{"id":411,"date":"2021-05-14T17:12:18","date_gmt":"2021-05-14T20:12:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/?post_type=material&#038;p=411"},"modified":"2021-05-14T17:12:18","modified_gmt":"2021-05-14T20:12:18","slug":"fundamentalismos-religiosos-a-resistencia-dos-povos-indigenas-pelo-olhar-de-shirley-krenak","status":"publish","type":"material","link":"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/material\/fundamentalismos-religiosos-a-resistencia-dos-povos-indigenas-pelo-olhar-de-shirley-krenak\/","title":{"rendered":"Fundamentalismos religiosos: a resist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas, pelo olhar de Shirley Krenak"},"content":{"rendered":"\n<p><em>*O texto foi escrito com base na fala de Shirley Djurkun\u00e3, ind\u00edgena Krenak, durante o\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7MuKT8uBFtQ&amp;t=3642s\"><strong><em>nono Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta<\/em><\/strong><\/a><em>. O encontro teve como tema \u201cFundamentalismos religiosos em contextos de megaprojetos\u201d, realizado em parceria com a campanha \u201cTire os Fundamentalismos do Caminho\u201d. O material foi organizado por Karoline Kina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"615\" src=\"http:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sh.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-412\" srcset=\"https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sh.jpg 1024w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sh-300x180.jpg 300w, https:\/\/pacs.org.br\/mulheresterritoriosdeluta\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/sh-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"f9d4\">Meu nome \u00e9 Shirley Djurkun\u00e3 Krenak. \u201cDjurkun\u00e3\u201d significa uma pessoa que est\u00e1 sempre viva e disposta para caminhar, para seguir lutando. Um nome ancestral que veio da luta contra a coloniza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e que ainda acontece 24h por dia nas nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1ed3\">\u201cKren\u201d significa \u201ccabe\u00e7a\u201d e \u201cnak\u201d significa \u201cterra\u201d, ent\u00e3o somos um povo que acredita no poder sagrado que a terra nos traz. O poder sagrado vem de nossa espiritualidade e n\u00f3s o carregamos de uma forma ancestral para o bem. At\u00e9 hoje, n\u00f3s mantemos a nossa f\u00e9, a nossa espiritualidade intacta, mesmo diante de tanta desgra\u00e7a vinda da coloniza\u00e7\u00e3o. Uma coloniza\u00e7\u00e3o que matou e estuprou, j\u00e1 que os processos hist\u00f3ricos vieram de uma forma massacrante para n\u00f3s, povos ind\u00edgenas do nosso pa\u00eds, chamado hoje de Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4094\">Ao longo da coloniza\u00e7\u00e3o, os povos ind\u00edgenas sofreram muito com a quest\u00e3o das miss\u00f5es, que trouxeram outra visibilidade, de uma forma bruta e violenta, para dentro das comunidades. E queriam fazer de tudo para que a gente deixasse de acreditar no nosso sagrado, no Guiak (Grande Mestre), para acreditar no Deus que eles trouxeram de longe. Porque, essa era uma forma de matar os povos ind\u00edgenas, uma forma de nos dominar. E, at\u00e9 hoje, eles tentam fazer isso de um jeito muito ruim, porque eles entendem que, matando a nossa espiritualidade, matando a nossa cren\u00e7a, matando a nossa forma de acreditar no coletivo do bem, que envolve ter a f\u00e9, eles v\u00e3o nos dominar e transformar tudo que \u00e9 nosso de sagrado e belo, que \u00e9 a M\u00e3e Terra, que \u00e9 essa terra que n\u00f3s pisamos aqui hoje.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"efe9\">Ent\u00e3o, o que nos deixa muito tristes, enquanto povos ind\u00edgenas, \u00e9 que as pessoas utilizam a f\u00e9 como mercadoria. As pessoas com esp\u00edrito ruim utilizam a f\u00e9 de uma forma negativa para destruir os verdadeiros donos dessas terras. N\u00f3s sabemos o valor sagrado entre o c\u00e9u e a terra, a dimens\u00e3o dos mundos, a nossa espiritualidade. E \u00e9 isso que eles querem destruir, para tomar da gente as nossas terras, para destruir nossos rios, o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7641\">N\u00f3s somos os detentores desse saber sagrado e lutamos pra que ele n\u00e3o se destrua e n\u00e3o suma no universo, porque se isso acontecer, n\u00e3o vai ter mais ser humano pisando nessa terra.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0c9c\">Se hoje acontece tanta desgra\u00e7a ambiental, queimada, destrui\u00e7\u00e3o dos rios, polui\u00e7\u00e3o do ar, \u00e9 porque o ser humano est\u00e1 deixando de acreditar no Grande Mestre l\u00e1 em cima e est\u00e1 transformando toda cren\u00e7a em mercadoria. Da\u00ed que se cria diversas vertentes ligadas \u00e0 f\u00e9 e isso vem destruindo o ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e53b\">Ser\u00e1 que todo mundo n\u00e3o pode conviver na mesma terra, no mesmo lugar, sem querer tirar ou estuprar a religi\u00e3o do outro? Ser\u00e1 que a gente n\u00e3o consegue viver numa terra tranquila, sem discriminar o outro porque ele \u00e9 negro, sem discriminar o outro porque \u00e9 ind\u00edgena, sem discriminar o outro porque \u00e9 outro? Eu tenho a minha religi\u00e3o, eu tenho a minha f\u00e9, eu sigo os meus ancestrais, e isso me basta. Por qu\u00ea vem gente l\u00e1 de fora querendo destruir isso? Que ser humano \u00e9 esse? Como pensar num coletivo do bem, como pensar numa prosperidade do bem, se o outro quer destruir o sentimento da f\u00e9 que existe ali?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4031\">Dentro desses fundamentalismos, existem diversos caminhos que foram criados para destruir. E n\u00e3o fomos n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, que criamos isso. \u00c9 impressionante como o homem n\u00e3o-ind\u00edgena pisa dentro das nossas comunidades e quer tirar da nossa cabe\u00e7a a ancestralidade, como ele tenta mudar o que j\u00e1 existe. Por que isso? N\u00f3s estamos aqui, dentro das nossas terras, e n\u00e3o pensamos em fazer isso com os outros. N\u00f3s n\u00e3o queremos mudar a f\u00e9 de ningu\u00e9m, mas querem mudar a nossa. Acima do fundamentalismo, que agride, mata e destr\u00f3i, a gente tem o amor.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c041\">A gente est\u00e1 respeitando tanto o jeito de pensar do outro, mas eles n\u00e3o est\u00e3o respeitando o nosso jeito de seguir a nossa religi\u00e3o. Atrav\u00e9s desse estupro de f\u00e9, isso gera tanta desgra\u00e7a no mundo. Mas n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, acreditamos fortemente na nossa cultura, na nossa tradi\u00e7\u00e3o, na nossa l\u00edngua, no nosso jeito de falar com o Grande Mestre, porque cada povo ind\u00edgena tem o seu pr\u00f3prio. E isso n\u00e3o me faz melhor ou pior do que ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"55b2\">N\u00e3o s\u00f3 o povo Krenak, mas todos os povos ind\u00edgenas do Brasil s\u00e3o agredidos. O jeito de devolver isso pra voc\u00eas \u00e9 lutando, 24h por dia, pra mostrar pra muita gente que esse n\u00e3o \u00e9 o caminho. Se a gente n\u00e3o encontrar solu\u00e7\u00f5es, que possam andar unidas, nos que diz respeito \u00e0 consci\u00eancia sagrada, muita desgra\u00e7a ainda est\u00e1 por vir.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"cc9e\">Nesse processo todo da coloniza\u00e7\u00e3o, meu povo enfrentou tanta luta, \u00e9 roubo de terra, \u00e9 tr\u00e1fico dos nossos ancestrais, estupro das mulheres Krenaks nas nossas terras, ditadura militar\u2026 O dia 5 de novembro de 2015 \u00e9 um exemplo de tudo isso, em que aconteceu um dos piores massacres ambientais no Estado de Minas Gerais, que foi a morte do Rio Doce, provocada pela minera\u00e7\u00e3o. Nosso elo sagrado, nossa espiritualidade, nossa forma positiva de buscar for\u00e7a, vinha do rio. Foi morto, mais de 700 km de rio de \u00e1gua doce foi morta. Nossa espiritualidade ficou triste, ficou balanceada, pra baixo, por causa da gan\u00e2ncia do homem, por causa disso tudo que envolve fundamentalismo, por causa dessa f\u00e9 que virou mercadoria, dessa lavagem cerebral e toda essa forma que o fundamentalista de f\u00e9 trazida para c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4f6c\">Mesmo com todas essas desgra\u00e7as, o meu povo ainda continua intacto no que diz respeito a acreditar nos&nbsp;<em>mar\u00e9t<\/em>, nos&nbsp;<em>Guiak<\/em>, porque na nossa espiritualidade, o primeiro ser Krenak foi criado atrav\u00e9s dos quatro elementos da terra, e isso ningu\u00e9m nunca vai mudar. N\u00f3s somos forjados com a for\u00e7a da natureza, e \u00e9 isso que nos deixa de p\u00e9, \u00e9 isso que nos deixa fortes enquanto Krenak.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*O texto foi escrito com base na fala de Shirley Djurkun\u00e3, ind\u00edgena Krenak, durante o\u00a0nono Ciclo de Debates #MulheresTerrit\u00f3riosdeLuta. 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