14º Encontro Regional de Atingidas e Atingidos pela Mineração reúne lideranças territoriais para traçar estratégias de resistência
O 14º Encontro Regional de Atingidas e Atingidos pela Mineração, realizado entre os dias 15 e 17 de agosto, em São Luís (MA), reuniu cerca de 75 pessoas, para traçar estratégias de enfrentamento aos megaprojetos extrativistas, sobretudo no Corredor Carajás, área que compreende toda a extensão da Estrada de Ferro Carajás (EFC), que vai do Pará ao Maranhão.
O ERAM é realizado pela Justiça nos Trilhos (JnT) há 14 anos. Em 2025, o encontro também contou com o apoio das organizações a seguir: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Salve Floresta, Fundação Rosa Luxemburgo, Dreikönigsaktion – Hilfswerk der katholischen Jungschar (DKA), Catholic Agency for Overseas Development (CAFOD), Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale (AIAAV), Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), FASE – Solidariedade e Educação, Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS). Quem representou o PACS no ERAM foi a coordenadora de projetos e integrante da coletiva de gestão da organização, Ana Luisa Queiroz.

No dia 15, os participantes chegaram e se instalaram no local. Na manhã do dia seguinte, houve a abertura do encontro, com uma mística que resgatou os 14 anos de construção conjunta do ERAM. Em roda, os participantes lembraram nomes de defensores e defensoras dos direitos humanos e da natureza que se foram, mas seguem inspirando a luta, como Anacleta Pires, liderança quilombola de Santa Rosa dos Pretos (MA), e dona Máxima Pires, da comunidade Rio dos Cachorros (MA). Ambas ancestralizaram em 2024.
Em seguida, houve um momento de análise de conjuntura, no qual ganharam destaque as ameaças socioambientais que atravessam o Maranhão e o Pará atualmente.
Vanusa Guajajara, da Aldeia Piçarra Preta, na Terra Indígena Rio Pindaré (MA), destacou que a relação com o território é a base da luta por direito à terra, comida e segurança. Para ela, “os jovens são os mais impactados”, porque “grandes empresas destroem o sentido de comunidade e afetam a saúde mental deles”.
Joércio Pires, quilombola e educador popular do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, expôs a resistência da comunidade diante de cinco grandes empreendimentos que avançam sobre o território. Ele denunciou a cooptação de lideranças pelas empresas e as promessas não cumpridas de emprego, escolas e saúde. “Enquanto isso, a titulação do território segue emperrada no Incra”, disse Joércio.
Ana Laíde, do movimento Xingu Vivo Para Sempre e da Rede Nacional de Mulheres Guardiãs dos Territórios Ameaçados e Atingidos por Megaprojetos, também criticou a postura do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “O órgão que deveria garantir terra ao povo age como braço do Estado na reprodução da violência. Se o Incra não cumpre seu papel, por que existe?”, questiona Ana. Para ela, resistir é cuidar do território, da memória e da vida, que insiste em florescer.

Na tarde do dia 16, os participantes do ERAM visitaram a comunidade do Taim, uma das 12 que formam a área da Resex Tauá-Mirim, reivindicada há mais de 22 anos. Cerca de 2.200 famílias aguardam a decretação oficial da reserva pelo presidente Lula, enquanto enfrentam a expansão de portos, indústrias e mineradoras.
Fran Gonçalves, moradora local, guiou a visita e relatou o cotidiano de violações, que inclui mortandade de peixes, contaminação do ar e expulsão de famílias. “A Resex é nosso direito de viver da pesca artesanal, da agricultura e das tradições. Enquanto o complexo portuário nos cobre de pó preto, nós seguimos preservando a natureza e nossa cultura”, afirmou Fran, na ocasião.


No dia 17, lideranças do Pará deram início às atividades do dia, com uma mística que questionava “que progresso é esse que nos divide, semeia discórdia, nos joga nas periferias e nos faz mais pobres?”. Em seguida, os participantes se organizaram em grupos de trabalho, que discutiram:
- Comunicação popular e uso crítico de tecnologias, como inteligência artificial;
- Orçamento público e Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM);
- Proteção de defensores e defensoras de direitos humanos e da natureza;
- Corredores logísticos (ferrovias, hidrovias, rodovias) e seus impactos nos territórios.
As discussões de cada grupo foram compartilhadas durante a plenária final, momento em que também foi realizado um balanço do encontro e o encaminhamento de ações conjuntas.
Para Ana Luisa Queiroz, do PACS, “o ERAM é um dos espaços fundamentais de formação e articulação frente às violações da mineração e já inspirou a construção de diversos coletivos, movimentos e iniciativas. Diante a expansão das fronteiras de exploração capitalistas, do racismo ambiental e da violência contra mulheres, seguir a construção desse espaço é alimentar um caminho de luta por justiça integral e defesa do bem viver”.
