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O espírito de fogo, a autogestão e a luta insistente na Serra da Misericórdia, RJ

*Texto organizado e editado por Karoline Kina, com base na fala de Marcelle Felippe durante o décimo Ciclo de Debates #MulheresTerritóriosdeLuta, cujo tema foi “Caminhos de resistência para defesa dos corpos-territórios”. Marcelle é integrante do Verdejar Socioambiental, projeto da Serra da Misericórdia, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Foto: Acervo pessoal

Tem uma canção que diz assim: “Terra meu corpo, água meu sangue, ar meu alento e fogo meu espírito”. Eu acredito que é na inquietação do espírito do fogo que as mulheres estão enfrentando e resistindo nessa sociedade.

Eu faço parte de um projeto da Serra da Misericórdia, patrimônio ambiental que fica em uma área altamente adensada e que convive com muita especulação imobiliária. É o coração verde da Zona Norte, um local de muita disputa e atingido diretamente pelos megaprojetos, já que existem duas mineradoras que estão em atividade ali.

O impacto é direto nas águas, terra e ar, porque há muita biodiversidade, com diversas nascentes. Afeta diretamente a vida das mulheres, a partir de suas águas e todo seu ambiente. Impacta seus corpos-territórios-casas.

Na Serra da Misericórdia, além da Verdejar Socioambiental, existem outros projetos, e na maioria deles, são as mulheres as animadoras, realizadoras, gestoras, insistentes nesses processos de comunicar, de agregar e trazer a melhoria do ambiente.

A Verdejar Socioambiental vem se reinventando, a partir das mudanças que o território sofre, buscando por meio de diversas linguagens e práticas dar visibilidade e acesso ao direito a área verde, através da agroecologia, sendo as nossas práticas um espaço de integração entre a floresta e a favela.

Foto: Acervo Pessoal

Desde 1997, manejamos uma horta comunitária e uma agrofloresta, como uma forma inicial de sensibilização, entendendo que o que nos conecta é a alimentação, a comida. Com isto, ao invés de construirmos muros, fizemos uma horta para a recuperação daquela área. Nossas ações são de resistência, na luta pelo o acesso a esse espaço verde, de lazer, da alimentação saudável e, assim, o direito a um local onde todos esses e demais direitos são violados cotidianamente.

Aqui na Serra da Misericórdia, existe um projeto de parque que nunca saiu do papel, apesar de ter existido o recurso para ser implementado, máxima expressão do racismo ambiental. O que estamos realizando, reinventando e recriando é para garantir esse território saudável, através da sensibilização, formação e ação. Além de trabalhar a questão da agroecologia, também desenvolvemos tecnologias, para dar autonomia às famílias. Trabalhamos com a captação da água da chuva, aquecedor solar de baixo custo, bacia de evapotranspiração, entendendo a importância da construção coletiva e autônoma desse local, um território de bem viver que sobrevive em meio às disputas e à violência.

É um processo que, claro, demanda um longo caminho e com muitos desafios, porque é uma tentativa constante de ir se adaptando ao crescimento urbano e diversos fatores que nos fazem constantemente repensar de que forma seguir. Buscamos estar a todo momento com uma escuta ativa e entender as necessidades para que possamos apostar nelas juntos, mas sempre na base do desafio.

Temos trabalhado também a comunicação popular para dar visibilidade a esse patrimônio aqui na Serra da Misericórdia, por meio de teatro, de cinema, de festivais e de diversas linguagens, como o stream e o podcast. Tentamos comunicar cada vez mais para que, quem está ali, abraçado por esse território, se sinta parte e entenda a importância dessa área verde.

Aqui, antes da Verdejar, já existiam moradoras e moradores que cuidavam dessas águas, dessas terras e preservavam suas sementes. Pessoas que já possuíam seus modos de vida, uma forma de se alimentar e de sobreviver. Então, a nossa luta insistente é para que o parque da Serra da Misericórdia aconteça, porque esses megaprojetos geram impactos diretos e cruéis, e com muita violência.

E a violência está em todas as esferas, sobre a mulher, seus corpos-territórios e as resistências. Quando mexem com o ambiente que é nossa morada, mexem também com o nosso ambiente interno. Por isso, insistir e resistir a esses processos é uma luta constante.

Foto: Acervo Pessoal