Tira Caqui: evento completa 15 anos, com edição marcada pelo debate sobre os impactos do colapso climático na agricultura urbana
Todo ano, quando chega a época do caqui, no fim do verão, acontece na Zona Oeste do Rio de Janeiro o Tira Caqui, evento que já entrou para o calendário oficial da cidade e foi reconhecido como patrimônio de interesse cultural, social e ambiental. Em 2025, o Tira Caqui completou 15 anos de realização, com uma edição em um formato novo, que refletiu os impactos cada vez mais graves do colapso climático e dos megaprojetos instalados na região. Cerca de 60 pessoas, de mais de 40 organizações, participaram do evento, realizado na Associação de Moradores e Amigos de Vargem Grande (Amavag), no dia 21 de abril deste ano. Havia famílias agricultoras atingidas de Campo Grande, Rio da Prata, Vargem Grande, Mendanha e Jacarepaguá, além de pesquisadores, estudantes, representantes do poder público, parlamentares e organizações do terceiro setor – dentre elas, o Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), representado na ocasião pela coordenadora institucional e integrante da coletiva de gestão, Aline Lima.

Tradicionalmente, acontece uma colheita solidária no Tira Caqui, na qual agricultores e agricultoras da região se unem a apoiadores e consumidores, para colher os caquis direto do pé, em mutirão. É uma oportunidade única para a troca de saberes, a promoção da conscientização a respeito da agricultura urbana e a divulgação da produção local de alimentos – pois, apesar de o plano diretor do município não reconhecer a vocação agrícola da região, a agricultura existe e resiste, sobretudo nas margens da cidade. Um exemplo disso é que as famílias agricultoras do entorno do Maciço da Pedra Branca estão entre as maiores produtoras de caqui do estado.
Neste ano, no entanto, não foi possível realizar a tradicional colheita solidária, pois a produção de caquis está sendo duramente afetada pelas mudanças climáticas. Por isso os produtores atingidos da região decidiram fazer a 15ª edição do Tira Caqui em um formato diferente. O dia começou com a partilha de um café da manhã cheio de alimentos saudáveis e agroecológicos. Em seguida, os participantes se reuniram em uma roda de conversa, na qual todos puderam compartilhar as suas experiências, denúncias e demandas.
Na ocasião, a coordenadora do PACS, Aline Lima, chamou a atenção para o racismo ambiental e frisou que “nós sabemos a cor e a classe das pessoas que são mais afetadas por esse colapso, que são pescadores, agricultores, povos e pessoas periféricas” –são, em sua maioria, trabalhadores e trabalhadoras de pele preta.
Cadê o caqui que estava aqui?
Na roda de conversa, muitas agricultoras e agricultores relataram que o aumento das temperaturas e a mudança no regime de chuvas está influenciando no desenvolvimento dos pés de caqui e de outras espécies. “Quero deixar essa cultura do caqui para os meus filhos e netos, mas agora o caqui ficou pequeno. Perdemos muitos. Até a banana está diminuindo”, disse Cristina Correia dos Santos.
Para Adnei Rodrigues do Ribeiro, “as nascentes estão secando” e por isso “não tem mais couve abundante, os coqueiros estão secando, a bananeira secou, o caqui secou e as flores caíram”. Ele também denunciou que “aparece fuligem nas plantas, devido à proximidade da área industrial”.
Várias corporações atuam na Zona Oeste do Rio de Janeiro, especialmente em Campo Grande e Santa Cruz. É nessa região que está instalada, por exemplo, a maior siderúrgica da América Latina, a Ternium Brasil (antiga TKCSA) – que é responsável por mais de metade das emissões de gases de efeito estufa do Rio de Janeiro e despeja na atmosfera um pó preto, que contém resíduos da sua produção de aço. Esse pó invade as casas, os quintais produtivos e os corpos dos moradores da região. É possível vê-lo sobre as folhas das plantas.

Maria das Dores dos Santos da Silva avaliou que “de dois anos pra cá, o clima mudou muito e tem ficado bem mais seco”. Ao mesmo tempo, as chuvas têm ficado mais intensas e causado mais perdas. “Com as chuvas de janeiro, em especial uma chuva de granizo que teve, nós perdemos muito caqui. Muitos ficaram com uma mancha preta”, contou Maria.
Marconi Bezerra também lembrou dessa chuva – e de outros percalços. “No ano passado tivemos ataque de lagartas no caqui. Tentamos algumas alternativas, de juntar a pesquisa, a extensão e os agricultores, mas não deu certo. O caqui florou fora de época e ainda teve a chuva de granizo em janeiro. Já em fevereiro, tiveram temperaturas muito altas na serra, teve cenoura cozinhando no pé”, lembrou Marconi. No fim de sua fala, ele anunciou: “Nós precisamos de apoio para novos caquizais”.
Jorge Cardia Valóis lembrou que “chove, mas depois de três ou quatro dias de sol já está tudo seco de novo”. Ele perdeu entre 60 e 70% da última colheita de caqui e contou que “o caqui nem deu flor e madurou em novembro”, meses antes da época. “Já em Vargem, começou a amadurecer só agora”, contou Jorge.
Os dados oficiais corroboram os relatos dos produtores. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o ano passado foi o mais quente dos últimos 63 anos. O mês de fevereiro de 2025 foi o mais seco já registrado no Rio de Janeiro.
Diante deste cenário, os participantes da roda de conversa entenderam que é urgente criar projetos para mapear, proteger e recuperar as nascentes do Maciço da Pedra Branca e outros locais apontados como “críticos” pelos produtores da região. Assim como realizar atividades de formação técnica, outros espaços de diálogo e uma audiência pública sobre o tema.
A ideia de criar um Seguro da Agricultura Urbana, para perdas causadas por eventos climáticos extremos, também foi discutida. Assim como a proposta de remunerar as famílias agricultoras da região, por sua contribuição direta à proteção das terras, das águas e do clima. “Podemos implementar o pagamento por serviço ambiental. É uma reparação, já que são os agricultores que mantêm a floresta em pé”, lembrou Marconi Bezerra.
Outras demandas e encaminhamentos
Os participantes do 15º Tira Caqui também abordaram outras demandas importantes, como a necessidade de ampliar e facilitar o acesso a políticas públicas como o Programa Cisternas, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A educadora, pesquisadora e militante Silvia Baptista, da Coletiva Popular de Mulheres e da Teia de Solidariedade da Zona Oeste, saudou que “pelo PAA alimentamos o território com uma tonelada de caquis”, mas frisou que “ainda é pouco”, porque só cerca de 10% dos produtores do entorno do Maciço da Pedra Branca conseguem vender para o programa. Eles apontam que há muita burocracia e falta suporte do poder público e de agências de fomento como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER). Alguns produtores chegaram a dizer que se sentem “abandonados” pelo poder público.
Também houve falas apontando que é importante monitorar a implementação de políticas como o Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, lançado no ano passado, além de criar e implementar políticas novas, em âmbito municipal, estadual e federal, que tenham participação popular e orçamento para efetivamente fomentar a agricultura urbana.
Para a coordenadora institucional do Pacs, Aline Lima, “foi um dia muito doído, mas muito potente”, porque “estar junto ajuda a gente a reafirmar a luta e de que lado a gente está”. Para ela, “a agroecologia e a agricultura urbana e familiar são uma resposta ao câmbio climático”.
Durante a roda de conversa, ela agradeceu “a resistência das agricultoras e dos agricultores, que nos fazem acreditar na luta e lembrar que essa luta também é nossa e é pela vida”.
