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II Pré-ERAM de Mulheres consolida articulação para enfrentar machismo, racismo e avanço de megaprojetos e da extrema direita

Entre os dias 6 e 8 de fevereiro, cerca de 50 mulheres, de diferentes territórios do Corredor Carajás, se reuniram no Quilombo Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim (MA), para o II Pré-ERAM de Mulheres, cujo tema foi “Racismos: entender para enfrentar e transformar”. O Corredor Carajás compreende toda a extensão da Estrada de Ferro Carajás (EFC), que vai do Pará ao Maranhão. É um dos corredores logísticos mais importantes do país para a mineração e o agronegócio.

O encontro foi realizado por Justiça nos Trilhos (JnT), Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), Comissão Pastoral da Terra – Marabá (CPT), Associação dos Produtores Rurais Quilombolas de Santa Rosa dos Pretos (APRQSRP) e União das Associações de Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Município de Itapecuru-Mirim (UNICQUITTA). Um dos seus principais objetivos é articular a participação das mulheres no Encontro Regional de Atingidos e Atingidas pela Mineração (ERAM), que chega à sua 15ª edição em 2026.

A coordenadora de projetos e integrante da coletiva de gestão do PACS, Ana Luisa Queiroz, participa dessa articulação feminista desde quando ela ainda era uma semente e representou o PACS no II Pré-ERAM de Mulheres.

Em 2019, o PACS foi convidado pela JnT e pela CPT para contribuir na construção do primeiro momento auto-organizado de mulheres dentro do ERAM. Entre 2020 e 2022, o encontro não aconteceu, por causa da pandemia, mas em 2023 e 2024 o PACS voltou a facilitar a roda junto às mulheres do ERAM e demais organizações. Foi neste espaço que Anacleta Pires, liderança do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, que ancestralizou em setembro de 2024, aos 58 anos, plantou a semente do Pré-ERAM de Mulheres, cuja primeira edição aconteceu em janeiro de 2025, na comunidade de Piquiá da Conquista, em Açailândia (MA).

Para Ana Luisa Queiroz, “fazer esse segundo encontro em Santa Rosa dos Pretos foi também um momento de honrar a memória e tudo que Anacleta plantou entre nós. Sua presença nos acompanhou ao longo de todo encontro, em emoção e luta”.

No primeiro dia do encontro, houve um almoço de abertura, na Casa de Cozinha Conceição Velha. Em seguida, as participantes caminharam até a escola da comunidade, onde puderam conhecer melhor a história e a cultura do território. As mulheres do quilombo resgataram nomes de lutadoras que marcam a sua trajetória e canções populares de Anacleta e outras compositoras. Também houve uma apresentação das Caixeiras do Divino Espírito Santo, manifestação cultural protagonizada por mulheres, que é muito presente no Maranhão. Depois, em roda, as participantes se apresentaram e dialogaram sobre memória, direitos e resistência.

Para Ana Luisa, “estar no chão da escola foi muito importante para que a gente falasse dos desafios da educação quilombola, que precisa ser garantida para além do texto da lei”.

Durante a roda de conversa, Zica Pires fez um resgate da memória da escola da comunidade e compartilhou que ela foi pintada a partir de um diálogo com a juventude, para trazer elementos nos quais eles pudessem se ver, se encontrar e pertencer.

Na manhã do segundo dia do encontro, houve uma mística de abertura, seguida de um momento de análise de conjuntura coletiva, conduzido com o apoio de provocadoras como a professora Ailce Margarida, a advogada Fernanda Souto e uma liderança da comunidade, Vilma. Elas trouxeram dados e elementos para ajudar as participantes a visualizarem o atual cenário político, do micro ao macro, conectando experiências vividas pelas mulheres em seu dia a dia à política nacional e internacional.

Para Ana Luisa Queiroz, “foi um momento importante de exercício de elaboração coletiva a partir e entre mulheres, sobretudo entre mulheres negras, na contramão do que vemos em muitos encontros onde são os homens os sujeitos convocados para a tarefa de pensar e falar sobre a conjuntura política seja ela nacional ou internacional”.

A coordenadora do PACS também chama a atenção para a ampla gama de discussões levantadas na ocasião. “A gente passou por temas como o sequestro do Maduro e as pressões de Trump, mas também abordou questões muito locais, como os desafios colocados para convidar outras companheiras para as reuniões realizadas nos territórios”, conta Ana Luisa.

À tarde, as mulheres se organizaram em grupos de trabalho, para discutir como os racismos se manifestam nos seus territórios e afetam as suas vidas. Elas também refletiram sobre como as empresas presentes na região se relacionam com as opressões que estruturam a sociedade e o modelo de desenvolvimento atual.

Cada grupo recebeu materiais de formação para ajudar a orientar as discussões – dentre eles, um zine produzido pela organização do encontro, cuja versão digital está disponível na Biblioteca Berta Cáceres.

Dentre os problemas apontados pelos grupos, estão a negação do acesso à saúde e à educação em comunidades quilombolas; a sobrecarga gerada pelo trabalho reprodutivo; a violência de gênero, sobretudo patrimonial; e o empobrecimento gerado por megaprojetos. Depois das apresentações dos grupos, houve uma discussão coletiva profunda sobre as estratégias necessárias para enfrentar esses desafios. Dentre elas, estão a realização de intercâmbios com outras mulheres, participação em encontros, articulação em redes e ações de incidência política.

O dia foi encerrado na igreja da comunidade, com uma roda de Tambor de Crioula, outra expressão cultural típica do Maranhão.

“Foi muito bonito, porque uma das coisas que foi destacada como forma de enfrentamento não só do racismo, mas da ofensiva neoliberal nos territórios, foi o envolvimento das juventudes e infâncias nas práticas tradicionais. Não como algo impositivo ou limitado a uma aula na escola, por exemplo, mas como algo que faz parte do cotidiano da vida. Aí no momento seguinte, em que a gente vai para a roda de tambor, a gente vê toda essa discussão na prática, quando vê a meninada junto com diferentes gerações, reunidas ali, em roda, tocando e dançando”, lembra a coordenadora do PACS.

No último dia do encontro, as participantes também se organizaram em grupos. Dessa vez, para discutir as suas demandas para o 15º ERAM, que vai acontecer no segundo semestre. Depois, em plenária, houve a avaliação do encontro, o encaminhamento de pontos importantes para abordar nas próximas edições e a leitura e aprovação de uma Carta Manifesto em solidariedade ao Quilombo Santa Rosa dos Pretos.

O texto denuncia a falta de acesso à água, saneamento, educação e renda no território, além de violência e ameaças a lideranças comunitárias. Entre as reivindicações estão a reforma e ampliação da escola, melhorias na unidade de saúde, garantia de saneamento básico, aplicação de recursos da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) nas comunidades impactadas, políticas públicas de geração de renda e medidas de segurança na BR-135, que atravessa a comunidade.

“Essa é uma das marcas que a gente tem construído no Pré-ERAM de Mulheres. Em todo encontro a gente promove uma ação de solidariedade com o território que o recebe. No ano passado, a gente fez uma carta de apoio à comunidade de Piquiá da Conquista e um ato. Neste ano, decidimos fazer uma carta manifesto”, conta Ana Luisa Queiroz.

A carta foi encaminhada ao Governo do Estado do Maranhão, à Prefeitura de Itapecuru-Mirim, às Secretarias Estadual e Municipal de Educação, às Secretarias Municipais de Saúde e de Igualdade Racial, com cópia ao Ministério Público e à Defensoria Pública. Clique aqui para acessá-la.