A favela quer liberdade, justiça e reparação: o povo negro quer viver!
Na manhã do dia 28 de outubro de 2025, terça-feira, os Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ), tiveram seu território invadido e violado, mais uma vez, pelas forças do Estado – mas, dessa vez, elas promoveram a maior chacina da história recente do país. Os números oficiais apontam que 121 pessoas, sendo a maioria jovens negros, foram mortas nesse dia. Moradores e organizações que atuam na região afirmam que o número pode ser ainda maior.
A Operação Contenção envolveu cerca de 2.500 agentes da Polícia Militar e da Polícia Civil, armados com fuzis e pistolas, além de tratores, drones, helicópteros e mais de 30 veículos blindados. Seu objetivo principal seria a execução de mais de 200 mandados de busca e apreensão e de prisão – mas, na prática, o que aconteceram foram dezenas de execuções sumárias.
A cidade parou. Mais de 70 ônibus foram sequestrados, para fazer barricadas em diferentes pontos da cidade – mais de 200 linhas foram afetadas. O comércio, as escolas e os postos de saúde fecharam as portas – mais de 40 unidades da rede municipal de ensino fecharam no Alemão e na Penha, deixando até 15 mil alunos sem aulas.
Durante todo o dia, o número de mortos na operação foi aumentando. No almoço, já eram 20. No fim da tarde, 64 – incluindo 4 policiais.
O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), se apressou em comemorar o resultado da megaoperação – em entrevistas, fez questão de afirmar que as únicas vítimas eram os 4 policiais.
A imprensa se apressou em condenar os outros corpos: eram todos “suspeitos”. Foi o que repetiu a TV, o dia inteiro. A Rede Globo suspendeu o futebol e a novela, para fazer uma edição especial do RJTV, que passou horas exibindo as “cenas de guerra” no Rio de Janeiro.
Parecia que não podia piorar, mas piorou. De fato, neste dia, o Rio de Janeiro conseguiu matar mais que Israel, como destacou a jornalista Dorrit Hazarim, em sua coluna n’O Globo.
Os Complexos da Penha e do Alemão são divididos pela Serra da Misericórdia, uma Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana (APARU), que abriga nascentes e quintais produtivos, nos quais a comunidade local desenvolve diversos projetos de preservação, reflorestamento e educação ambiental. É uma área em que a vida pulsa e os laços comunitários são fortalecidos, através da agroecologia, da agricultura urbana, da cultura, da comunicação comunitária e da educação popular.
Durante a madrugada e a manhã do dia seguinte à Operação Contenção, no dia 29 de outubro, moradores da região começaram a entrar na mata, para procurar e buscar os corpos de familiares, amigos ou vizinhos, que foram condenados à morte, pelas forças do Estado, sem direito a defesa e a um julgamento justo, como manda a lei. Dezenas de corpos foram levados pelos próprios moradores para a Praça São Lucas, na Penha. Muitos com indícios de tortura e execução. Eram tantos, que faltou lençol para cobrir todos, como destacou a jornalista Flávia Oliveira, em seu podcast, Angu de Grilo.
A perícia levou horas para chegar no local e levar os corpos para o Instituto Médico Legal (IML). Centenas de pessoas, incluindo crianças, estavam no local e presenciaram os mais de 60 corpos enfileirados no chão.
À tarde, o número total de mortos na Operação Contenção já havia ultrapassado os 111 do Massacre do Carandiru – até então, o maior desde a redemocratização do país.
As fotos e vídeos desse dia rodaram o mundo e ficarão marcadas na História. Nesses registros, fica óbvio qual é a cor e o gênero de quem mais sofre no fim do dia. Ao redor dos corpos estirados no chão da Praça São Lucas, haviam dezenas de mulheres negras – avós, mães, esposas e filhas, que precisaram resgatar, reconhecer e velar os corpos dos seus entes queridos ali, no chão da praça.
Mesmo assim, o governo do estado e as polícias continuaram – e continuam – considerando a Operação Contenção “um sucesso”. Inclusive destacando como uma inovação e um diferencial a estratégia que matou dezenas de jovens negros, de encurralar na mata todos os “suspeitos” – no entanto, é preciso lembrar que nenhum dos mortos estava entre os alvos de mandados da operação.

Em entrevista ao jornal latino-americano Los Muros, a coordenadora do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), Aline Lima, explica que “para entender o que aconteceu, é essencial nos situarmos dentro da história do policiamento nas favelas do Rio de Janeiro e da lógica da guerra às drogas”, pois “o Rio de Janeiro já vivenciou outros episódios semelhantes, como o massacre do Jacarezinho em 2021, onde 30 pessoas morreram”.
“Toda a história do Rio de Janeiro é marcada por massacres policiais em larga escala, contra comunidades negras, faveladas e marginalizadas, da periferia da cidade. Essas operações, muitas vezes, funcionam como um mecanismo de controle social sobre territórios pobres e predominantemente negros, sob o pretexto de combater o crime. O que aconteceu no dia 28 não pode ser compreendido meramente como uma ação policial, mas sim como um sintoma de um modelo específico de desenvolvimento, de Estado e de sociedade. A violência se concentra onde o Estado falha em garantir direitos, educação, saúde e emprego. Em outras palavras, a operação de 28 de outubro não foi meramente um confronto com o narcotráfico, mas uma manifestação extrema de como o Estado brasileiro exerce poder sobre a vida e a morte em territórios marginalizados. Revela uma continuidade histórica de militarização, racismo estrutural e exclusão social”, explica Aline.
O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) classificava como chacina as ocorrências com 3 ou mais mortes. A escalada da brutalidade e da crueldade empregada em operações policiais nos últimos anos, sobretudo nas periferias do Rio, levaram o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF) a classificar como megachacinas os casos em que há pelo menos 8 mortes.
O que aconteceu na Penha e no Alemão pode não ter classificação na literatura especializada, mas tem nome: é genocídio do povo preto e favelado deste país!
Por isso, neste Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, o Instituto Pacs reitera seu repúdio a esta política, que militariza territórios, destrói vidas e institucionaliza a barbárie. Saudamos também a resistência, sobretudo das mulheres negras e periféricas, que estão na linha de frente da luta pela vida e por direitos, denunciando a violência do Estado e construindo alternativas baseadas na ancestralidade e no bem viver.
Nos solidarizamos especialmente com o Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM), organização que é parceira do Pacs há mais de uma década e faz um trabalho exemplar, promovendo segurança e soberania alimentar, a partir de uma perspectiva feminista, antirracista e emancipatória, na Serra da Misericórdia.
No domingo seguinte à chacina, dia 2 de novembro, o programa Fantástico, da Globo, exibiu uma reportagem que chamou a Serra da Misericórdia de “Serra do Crime”, mas “essa narrativa ignora que ali vivem, há décadas, grupos que existem e resistem, plantando e colhendo alimentos”, como lembraram, em uma publicação conjunta, organizações que atuam no território – dentre elas, o CEM, a AS-PTA, a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ) e a Rede Carioca de Agricultura Urbana (Rede CAU).
“Criminalizar o território é apagar as histórias e as lutas de quem cuida dele todos os dias. Em vez de estigmatizar, é urgente reconhecer e apoiar as iniciativas populares presentes nos Complexos da Penha e do Alemão, que defendem o direito à cidade, à moradia, à cultura, à segurança alimentar e à preservação ambiental. A Serra da Misericórdia é vida, é natureza, é futuro”, defende a publicação.
“Reafirmamos: não foi operação, foi CHACINA e propaganda política daqueles que lucram com a morte da população negra, originária e favelada”, defenderam, também em uma publicação conjunta, o CEM, o Pacs e outras organizações, como a Casa Fluminense e o jornal local Voz das Comunidades.

O Instituto Pacs foi às ruas no último dia 31 de outubro, junto com o CEM, a AARJ, a Rede CAU e dezenas de outras organizações, para denunciar ao mundo este caso absurdo e pedir o mínimo: o direito à vida. Mais de 100 anos se passaram desde a abolição da escravidão no Brasil e a população negra segue refém de uma política racista, que mata todo dia.
Durante o governo de Claudio Castro (PL), 890 pessoas foram mortas em chacinas policiais, de acordo com o GENI-UFF. O grupo também afirma que, das 5 operações mais letais da história do Rio, 4 foram no governo de Castro – a última foi a do Jacarezinho. Desde 2007, já ocorreram mais de 700 chacinas na região metropolitana do Rio – o que resultou na morte de mais de 2.800 pessoas.
Isso não é política de segurança, é política de extermínio.
“As invasões policiais só geram mais violência, violações e militarização dos nossos territórios originários e negros, o que mostra que o genocídio é um projeto de poder . As consequências dessa frequente exposição à violência armada se desdobram em agravos de saúde mental, como depressão e ansiedade, transtornos do sono e o desenvolvimento de doenças crônicas, a exemplo da hipertensão arterial”, lembram, em uma publicação conjunta, o CEM, o Pacs e outras organizações.
O trauma do dia 28 de outubro de 2025 marcará gerações, isso é fato e nós não vamos esquecer.
Diversas organizações, movimentos sociais e até o governo federal e a Organização das Nações Unidas (ONU) condenaram a chacina e pediram investigação e responsabilização. À seguir, você encontra uma lista de notas e publicações para se aprofundar neste tema e acompanhar os desdobramentos do caso, mas hoje a nossa tarefa é lembrar que a favela quer liberdade, justiça e reparação! O povo negro quer viver!
Confira notas e outras publicações sobre o tema a seguir:
Nota da AARJ
Nota do Instituto Papo Reto
Nota coletiva de mais de 140 organizações
Relatório da Justiça Global
Publicação do Fogo Cruzado mostra histórico de violência policial na Penha e no Alemão
Chefe da ONU pede investigação sobre mortes em operação no Rio
CIDH condena operação
