“A saída é pela esquerda”: PACS participa de conferência internacional sobre resistência ao avanço da extrema direita
A conferência internacional “Good Night, Far Right – A saída é pela esquerda”, realizada em São Paulo, em maio, pela Fundação Rosa Luxemburgo (FRL), reuniu lideranças políticas, intelectuais, movimentos populares, comunicadores e ativistas de 26 países, para enfrentar uma pergunta urgente: como barrar o avanço global da extrema direita?
A coordenadora institucional e integrante da coletiva de gestão do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), Aline Lima, participou do encontro. Ela conta que “foi muito importante para pensar futuros comuns e possíveis, a partir da discussão do avanço dos fundamentalismos religiosos e da extrema direita, em um momento tão importante, sobretudo para o Brasil, que terá eleições neste ano”.

“Nós falamos sobre os retrocessos vividos em cada país, sobre o aumento da violência contra as mulheres e comunidades e territórios tradicionais, sobre o avanço dos megaprojetos de desenvolvimento e a entrega das terras raras, principalmente no Brasil. Falamos muito sobre essa política neocolonizadora e neoliberal que vem atingindo os países do Sul Global e perpetuando uma história do Brasil e do Sul Global continuarem sendo exportadores de bens primários, de commodities, enquanto compram tecnologia superfaturada do Norte Global. Além disso, nós pudemos ouvir os relatos impressionantes de companheiros da Palestina, de Cuba, da Venezuela e de outros países, sobretudo do Sul Global, que vivem realidades com muitas similaridades, mas também muitas peculiaridades, em comparação com a realidade brasileira”, conta Aline.
A coordenadora do PACS destacou em suas falas durante o encontro como “os fundamentalismos religiosos, econômicos e políticos têm sido engrenagens que sustentam e mantêm o sistema capitalista, enquanto religiosidades tradicionais, embora tratadas como marginais ao longo da história, têm mostrado caminhos possíveis para construir novos mundos”. Nos últimos anos, a Caravana Contra os Racismos Religiosos vêm fazendo eco a diversas iniciativas nesse sentido.
“Outra coisa que eu levantei muito é que para a gente pensar a proteção dos nossos territórios, a gente também precisa pensar em uma legislação sem brechas, a campanha Rio Capital do Caô Climático nos mostra isso”, conta Aline.




A programação, que foi parcialmente aberta ao público, levantou reflexões importantes sobre a atual conjuntura política e as estratégias de resistência ao avanço da extrema direita – elas incluem a disputa eleitoral, mas passam também pela disputa da cultura, da comunicação, da memória e da luta cotidiana por direitos, e pela nossa capacidade de imaginar e construir um futuro mais democrático e justo.
O encontro reafirmou a importância da solidariedade internacional e da organização popular diante do crescimento de projetos autoritários, racistas, patriarcais e neoliberais, que aprofundam desigualdades históricas – de gênero, raciais, sociais, econômicas, ambientais e climáticas – e provocam retrocessos, como a retirada de direitos conquistados historicamente.
Diversas lideranças destacaram durante a conferência que a extrema direita tem se fortalecido a partir da exploração do medo, da insegurança social e da disseminação de desinformação. O debate apontou para a necessidade de fortalecer vínculos comunitários, ampliar a presença nos territórios e reconstruir projetos políticos comprometidos com a democracia, a justiça social e os direitos universais.
Um dos eixos centrais do encontro foi a avaliação de que a disputa contra a extrema direita não pode se limitar ao campo institucional. Em painel sobre estratégias eleitorais, lideranças da Alemanha, Áustria e Estados Unidos defenderam que a esquerda precisa voltar a apresentar respostas concretas para a vida cotidiana da população, especialmente em temas como moradia, trabalho, serviços públicos e combate às desigualdades. Representantes do Brasil, México e Colômbia também destacaram a necessidade de retomar a organização comunitária e a presença permanente nas periferias urbanas e rurais.



Entre os temas debatidos, esteve o impacto do neoliberalismo sobre a vida cotidiana da classe trabalhadora, especialmente por meio da precarização do trabalho e da expropriação do tempo. O debate sobre o fim da escala 6×1 apareceu como exemplo concreto da luta pelo direito ao descanso, ao cuidado e à qualidade de vida.
O avanço das guerras, da militarização e do imperialismo também foi destaque entre os assuntos debatidos na conferência. Lideranças da Palestina, Cuba e Brasil relacionaram o genocídio em Gaza, os bloqueios econômicos e o avanço autoritário a uma mesma lógica global de exploração e concentração de poder.
O militante palestino Imad Touma defendeu que a solidariedade internacional à Palestina se transforme em uma articulação mais ampla contra a militarização e a indústria da guerra. “O mesmo inimigo está no Oriente Médio e na América Latina”, afirmou.
Outra discussão em destaque foi o avanço da violência baseada em gênero, sexualidade, cor da pele ou origem. A presidenta nacional do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), Paula Coradi, ressaltou que os ataques às mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+ e imigrantes fazem parte de um projeto político e econômico de aprofundamento da exploração e das desigualdades.
“A disputa que estamos travando é civilizatória”, afirmou. “A classe trabalhadora tem gênero, tem raça, tem formas de amar e de existir no mundo.”
As discussões também reforçaram o papel central das mulheres e das populações historicamente marginalizadas na resistência democrática. A deputada federal Erika Hilton destacou que o enfrentamento ao avanço autoritário passa necessariamente pelo protagonismo feminino e pela defesa da diversidade.
Ao final do encontro, os participantes saíram com a certeza de que a saída é – e precisa ser – coletiva, baseada na solidariedade, na justiça social e ambiental, na democracia, no cuidado e na esperança. Para chegar até lá, todos concordam que é preciso fortalecer articulações internacionais, ampliar a organização popular e construir alternativas capazes de enfrentar o avanço da extrema direita em diferentes territórios. Clique aqui para conferir algumas das falas finais do encontro.
