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PACS visita organizações do Coletivo Autogestão em Pernambuco

O Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS) tem uma conexão umbilical com o Coletivo Autogestão, que surge a partir da experiência do Curso Autogestão, realizado pela primeira vez em 2015, pelo PACS. Hoje, o coletivo reúne mais de 35 organizações, que pensam, articulam e movimentam o Plano Popular Alternativo ao Desenvolvimento (PPAD) – iniciativa coletiva que nasce dos territórios e visa sobretudo a autonomia das coletividades e a afirmação de seus modos de viver. Essa trajetória está registrada no livro “Onde moram nossas lutas: 10 anos de metodologias autogestionárias nos territórios”, publicado pelo PACS, em parceria com a Rede Tumulto.

No último mês de março, a coordenadora institucional e integrante da coletiva de gestão do PACS, Aline Lima, visitou duas organizações de Pernambuco que constroem o Coletivo Autogestão: o Sítio Ágatha e a ONG TPM – Todas Para o Mar.

Sítio Ágatha

No dia 26, Aline visitou o Sítio Ágatha, que fica em um assentamento da reforma agrária em Tracunhaém (PE). A trajetória de luta do território tem início nos anos 90, quando 300 famílias sem terras ocuparam uma propriedade que não cumpria a sua função social. Elas só conseguiram a posse da terra em 2005, depois de décadas de resistência. No ano seguinte, o Sítio Ágatha foi criado. Em 2018, ele se constitui enquanto uma associação, cuja missão é promover e defender a afroecologia – conceito adotado pelas matriarcas do sítio, Luiza e Nzinga Cavalcante, por entenderem que muitas das práticas e saberes associados à agroecologia hoje são, na verdade, conhecimentos ancestrais, de povos indígenas e africanos.

Hoje, o Sítio Ágatha é reconhecido pela comunidade como um centro agroecológico, feminista e de resistência negra, que atua na defesa da igualdade e da participação política e na obstrução da reconcentração fundiária.

Após a visita, a coordenadora do PACS destacou que “o Sítio Ágatha, além de ser um espaço de agroecologia e de conquista territorial, é um espaço acionado para o cuidado integral das pessoas”.

“Cada parte do sítio remete a cuidado, desde a maneira como as frutas são catadas até os presentes que a gente ganha a cada conversa: sementes de proteção, ervas, obras de arte. Ao longo do passeio pelo sítio, a gente vai ganhando da Luiza elementos que não só simbolizam o sítio, mas que tem também um lugar de proteção”, conta Aline.

“É muito impressionante! Além de ser um símbolo de conquista popular e defesa do território, para mim, o Sítio Ágatha é um retrato da força das mulheres e do papel fundamental e principal que elas têm na disputa e na reconquista dos territórios”, diz Aline.

Para ela, “a Luiza traz, na presença dela, tão doce, marcas e memórias de uma luta tão dura pelo território, mas que não embruteceram ela. Ela consegue transformar essa luta num encanto que é capaz de reencantar o concreto do mundo. Perto da Luiza, existe esperança de um mundo melhor, ali no Sítio Ágatha isso acontece”.

TPM – Todas Para o Mar

No dia 28 de março, a coordenadora do PACS visitou a ONG TPM – Todas Para o Mar, organização feminista e antirracista que está baseada na baía de Maracaípe, em Ipojuca (PE). Idealizada pela ex-surfista profissional Nuala Costa, a ONG tem como missão transformar a realidade social local e empoderar mulheres negras e seus filhos por meio da democratização do surf e de práticas socioeducativas e culturais que valorizam a diversidade e a inclusão.

Neste dia, estava acontecendo um evento do projeto Inclua Surf, criado pela TPM em 2016. A iniciativa tem o objetivo de apoiar a comunidade no enfrentamento ao racismo estrutural, rompendo com um sistema que invisibiliza crianças negras e especialmente atletas negras e de baixa renda. Nos últimos 10 anos, já foram realizadas diversas ações no âmbito do projeto, incluindo mutirões de limpeza das praias da região e oficinas de surfe, de manutenção das pranchas, de produção cinematográfica e de outros temas.

O projeto mobiliza dezenas de crianças da comunidade. A coordenadora do PACS, Aline Lima, conta que quando chegou à casa de Nuala, duas horas antes das atividades do dia começarem, já havia 3 crianças esperando a oficina de surfe, enquanto Nuala preparava 10 quilos de cuscuz para o almoço. Quando o relógio marcou 10h e já havia mais de 30 crianças esperando, com as pranchas embaixo do braço, a criançada toda correu para o mar. Depois da oficina e do almoço, houve uma tarde de cuidado para as meninas.

“Foi algo muito emocionante de ver e mostra como a Nuala consegue ser uma grande defensora e articuladora daquele território”, lembra Aline.

Dias antes da visita do PACS à TPM, Nuala havia sido atacada por um vereador da cidade, em uma audiência pública, na qual se posicionou de forma crítica à instalação de um megaempreendimento imobiliário na praia de Maracaípe, questionando seu impacto à comunidade e ao meio ambiente.

Para a coordenadora do PACS, “ver essa grande liderança, que é guardiã do seu território e compõe a Rede Nacional de Guardiãs, sendo ameaçada por um parlamentar, é muito simbólico – mas também é muito simbólico o lado em que a gente está, que é o das resistências territoriais”.

Aline lembra que “foi muito bonito caminhar pela comunidade e ver o apoio que a Nuala tem. Os jangadeiros nos paravam e falavam ‘a gente está com você’ ou ‘você falou muito bem’”.

Nessas visitas, o PACS reafirma seu compromisso histórico com o fortalecimento de iniciativas populares que constroem alternativas concretas ao modelo dominante de desenvolvimento. Experiências como as do Sítio Ágatha e da ONG TPM mostram a potência da autogestão e do protagonismo das mulheres negras na defesa não só dos seus territórios, mas também da vida.