{"id":408,"date":"2021-05-14T17:08:56","date_gmt":"2021-05-14T20:08:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=408"},"modified":"2021-05-14T17:08:56","modified_gmt":"2021-05-14T20:08:56","slug":"militarizacao-como-megaprojeto-transnacional-tecnologias-de-vigilancia-e-resistencias-na-luta-pelo-embargo-militar","status":"publish","type":"material","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/militarizacao-como-megaprojeto-transnacional-tecnologias-de-vigilancia-e-resistencias-na-luta-pelo-embargo-militar\/","title":{"rendered":"Militariza\u00e7\u00e3o como Megaprojeto Transnacional: tecnologias de vigil\u00e2ncia e resist\u00eancias na luta pelo embargo militar"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"75dc\"><strong>Por Gizele Martins , Comunicadora Comunit\u00e1ria da favela da Mar\u00e9, na Zona Norte do Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ff74\">As favelas da cidade do Rio de Janeiro passaram por grandes impactos durante o per\u00edodo dos megaeventos no Brasil: remo\u00e7\u00f5es, Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), constru\u00e7\u00e3o de muros dividindo a favela dos bairros, instala\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito, dentre diversos outros problemas enfrentados pelas popula\u00e7\u00f5es que habitam esses territ\u00f3rios. Foi nesse mesmo per\u00edodo que chegaram muitos aparatos militares, assim como in\u00fameras tecnologias de vigil\u00e2ncia para controle da popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/max\/1024\/0*cliK_NBWYgIswJsq.png\" alt=\"\"\/><figcaption>Foto: Douglas Lopes | Mar\u00e9 de Not\u00edcias Online<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"dbd2\">O Complexo do Alem\u00e3o, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi uma das favelas que recebeu a UPP. Nela, torres de controle para vigil\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o foram constru\u00eddas dentro das casas dos moradores. Os policiais escolhiam as casas estrategicamente, aquelas que eles podiam fazer vigil\u00e2ncia das principais ruas de acesso \u00e0 favela. Ao todo, foram 38 favelas que receberam as UPPs, sendo a maioria delas na Zona Sul do Rio, local de grande interesse imobili\u00e1rio. Durante esse mesmo per\u00edodo de chegada das UPPs, drones come\u00e7aram a ser utilizados pelas pol\u00edcias dentro das favelas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bc61\">Nessa mesma \u00e9poca, o Conjunto de Favelas da Mar\u00e9, na Zona Norte do Rio, recebeu durante um ano e cinco meses (entre 2014 e 2015) o Ex\u00e9rcito brasileiro. Per\u00edodo que coincidiu com a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo. Foi na Mar\u00e9 que eles come\u00e7aram a utilizar o \u201cfichamento\u201d: t\u00e9cnica de vigil\u00e2ncia para revistar quem entrava e sa\u00eda da favela. Os soldados ainda tiravam fotos dos documentos para saber se a pessoa tinha alguma passagem pela pol\u00edcia. Anos mais tarde, em 2018, na Interven\u00e7\u00e3o Federal Militar que ocorreu em todo o Rio de Janeiro, esta t\u00e9cnica foi adotada e utilizada em todas as outras favelas e periferias onde havia a presen\u00e7a do ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7e4e\">Foi durante os megaeventos no Brasil que a&nbsp;<em>LAAD Defense e Security<\/em>, considerada a maior feira de armas da Am\u00e9rica Latina, passou a ser realizadas em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro. Em mat\u00e9ria publicada no Brasil de Fato, em 2017, diz que \u201cO Brasil se tornou o quinto maior comprador destas t\u00e9cnicas militares e de vigil\u00e2ncia naquela \u00e9poca, sendo ainda um dos principais compradores de tecnologia e de treinamento militar israelense\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2a98\">O que significa que uma parcela destas novas t\u00e9cnicas, sejam elas militares ou de vigil\u00e2ncia, que chegaram no Brasil durante os anos de megaeventos, foi exposta nessas feiras e veio de pa\u00edses como Israel. Estado que h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 conhecido no mundo por segregar o territ\u00f3rio palestino e fazer desta popula\u00e7\u00e3o um grande laborat\u00f3rio da pol\u00edtica de morte.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0afb\"><strong>As empresas que fabricam a morte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ae30\">Soraya Misleh, palestina brasileira, jornalista, pesquisadora e militante, cita algumas destas empresas israelenses que chegaram durante os jogos esportivos e que at\u00e9 hoje est\u00e3o presentes nas favelas do Rio, \u201centre elas, a Elbit Systems, a mais importante empresa de armas de Israel, implicada no fornecimento de sistemas de vigil\u00e2ncia e tecnologias para o muro do&nbsp;<em>apartheid<\/em>&nbsp;e de drones usados nos bombardeios \u00e0 faixa de Gaza, entre outros equipamentos \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o na Palestina. E tamb\u00e9m a Hewlett Packard, que fornece sistema de biometria e cart\u00f5es de identifica\u00e7\u00e3o para o&nbsp;<em>apartheid<\/em>&nbsp;israelense\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c590\">Al\u00e9m das empresas j\u00e1 citadas, segundo Soraya, h\u00e1 tamb\u00e9m a G4S, \u201ccom sistemas aos c\u00e1rceres em que s\u00e3o colocados os presos pol\u00edticos palestinos, inclusive mulheres e crian\u00e7as, submetidos a tortura institucionalizada, e da Rafael Defense, implicada nos crimes contra a humanidade cometidos desde a Nakba[1], que produz m\u00edsseis cujo principal comprador \u00e9 o Brasil, entre outros produtos para a morte\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6e2d\">Para Bruno Huberman, pesquisador das rela\u00e7\u00f5es Brasil e Israel, existem diversas empresas militares israelenses com atua\u00e7\u00e3o historicamente no Brasil, como a Elbit, AEL e a IAI. De acordo com ele, o mais importante \u00e9 sua penetra\u00e7\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es brasileiras, pois estas empresas t\u00eam bom tr\u00e2nsito nas For\u00e7as Armadas, na Pol\u00edcia Federal, em diversas pol\u00edcias estaduais, como do Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Sul, e tamb\u00e9m com associa\u00e7\u00f5es comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b925\">Ainda de acordo com Huberman, o Brasil tem se mantido como um dos dez maiores importadores de armas de Israel desde 2007, quando foi firmado o Acordo de Livre Com\u00e9rcio entre Mercosul e Israel, que abriu as portas do mercado da regi\u00e3o aos israelenses. \u201cApenas para as For\u00e7as Armadas importaram 1 bilh\u00e3o de tecnologias militares israelenses em 2014. Al\u00e9m de vender diretamente para essas institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelo poder coercitivo do Estado brasileiro. As empresas israelenses t\u00eam adquirido empresas privadas militares brasileiras, formando&nbsp;<em>joint-ventures<\/em>. A presen\u00e7a destas corpora\u00e7\u00f5es no Brasil refor\u00e7a o paralelo racista entre popula\u00e7\u00f5es moradoras de favelas e negras no Brasil como \u201camea\u00e7as internas\u201d tal qual seriam os palestinos, estigmatizados como terroristas\u201d, falou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5a9b\">Huberman explica ainda que as empresas comercializam as suas t\u00e9cnicas e tecnologias de vigil\u00e2ncia, assassinato, dispers\u00e3o de multid\u00e3o e confinamento socioespacial como universalmente adapt\u00e1veis a qualquer localidade no qual exista um \u201cconflito de baixa intensidade\u201d, como seria o conflito contra os palestinos e contra os traficantes de droga no Brasil. \u201cIsso, na realidade, esconde as pol\u00edticas racistas das classes dominantes israelenses e brasileiras interessadas na pacifica\u00e7\u00e3o dos seus subalternos para manter a viol\u00eancia como um fator importante do processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital e domina\u00e7\u00e3o de classe\u201d, finalizou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8cd6\"><strong>Embargo militar: Favela e Palestina denunciam aparatos b\u00e9licos e de vigil\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"cf55\">H\u00e1 quase duas d\u00e9cadas existe no Rio de Janeiro a \u2018Campanha: Caveir\u00e3o N\u00e3o!\u2019. Ela surgiu em 2006 para denunciar a chegada dos carros blindados da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro, popularmente conhecidos at\u00e9 os dias de hoje como \u201ccaveir\u00e3o\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1, a militariza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio favelado s\u00f3 aumentou, cada vez mais aparatos militares e de tecnologia de vigil\u00e2ncia chegaram no Brasil e, especificamente, nas favelas e periferias do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f160\">Diante disso, movimentos de m\u00e3es e familiares v\u00edtimas da viol\u00eancia estatal, assim como os movimentos de favelas e periferias do Rio, t\u00eam feito uma luta incans\u00e1vel para denunciar tamanhas viola\u00e7\u00f5es de direitos que os seus territ\u00f3rios e vidas sofrem. Al\u00e9m da Campanha: Caveir\u00e3o N\u00e3o!, estes mesmos movimentos organizam h\u00e1 cinco anos o Julho Negro, sendo esta uma atividade internacional de mobiliza\u00e7\u00e3o e den\u00fancia contra o racismo, o&nbsp;<em>apartheid<\/em>&nbsp;e a militariza\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"05b7\">Desde o surgimento do Julho Negro, atividades conjuntas aos palestinos, mexicanos, colombianos, sul-africanos, indianos, chilenos, dentre outros movimentos, t\u00eam sido feita com o objetivo de internacionalizar a luta, j\u00e1 que as opress\u00f5es s\u00e3o bem semelhantes. Para Fransergio Goulart, do movimento de favelas do Rio de Janeiro, um dos coordenadores da Organiza\u00e7\u00e3o Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e Justi\u00e7a Racial e, tamb\u00e9m, um dos organizadores do Julho Negro, diz que uma atividade como a do Julho Negro \u00e9 importante por debater a quest\u00e3o do racismo, do&nbsp;<em>apartheid<\/em>&nbsp;e da militariza\u00e7\u00e3o em n\u00edvel mundial. \u201cFormas muito semelhantes de mortes e controle acontecem no mundo inteiro, por isso, o Julho Negro, com militantes e movimentos de in\u00fameros outros pa\u00edses, \u00e9 importante por debatermos essas semelhan\u00e7as em n\u00edvel internacional, al\u00e9m de tiramos estrat\u00e9gias de lutas em comum\u201d, declarou.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3c62\">Para finalizar, Fransergio falou ainda sobre a campanha internacional por Embargo Militar, organizada pelo Movimento Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es (BDS). Para ele, pedir por embargo militar \u00e9 reduzir mortes. \u201cEsta \u00e9 a forma para que a gente morra menos. E, para al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de mortes, a gente pode desestruturar de alguma forma, mesmo que sutil, a quest\u00e3o da economia desses pa\u00edses. Afinal, a gente sabe que a economia desses pa\u00edses tamb\u00e9m se sustenta em cima de uma produ\u00e7\u00e3o de armas e de tecnologias que produzem as mortes. Por isso, o embargo militar \u00e9 de extrema import\u00e2ncia\u201d, concluiu.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Para acessar a Campanha por Embargo Militar:&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/embargomilitaraisrael.org\/\"><strong>https:\/\/embargomilitaraisrael.org\/<\/strong><\/a><\/li><li><strong>Para saber mais sobre o Movimento Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es (BDS):&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/bdsmovement.net\/pt\/embargo-militar\"><strong>https:\/\/bdsmovement.net\/pt\/embargo-militar<\/strong><\/a><\/li><li><strong>Para saber mais sobre o Julho Negro:<\/strong>&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/5julhonegro\/\"><strong>https:\/\/www.facebook.com\/5julhonegro\/<\/strong><\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p id=\"e2af\">[1] Cat\u00e1strofe com a cria\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948, mediante limpeza \u00e9tnica planejada<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gizele Martins , Comunicadora Comunit\u00e1ria da favela da Mar\u00e9, na Zona Norte do Rio de Janeiro As favelas da cidade do Rio de Janeiro passaram por grandes impactos durante o per\u00edodo dos megaeventos no Brasil: remo\u00e7\u00f5es, Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), constru\u00e7\u00e3o de muros dividindo a favela dos bairros, instala\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito, dentre diversos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":409,"template":"","material-category":[3],"class_list":["post-408","material","type-material","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","material-category-texto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material"}],"about":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/material"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/408\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":410,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material\/408\/revisions\/410"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media\/409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"material-category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-json\/wp\/v2\/material-category?post=408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}