Encontro em Angola consolida Articulação Lusófona Feminista – PACS está entre representantes do Brasil
Em fevereiro, o Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS) promoveu, em parceria com organizações de Angola, Moçambique e Alemanha, um intercâmbio de saberes e práticas que consolidou a Articulação Lusófona Feminista, uma rede que vem sendo tecida desde 2019, a partir do Sul Global, por meio de encontros realizados em diversos países.
Na ocasião, quem representou o PACS foi a sua coordenadora institucional, Aline Lima, que também integra a coletiva de gestão da organização. Do Brasil, também participaram: Yasmin Bitencourt, da Campanha Nem Presa, Nem Morta e sócia-colaboradora do PACS; Ana Santos, do Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM); e Luiza Cavalcanti, do Sítio Ágatha.
Também construíram o intercâmbio as organizações Mwana Pwo, Ondjango Feminista e Unidas Somos Mais Fortes, de Angola, o Grupo de Mulheres de Partilha de Ideias de Sofala (GMPIS), de Moçambique, e Brot für die Welt – Pão para o Mundo (PPM), da Alemanha.

A programação do intercâmbio teve início no dia 9, em Luanda, com uma visita ao Museu Nacional da Escravatura. Ele está localizado em uma propriedade que pertenceu a um dos maiores comerciantes de escravizados da costa africana na primeira metade do século XVIII. Sua sede fica na Capela da Casa Grande, uma igreja do século XVII, onde as pessoas sequestradas na região eram rebatizadas, antes do embarque nos navios do tráfico transatlântico que as levavam para serem escravizadas.
Para a coordenadora do PACS, Aline Lima, “foi um momento muito marcante”. “Porque parte da minha família paterna é de Angola e quase 70% das pessoas que foram sequestradas de Angola vieram para o Brasil, então provavelmente algum familiar meu passou por ali”, explica Aline.
Ela também destaca que “é muito simbólico que isso aconteça dentro de uma igreja” e chama a atenção para os contrastes do lugar: “Tinham peças muito fortes no museu, como os pesos que eram colocados nos pés e nas mãos das pessoas e o lugar dos castigos. Foi muito difícil ver isso. Ao mesmo tempo, tudo isso está ao lado de uma baía linda e cheia de baobás, árvore que é sagrada para diversos povos africanos”.

Para Luiza Cavalcanti, do Sítio Ágatha, esse momento também foi impactante. Confira o seu relato:
“Lá, pude sentir a indignação dos meus ancestrais. Ver as datas e a quantidade de pessoas que foram arrancadas de suas raízes e territórios, para serem vendidas ao trabalho escravo no Brasil, e a descrição das condições, me gerou dor e imensa revolta!”
Ela diz que, desde que sua mãe contou que seus pais foram arrancados do povo Mbundo e escravizados em Tracunhaém, onde vive atualmente, começou a sonhar ir em Angola. Hoje, ela diz se sentir “muito grata com a experiência” e afirma que ela foi “emocionante e repleta de reencontros, encontros e encantos”.

Após a visita ao museu, houve uma visita ao escritório da Ondjango Feminista, coletivo criado há 10 anos, que atua com mulheres e meninas, discutindo direitos sexuais e reprodutivos, violência contra a mulher e justiça econômica e social. A palavra “ondjango” é derivada do umbundu, uma língua bantu, e significa “local de encontro ou de reunião, onde se resolvem problemas e se transmitem lições”.
No dia seguinte, a Ondjango conduziu uma atividade sobre interseccionalidade e justiça de gênero no contexto angolano, que expôs dados locais sobre a participação das mulheres na política e as suas condições de acesso à saúde, educação, trabalho digno e terras. Participantes dos outros países presentes também partilharam como são os seus contextos locais e houve muita troca e reflexão coletiva sobre perspectivas, caminhos e pontes possíveis para fortalecer o trabalho em prol dos direitos das meninas e das mulheres de todos os países lusófonos.
“Nós, do Brasil, destacamos principalmente o aumento dos casos de feminicídio, como um ponto de alerta, e o papel central das mulheres na defesa dos territórios. Então falamos muito de mulheres de comunidades tradicionais, de terreiros e de favelas e sobre os impactos diferenciados dos megaprojetos na vida dessas mulheres”, conta Aline, do PACS.
Outros pontos destacados pelas participantes brasileiras foram as Eleições 2026, que ocorrem em um contexto de avanço global da extrema direita, e o papel que os fundamentalismos exercem em países do Sul Global, não só no período eleitoral, mas há séculos, como evidenciou a visita ao Museu Nacional da Escravatura, no dia anterior.
Na ocasião, as participantes brasileiras também reconheceram e lamentaram o papel colonizador que o Brasil tem em países como Angola e Moçambique.

No dia 11, as participantes do encontro foram para a capital da província de Lunda Sul, Saurimo, a quase mil quilômetros de distância de Luanda, para dar continuidade às atividades do intercâmbio. O dia seguinte começou com uma visita ao escritório da Mwana Pwo, organização que atua há dez anos em prol dos direitos das mulheres e meninas e cujo nome significa, em Tchockwe, uma língua bantu, “menina jovem”.
Em seguida, foi realizada uma roda de conversa sobre hortas comunitárias e soberania alimentar, que destacou a importância de tecnologias sociais ancestrais e da agroecologia, não só para a produção de alimentos saudáveis, mas também para a autonomia das mulheres.
À tarde, as representantes do PACS, Aline, e da campanha Nem Presa, Nem Morta, Yasmin, conduziram uma oficina sobre megaprojetos de desenvolvimento e seus impactos. Foram abordadas as falsas promessas das corporações, seus impactos socioambientais aos territórios, os desafios da busca por medidas de prevenção e também de reparação, além dos impactos específicos sobre as mulheres, que incluem aumento da violência sexual e de gênero, empobrecimento e maior sobrecarga gerada pelo trabalho doméstico e reprodutivo.
Na ocasião, participantes de Moçambique chamaram a atenção para o caso de uma mina de carvão de Moatize, em Tete. Seus relatos apontam que famílias vítimas de remoção foram reassentadas em casas precárias, em áreas sem infraestrutura, e que elas perderam locais sagrados e cemitérios importantes para a comunidade, que agora sofre também com a poluição causada pela operação da mina.
Hoje, a sua gestão está nas mãos de uma empresa indiana, mas até 2022 estava nas mãos da Vale S.A., empresa brasileira que é mundialmente conhecida pelo maior crime ambiental da história do país, o rompimento da barragem de rejeitos da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, memória que Aline e Yasmin resgataram durante a oficina.

No dia 13, as participantes do intercâmbio foram para o município de Dala, também na província de Lunda Sul, para conhecer o carnaval da região e as quedas do Rio Chiumbe, uma das 7 maravilhas naturais de Angola. O grupo foi recepcionado na casa do administrador do município, onde também ocorreu um almoço.
Depois de conhecer as belezas locais, o grupo conheceu de perto as feridas e cicatrizes do território. Angola está entre os maiores produtores de diamantes do mundo e duas das minas mais importantes do país estão na região de Lunda Sul: Catoca e Luele, ambas minas a céu aberto. Catoca é a maior do país e uma das maiores do mundo. Começou a ser explorada no fim dos anos 1990 e segue em atividade até hoje. Luele é a segunda maior do país e começou a ser explorada em 2023. A perspectiva, a longo prazo, é que ela supere Catoca, em tamanho, produção e relevância.
No dia 14, o grupo de participantes do intercâmbio visitou a mina de Luele e conheceu toda a estrutura do megaprojeto. Para a coordenadora do PACS, Aline Lima, foi um momento muito marcante do intercâmbio. Confira o seu relato:
“Todo mundo saiu de lá muito impactado. Eu nunca tinha ido numa mina a céu aberto e fiquei em choque com o que vi. É uma cratera enorme e a exploração só está no começo, mas já causa muitos impactos. É um nível de exploração absurdo e eles ainda terão 60 anos de concessão de uso dessa terra. Isso vai impactar pelo menos três gerações. Eu voltei destruída de lá. Quando você olha aquele buraco, parece que é um buraco em você”.
De acordo com os relatos de moradores e ativistas locais, centenas de famílias foram removidas para a instalação do megaprojeto na área. Elas foram reassentadas, mas ainda há muitas dúvidas sobre o futuro do território e de seus bens comuns, como a água.


No dia 15, o grupo passou o dia trabalhando em um mutirão, para construir uma horta comunitária na sede da Mwana Pwo. “Quando a gente voltou para o Brasil, algumas sementes já estavam brotando. Foi muito bonito de ver!”, lembra Aline, do PACS.
Para Yasmin, da campanha Nem Presa, Nem Morta, esse foi um dos momentos mais marcantes do intercâmbio. Confira o seu relato:
“Eu acho que a implementação da horta é o grande auge do intercâmbio, porque assim nós deixamos um legado muito material, que nos ajuda a manter contato, nos faz reconhecer práticas alimentares e culturais e também desafia as distâncias que estão colocadas entre nós, pela geografia, pela geopolítica e pelo capitalismo”.
Para ela, a horta também materializa um avanço em relação ao último encontro do grupo, realizado em Moçambique, em 2024, quando foi colocado o desejo coletivo de discutir sobre agricultura urbana, agroecologia e cooperativismo, enquanto estratégias de justiça socioeconômica. “Então a gente semeou desde Moçambique esse processo e agora, em Angola, a gente conseguiu materializar ele”, diz Yasmin.





Nos dias 16 e 17, as participantes fizeram a avaliação das atividades e refletiram sobre a continuidade desse processo de formação, articulação e fortalecimento. Dentre os encaminhamentos, está a consolidação da Articulação Lusófona Feminista, a definição de seus objetivos e o indicativo de realizar seu próximo intercâmbio no Brasil, em 2027.
Para saber as próximas novidades da Articulação Lusófona Feminista, acompanhe as publicações do PACS em seus sites e redes sociais.
