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Feministas de Lima lançam campanha por financiamento a organizações que trabalham com mulheres durante Conferência da CEPAL

No último dia 18 de agosto, o grupo Feministas de Lima lançou a campanha “Financiar Feminismos é afirmar futuros”, que denuncia o corte de recursos para organizações que trabalham com mulheres e reivindica financiamento direto, flexível e contínuo. Entre as organizações que integram a iniciativa estão: Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), Centro Juana Azurduy, CEDEAL, Equifonía, CMP Flora Tristán, Hora de Obrar, Mujer y Futuro, Luchadoras, Promsex, Sedi, SOS Corpo e Consorcio Oaxaca. A campanha recebeu o apoio da organização alemã Brot für die Welt (Pão para o Mundo, em português).

A campanha chama atenção para a contradição entre o reconhecimento da importância do cuidado nas agendas públicas e a redução dos recursos destinados às organizações que constroem redes de cuidado nos territórios e defendem os direitos das mulheres. Seu lançamento aconteceu durante a realização de uma conferência da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), da Organização das Nações Unidas (ONU), no Uruguai.

A coordenadora institucional e integrante da coletiva de gestão do PACS, Aline Lima, participou da construção da campanha e das atividades no Uruguai. “A gente vem discutindo muito, desde o ano passado, sobre a queda dos financiamentos feministas. A gente fez uma pesquisa e descobriu que apenas 1% dos financiamentos da cooperação internacional chegam a organizações feministas. Todas as organizações do grupo Feministas de Lima, por exemplo, tiveram retirada de recursos do ano passado para este. Então a gente entendeu que era urgente pensar sobre isso e a campanha nasce nesse contexto”, conta Aline.

Grupo Feministas de Lima lança campanha por financiamento a organizações feministas durante Conferência da CEPAL no Uruguai. Foto: Grupo Feministas de Lima

Os cortes de recursos têm consequências concretas e podem reduzir a capacidade de atuação de grupos que trabalham cotidianamente pela democracia, pela justiça socioambiental e pelos direitos das mulheres, caso do PACS e de todas as organizações do grupo Feministas de Lima. A campanha sintetiza essa crítica na pergunta: “Se sustentamos a vida, por que cortam o financiamento?”.

Foram realizadas diversas ações da campanha entre os dias 18 e 22 de agosto. Dentre elas, uma instalação em que dezenas de blusas com frases foram penduradas em um varal, para reivindicar que o financiamento feminista não seja “pendurado” ou invisibilizado, como o trabalho doméstico sempre foi.

Para o PACS, a disputa pelo financiamento feminista está diretamente ligada à disputa por novos modelos de desenvolvimento e por um novo projeto de sociedade. O corte de recursos atinge especialmente as organizações que estão enraizadas nos territórios e comprometidas com processos de transformação social de longo prazo.

“Sucatear e cortar recursos de organizações como as nossas, comprometidas com a justiça socioambiental, econômica, racial e de gênero, é uma estratégia. São justamente essas organizações que são retiradas de cena, com o corte de recursos”, afirma Aline Lima, do PACS.

Não basta reconhecer a importância dessas agendas. É preciso garantir as condições materiais necessárias para que quem atua nos territórios possa continuar fazendo esse trabalho. Financiar feminismos é financiar a democracia, a justiça e a construção de futuros em que sustentar a vida seja uma prioridade política.

A Conferência da CEPAL reuniu cerca de 800 participantes, incluindo representantes de 26 estados-membros e associados da CEPAL, organismos das Nações Unidas, academia, setor privado e sociedade civil. Uma das discussões centrais no encontro foram as profundas transformações demográficas vividas na região, entre elas a redução da fecundidade, o envelhecimento da população, as mudanças nas estruturas familiares e os fluxos migratórios, que têm impactos sobre o trabalho, a educação, a saúde, a proteção social e os sistemas de cuidados. Ao final do encontro, os países reafirmaram o Consenso de Montevidéu sobre População e Desenvolvimento como uma referência para a construção de políticas públicas capazes de responder às mudanças demográficas com base nos direitos humanos, na igualdade, no desenvolvimento sustentável e na redução das desigualdades. As resoluções também destacaram a importância de fortalecer a democracia, os direitos humanos e o multilateralismo, além de reafirmar compromissos com a igualdade de gênero e o combate ao racismo e às desigualdades que atingem povos indígenas, pessoas negras, migrantes e pessoas com deficiência. Clique aqui para conferir o discurso de encerramento da conferência.

Em paralelo à agenda oficial, organizações feministas de diversos países apontaram que nos últimos anos houve uma redução do espaço cívico e dos recursos destinados às organizações que trabalham com mulheres. Elas destacaram que é urgente discutir o financiamento feminista neste momento, em que governos e organismos internacionais ampliam o debate sobre a reprodução da vida, o cuidado, os direitos e o desenvolvimento.

Sobre o grupo Feministas de Lima

O grupo Feministas de Lima foi criado em 2019, em um encontro no Peru. Desde então, as organizações que constroem o grupo vêm articulando diversas atividades coordenadas de formação e incidência. Em 2023, houve um encontro em Recife (PE), no Brasil. Em 2024 e 2025, foram realizados intercâmbios na Argentina, e em 2025 também foram feitas ações durante a 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, em Sevilha, na Espanha.

Durante as atividades em Montevidéu, o grupo Feministas de Lima também realizou uma reunião de planejamento, que teve o financiamento como pauta central. O encontro resultou em encaminhamentos para fortalecer a sustentabilidade da articulação regional e para ampliar sua capacidade de ação conjunta.