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Tchenna-Maso.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-236\" width=\"560\" height=\"560\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Tchenna-Maso.jpeg 414w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Tchenna-Maso-300x300.jpeg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Tchenna-Maso-150x150.jpeg 150w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Tchenna-Maso-230x230.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"7646\"><strong>PACS: Como se deu a hist\u00f3ria da visibilidade das mulheres no MAB?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"55a0\"><strong>Tchenna:&nbsp;<\/strong>O MAB tem 31&nbsp;anos de hist\u00f3ria e, mais especificamente em 2008 e 2009, come\u00e7amos a dar a devida aten\u00e7\u00e3o ao tema das mulheres. Tiveram v\u00e1rias resist\u00eancias de barragens, como a de Campos Novos, que \u00e9 bem antiga (in\u00edcio de 2000) e foi emblem\u00e1tica pela viol\u00eancia dos trabalhadores que v\u00eam, chegam nas comunidades e geram esses ass\u00e9dios. Tem 37 crian\u00e7as que s\u00e3o filhas de trabalhadores que vieram e depois foram embora. No contexto, \u00e9 uma quest\u00e3o que aparece como uma discuss\u00e3o, mas n\u00e3o se consegue fazer essa an\u00e1lise estrutural de que isso, na verdade, \u00e9 um padr\u00e3o. Tinham v\u00e1rios casos de viol\u00eancia, como a hist\u00f3ria da Claides *, que aparece no filme das&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PEu-AATb3TU\">\u201cArpilleras\u201d<\/a>, porque ela era a \u00fanica mulher na negocia\u00e7\u00e3o, entre a maioria dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bada\">No final dos anos 1990, o MAB quase morreu \u2014 ele se forma enquanto movimento nacional em 1992 e era uma resist\u00eancia ao setor el\u00e9trico em uma \u00e9poca complexa\u2013 porque essa \u00e9poca foi um verdadeiro massacre de privatiza\u00e7\u00f5es, aconteceram muitas desterritorializa\u00e7\u00f5es. At\u00e9 conseguir formular e entender o que estava em jogo, foram uns dez anos. Em 2000 o MAB se fecha nos primeiros seis anos para se reestruturar e, a partir disso, come\u00e7a a se aprofundar tamb\u00e9m em tem\u00e1ticas feministas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fbba\"><strong>PACS: Qual o papel das mulheres no MAB e como surgiu a metodologia das arpilleras?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"702d\"><strong>Tchenna<\/strong>: Em 2010, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que antes tinha outro nome, fez um relat\u00f3rio da comiss\u00e3o de barragens em que se constatou a necessidade de dar aten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u00e0s mulheres. Depois desse momento, come\u00e7amos a pensar mais em como trabalhar com elas, porque havia muita dificuldade no MAB, uma vez que nossas mulheres est\u00e3o em zonas do interior, de baixa escolariza\u00e7\u00e3o\u2026 O Rio Doce, por exemplo, tem \u00edndices assustadores em cidades com 22% de analfabetismo, e no meio rural \u00e9 maior ainda. H\u00e1 esse desafio da participa\u00e7\u00e3o das mulheres e delas realmente irem para os espa\u00e7os auto-organizados. Foi quando resgatamos a metodologia das arpilleras \u2014 t\u00e9cnica de bordado. Trouxemos a experi\u00eancia do Chile. L\u00e1, elas bordavam para contar hist\u00f3rias e junt\u00e1-las, cada mulher contando a rela\u00e7\u00e3o com os conflitos da ditadura, sendo a mem\u00f3ria algo muito mais pesado, essa subjetividade negada pelo sil\u00eancio de fala. N\u00f3s pensamos que seria importante para as nossas mulheres reconhecerem que os problemas eram coletivos, que o aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica n\u00e3o era uma coisa exclusiva, mas era algo estrutural da pr\u00f3pria viol\u00eancia do empreendimento. Come\u00e7amos a fazer o trabalho dos bordados e quer\u00edamos que as mulheres falassem e colocassem esse conflito, quer\u00edamos dar visibilidade a ele e fazer tamb\u00e9m com que elas assumissem um papel no movimento, porque sabemos que elas s\u00e3o a maioria e maior for\u00e7a na resist\u00eancia dos territ\u00f3rios, mas isso n\u00e3o refletia na estrutura\u00e7\u00e3o do movimento, de quem ia fazer a negocia\u00e7\u00e3o, de quem dirigia o processo. \u00c9 claro que isso tinha a ver com a forma como o MAB se estrutura sendo uma organiza\u00e7\u00e3o popular de massa. Fizemos essa metodologia entre 2012 e 2015 e foram muitas pe\u00e7as produzidas, algo como mais de mil, fomos perdendo a no\u00e7\u00e3o do todo. Elas gostavam e se reuniam para fazer, havia uma simbologia e uma m\u00edstica desse bordado coletivo, das arpilleras. Nem todas as regi\u00f5es pegaram o tema da mesma forma, mas muitas produziram e continuam produzindo para enfeitar a casa, v\u00e1rias formas se derivaram disso, e o que percebemos \u00e9 que nesses tr\u00eas anos, muitas delas viraram dire\u00e7\u00e3o do movimento. Hoje, no MAB, todos os estados s\u00e3o dirigidos por mulheres, elas s\u00e3o a maioria. De fato, refletiu a realidade, porque a base social \u00e9, na sua maioria, de mulheres e ao se refletir na composi\u00e7\u00e3o, foi um grande salto de representatividade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8539\">Al\u00e9m disso, as arpilleras conseguiram tocar um p\u00fablico da sociedade que n\u00e3o tocamos. Isso deu uma visibilidade e o encerramento foi uma exposi\u00e7\u00e3o que fizemos no Memorial da Am\u00e9rica Latina, em 2015, que conseguiu reunir sete mil pessoas da sociedade civil de S\u00e3o Paulo. Isso, para n\u00f3s, foi muito marcante. Diversas pessoas querem fazer pesquisa sobre isso e n\u00f3s damos muitas entrevistas sobre o tema, mas virou uma forma de dizer o qu\u00e3o violento \u00e9 toda a viv\u00eancia das mulheres atingidas pelas barragens. No nosso caso, n\u00f3s colocamos mulheres para montarem e serem monitoras da exposi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m com o objetivo de romper com o mundo da curadoria, da arte, porque elas veem outras pessoas admirando os trabalhos delas e reconhecendo a import\u00e2ncia de dizer aquilo. As mulheres que passaram pelas exposi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m t\u00eam um processo de fortalecimento de si mesmas, e \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de falar sobre algo t\u00e3o triste, de uma forma mais doce, discutindo dimens\u00f5es da subjetividade que s\u00e3o t\u00e3o importantes nesses conflitos, que \u00e9 o que a gente n\u00e3o consegue dar visibilidade.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_EvZ0JNyxSj-DBpZ8pbkchA.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-238\" width=\"544\" height=\"547\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_EvZ0JNyxSj-DBpZ8pbkchA.jpeg 414w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_EvZ0JNyxSj-DBpZ8pbkchA-150x150.jpeg 150w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_EvZ0JNyxSj-DBpZ8pbkchA-230x230.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"9e45\"><strong>PACS: Voc\u00ea que acompanha os impactos do rompimento das barragens em Minas. Quais foram os principais impactos da metodologia das<\/strong>&nbsp;<strong>arpilleras em Brumadinho, por exemplo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"98b8\"><strong>Tchenna:&nbsp;<\/strong>\u00c9 muito forte em Brumadinho porque, dos 272 mortos, 80% eram homens, ent\u00e3o a maioria deles deixaram vi\u00favas, s\u00e3o as mulheres que ficam. O m\u00e9todo das arpilleras, que n\u00f3s entendemos como um m\u00e9todo de educa\u00e7\u00e3o popular feminista, fez muita diferen\u00e7a nesse processo organizativo, delas se verem, dialogarem e atuarem coletivamente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0952\"><strong>PACS: Como as arpilleras se desenvolvem durante a pandemia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"55a4\"><strong>Tchenna:&nbsp;<\/strong>Na pandemia, n\u00f3s estamos fazendo as pe\u00e7as tamb\u00e9m no sentido das mulheres exporem as suas ang\u00fastias. Temos um aumento do n\u00famero de casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, al\u00e9m de muita press\u00e3o por conta do aumento do trabalho. No Esp\u00edrito Santo, por exemplo, a gente pede para elas mandarem uma foto e contarem como est\u00e1 sendo construir tudo, e uma delas falou que \u201cfoi muito emocionante, porque a vida est\u00e1 dif\u00edcil e, pelo menos fazer e contar isso bordando, ajuda\u201d. Mesmo que a din\u00e2mica esteja acontecendo individualmente, a proposta \u00e9 cada uma bordar um peda\u00e7o da pe\u00e7a do todo, ent\u00e3o voc\u00ea recebe de uma outra mulher, voc\u00ea costura e, depois, vamos juntar essa hist\u00f3ria. Isso \u00e9 legal na pandemia, porque mant\u00e9m uma rede de comunica\u00e7\u00e3o, tem sido uma forma de extravasar e externalizar as ang\u00fastias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"92b9\"><strong>PACS: Sobre os processos de repara\u00e7\u00e3o dos rompimentos de barragens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, como o MAB atua junto \u00e0 defensoria p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"5931\"><strong>Tchenna:<\/strong>&nbsp;No caso do rio Doce, no Esp\u00edrito Santo, temos uma defensoria p\u00fablica mais progressista. N\u00f3s fizemos o trabalho de conectar as mulheres pelo reconhecimento, porque elas t\u00eam problemas diferentes que os homens nesses conflitos, algo que n\u00f3s faz\u00edamos no trabalho com as arpilleras. Fizemos um diagn\u00f3stico, que foi basicamente um question\u00e1rio que aplicamos, mas que deu subs\u00eddios formais para que a defensoria pudesse abrir um processo administrativo. Assim, produzimos um relat\u00f3rio para dizer que a Renova, que \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o da repara\u00e7\u00e3o, aumenta a desigualdade de g\u00eanero. Ela n\u00e3o tinha uma pol\u00edtica espec\u00edfica de tratamento de g\u00eanero, n\u00e3o desagregava dados. N\u00f3s produzimos muito em cima disso. Voc\u00ea pega o&nbsp;<em>mainstream<\/em>&nbsp;do Direitos Humanos, a Conven\u00e7\u00e3o sobre a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o contra a Mulher (CEDAW), v\u00e1rias normativas que falam sobre o tratamento espec\u00edfico sobre mulheres e eles n\u00e3o aplicavam nada disso. Foram mais de cem entrevistas, o que n\u00e3o foram muitas, mas nosso objetivo era provar que existe. N\u00e3o era qualificar tanto a informa\u00e7\u00e3o, mas mostrar que ela era real. No caso do Rio Doce, n\u00f3s desvendamos que as mulheres s\u00e3o metade do grupo de pessoas cadastradas, mas s\u00f3 30% delas recebem indeniza\u00e7\u00e3o. Desses 30%, s\u00f3 15% recebem diretamente, e as outras recebem de forma diferente, porque o modelo de cadastro \u00e9 de n\u00facleo familiar e isso j\u00e1 exclui as mulheres de v\u00e1rios processos, de reconhecimento do trabalho formal, de acesso ao direto \u00e0 renda, que \u00e9 o que as mulheres tinham antes e, hoje, n\u00e3o t\u00eam mais. \u00c9 uma perda da autonomia da renda, al\u00e9m da quest\u00e3o dos quintais ali na primeira parte do rio Doce, que \u00e9 uma \u00e1rea mais de agricultura familiar e trouxemos todos esses elementos no relat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a569\">Trabalhamos junto com isso em uma exposi\u00e7\u00e3o de fotos para mostrar a cara dessas mulheres tamb\u00e9m, que s\u00f3 foi poss\u00edvel nesse encontro MAB com a defensoria disposta a atuar. Tanto que s\u00f3 conseguimos fazer isso no Esp\u00edrito Santo. Em Minas, n\u00e3o conseguimos fazer a mesma experi\u00eancia com a defensoria. Tem esse problema nas institui\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a que \u00e9 o profissionalismo, de voc\u00ea encontrar um ator progressista. A Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas estava fazendo alguns trabalhos l\u00e1 e levantou um aumento dos casos de aborto e, com isso, n\u00f3s come\u00e7amos uma discuss\u00e3o nova no ano passado sobre sa\u00fade sexual e reprodutiva, que est\u00e1 muito relacionada \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o dessas zonas. Estamos no meio desse trabalho ainda, de obrigar o MPF e as prefeituras a visibilizarem esses dados. Todas as mulheres reclamam de aborto a partir do rompimento das barragens e ningu\u00e9m acha que pode haver alguma conex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"284c\"><strong>PACS: Voc\u00eas t\u00eam trabalhado a ideia dos corpos territ\u00f3rios e os impactos que partem dos corpos e dos sentidos das mulheres?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"187f\"><strong>Tchenna:\u00a0<\/strong>Entrando um pouco nessa discuss\u00e3o sobre os corpos e territ\u00f3rios, ela \u00e9 uma discuss\u00e3o que ainda n\u00e3o est\u00e1 colocada como tal. Agora, com o caso do Rio Doce, n\u00f3s tivemos muito adoecimento da milit\u00e2ncia, muito adoecimento das pessoas no MAB, tivemos a morte de algumas mulheres que s\u00e3o mais anci\u00e3s de Barra Longa\u2026 O processo de definhamento \u00e9 muito grande. E n\u00f3s come\u00e7amos a fazer uma discuss\u00e3o sobre sa\u00fade no MAB, a partir do Rio Doce. Na pandemia, n\u00f3s estamos tendo encontros com o pessoal da medicina chinesa para podermos lidar com a situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental nossa, como um todo. Como n\u00f3s somos um movimento que se prop\u00f5e a fazer a organiza\u00e7\u00e3o popular e contribuir nessa discuss\u00e3o sobre a vida, essas coisas, inevitavelmente, chegam para n\u00f3s, toda a dimens\u00e3o dessa sa\u00fade mental est\u00e1 colocada. Eu vejo que n\u00f3s temos gostado disso como uma forma de integrar. A pandemia colocou para a gente o cuidado e essa rela\u00e7\u00e3o. Essa discuss\u00e3o sobre o quanto as empresas entram nos nossos corpos, no territ\u00f3rio, a discuss\u00e3o do corpo da mulher como um territ\u00f3rio s\u00e3o discuss\u00f5es que a gente ainda n\u00e3o avan\u00e7ou muito no MAB, mas sei que n\u00f3s vamos chegar nesse lugar a partir disso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_aKrLl6JszXk0qurkcIAPkw.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-239\" width=\"677\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_aKrLl6JszXk0qurkcIAPkw.jpeg 414w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/1_aKrLl6JszXk0qurkcIAPkw-300x224.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 677px) 100vw, 677px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p id=\"177f\"><strong>PACS: E quais s\u00e3o os desafios para voc\u00ea, como mulher, estar nesses processos t\u00e3o institucionais da pol\u00edtica? Como voc\u00ea sente esse lugar que percorre desde o territ\u00f3rio no contato com as mulheres, tanto em esferas t\u00e3o amplas, quanto menores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"2904\"><strong>Tchenna:&nbsp;<\/strong>Pessoalmente, eu sempre fui uma pessoa de bastidores, por conta da minha forma\u00e7\u00e3o no Direito. Acabo fazendo esse papel de tr\u00e1s das negocia\u00e7\u00f5es, articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mesmo fazendo oficinas nos territ\u00f3rios, mas, de fato, com o Rio Doce foi diferente. \u00c9 um territ\u00f3rio que eu sempre estava e morava. \u00c9 muito pesado, porque acaba que as comunidades n\u00e3o t\u00eam um espa\u00e7o para colocar as ang\u00fastias, e elas acabam colocando em voc\u00ea, porque \u00e9 a \u00fanica que aparece l\u00e1, seja para bater ou abra\u00e7ar. N\u00f3s s\u00f3 apanhamos muito no Rio Doce, em termos de conquistas e vit\u00f3rias, e isso levou a personaliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito dif\u00edcil de lidar. E \u00e0s vezes precisamos olhar para n\u00f3s e pedir um tempo, tamb\u00e9m. Depois de cinco anos de derrotas, porque basicamente foi assim a hist\u00f3ria por l\u00e1, fica dif\u00edcil. E \u00e9 muito ruim, porque a forma da pol\u00edtica masculina \u00e9 muito ruim, isso \u00e9 uma coisa que a gente precisa rever como um todo. Sou advogada, carrego um t\u00edtulo que \u00e9 muito mais f\u00e1cil, mas ter que ocupar esse lugar de viol\u00eancia, do enfrentamento, de se colocar. Tive muitos problemas com outros trabalhos de outros pesquisadores ou mesmo de organiza\u00e7\u00f5es, pela necessidade de sempre precisar se colocar de maneira forte. Quando encontro uma companheira que est\u00e1 sofrendo viol\u00eancia dom\u00e9stica, eu farei de tudo para poder resolver aquilo. Voc\u00ea se comove de uma forma diferente. Quando n\u00f3s enfrentamos um caso de estupro, \u00e9 inevit\u00e1vel pensar\u2026 Qual \u00e9 o nosso medo maior sen\u00e3o ser estuprada algum dia? Quando voc\u00ea encontra uma atingida que vivenciou isso, voc\u00ea fica com sangue nos olhos. Enfim, as pessoas n\u00e3o percebem o quanto, de fato, \u00e9 um peso para a mulher. E o que mais me doeu \u00e9 que isso n\u00e3o vinha das empresas, algo que eu j\u00e1 esperava, mas de militantes, pessoas que eu n\u00e3o imaginava que tinham um discurso machista e racista. Isso, para mim, foi muito ruim e muito desgastante. Foram consequ\u00eancias pol\u00edticas chatas, e as pessoas se conformam tamb\u00e9m, \u201cok, voc\u00ea cuida da parte do Direito, s\u00f3 isso\u201d, como se eu tivesse que ocupar s\u00f3 esse lugar. Eu n\u00e3o vou nisso. As quest\u00f5es est\u00e3o interconectadas e a gente as enfrenta em um todo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"eab9\"><strong>PACS: De onde vem a sua for\u00e7a para seguir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"11ba\"><strong>Tchenna:<\/strong>&nbsp;De outro lado, \u00e9 com as mulheres, entre n\u00f3s, que ficamos melhor. Particularmente, depois dessa experi\u00eancia do Rio Doce, minha cren\u00e7a da reinven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 das mulheres. Mesmo nos movimentos com os companheiros, acho que, enquanto n\u00e3o nascer uma gera\u00e7\u00e3o desconstru\u00edda desse patriarcado, existem muitos limites da forma de construir a pol\u00edtica. N\u00e3o estou excluindo os companheiros, n\u00e3o quero que eles morram, mas acredito mais na pot\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o das mulheres. Eu organizo mais mulheres do que homens, para mim \u00e9 um cen\u00e1rio muito real. Tamb\u00e9m de ver muitas companheiras do Esp\u00edrito Santo que n\u00e3o falavam e hoje falam, s\u00e3o super lideran\u00e7as, enfrentam sozinhas nas comunidades. V\u00e1rias companheiras que viviam rela\u00e7\u00f5es abusivas por muito tempo, sa\u00edrem disso\u2026 S\u00e3o pequenos processos. Elas contando sobre bordar na pandemia\u2026 Ok, tem Bolsonaro, tem tudo isso, mas tem uma atingida fazendo arpilleras e s\u00e3o coisas que s\u00e3o muito boas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andes, Argentina<\/p>\n","protected":false},"featured_media":40,"template":"","class_list":["post-34","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/34","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/34\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":240,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/entrevista\/34\/revisions\/240"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}