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Coalizão pelo Aço Justo leva denúncias do Sul Global à Europa em sua terceira jornada de incidência

“Não há futuro para o aço sem justiça e não há transição sem responsabilização corporativa e respeito aos direitos humanos e ambientais”, declaram os membros da Coalizão pelo Aço Justo ou Fair Steel Coalition (FSC) ao chegarem à Europa, para sua terceira jornada de incidência desde 2024. Diante da persistente ausência de ação corporativa no Norte Global, lideranças da linha de frente do Sul Global estão se mobilizando para exigir responsabilidade de reguladores e financiadores globais pelas violações geradas na cadeia do aço.

A FSC reúne organizações da sociedade civil e de base comunitária do Brasil, Libéria, México, África do Sul e outros países, que atuam coletivamente para buscar justiça para comunidades atingidas por corporações da cadeia minero-siderúrgica. Dentre as organizações que compõem a coalizão, desde a sua fundação, está o Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), que esteve nas três jornadas já realizadas pela FSC.

FSC realiza sua terceira jornada de incidência na Europa, desde 2024. Foto: FSC

As atividades da terceira jornada de incidência da coalizão foram realizadas entre 4 e 14 de maio de 2026, no Reino Unido e em Luxemburgo. Do Brasil, participaram representantes do Instituto PACS e do Coletivo Martha Trindade.

A iniciativa também marca o lançamento da campanha “Expose the Steel Giants”, que expõe os impactos de gigantes da cadeia minero-siderúrgica, como ArcelorMittal e Ternium, no Sul Global. A campanha está baseada em pesquisas, documentos e testemunhos de comunidades afetadas e reivindica medidas urgentes de reparação.

Os membros da FSC participaram de espaços-chave de tomada de decisão corporativa e financeira, como a Assembleia Geral Anual (AGM) de bancos e empresas do setor minero-siderúrgico.

No dia 5 de maio, a coalizão participou da AGM da ArcelorMittal em Luxemburgo. A FSC denunciou que a operação da empresa tem impactos socioambientais graves, destacando casos da África do Sul e da Libéria, em que seus mecanismos de queixas são pouco transparentes e ineficazes, o que está impedindo comunidades atingidas de obter reparação por danos e violações de direitos.

No dia 7, o grupo participou da AGM do banco Standard Chartered. No dia 8, foi a vez da AGM do HSBC. Nessas assembleias, a FSC expôs o papel dos bancos em viabilizar um setor siderúrgico injusto e dependente de combustíveis fósseis, por meio de financiamentos atuais e passados para ArcelorMittal e Ternium.

A coalizão destacou que bancos comerciais correm o risco de não cumprir seus compromissos com direitos humanos e clima ao apoiar operações prejudiciais, sendo, assim, parte igualmente responsável pelos impactos danosos de seus investimentos. Para a coalizão, é urgente que os recursos de investimento estejam condicionados a políticas rígidas de atendimento às diretrizes de direitos humanos e ambientais, incluindo trajetórias confiáveis de descarbonização e a adoção de mecanismos vinculantes de responsabilização.

Na AGM do HSBC, banco que fez parte do empréstimo bilionário para a Ternium comprar sua planta siderúrgica na Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), a coordenadora de projetos e integrante da coletiva de gestão do PACS, Ana Luisa Queiroz, apresentou pesquisas que apontam para a responsabilidade da Ternium em mais da metade das emissões de gases de efeito estufa (GEE) do Rio e dos efeitos danosos da poluição do ar sobre a saúde pública no município – destacando a relação demonstrada por pesquisadores entre a poluição e a mortalidade infantil. Em resposta, o banco se comprometeu em realizar uma reunião com a Coalizão, para a abordagem deste e de outros temas.

Clique aqui e confira os depoimentos da coordenadora do PACS e da representante do Coletivo Martha Trindade, Aline Marins, sobre a participação na AGM do HSBC.

De acordo com o relatório “Air quality impacts of the Ternium Brasil Santa Cruz steel plant”, publicado pelo Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA), entre 2010 e 2023, a poluição da siderúrgica pode ter causado até 1.750 mortes, só em Santa Cruz – incluindo de crianças pequenas, menores de 5 anos. As mortes estão associadas principalmente a infecções e doenças respiratórias, pulmonares e cardiovasculares.

Já o estudo “Fine Particulate Matter Levels in the Western Area of the City of Rio de Janeiro and the Potential Risks on Children’s Health”, publicado no Bulletin of Environmental Contamination and Toxicology, aponta que, em 2023, em três bairros vizinhos à siderúrgica – Santa Cruz, Bangu e Paciência –, mais de 30% das mortes de crianças entre 1 e 5 anos de idade estavam relacionadas a doenças associadas aos níveis altos de poluição da região, que registra os piores índices de qualidade do ar do Rio.

O estudo identificou que, nesses bairros, entre abril e novembro de 2023, a concentração das micropartículas chamadas de MP2,5, que poluem o ar e prejudicam a saúde das pessoas, ultrapassou o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em mais de metade dos dias analisados.

Para saber mais sobre o caso, clique aqui e conheça a campanha Rio Capital do Caô Climático.

No dia 12 de maio, a FSC sediou a mesa-redonda internacional “O custo humano do aço: demandas de devida diligência do Sul Global a Luxemburgo”, em Luxemburgo, que recebeu membros do Parlamento Europeu, das Nações Unidas (ONU) e de outras organizações internacionais.

Na ocasião, a FSC pediu que Luxemburgo aproveite o momento de transposição da Diretiva de Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa da União Europeia (CSDDD) para exigir que todas as empresas sediadas no país adotem processos obrigatórios e robustos de devida diligência em direitos humanos e ofereçam reparação efetiva por seus danos.

Nos dias 12 e 13, a FSC também realizou ações em frente à sede da Ternium em Luxemburgo. No dia 12, durante a realização da AGM da empresa, e no dia 13, em conjunto com a Anistia Internacional Luxemburgo. Nas atividades, a FSC cobrou o engajamento concreto da empresa na reparação dos impactos gerados pela sua operação, adoção de medidas efetivas de redução das emissões e descarbonização de sua planta no Rio de Janeiro.

A FSC também reivindicou a colaboração da Ternium na busca de defensores ambientais desaparecidos em regiões onde a empresa opera. Por exemplo, no México, onde, em janeiro de 2023, o líder comunitário indígena Antonio Diaz Valencia e o advogado de direitos humanos Ricardo Lagunes Gasca foram vítimas de desaparecimento forçado. Eles trabalhavam juntos na defesa dos direitos indígenas e denunciavam os impactos da mina de minério de ferro da Ternium chamada “Las Encinas”, em Aquila.

A demanda da FSC é clara: não há transição sem responsabilização e justiça e não há futuro para o aço sem as pessoas e o planeta.

Para Ana Luisa Queiroz, “a celeridade das mudanças climáticas nos transmite uma mensagem inescapável: o tempo da Terra é urgente, o tempo da vida é urgente”. Por isso é urgente “avançar em legislações e outras normativas vinculantes que possibilitem cadeias produtivas responsáveis, de baixo impacto e, sobretudo, de real salvaguarda dos direitos humanos e ambientais”.

“São diversas as trincheiras por justiça frente ao poder corporativo. Ao longo desses três anos junto à Coalizão, temos apostado em uma estratégia baseada no engajamento com atores de diferentes esferas e níveis, partindo da premissa de que não há justiça sem responsabilidade compartilhada e proporcional. As empresas precisam ser responsabilizadas diretamente sobre danos produzidos por suas operações, que geram uma relação profundamente desigual entre acumulação de impactos e de lucros, mas os Estados também precisam se implicar nesse processo, sobretudo em relação aos impactos das ações das empresas que neles estão instaladas ou sediadas”, defende Ana Luisa.

Para Aline Marins, “a jornada reforçou que os nossos territórios não podem continuar sendo tratados como zonas de sacrifício em nome do desenvolvimento”. “Levar nossas denúncias e propostas para espaços internacionais é uma forma de pressionar empresas e investidores a assumirem responsabilidades e reconhecerem que desenvolvimento só faz sentido quando respeita a vida, os direitos humanos e o meio ambiente”, defende Aline.

Terceira jornada de incidência da FSC reúne ativistas do Brasil, Libéria, México e África do Sul e leva demandas do Sul Global à Europa. Foto: FSC

Essa é a terceira jornada de incidência da FSC na Europa. Ela é mais um passo nessa caminhada de luta, resistência e solidariedade internacional, que não começou ontem e não se encerra aqui.

Confira a seguir como foram as jornadas anteriores e siga a @fairsteelcoalition nas redes sociais para acompanhar as próximas mobilizações da coalizão.

2025 – 2ª jornada de incidência da FSC

Em 2025, as atividades da segunda jornada de incidência da FSC aconteceram entre os dias 2 e 12 de maio. Os principais alvos da coalizão eram as AGMs das empresas, mas a programação também incluiu a apresentação de uma queixa à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contra a Ternium; e a realização de reuniões com sindicatos e bancos que financiam essas siderúrgicas, para pressionar os legisladores da União Europeia a agir em prol da responsabilidade corporativa. Também foram realizadas manifestações que denunciaram os impactos socioambientais do setor e outras ações.

Nas atividades, a FSC destacou que, embora haja um reconhecimento cada vez maior do papel central da indústria siderúrgica na crise climática global, o setor continua marcado por uma impunidade sistêmica. A FSC também denunciou que empresas sediadas no Norte Global seguem tratando territórios do Sul Global como zonas de sacrifício, ameaçando a vida, os direitos e o futuro de milhares de comunidades.

Fair Steel Coalition along with Defenders from communities demand accountability from the company and its shareholders, outside their offices on the day of Ternium’s AGM, in Luxembourg City, Luxembourg, 6 May 2025.

Ana Luisa Queiroz, do PACS, e Aline Marins, do Coletivo Martha Trindade, também participaram dessa segunda jornada de incidência da FSC, levando a denúncia dos impactos da Ternium no Brasil para a comunidade europeia.

No dia 5, houve a exibição do documentário “The Sky Above Zenica”, que narra a luta de um professor que denunciou por anos as consequências mortais da usina de coque da ArcelorMittal em Zenica, na Bósnia-Herzegovina. Após a exibição, houve uma roda de conversa, em que defensores do México e do Brasil puderam compartilhar as suas experiências de luta. Na ocasião, Aline Marins compartilhou o caso de Santa Cruz, território atingido pela Ternium no Rio, e falou sobre a resistência comunitária no bairro. As falas mostraram que, apesar dos contextos nacionais muito diferentes, há algo que une todas as experiências: o desafio de responsabilizar as empresas pelos seus impactos.

No dia seguinte, a FSC realizou um ato na sede da Ternium em Luxemburgo. O grupo de ativistas teve a entrada no prédio negada e acabou impedido de apresentar suas demandas na AGM da empresa, mas isso não impediu que o grupo denunciasse os impactos da Ternium em diferentes territórios do Sul Global em um ato, na porta da empresa.

Na ocasião, estava presente o jovem mexicano Keivan, que fez falas pedindo respostas da Ternium sobre o caso de seu pai, Antonio Díaz Valencia, desaparecido desde 2023. As brasileiras Aline Marins e Ana Luisa Queiroz falaram sobre os impactos socioambientais da Ternium em Santa Cruz, expondo o pó preto que sai da siderúrgica e invade as casas e corpos dos moradores da região. A coordenadora do PACS destacou que, de acordo com o relatório “Air quality impacts of the Ternium Brasil Santa Cruz steel plant”, esse pó, que é poluente e prejudicial à saúde, ultrapassa os limites entre bairros, cidades e até estados.

Após o ato, a FSC formalizou uma queixa ao ponto de contato nacional da OCDE em Luxemburgo, cobrando respostas sobre o caso mexicano.

FSC realiza ato em frente a ArcelorMittal. Foto: FSC

Ainda no dia 6, o grupo de ativistas da FSC participou da AGM da ArcelorMittal e fez um ato em frente à sede da empresa. Na ocasião, a coalizão expressou preocupação com os retrocessos da ArcelorMittal em seus compromissos climáticos e ambientais, apresentando dados de um relatório publicado no mesmo dia, pela organização SteelWatch. O estudo revela que a empresa está longe de cumprir as promessas que fez. Entre 2021 e 2024, a ArcelorMittal investiu menos de 2,5%, dos 32,6 bilhões de dólares que passaram pelo seu caixa neste período, em descarbonização.

Nos dias que se seguiram, a FSC participou de diversas reuniões em Bruxelas, Paris e Amsterdã, com membros do Parlamento Europeu, de bancos e de outras organizações da sociedade civil e sindicatos.

Representantes da FSC no Parlamento Europeu. Foto: @steelwatch

Um dos resultados dessa jornada de ações de denúncia e incidência foi a publicação de uma carta assinada por deputados do Partido Verde, dirigida ao então primeiro-ministro francês, Emmanuel Macron, apelando por apoio à Diretiva de Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa da União Europeia (CSDDD). Clique aqui para acessar o texto na íntegra.

2024 – 1ª jornada de incidência da FSC

A primeira jornada de incidência da FSC na Europa aconteceu em 2024, entre o final de abril e o início de maio. A programação teve início no dia 22 de abril, quando a sede de uma das maiores instituições financeiras da Europa – o ING Group – amanheceu com um grupo de ativistas da FSC em sua porta de entrada, em Amsterdã. A faixa que seguravam dizia: “Nós não somos sua zona de sacrifício”, em inglês. O ato foi realizado junto com ativistas de outras organizações parceiras da coalizão, como Milieudefensie e Fossil Banks No Thanks.

Representantes da FSC realizam ato em frente ao ING Group. Foto: BankTrack

Após o ato, ativistas fizeram uma intervenção na AGM do banco. Na ocasião, Ana Luisa Queiroz, do PACS, cobrou a responsabilização da instituição financeira pela participação em um empréstimo feito à Ternium, em 2017, que permitiu a compra da planta da siderúrgica em Santa Cruz, no Rio.

“É importante ressaltar que Santa Cruz tem uma das piores posições no Índice de Desenvolvimento Humano, comparado a outros bairros da cidade. Além disso, sua população, bem como de toda Zona Oeste, é formada por maioria negra. As violações que as pessoas encaram são diversas e incluem a descaracterização de suas comunidades, a obstrução de atividades tradicionais, como a pesca artesanal, a poluição do ar, problemas de saúde e mais”, argumentou Ana Luisa.

Em sua fala, ela cobrou do banco o reconhecimento desses impactos, o compromisso em não realizar mais nenhum empréstimo para a Ternium e o real engajamento em ações de reparação. Confira a seguir:

No mesmo dia, Aline Marins, do Coletivo Martha Trindade, dividiu uma mesa com outros defensores, na qual compartilhou suas experiências como jovem ativista e moradora atingida pela Ternium, em um evento no Pakhuis de Zwijger, plataforma independente de criação e inovação, que produz programas e encontros para dialogar sobre os desafios de nossos tempos.

No dia seguinte, a Coalizão se reuniu com representantes do ING Group, para pressionar o banco a assumir os compromissos mencionados na AGM. Nos dias que se seguiram, o grupo fez reuniões com vários outros atores estratégicos, para cobrar medidas de reparação, mediação, prevenção e transparência sem as quais será impossível enfrentar as mudanças climáticas.

No dia 26, a reunião foi com o grupo Crédit Agricole, banco francês que também financia as atividades da Ternium. No dia 29, com o bispo auxiliar Leo Wagner – que se comprometeu a levar as denúncias à comissão europeia de bispos e pedir que o papa escute as famílias atingidas.

No dia 30, ocorreram quatro reuniões: uma com o ministro do Meio Ambiente, Serge Wilmes; outra com consultores do Ministério da Justiça; outra com membros do parlamento europeu – dentre eles, o vice-presidente Marc Angel – e, por fim, uma no Ponto de Contato Nacional da OCDE em Luxemburgo. Neste dia, o grupo de ativistas também deu entrevistas para um jornal local.

No dia 1º de maio, dia dos trabalhadores e trabalhadoras, o grupo de ativistas participou do ato convocado pelo maior sindicato do país, a Confederação Sindical Independente de Luxemburgo, e deu uma entrevista para a Rádio Latina de Luxemburgo, na qual a coordenadora do PACS, Ana Luisa Queiroz, destacou que não existe enfrentamento às mudanças climáticas sem a garantia da segurança dos defensores ambientais e dos direitos humanos. Na ocasião, Aline Marins destacou que o Sul Global não pode continuar sendo a zona de sacrifício do Norte Global.

No dia seguinte, o grupo fez um ato em frente à sede da Ternium em Luxemburgo. Depois, fez reuniões com a presidente da Comissão Consultiva dos Direitos Humanos de Luxemburgo (CCDH), Noémi Sadler; com o presidente da Comissão Parlamentar de Relações Exteriores de Luxemburgo, Gusty Graas; e com a parlamentar Tilly Metz, do partido Greens. Para fechar a jornada, no dia 3 de maio ocorreu uma reunião com a líder da equipe de governança corporativa da Unidade de Direito Societário da Comissão Europeia, Zsofia Kerecsen, e depois o grupo participou da convenção europeia do partido Greens.